Entrevista do presidente Lula ao SBT News
Jornalista Marina Demori: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seja muito bem-vindo ao SBT News, é um prazer recebê-lo aqui na nossa estreia no jornal do SBT News para essa entrevista, seja bem-vindo.
Presidente Lula: O prazer é meu, Marina, de estar aqui com você no mais novo canal de notícias e informações que surge no Brasil.
Jornalista Marina Demori: Presidente, a gente estreia também num marco importante que é o fim do terceiro ano do seu terceiro mandato, queria que o senhor fizesse uma avaliação, mas que dissesse qual a marca que o senhor deixa agora e o que o senhor quer deixar de marca no final do ano que vem, quando vierem novas eleições.
Presidente Lula: Olha, tem muita marca, eu queria dizer para você que a mais sagrada de toda ela foi a isenção de Imposto de Renda para as pessoas que ganham até 5 mil no Brasil e também para as pessoas que ganham até 7 mil 300 reais, que vai ter um desconto também e vai pagar menos.
A outra coisa importante é que pela segunda vez, nós já tínhamos feito isso no primeiro mandato meu e no da Dilma [Rousseff, ex-presidenta da República], pela segunda vez nós tiramos 33 milhões do Mapa da Fome, reconhecido pela ONU. E, depois a questão de um programa, que era uma obsessão minha, que era Agora Tem Especialistas, que era fazer com que as pessoas mais pobres tivessem acesso à segunda e à terceira consulta e que tivessem acesso às máquinas modernas que dizem com antecedência se ele tem uma doença grave ou não. Tudo isso está acontecendo e eu posso te dizer que nós estamos terminando o terceiro ano com algumas coisas muito importantes.
Primeiro, menor desemprego da história do Brasil, a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil, a maior massa salarial do Brasil. E vou dizer mais para você ainda, programa [Luz do Povo] com isenção de luz para as pessoas que consomem até 80 quilowatts e as pessoas que consomem até 120 e o programa Gás do Povo, que a gente vai distribuir gás de graça para mais de 15 milhões de famílias que estão, no CadÚnico. Ou seja, as pessoas que não podem comprar e que têm que gastar pelo menos 10% do salário mínimo para comprar gás, vão receber o gás de graça pago pelo governo. Então essas são marcas muito importantes que marcam muito a minha vida.
Jornalista Marina Demori: Agora, o senhor começou o ano com uma certa crise de popularidade que foi mostrada em pesquisas eleitorais, esses índices foram melhorando ao longo do ano, mas ainda oscilam. As pesquisas mostram. O que falta, presidente?
Presidente Lula: Não falta nada, falta tempo. Mas há uma coisa muito importante, eu na minha cabeça eu tenho o seguinte, durante dois anos eu nunca me preocupei com pesquisa porque eu tinha certeza daquilo que eu tinha prometido e eu tinha certeza que quando você planta um pé de soja, um pé de jabuticaba, um pé de milho, ele não aparece no dia seguinte nem uma semana depois.
Leva um tempo para ele aparecer e leva um tempo para amadurecer. Então veja, nós passamos dois anos reconstruindo este país, depois nós passamos um tempo plantando e o ano que vem será o ano da verdade. A gente vai tentar mostrar para o povo brasileiro o que aconteceu neste país, no nosso governo, comparando com tudo que aconteceu em outro tempo na história deste país.
Eu não tenho dúvida nenhuma de que nunca o Brasil teve um presidente que fizesse a metade da política de inclusão social que nós estamos fazendo. Isso me deixa muito feliz, isso me deixa muito alegre. Você está lembrado que no primeiro mandato eu disse uma frase, se ao terminar o meu mandato eu tiver com as pessoas, todo brasileiro e brasileira, estiverem tomando café, almoçando e jantando, eu já fiz a obra da minha vida.
Pois agora as pessoas estão tendo muito mais do que isso e ainda é pouco diante daquilo que as pessoas precisam.
Jornalista Marina Demori: Agora, a gente acompanhou, presidente, ao longo do ano muitas pautas econômicas que foram aprovadas pelo Congresso Nacional, mas outras matérias que seguiram travadas e uma certa dificuldade de interlocução, especialmente nessas últimas semanas em que houve um aumento da tensão. O que aconteceu, presidente, entre o senhor e o presidente Davi Alcolumbre [presidente do Senado]? O senhor tem conversado com ele?
