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Pretinhas Leitoras
Pretinhas Leitoras une literatura, afeto e mídia para reinventar o futuro
Divulgação / Porvir
Elen Ferreira sempre foi educadora, mas foi quando a sua filha Helena, então com sete anos, perguntou o que as crianças fazem durante os tiroteios no Morro da Providência, que ela entendeu que precisava ensinar de outro jeito. Das conversas com as pequenas Helena e Eduarda, sua irmã gêmea, nasceu o Pretinhas Leitoras, um projeto que transformou a vida da mãe, das filhas e de centenas de crianças e adolescentes, ao unir literatura, afeto e educação midiática para resistir e reinventar o futuro. No coração do território, que também é conhecido como Pequena África, as Pretinhas Leitoras viraram canal, livro, biblioteca e escola.
A iniciativa surgiu em 2005, em meio ao cotidiano de uma comunidade marcada por ausências: sem escola, sem creche, sem posto de saúde e sem teatro. “A Helena começou a me questionar o que fariam as crianças naquele momento”, relembra Elen, pedagoga, gestora cultural e CEO no Instituto de Educomunicação Pretinhas Leitoras. "Ela não queria combater a violência com mais violência, mas promover o amor e o afeto para defender o bem-viver."
A inquietação da Helena incluía um desejo que surpreendeu a mãe: “ser famosa no YouTube”. Como pedagoga, Elen viu ali uma oportunidade de transformar um desejo em uma ação educativa. “Minha pergunta foi: ‘A gente vai contar para conformar ou para formar uma outra possibilidade?’ E a Helena respondeu: ‘Eu acho que é para formar uma outra coisa.’”
Durante três anos, mãe e filhas pensaram em como estruturar o projeto até lançar a primeira roda de conversa, que aconteceu em parceria com o coletivo que viria a se tornar o Instituto Entre o Céu e a Favela, liderado por Cintia Santana. No dia 12 de outubro de 2018, o canal Pretinhas Leitoras foi oficialmente lançado com crianças produzindo contos e compartilhando suas vivências. “A escola dizia que eles não queriam escrever. Mas ali estavam lendo, falando, escrevendo. O que estava acontecendo?”, questiona Elen, que também é mãe de Elisa, a caçula.
Da Providência para o mundo digital
O canal se tornou um espaço de diálogo entre o presencial e o digital. Helena e Eduarda passaram a gravar vídeos, contar histórias e promover rodas de conversa com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. “Nosso trabalho não vem da pandemia, como muitos pensam. Ele é anterior, já dialogando com as mídias e tecnologias de comunicação”, explica Elen, que enquanto criava o projeto também precisou se adaptar às novas ferramentas digitais, que não conhecia. “Elas começaram a me ensinar e me letrar nesse espaço.”
A preocupação da mãe com a proteção da imagem das filhas na internet levou à criação uma rede de apoio, que foi envolvendo coletivos negros, movimentos sociais e grupos universitários antirracistas.
Em 2021, elas publicaram o livro "Fa-vê-las”, uma coletânea de histórias e interpretações de vida escritas por 100 crianças de cinco comunidades do Rio de Janeiro. A obra foi feita em parceria entre o canal do YouTube Pretinhas Leitoras e a ONG Entre o Céu e a Favela, com a orientação da pedagoga Fabíola Rodan, e se tornou um marco na trajetória das Pretinhas Leitoras.
Da televisão à biblioteca comunitária
O reconhecimento do projeto levou à criação de um quadro dentro do programa Encontro, da Rede Globo, chamado Encontro com as Letrinhas. Durante quatro anos, Eduarda e Helena levaram suas rodas de conversa para milhões de lares brasileiros. “Eram Eduarda e Helena como as duas apresentadoras negras falando sobre literatura num horário de uma grade matinal, na maior rede televisiva da América Latina, um impacto de 12 milhões de pessoas”, lembra Elen.
A presença de autores como Sônia Rosa, Sandy de Oliveira, Otávio Júnior e Lázaro Ramos fortaleceu o diálogo entre literatura e identidade. Assim, o projeto também se tornou uma ferramenta prática para a implementação da Lei 10.639, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Com a chegada das meninas à adolescência elas começaram a sentir que deveriam fazer outras coisas e dar um novo rumo ao projeto. Surgiu então a ideia de criar uma biblioteca comunitária, um espaço físico que reunisse os escritos das crianças e formasse novos adolescentes para ocupar o lugar das Pretinhas Leitoras. A proposta foi realizada em parceria com a Associação Cultural Lanchonete Lanchonete, com apoio financeiro de uma emenda parlamentar da deputada Jandira Feghali.
