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COAR Notícias
Manual contra Fake News salva vidas por meio da informação
Divulgação / Porvir
Em maio de 2014, a jovem jornalista piauiense Marta Alencar foi atravessada por uma barbárie que aconteceu no Guarujá, no litoral de São Paulo, muito longe da sua casa. A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, vítima de uma notícia falsa, foi brutalmente linchada por moradores do bairro Morrinhos IV. Mãe de duas meninas e dona de casa, Fabiane foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças, após um retrato falado circular nas redes sociais. A imagem, feita dois anos antes, não tinha qualquer relação com ela. A tragédia, motivada por uma fake news, causou comoção nacional e tocou o destino de Marta.
Jornalista e doutoranda da Unisinos, Marta Alencar vem se dedicando desde então a estudar e a ensinar como fazer uma leitura crítica das notícias. “Toda vez que eu falo da Fabiane, eu fico toda arrepiada. Eu pensei: poderia ter sido a minha mãe”, relembra a jornalista, que em 2019 criou o projeto COAR Notícias, como uma forma de filtrar fake news, assim como ela já fazia com sua bebida favorita, o café. Anos depois, Marta entrevistou Yasmin, filha de Fabiane, e contou que o projeto COAR Notícias tinha sido criado em homenagem à mãe dela. “Ela ficou muito emocionada”, diz.
Uma agência para salvar vidas por meio da informação
A ideia de uma agência de checagem de notícias começou em 2019, quando ingressou no mestrado em Comunicação na Universidade Federal do Piauí. Desde o primeiro dia de aula, Marta se desafiou a salvar vidas por meio da informação. Nessa época, o fact-checking (checagem de fatos) ainda era um tema pouco explorado na academia e no nordeste. “Minha orientadora não conhecia o assunto. Foi quando vi um curso da Taís Seibt", lembra sobre uma de suas referências que se tornou amiga e colega de trabalho.
Em março de 2020, logo no começo da pandemia, Marta e a jornalista Ilriane Alves fundaram oficialmente a COAR Notícias. “A gente não sabia nem como criar um site. Pegamos um tutorial no YouTube e ficávamos até 5 horas da manhã trabalhando. Eu ainda fazia mestrado, era bolsista e dava aula”, lembra.
A COAR nasceu como a primeira iniciativa de fact-checking do Nordeste e, em apenas um mês, o site já acumulava mais de 20 mil acessos. A demanda era evidente. “Percebi que veículos como a Agência Lupa tentavam cobrir o Nordeste, mas não estavam conseguindo atingir a população daqui”, conta.
O impacto veio rápido. Seis meses após o lançamento, um caminhoneiro do Rio Grande do Sul enviou um áudio pelo WhatsApp: “Olha, eu quase caí na fake news da vacina, mas vi uma checagem de vocês. Não sei nem quem está à frente desse negócio, mas vocês salvaram minha vida.” Marta ouviu o áudio às 3 da manhã e chorou quando sentiu que, assim como tinha imaginado um dia, estava salvando pessoas.
Educação em meio a desertos de notícias
Nos últimos anos, a COAR ultrapassou os limites da checagem para se transformar em uma iniciativa educativa, especialmente em “desertos de notícias”, regiões com escassez de veículos jornalísticos. “A gente percebeu que nosso papel está mais ligado à educação. Em muitos municípios, as pessoas não sabem nem como acessar notícias, muito menos identificar se são falsas”, afirma Marta.
Foi nesse contexto que nasceu o Manual Arriégua, criado em apenas cinco dias, após uma inspiração espiritual enquanto escrevia a tese de doutorado. “Deus falou para mim: ‘Cria um manual com linguagem regional.’ Achei que ninguém ia querer, mas fiz.” O resultado surpreendeu. Professores e universidades começaram a enviar mensagens e fotos agradecendo e elogiando o projeto. Em poucos dias, o manual chegou a Brasília, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Instituições referência no jornalismo como a Abraji e o Instituto Vladimir Herzog recomendaram o material.
O reconhecimento institucional chegou em 2024, quando a ministra Cármen Lúcia recebeu um Manual Arriégua e pediu que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançasse uma campanha nacional contra fake news nas eleições, com cartilhas adaptadas com linguagem regional para diferentes regiões do país.
