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Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis
Mostra aproxima crianças do cinema nacional e combate preconceitos
Divulgação / Porvir
O fascínio pelo cinema nasceu na infância e no escuro de uma sala do Rio de Janeiro. Luiza Lins tinha quase 11 anos quando assistiu ao filme “As Aventuras do Tio Maneco”, estrelado pelo ator Flávio Migliaccio. A experiência foi tão marcante que se transformou em uma inspiração e, nos últimos 24 anos, tem guiado seu trabalho à frente da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que se tornou uma das mais importantes do Brasil. “Aquele filme me impactou profundamente. Ficou guardado na minha memória afetiva como uma das experiências mais bonitas da infância”, conta.
Nascida em Santa Catarina, Luiza teve acesso privilegiado à arte desde os sete anos, quando se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, a pequena frequentava teatros, shows musicais e cinemas de rua, onde os protagonistas eram referências nacionais como Maria Clara Machado, Vinicius de Moraes, Toquinho e Chico Buarque, com seu Saltimbancos. “Cresci cercada de uma cultura feita para crianças”, relembra
Mas quando voltou para Santa Catarina, já adulta e grávida da filha, percebeu um vazio de atividades culturais para crianças. “Isso me chocou. Como criar minha filha sem acesso à arte, sendo eu uma criança que teve tanto contato com ela?”
Em 2001, ao receber o convite de uma amiga para organizar uma mostra de cinema infantil, a memória do Tio Maneco voltou como uma faísca, assim como aconteceu com o crítico gastronômico do filme Ratatouille, que volta à infância quando come o prato do chef Remy, compara.
Assim nasceu, em 2002, a 1ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis com o propósito democratizar o acesso ao cinema e formar plateias e cidadãos desde a infância. Nos 24 anos do projeto, já passaram pelas telas da mostra nomes como Ziraldo, Ana Maria Machado, Cao Hamburguer e Carla Camurati, e no Palquinho, dedicado a shows, grupos e artistas como Palavra Cantada, Fernanda Takai, Pequeno Cidadão (liderado por Arnaldo Antunes) e Carlinhos Brown Kids.
Durante a Mostra, são promovidas experiências artísticas afetivas para o público infantil, que incluem oficinas de audiovisual e pipoca gratuita. A iniciativa também busca fundos e apoios para levar o evento especialmente às crianças que não têm o acesso, com sessões para escolas públicas, transporte custeado pela organização, formação para professores e atividades para famílias. “Queríamos que todos se sentissem confortáveis em ocupar os espaços culturais. Isso também é educação”, afirma.
O projeto foi evoluindo ao longo dessas mais de duas décadas. A primeira edição, em 2002, durou 17 dias, com três finais de semana incluídos que deixaram a equipe exausta. A deste ano foi de 8 dias, mas com um formato mais amplo para acolher diferentes públicos, como escolas durante a semana e famílias aos fins de semana, além de um fórum para professores discutirem o papel do cinema na educação.
Para ampliar o repertório dos professores em Santa Catarina, desde a primeira edição foi criado o Fórum de Cinema e Educação, que exibe filmes, debate e reflete sobre o uso do audiovisual nas escolas.
A Mostra também passou a atuar também como articuladora de políticas públicas para ampliar e melhorar a produção nacional voltada para crianças, que era escassa há duas décadas. Um marco foi o edital Curta Criança, lançado pelo Ministério da Cultura, que incentivou a produção de curtas infantis em todas as regiões do país. “Foi uma revolução. Os realizadores passaram a entender o que é produzir para crianças com qualidade”, afirma Luiza.
Combate ao preconceito e respeito aos direitos humanos
Hoje, a Mostra recebe mais de 300 filmes por edição e seleciona cerca de 120 para exibição. A curadoria é rigorosa, com atenção especial ao conteúdo. “A criança precisa ser nutrida com coisas positivas. Ela está aberta ao novo, diferente dos adultos, que muitas vezes têm preconceito com o cinema brasileiro”, diz.
O combate a esse preconceito, aliás, é um dos pilares que a organização tem construído junto aos professores, que antes davam pouco valor ao cinema nacional por achar que o som e as imagens eram ruins. “Isso mudou. Hoje os educadores que participam da Mostra amam o projeto. Sabem que mostramos histórias brasileiras bonitas, diversas e relevantes”, diz Luiza.
Para contribuir com essa mudança de perspectiva, a Mostra oferece oficinas e capacitações para ajudar os educadores a entenderem o audiovisual como linguagem e ferramenta pedagógica. “O mundo hoje é imagem. O audiovisual é a linguagem do nosso tempo. Isso é educação midiática”.
A Mostra também atua com temas de inclusão e direitos humanos, acessibilidade e protagonismo de crianças negras e indígenas. “Como uma criança pode sonhar com um mundo diferente se ela não sabe que esse mundo existe?”, questiona Luiza.
Impacto reconhecido
O impacto da iniciativa é reconhecido pela Rede Municipal de Educação de Florianópolis, que atua como parceira desde 2002. “Mais do que uma mostra, é um espaço de conhecimento e expressão, que estimula o pensamento crítico, amplia repertórios e reafirma o compromisso com a sensibilidade, a inclusão e a transformação social por meio da cultura”, afirma Waleska de Franceschi, gerente de gestão educacional da prefeitura, que acompanha o projeto desde a primeira edição.
A Mostra também impactou a história de Maria Rosa Schultz, filha da diretora de arte Vanessa Schultz, que frequenta o evento desde os dois anos de idade. Aos sete anos, Maria começou a participar do Bloguinho da Mostra, entrevistando público e equipes dos filmes. “Tinha meu próprio crachá, circulava pelos espaços, fazia perguntas. Era mágico”, lembra. Aos 23 anos, Maria Rosa está concluindo a faculdade de Cinema e Audiovisual e é parte da equipe de comunicação, produzindo vídeos e teasers do evento. “Além de ocupar um lugar afetivo na minha vida, a Mostra moldou minha formação profissional”.
Depois de 24 edições realizadas, a Mostra atendeu mais de um milhão de crianças desde a sua fundação e mais de 40 mil no último ano, em dados que são auditados em prestações de contas aos parceiros. Mas Luiza percebe que é necessário dar um salto para que o projeto não dependa de pessoas, mas que se torne uma política pública. A diretora da Mostra lembra da Lei 13.006, que prevê a obrigatoriedade da exibição de filmes nacionais nas escolas, e que está estagnada. “Essa lei pode mudar a cara do Brasil. A criança brasileira não conhece a própria cultura. O cinema pode conectar essas infâncias. É necessário formar plateias para o cinema”, recomenda.
Com a 25ª edição a caminho, a Mostra segue firme nesse propósito e pensa em como seguir, ajudando a fortalecer essas políticas públicas, formando plateias e garantindo que esse legado continue. Um dos projetos é nacionalizar a mostra, levando o projeto para outros cantos do país, mas aproveitando também o potencial do streaming. Hoje em parceria com o Itaú, a Mostra disponibiliza 20 filmes na plataforma Itaú Cultural Play, mas a iniciativa já fez a curadoria de 1500 filmes que foram exibidos ao longo desses anos. “Construímos um caminho incrível e precisamos garantir que esse legado continue, porque o cinema é uma linguagem poderosa, e as crianças merecem fazer parte dela”.
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