Presidente Lula: Não aconteceu nada. Nada. Eu sou amigo do Davi, eu sou amigo do Hugo Motta [presidente da Câmara dos Deputados]. O que acontece é o seguinte, veja, nós aprovamos 99% de tudo que nós mandamos para o Congresso Nacional.
Nunca, nunca, nos meus dois primeiros mandatos, eu aprovei a quantidade de coisas que eu aprovei agora num Congresso totalmente adverso. É importante lembrar que eu tenho 70 deputados em 513. É importante lembrar que eu tenho 9 senadores em 81.
E qual é o milagre? É o milagre da democracia, é o milagre da conversa, é o milagre de esgotar os argumentos até o final para a gente poder convencer as coisas. Eu não mandei nenhum projeto de interesse pessoal ou de interesse de um grupo. Todos os projetos que nós mandamos foram projetos de interesse da sociedade brasileira e de interesse do Brasil.
A coisa importante que eu esqueci de falar quando você fez a primeira pergunta é a seguinte: há 40 anos este país esperava uma reforma tributária e nós fizemos a reforma tributária com esse Congresso adverso. Por quê? Porque nós resolvemos fazer política. As pessoas se esquecem que o Obama [Barack] governou os Estados Unidos por oito anos e não conseguiu aprovar nenhum projeto importante.
A gente se esquece que o Trump [Donald] está vivendo um problema muito sério com o orçamento dele agora. Isso é próprio da democracia. Todas as propostas a gente manda para o Congresso Nacional, a gente conversa com as pessoas, os meus ministros conversam com os deputados, com as lideranças e as coisas terminam aprovando.
Nem sempre você consegue ser pulsante por tudo que você quer, mas nem tudo você perde tudo. Ou seja, você ganha aquilo que é essencial para melhorar a vida do povo brasileiro.
Jornalista Marina Demori: Agora, presidente, uma decisão do ministro Flávio Dino [do Supremo Tribunal Federal] determinou uma operação dentro da Câmara dos Deputados contra a pessoa que era responsável pelo pagamento, pela distribuição das emendas parlamentares.
Isso, de certa forma, acaba interferindo nessa relação, visto que muitos aliados ou muitos parlamentares veem, muitas vezes, a digital do senhor nas decisões de Dino por ter sido um ministro indicado pelo senhor.
Presidente Lula: Quase todos foram indicados por mim, se eu tivesse interferência na Suprema Corte, eu teria ficado preso 580 dias? A verdade é que a Suprema Corte é totalmente independente e autônoma e é bom que seja assim.
O presidente da República não tem e não quer ter interferência sobre os votos dos ministros da Suprema Corte, como eu não quero que eles tenham interferência nas coisas que eu faço.
É assim que funciona. Ora, se há uma investigação, se há uma denúncia, se essa denúncia, essa investigação está acumulada de muitas provas, e o ministro toma a decisão de mandar fazer busca e apreensão, ora, é um problema que só cabe ao ministro, o presidente da República não tem nem como dar opinião sobre isso, só cabe ao ministro que conhece o processo fazer isso.
As pessoas se esquecem que foram fazer busca e apreensão na minha casa, as pessoas se esquecem. E o que é que eu fiquei nervoso? É porque quem foi fazer e não encontrou nada deveria ter tido a coragem e a dignidade de ter dito que não encontrou nada, não ficar em silêncio.
Então, eu acho que nós temos que aprender a respeitar, eu respeito a decisão da Câmara, a decisão do Senado, a decisão da Suprema Corte e eu quero que eles façam comigo o mesmo que eu faço com eles, respeito a autonomia de cada ente federado, de cada instituição brasileira.
Jornalista Marina Demori: Agora, recentemente houve aprovação na Câmara do PL da dosimetria, o senhor, caso seja aprovada no Senado, vai precisar sancionar ou vetar. Qual vai ser a decisão?
Presidente Lula: Eu disse em uma entrevista este mês que eu, quando chegar na minha mesa, eu vou estar sentado na minha mesa, com Deus, e eu vou tomar a decisão.
Jornalista Marina Demori: A senhora avalia alguma possibilidade?
Presidente Lula: Eu avalio o seguinte, eu só acho que o cidadão que tentou dar um golpe neste país, que tentou fazer mentira o tempo inteiro na governança dele, que é responsável pela morte de metade das pessoas que morreram de Covid, pela irresponsabilidade dele, e nessa tentativa de golpe, tentando envolver Forças Armadas, merece ser condenado.
