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Educom.Indígena
Educação midiática com identidade indígena preserva língua e histórias
Divulgação / Porvir
Uma escuta atenta às práticas comunicacionais de estudantes indígenas e a observação do uso cotidiano da tecnologia nas aldeias, especialmente dos celulares, foram as sementes de um projeto de extensão da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Em meio a diversidade desses povos, que mesmo sendo originários, são pouco valorizados no estado, surgiu o Educom.Indígena, que promove a troca de saberes entre estudantes indígenas e não-indígenas.
Coordenado pela professora doutora em comunicação Antonia Alves, o projeto de pesquisa tem transformado a relação entre tecnologia, educação e cultura entre esses estudantes, como uma proposta de educação midiática que respeita os tempos, os saberes e os territórios. “O nosso tempo não é o tempo deles”, afirma a professora, que é também docente do curso de Jornalismo da UNEMAT. A frase resume um dos principais aprendizados da equipe ao longo do processo: a necessidade de desconstruir lógicas acadêmicas e adaptar metodologias às realidades indígenas.
O Educom.Indígena começou em 2024, com o objetivo de promover o diálogo, a interação e a troca de saberes entre os estudantes indígenas e não indígenas de três faculdades da UNEMAT: o Curso de Jornalismo da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e da Linguagem (Facsal), e as licenciaturas em Pedagogia Intercultural da Faculdade Intercultural Indígena (Faindi) - que oferece cursos em Barra do Bugres, em Luciara e em Canarana -, e da Faculdade Multidisciplinar do Médio Araguaia (Famma), especializadas em formar professores para atender a educação básica em escolas indígenas.
No projeto interdisciplinar coordenado pela professora Antonia e outros colegas extensionistas desta universidade, os estudantes de Jornalismo são facilitadores das oficinas pedagógico-comunicacionais presenciais e virtuais, usando o celular como o principal elemento de informação, de comunicação e de produção audiovisual. Já os estudantes indígenas podem se tornar multiplicadores das oficinas nos seus territórios. Além do celular, a proposta também tem como pilares, a produção de podcast, como ferramenta de expressão e empoderamento, e a educomunicação socioambiental. “Escolhemos o podcast por ser mais leve e acessível, já que nem todas as aldeias têm internet de qualidade”, explica Antonia.
A ideia surgiu da observação do uso cotidiano da tecnologia nas aldeias, especialmente dos celulares, que já fazem parte da rotina dos estudantes indígenas, que registram vídeos, compartilham conteúdos nas redes sociais e atuam como comunicadores locais. “Há muitos indígenas que são influencers, comunicadores que mostram o dia a dia da aldeia, as festas, as lutas e as denúncias”, conta a professora.
A partir dessa realidade, o projeto estruturou oficinas de produção sonora, com foco na criação de podcasts sobre temas relevantes para os territórios. A primeira oficina, realizada em agosto de 2024, introduziu conceitos básicos de linguagem jornalística e roteiro. Mas uma dificuldade do projeto era o calendário acadêmico dos cursos interculturais, sempre concentrado nas férias, boas para descansar, mas curtas para desenvolver um projeto que perde seu ritmo frente a outras prioridades acadêmicas ao longo do ano.
Mesmo com esses longos lapsos, o projeto avançou. Em fevereiro de 2025, os estudantes retomaram os encontros presenciais e começaram a trabalhar com captação de sons nas aldeias, que incluíam desde o canto dos pássaros, ao barulho de crianças brincando, e conversas em línguas maternas. “A ideia é que eles se apropriem da técnica para gravar os anciãos, preservar a língua e contar suas histórias”, explica Antonia.
Além da produção sonora, o projeto também promove reflexões sobre o uso da tecnologia e seus impactos. Em uma das atividades, os estudantes foram convidados a observar o próprio uso do celular durante uma semana e entrevistar moradores da aldeia sobre acesso e hábitos digitais. A proposta gerou discussões sobre consumo, conectividade e sustentabilidade.
Tecnologia com criatividade e consciência
Segundo a professora Antônia, o projeto não promove apenas a produção de conteúdo, mas também estimula uma reflexão crítica sobre o uso da tecnologia. “Eles usavam o celular sem refletir sobre o uso. Então propusemos que observassem seus hábitos durante uma semana, desde o amanhecer até o momento de dormir”, relata. A atividade revelou padrões de uso intenso e pouco consciente, o que abriu espaço para discussões sobre consumo digital, privacidade e autonomia.
Outra proposta foi entrevistar moradores das aldeias sobre o uso do celular com perguntas como “quem tem acesso”, “para que utilizam”, “onde carregam o aparelho”. “Descobrimos que muitas casas já têm energia elétrica e até operadoras de internet. Isso muda completamente a dinâmica da comunicação nas aldeias”, explica a professora.
A partir dessas descobertas, o projeto passou a abordar também a educomunicação socioambiental, com foco na educação ambiental. Os estudantes foram convidados a investigar o destino de materiais como garrafas PET, muito comuns nas aldeias devido ao consumo de refrigerantes. “Não demos exemplos. Queríamos saber o que eles faziam com o lixo. E aí surgiu a reflexão: ‘Será que essa garrafa não vai parar no rio?’”, conta Antonia.
Seis estudantes indígenas da universidade, de seis povos diferentes, participaram da atividade. Eles documentaram práticas de reaproveitamento, como o uso de garrafas para armazenar sementes, água ou produtos de higiene. Em uma aldeia de Caiabi, o motor de uma máquina de lavar foi reaproveitado para transformar um ralador de mandioca manual em elétrico. “Essas soluções mostram como eles adaptam a tecnologia às suas necessidades, com criatividade e consciência”, destaca.
Desafios para promover o uso consciente da tecnologia
O projeto também enfrentou desafios com o conteúdo digital acessado pelos estudantes. “Infelizmente, há casos de crianças assistindo vídeos inadequados. Sem orientação, eles podem interpretar esses conteúdos como exemplos positivos”, alerta Antonia. A falta de preparo para lidar com o universo digital é uma preocupação constante, especialmente entre os mais jovens.
Outro ponto crítico é o impacto dos jogos digitais. “Eles ficam impacientes, viciados. Vi uma criança falando português fluentemente, resultado do tempo excessivo em frente ao celular. Isso pode comprometer a preservação da língua materna”, observa.
Diante desses desafios, o Educom.indígena oferece um caminho já testado em campo para promover o uso consciente da tecnologia com jovens nos territórios. A proposta não é apenas ensinar a produzir podcasts, mas formar professores indígenas capazes de mediar o uso das mídias com seus alunos, valorizando a cultura local e fortalecendo a identidade.
“Eles são professores. Precisam se apropriar da tecnologia para trabalhar com os alunos, gravar os anciãos, preservar a língua. É uma ferramenta de empoderamento cidadão”, inspira Antonia a partir da sua experiência pedagógica.
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