A formação foi intensa e adaptada à linguagem dos jovens, com encontros no formato TikTok, oficinas de escrita criativa, contação de histórias e rodas de conversa intergeracionais. O resultado foi a criação da Biblioteca Erê, construída pelos próprios adolescentes. “Foi assim que eu percebi alunos que não gostavam de ler, lendo, carregando os livros. E olhando os livros falavam: ‘Nossa, isso aqui é legal’”, conta Elen.
A biblioteca é um projeto de educação plena e bem-viver, focado na cultura afro-brasileira e voltado para crianças e adolescentes, na Gamboa, dentro da área histórica da Pequena África. A Erê faz parte da plataforma ÈKÓOLA e é um espaço que busca empoderar e dar protagonismo à juventude, a partir de atividades como rodas de leitura, oficinas de escrita criativa e encontros com autores.
A escola por vir e a disputa de narrativas
Faltava a escola para completar a iniciativa, e ela chegou. A pedagoga Elen se inspirou em Paulo Freire para pensar que um projeto se consolida como uma prática de denúncia e anúncio. Denúncia das violências e apagamentos históricos e anúncio de novas possibilidades de existência, educação e futuro, conta. “Estar em contato com essas pessoas e suas ideias, possibilitando um espaço de troca seguro e saudável, é uma das coisas mais incríveis que a gente tem”, afirma Elen.
Assim nasceu a Escola Por Vir, iniciativa da Lanchonete Lanchonete, um espaço educativo em constante construção que funciona gratuitamente no contraturno escolar. O programa oferece oficinas regulares de capoeira, circo, percussão, kickboxing, artes plásticas, audiovisual, informática e outras atividades ministradas por artistas, educadores populares, agentes locais e de comunidades do Rio de Janeiro.
“Todo dia essa escola por vir, todo dia essa escola que um dia virá a ser, vai vir a ser, vai estar, vai chegar nesse mundo, e quem está construindo ela somos nós”, diz Thelma Vilas Boas, da Lanchonete Lanchonete, uma das parceiras das Pretinhas Leitoras no território.
Na disciplina Biblioteca, as crianças são incentivadas a pensar criticamente sobre o cotidiano. As gêmeas, Emily e Sofia, de 9 anos, propuseram discutir o amor e o desamor a partir da experiência de crianças com violência doméstica. “Fizemos a leitura de "Sejamos todos feministas", da Chimamanda Ngozi Adichie, e vieram todos os questionamentos do mundo”, conta Elen.
Memória, resistência e futuro
O projeto hoje realiza palestras, formações e ações concretas em espaços físicos e nas redes sociais. “A Helena fala da necessidade de aprender a esperar. Essa dinâmica do algoritmo pensada pelo mercado consome muito quem está no seio da cultura e criando”, reflete Elen.
A história das Pretinhas Leitoras é também a história de Elen, mãe solo, pedagoga, mulher negra, que construiu com suas filhas e sua rede um projeto pautado no mulherismo africano, na educação popular e na literatura como meio de transformação. “Eu adoro ser pedagoga, adoro o meu trabalho, e o fim não é a literatura, o meio é a literatura. Poderia ser outro, a dança, a capoeira, como são os meios que a Lanchonete Lanchonete hoje disponibiliza na escola Por Vir.”
Nesta fase de adolescência das meninas e de certa forma do projeto, Elen reflete sobre a grande defasagem que existe em políticas voltadas para o acolhimento dessa faixa de idade, muitas vezes vista como mão de obra barata, jovem e com ofertas sempre voltadas para cursos técnicos profissionalizantes, que vão exigir muito esforço físico e limitam a mobilidade social. “É uma política ainda do governo Capanema, do governo Getúlio Vargas. Temos na educação uma série de atrasos significativos que protegem a elite e dificultam o acesso das nossas classes sociais menos favorecidas a uma educação ampla. E eu sei que começar a provocar essa discussão na infância e na adolescência pode ser um caminho significativo para que a gente também possa disputar esses espaços", pensa Elen.
A luta por moradia, saúde mental, educação e memória é o horizonte. “Enquanto existir memória, tem muita história para contar”, diz. E essa história continua sendo escrita, compartilhada e vivida por quem acredita que a educação é, acima de tudo, um ato de amor e resistência. “O maior legado que a nossa população ancestral nos deixou é o legado de viver, porque viver ainda nos é um direito caríssimo e que é o tempo todo atravessado por políticas de genocídio no nosso país. Esse trabalho, ele então denuncia um lugar, mas ao mesmo tempo ele anuncia uma outra possibilidade", vislumbra.
Eduarda e Helena, agora com 16 anos, continuam atuando no projeto, participando de bienais, feiras literárias e eventos em diversos estados. Helena estuda na Fiocruz, encantada pela investigação forense; Eduarda atua como atriz e educadora. Ambas inspiram outras crianças e adolescentes. “Quando veem Eduarda e Helena dizem: ‘Uau, se elas conseguem, a gente também consegue’.” Logo mais elas serão adultas e já com um legado enorme.
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