Ele está condenado, eu não faço julgamento da quantidade de anos que ele foi condenado, porque eu não conheço os processos, eu não conheço as provas, não sou advogado, o que eu sei é que quando chegar na minha mão, eu vou tomar a decisão. E pode ficar certo que eu tomarei uma decisão que eu achar que é melhor para o Brasil, e melhor para o Brasil será manter a democracia e manter a respeitabilidade que nós temos que ter na autonomia dos poderes brasileiros.
Jornalista Marina Demori: O senhor vai vetar?
Presidente Lula: Não sei se eu vou vetar, não sei, eu não conheço sequer a decisão ainda. Deixa chegar a decisão, vamos ver os argumentos e aí eu tomo a decisão.
Jornalista Marina Demori: Presidente, e o senhor ainda acredita, só para encerrar esse assunto do Congresso Nacional, o senhor ainda acredita que Jorge Messias será ministro do Supremo?
Presidente Lula: Acredito, acredito que ele será o ministro da Suprema Corte aprovado pelo Senado.
Jornalista Marina Demori: O senhor tem conversado isso?
Presidente Lula: Eu acredito, estou trabalhando para isso, o Messias está trabalhando para isso, e eu não indiquei uma pessoa qualquer, eu indiquei um advogado muito competente, um advogado geral da União, extraordinário, que demonstrou ao longo do tempo seriedade e serenidade no jeito de advogar e defender o Estado brasileiro como poucos defenderam.
Portanto, ele merece estar lá, como estava, como o Fernando Henrique Cardoso [ex-presidente da República] indicou, o Gilmar Mendes, como eu indiquei o Toffoli [José Antonio Dias, ministro do Supremo Tribunal Federal], está lá. Eu acho que ele vai ser um bom ministro da Suprema Corte.
Jornalista Marina Demori: Presidente, caminhando para encerrar a entrevista, eu preciso falar com o senhor sobre as eleições de 2026. Falando um pouco do cenário de Minas e São Paulo, são estados que o senhor ainda não tem exatamente uma definição sobre quem serão os candidatos. Como é que o senhor está se organizando, conversando, articulando essas candidaturas diante de um cenário ainda tão indefinido?
Presidente Lula: Olha, veja, eu acho que é muito cedo para você definir as coisas sobre as eleições que se darão em outubro de 2026. Eu tenho todo o tempo do mundo para tentar fazer a articulação que eu preciso fazer.
Obviamente, que eu já tenho um candidato a governador de São Paulo, já tenho um candidato a senador de São Paulo, eu já tenho candidato em Minas Gerais, eu já tenho. Agora, aqueles que eu quero podem não querer ser, então eu tenho que ter a paciência de conversar no momento exato para a gente poder anunciar. Então, eu tenho que ter muita conversa, eu tenho muita tranquilidade.
A única coisa que eu tenho certeza é que nós vamos ganhar as eleições pelos serviços prestados ao povo brasileiro, é a única certeza que eu tenho.
Jornalista Marina Demori: Geraldo Alckmin segue como vice do senhor nessa campanha?
Presidente Lula: O Alckmin é um companheiro de tamanha magnitude, de tamanha grandeza, que ele será o que ele quiser. Eu vou dizer para ele: “Escolha o que você quer ser”.
Jornalista Marina Demori: O senhor diz com frequência, costuma dizer que não se escolhe adversário, mas a gente tem um cenário também difícil de definição, que ainda está bem definido na direita. Temos Flávio Bolsonaro [senador da República] fazendo ali acenos de uma possível candidatura, Tarcísio de Freitas também. No caso de Tarcísio, atrapalharia um pouco mais as parcerias, né?
Presidente Lula: Você sabe o que acontece, Marina? É muito difícil a gente ficar fazendo prognóstico com muita antecedência. Hoje, por exemplo, eu estava vendo o material dos prognósticos que foram feitos sobre a economia brasileira em janeiro, todos errados. Aconteceu tudo melhor do que era previsto em janeiro, no mês de outubro.