Mas o que mais emocionou a Marta foi o impacto nas escolas. “Minha mãe chorou com a foto da ministra, mas eu chorei com o vídeo de um professor e seus alunos dizendo: ‘O manual Arriégua é muito bom para a gente.’ Era isso que eu queria: chegar onde não tem jornalismo.” Os estudantes aprenderam sobre temas como deepfake (criação de conteúdos falsos com vídeos, áudios e imagens gerados por inteligência artificial) e desinformação, usando um material que falava a sua língua. “Isso é educação. Isso é salvar vidas.”
Uma história de persistência
Por trás da trajetória acadêmica de Marta e do impacto nacional da COAR, está a força de uma história familiar de persistência. Marta é filha de uma zeladora, analfabeta funcional, que não sabe interpretar textos nem fazer cálculos básicos. Mas mesmo sem entender o que é fake news, a mãe de Marta é uma das maiores divulgadoras do projeto. “Ela vai ao supermercado, fala com os vizinhos, com os colegas da Fundação Bradesco, onde trabalha, pedindo doações e explicando que a COAR é um projeto contra fake news. Foi também com a ajuda da mãe que ela conseguiu vender os primeiros manuais, batendo de porta em porta, arrecadando valores pequenos que, somados, viabilizaram a impressão e distribuição.
O propósito de Marta foi marcado pela luta da mãe que a escondia debaixo das carteiras da escola em que trabalhava, onde ela passava o dia. “Comíamos pão com manteiga e Nescau, porque não tínhamos dinheiro para o almoço nem para o jantar.” Agora, prestes a concluir o doutorado, Marta explicou para a mãe a importância desse título quando ela perguntou: ‘Minha filha, o que é doutorado?’. “Doutorado é igual à vida. Quando a gente cresce, a gente aprende as coisas da vida”, devolveu, emocionando a mãe.
Essa mesma sensibilidade atravessa o trabalho que Marta desenvolve na COAR. Ao lado da equipe, ela transforma temas complexos em conteúdos com linguagem simples e acessível, combatendo a desinformação de forma próxima do cotidiano. A missão que começou em casa, hoje alcança milhares de pessoas e, entre elas, muitas crianças.
Tudo começou quando a organização percebeu que professores universitários buscavam o manual, mas que o mesmo não acontecia com as escolas. Ao entrar em contato com professores da educação básica, a COAR encontrou um público que buscava exatamente esse tipo de material, com a linguagem do nordeste, para explicar para os alunos o que eram as fake news. “Eles perceberam que os alunos gostaram, porque às vezes esquecemos que dentro do ambiente escolar podemos falar com o nosso sotaque, com a nossa linguagem”, diz Marta, que percebeu uma receptividade enorme de professores e gestores.
Em agosto, a fundadora da COAR visitou a escola de Ensino Médio do CETI Landri Sales em São Pedro do Piauí e falou para uma turma do 3º ano sobre a importância dos manuais regionais, que já tinham chegado na escola um ano antes. São Pedro do Piauí, é um dos municípios brasileiros que são considerados “desertos de notícias” pelo Atlas da Notícia, do Instituto Projor de Desenvolvimento do Jornalismo.
É aí onde a COAR quer chegar. A agência já distribuiu mais de 4.000 manuais em escolas do Piauí, Maranhão, Sergipe e Paraíba graças a doações, mas Marta afirma que o projeto ainda precisa de recursos para chegar a mais pessoas. Ela comemora o reconhecimento do projeto dentro e fora do país, mas lamenta não ter conseguido apoio dentro do próprio estado.
O alcance da agência tem se tornado nacional, com manuais que atendem todas as regiões do país, em um processo de construção colaborativo que tem envolvido alunos e professores universitários interessados em apoiar a iniciativa. “Eles pediam para fazer com a gente.” Para Marta, o papel educativo do jornalista não é só dar a notícia ou explicar como ela funciona, é convocar as pessoas para fazerem parte desse processo. “Isso é educação”, diz a pesquisadora, que sabe que o jornalismo e a educação podem salvar vidas.
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