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Pesquisa se transforma em ação para combater fake news nas escolas
Divulgação / Porvir
A pesquisadora Taís Seibt estava concluindo seu doutorado sobre checagem de notícias quando sentiu a necessidade de transformar seus estudos em ação para combater o avanço da desinformação. Em 2019, junto com a professora Marília Gehrke, que ainda cursava o doutorado, elas criaram a iniciativa Afonte Jornalismo de Dados, com a ideia de formar cidadãos críticos e unir educação midiática, dados e tecnologia para apoiar professores e estudantes na compreensão do mundo das notícias falsas na esfera digital.
“Meu doutorado foi sobre checagem de fatos. Fiz a pesquisa entre 2015 e 2018, quando o tema ainda não era tão discutido. A tese acabou ganhando menção honrosa no Prêmio Capes e despertou o interesse de colegas da universidade e do mercado”, conta Taís, que é uma das pesquisadoras referência no Brasil nos estudos de checagem de fatos, também conhecidos como fact-checking.
Taís ainda não tinha entrado na docência, mas sentia a necessidade de criar um espaço formal para desenvolver projetos educativos sobre desinformação. Foi assim que ela e Marília começaram a estruturar a Afonte, como um ponto de encontro entre pesquisa acadêmica e práticas educativas. “Precisávamos de um CNPJ, uma estrutura formal para trabalhar. Era tudo muito colaborativo e voluntário”, lembra.
Desde então, a Afonte tem se consolidado como um guarda-chuva de iniciativas voltadas à educação midiática, com foco em temas como checagem de fatos, vida digital, plataformas e dados. Um dos principais projetos é o “Postar ou Não”, um repositório de conteúdos educativos que inclui e-book, site interativo, podcasts e sugestões de atividades para uso em sala de aula.
“O ‘Postar ou Não’ foi pensado como uma ferramenta para a educação, que está disponível em PDF e no site, com atividades que podem ser adaptadas por professores", explica Taís. O conteúdo já tem alguns anos, mas segue atual, porque trata da história e do contexto da desinformação, conta Taís. O projeto teve apoio do Instituto Goethe, de Porto Alegre, e foi distribuído em bibliotecas públicas de diversos estados brasileiros, para que possa ser utilizado como referência em atividades educativas.
A linguagem visual do material foi pensada para dialogar com o público jovem. “Tem um apelo visual que facilita a apropriação pelas escolas”, destaca Taís. Foi assim que a atuação da Afonte se expandiu para além do ambiente universitário, alcançando escolas e professores do ensino básico em diferentes regiões do país.
Uma plataforma de apoio e inspiração para educadores
Outro momento importante na história de Afonte foi o projeto Nuvem (Núcleo Universitário de Educação Midiática) desenvolvido na Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, onde Taís é professora, com apoio de um edital do governo da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos. A iniciativa promoveu formações online para cerca de 200 professores da educação básica, que no final dos cursos desenvolviam projetos pedagógicos nos seus contextos escolares. O projeto também resultou em um e-book com propostas elaboradas pelos próprios participantes, que pode servir de inspiração para outros educadores.
Apesar de não atuar diretamente com metodologias específicas para o ensino básico, a Afonte se posiciona como uma plataforma de apoio e inspiração para educadores. “Não temos formação em pedagogia, então nunca nos propusemos a criar metodologias. Nosso papel é oferecer conteúdo e repertório para que os professores adaptem às suas realidades escolares”, explica.
Essa abordagem respeitosa e colaborativa tem se concretizado em oficinas e palestras frequentes em escolas, especialmente no ensino médio. “Já fiz várias oficinas em escolas aqui em Porto Alegre, tanto para professores quanto para alunos. A Marília também tem participado de ações como a oficina na Feira do Livro de Porto Alegre. E a Juliana (Coin, gestora de conteúdo do projeto) está sempre em alguma escola, convidada para falar sobre checagem e educação midiática”, conta Taís.
Dados e checagem para o combate à desinformação
A atuação da Afonte também tem se estendido à organização de eventos voltados para o jornalismo de dados e inovação cívica, fortalecendo esses temas e estimulando a construção de uma comunidade local de dados em Porto Alegre. . Como embaixadora da Open Knowledge Brasil, Taís lidera iniciativas como o Cerveja com Dados e o Open Data Day, que promovem o uso de dados abertos e o pensamento crítico em diferentes regiões do país. “Desde 2019, organizamos esses eventos em parceria com a Unisinos, unindo nossas frentes de trabalho acadêmico e comunitário”, afirma. A iniciativa também criou a Maratona de Dados, em parceria com o curso de jornalismo da Unisinos, para mobilizar estudantes e especialistas na análise de cenários para identificar problemas e buscar soluções.
Um dos desdobramentos mais significativos do trabalho da Afonte foi o surgimento do projeto Verifica RS, criado durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. A iniciativa nasceu da mobilização espontânea de voluntários, liderada por Juliana Coin. “Sentimos a necessidade de atuar contra a desinformação naquele momento. Não bastasse a tragédia das enchentes, ainda teve essa tragédia paralela, de uma avalanche de informações falsas, como golpes de Pix e alertas de evacuação falsos”, relembra Taís.
No meio da tragédia, o trabalho da organização mostrou a importância de ter informações corretas. Naquele momento se formou uma rede de voluntários, e as pesquisadoras usaram a estrutura da Afonte para distribuir checagens das notícias nas redes sociais e canais disponíveis. O Verifica RS acabou se tornando um projeto autônomo também com foco em educação. E assim, o projeto que nasceu da pesquisa, mostrou na realidade a importância do combate à desinformação.
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