Então, veja, eu não posso dizer quem é o melhor adversário para mim. O que eu sei é que tem muitos adversários. Eu sei que Caiado [Ronaldo, governador de Goiás] quer ser candidato, eu sei que Ratinho [Júnior, governador do Paraná] quer ser candidato, eu sei que Zema [Romeu, governador de Minas Gerais] quer ser candidato, alguns falam na Michele [Bolsonaro, ex-primeira dama], outros falam no Eduardo [Bolsonaro], outros falam no Bolsonaro [Jair, ex-presidente], outros falam no Tarcísio [de Freitas, Governador de São Paulo].
Eu não escolho, eu só posso dizer o seguinte: eu estou preparado para disputar de todos eles de uma vez só. Estou preparado para disputar, tenho coisas para anunciar ao povo brasileiro, tenho uma prestação de contas ao povo brasileiro que eu duvido que eu outro presidente tenha. E tem mais ainda, eu vou comparar as políticas públicas que eu fiz com as políticas públicas que os meus adversários fizeram.
Porque aí o povo vai ter uma fotografia verdadeira de quem é quem neste país. Alguns poderão fazer promessas e eu vou mostrar a fotografia real das coisas que eu encontrei neste país e das coisas que nós fizemos neste país. Agora eu não espero, eu só espero que tenha uma campanha civilizada, de alto nível, com um debate altamente democrático, porque é preciso tirar o Brasil do ódio que ele estava.
É preciso tirar. E a campanha política poderá servir para que a gente faça com que a política volte a ser respeitada e as instituições fortalecidas e a democracia seja a grande ganhadora, porque o povo brasileiro vai ter o direito de escolher o melhor.
Jornalista Marina Demori: Agora, presidente, o senhor estabeleceu uma relação que foi considerada muitas vezes improvável com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que o senhor citou ao longo da entrevista. Como é que tem sido essas conversas e como o senhor conseguiu negociar com ele?
Presidente Lula: Eu tenho conversado com o presidente Trump duas coisas muito sérias. Primeiro porque nós somos as duas maiores democracias do Ocidente. Nós somos as duas maiores economias da América Latina e da América do Norte.
Nós somos as duas maiores populações. Ou seja, então nós precisamos passar exemplos de coisas boas para o povo do mundo inteiro. O Brasil tem uma relação diplomática com os Estados Unidos há 201 anos e nós temos um déficit comercial em 15 anos de 410 bilhões de dólares com os Estados Unidos.
Então, o que eu tenho conversado com o Trump é o seguinte, é que, primeiro, eu gosto de respeitar e gosto de ser respeitado. Nós temos 80 anos, os dois. Aliás, ele é seis meses mais novo do que eu.
Eu tenho falado que duas pessoas nessa idade não têm o direito de brincar. Eu, na semana passada, resolvi mandar uma mensagem para ele, que ele precisa liberar todos os meus ministros que ele colocou nessa lei que pune as pessoas do outro país.
E disse para ele que era importante lembrar que meus ministros estão sendo punidos porque cumpriram a Constituição e nenhum ministro, em lugar nenhum do mundo, pode ser punido porque cumpriu a Constituição do seu país.
E hoje eu fiquei feliz quando eu entendo a notícia de que ele já tirou a punição do Alexandre [de Moraes, ministro do STF]. Olha, a gente vai tirar dos outros porque eu vou continuar insistindo com ele e eu posso te dizer que a gente vai voltar à normalidade porque eu acredito em uma coisa que é o poder da palavra. Eu nunca faço as coisas com pressa.
Eu não sou apressado. Quando aconteceu a taxação, muita gente achou que o mundo ia acabar. Muita gente achou que eu tinha que falar imediatamente com os Estados Unidos.
Eu falei: “Para tudo tem um tempo, gente”. Nós temos que, primeiro, esperar a água baixar. Vamos esperar a temperatura baixar e vamos conversar.
Aconteceu a primeira conversa na Malásia, aconteceu uma conversa de 30 segundos na ONU, depois tivemos uma conversa mais longa na Malásia, depois tivemos um telefonema de quase uma hora e agora só mensagem minha com o atendimento dele.
Eu já mandei uma mensagem agradecendo. Já mandei, quando eu desci do aeroporto para vir para cá, eu mandei uma mensagem na semana passada dizendo: “Olha, muito obrigado, mas ainda tem mais coisas para acertar entre nós”.
Eu tenho certeza que vai dar certo. Tenho certeza que vai dar certo a nossa relação de comércio e tenho certeza que vai dar certo a nossa relação política.