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Adolescentes editam jornalista premiado na Amazônia
Divulgação / Porvir
“Como é que esse cara repete tanto essa palavra?”. Essa era a pergunta que fazia um estudante da Escola Pública Antônio Lemos, em Santa Izabel, no interior do estado do Pará, para surpresa da sua professora Marcela Castro. O autor do texto em questão era Daniel Nardin, jornalista premiado e fundador do Amazônia Vox, um portal especializado em fazer jornalismo desde a Amazônia, escrito por repórteres do território.
A ideia foi do próprio Daniel que, há cerca de dois anos, procurou a professora Marcela com uma ideia que parecia inusitada: que seus alunos, adolescentes de 14 a 16 anos, revisassem os textos que ele publicaria no site. O convite chegou em um momento difícil, quando Marcela cuidava do filho autista em meio a uma crise, mas ela aceitou sem hesitar: “Claro que eu vou”, respondeu, por telefone.
Sem laboratório de informática na escola, Marcela imprimia na sua casa os textos enviados por Daniel, distribuía aos alunos e recolhia as revisões feitas à mão. Depois, fotografava as anotações ou reunia alguns áudios com as sugestões, e as enviava de volta ao jornalista.
A atividade entre os alunos acontece a cada nova reportagem especial publicada. O texto é enviado à escola para ser trabalhado em sala de aula. Os alunos leem e, na sequência, debatem e fazem ajustes à mão, nas folhas impressas na casa da professora Marcela. As anotações são pontuais, sem mexer no tom jornalístico da matéria. Durante esse processo, os 35 alunos da sala se dividem em grupo e fazem propostas para melhorar a fluência do texto, observam termos técnicos e sugerem sinônimos para aproximar o texto de um público mais jovem. As sugestões são enviadas à equipe de edição do Amazônia Vox que avalia a pertinência das recomendações antes da matéria ir ao ar.
O que parecia uma atividade pontual se transformou em um processo contínuo de troca e aprendizado. “No começo, eu não sabia muito bem o que fazer, porque era algo novo. Não conseguia imaginar como um texto de um jornalista tão experiente poderia ser melhorado por adolescentes”, conta Marcela. Mas os alunos surpreenderam: apontaram repetições, sugeriram sinônimos, questionaram a linguagem técnica e, principalmente, trouxeram um olhar sensível sobre a realidade da Amazônia.
“Eles diziam: ‘Às vezes, a pessoa é ribeirinha, mora num lugar em que não tem internet. Como é que ela vai pesquisar?’”, lembra a professora. “É outro olhar completamente diferente”, destaca.
O projeto acompanhou esse grupo de estudantes ao longo do ensino médio, desde 2022, quando entraram no primeiro ano, até o terceiro ano deles. A partir de 2026, uma nova turma do primeiro ano vai seguir o projeto com a professora Marcela.
Educação midiática na prática
Nesse caminho, o projeto se tornou uma potente ferramenta de educação midiática, ao colocar os estudantes no papel de leitores críticos e coautores de conteúdos jornalísticos. “Jornalistas, via de regra, escrevem para outros jornalistas ou para o (prêmio) Pulitzer. Mas muitas vezes esquecem que ampliar o público é um desafio constante”, afirma Marcela. “Esse projeto mostra que é possível, e necessário, escrever para todos.”
Daniel Nardin concorda com Marcela. “Somos um veículo novo e sabemos do desafio que é conquistar audiência. Às vezes você faz um conteúdo maravilhoso, bem apurado, com todo cuidado e responsabilidade, mas ainda assim depende das grandes plataformas para que esse conteúdo chegue até as pessoas”, explica. Foi essa percepção que o levou a buscar formas de aproximar o jornalismo das salas de aula.
Inspirado por uma reportagem sobre pesquisadoras da USP que revisavam artigos científicos com crianças de 8 a 15 anos, Daniel teve um insight: “Por que não revisar matérias jornalísticas com estudantes antes da publicação?” A ideia era simples, mas poderosa: tornar o jornalismo mais acessível, sem abrir mão da qualidade, e ainda formar novos leitores críticos. “O texto precisa ser simples, sem ser simplista. Quando os jovens participam da produção da notícia, eles criam um sentimento de pertencimento. Eles não só leem, mas compartilham, se engajam, entendem a relevância daquilo que ajudaram a construir.”
A iniciativa também promoveu uma mudança na vida dos alunos, que passaram a se ver como protagonistas no processo de produção de informação. “Eles não esperavam que o Daniel fosse levar em consideração o que diziam. Nem eu esperava. Mas ele não só mexia nos textos como mostrava o que foi alterado e ainda publicava as matérias com o rostinho deles”, lembra Marcela emocionada.
Reconhecimento internacional
O sucesso da experiência foi tão grande, que o projeto ultrapassou os muros da escola, quando uma das reportagens revisadas pelos alunos, Desafios e soluções para melhorar a cobertura pré-natal em comunidades ribeirinhas na Amazônia, foi premiada no Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde. Daniel pediu, e Marcela, que hoje é também supervisora de projetos de educação midiática de Amazônia Vox, correu para tirar seu visto e viajar para Miami em representação do projeto.
No evento, Marcela conheceu Laurice Calise, CEO da Roche no Brasil, que se encantou com a história. Meses depois, Laurice visitou Belém e levou os alunos para almoçar na Casa do Saulo, um dos melhores restaurantes da cidade. “Alguns deles só comem direitinho quando vão para a escola. Estar ali foi algo muito especial”, conta a professora. Mas o maior prêmio foram os 30 computadores que a multinacional doou para a criação do laboratório da escola. “Foi mais do que um prêmio. Foi um investimento no futuro”, diz Marcela, que mesmo com os computadores vai seguir imprimindo os textos, porque acha que a edição no papel tem trazido ótimos resultados no aprendizado.
O projeto também virou um estudo de caso no portal da Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, que escolheu a iniciativa como um modelo para melhorar as competências de literacia midiática e informacional na sala de aula, e incentivar estudantes a pensar criticamente.
Quem conhece de castanha
Um desses momentos de aprendizado mais marcantes aconteceu quando os alunos revisaram uma matéria de Daniel sobre os impactos da seca de 2024 na qualidade e no tamanho das castanhas-do-pará produzidas por extrativistas do Amapá. Os alunos editaram um texto que tinha a ver com a vida deles, muitos deles trabalham com a colheita do açaí e da castanha. “Eles plantam, colhem, vivem aquilo que estava escrito”, conta Marcela emocionada. Os alunos gravaram vídeos para contar para o Daniel como se plantava castanha, as diferenças de tamanho e de sabor dependendo do tipo de área de cultivo. “Eu recebi uma aula de preservação ambiental desses meninos”, conta Marcela sobre esse dia em que uma simples revisão se transformou em uma aula de educação ambiental e valorização cultural.
Os estudantes gravaram vídeos explicando como se planta a castanha, as diferenças entre as variedades cultivadas em áreas alagadas e em regiões de terra firme e os impactos das mudanças climáticas na produção. “Foi uma aula de preservação ambiental que eu recebi daqueles meninos”, diz Marcela.
“Eles não falam apenas sobre a Amazônia. Falam sobre as pessoas da Amazônia, sobre o modo de vida daqui, da floresta à cidade”, diz a professora. “Floresta em pé só existe com pessoas de pé. E o Amazônia Vox faz com que os meus meninos, quase crianças, se vejam como os adultos do futuro.”
Educação que engaja
Daniel também destaca o impacto do projeto na formação crítica dos estudantes. “Eles passam a entender melhor os temas socioambientais, a diferença entre o jornalismo profissional e o que circula nas redes sociais. Desenvolvem uma visão mais crítica sobre a informação”, explica. Para ele, o projeto funciona como uma vacina contra a desinformação. “O fact-checking é o remédio, mas aqui a gente vacina os alunos com conhecimento. Eles passam a desconfiar de informações falsas, porque já têm uma base sólida sobre o assunto.”
O projeto também traz benefícios concretos para o Amazônia Vox que mantém o projeto junto com a professora Marcela, agora especialista de educação midiática do portal. “O conteúdo melhora tecnicamente, porque os alunos apontam trechos truncados, sugerem imagens, mapas. E quando publicamos com os créditos deles, temos um pico de audiência hiperlocal em Santa Isabel que jamais conseguiríamos sozinhos.” O engajamento nas redes sociais também aumentou. “Eles compartilham, comentam, se sentem parte daquilo. É uma audiência que virou comunidade.”
A conexão com o projeto e com os adolescentes também passa pela história pessoal de Daniel. Ele cresceu em Barcarena (PA) e, ainda adolescente, arrendou com o pai uma banca de revistas. “Foi ali, entre bancas e páginas impressas, que nasceu minha paixão pelo jornalismo.” Aos 14 anos, participou de uma visita à redação do jornal O Liberal, em Belém, e teve certeza de que queria ser jornalista. Anos depois, já como diretor de jornalismo do mesmo grupo, passou a receber estudantes em visitas guiadas. “Um dia eu fui aquele aluno. Sempre quis retribuir isso de alguma forma.”
Essa vontade de retribuir o levou a criar iniciativas discretas de incentivo à leitura e à escrita em escolas públicas. “Fazia concursos de redação e doava notebooks ou celulares para os vencedores, sem divulgar meu nome. Era uma forma de agradecer pelas oportunidades que a vida me deu.” Com o Amazônia Vox, Daniel encontrou uma maneira de institucionalizar esse desejo: “Graças a Deus, tivemos a sorte, ou a bênção, de encontrar a Marcela.”
Para ambos, o projeto é replicável e de baixo custo. “Você só precisa imprimir os textos, conversar com os alunos sobre o tema e fazer a ponte com o jornalista”, explica Marcela. “Quando tivermos os computadores, vamos usar o Google Docs, mas ainda quero manter o papel. O toque no texto ajuda na concentração e na compreensão.”
A professora também destaca a importância do reconhecimento. “O aluno da escola pública não se sente importante. Imagina se é um aluno do interior do Pará, de uma comunidade ribeirinha ou quilombola. De repente, ele vê que a escola dele está participando. Isso muda tudo.”
Daniel reforça: “Acredito que esse é um modelo que pode ser reproduzido em outros veículos. É uma forma de colocar o jornalismo em espaços onde ele dificilmente chega. E acredito que o caminho é esse: uma colaboração mais próxima entre professores e jornalistas. Temos missões muito parecidas e precisamos nos aproximar mais.”
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