Entrevista do presidente Lula ao jornal The Chosun Ilbo, da Coreia do Sul
The Chosun Ilbo: Esta será sua primeira visita de Estado à Coreia. A imagem da Primeira-Dama vestindo um hanbok recebeu grande atenção na Coreia. Poderia explicar o significado desta visita para a diplomacia brasileira e como o senhor pretende elevar as relações entre Coreia e Brasil a partir dela?
Presidente Lula: Estive na Coreia duas vezes, ambas em meus mandatos anteriores. A primeira vez foi em 2005, para uma visita oficial, e depois retornei em 2010, para a Cúpula do G20. Agora realizo a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro ao país. Esse simbolismo é muito grande, porque mostra como a nossa relação bilateral avançou nos últimos 20 anos. Nos aproximamos muito, apesar da distância física entre os dois países. Contribui para essa aproximação a admiração que temos pela cultura coreana. Hoje, muitos brasileiros ouvem k-pop, assistem aos k-dramas, e conhecem e apreciam a culinária do país. Muitos brasileiros também têm celulares, computadores e carros de empresas coreanas, que são resultado do notável desenvolvimento tecnológico da Coreia. Podemos avançar muito mais e ampliar nossos vínculos. Nesta visita, vamos adotar um plano de ação trienal e elevar a relação bilateral para o nível de “parceria estratégica”. Isso significa uma intensificação da nossa cooperação. Vamos ampliar e diversificar o nosso fluxo comercial e os investimentos mútuos e para expandir nossa cooperação tecnológica. Avançaremos também em temas agrícolas, na produção de cosméticos e medicamentos, em pequenas e médias empresas, saúde, educação, entre outros temas.
The Chosun Ilbo: Olhando para o futuro, qual área de cooperação econômica entre Coreia e Brasil o senhor considera mais estratégica, e por quê?
Presidente Lula: A Coreia é um dos parceiros mais relevantes do Brasil na área de tecnologia. Nosso interesse é incentivar parcerias em grande parte das indústrias do futuro: energias limpas e transição energética, defesa, aeroespacial, minerais críticos, inteligência artificial e biotecnologia. Temos muito espaço para crescer e precisamos tirar melhor proveito da complementaridade entre nossas economias. Durante a visita, realizaremos um Fórum Empresarial com a participação de 230 empresas brasileiras, de diversos setores. Empresários das indústrias de cosméticos e farmacêutica, por exemplo, estarão presentes. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, graças à Amazônia, e a Coreia é um dos principais centros de produção de cosméticos. Estamos aqui para ampliar negócios e investir nessa indústria tão importante. É fundamental também diversificar nossa pauta exportadora para a Coreia e avançar na abertura do mercado coreano à carne bovina brasileira. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de carne, presente em mais de 150 países. A Coreia já é uma grande compradora de nossos produtos agropecuários, incluindo o frango, e buscamos ampliar esse acesso, em benefício dos consumidores do país.
The Chosun Ilbo: A Coreia é líder global em semicondutores e baterias, enquanto o Brasil possui abundância de minerais críticos e recursos energéticos. O senhor tem planos específicos para avançar as relações bilaterais para além do comércio, em direção a uma “aliança de cadeias produtivas”?
Presidente Lula: Há uma convergência muito grande entre a experiência coreana em alta tecnologia e a base de recursos e energia limpa do Brasil. Por isso, a cooperação nas áreas de minerais críticos e da transição energética está entre as mais importantes que devemos desenvolver. No Brasil, contamos com a maior reserva mundial de nióbio, a segunda de níquel, grafita e terras raras e a terceira de manganês e bauxita. Já a Coreia tem uma capacidade industrial e tecnológica de ponta. Essa complementaridade abre muitas oportunidades. O Brasil quer se integrar às cadeias globais de valor da indústria de energia limpa e de semicondutores não só como fornecedor de minerais críticos, mas também no refino, na transformação e na fabricação de componentes em território brasileiro. A liderança coreana em semicondutores, baterias e tecnologias avançadas é fundamental para isso. Na prática, isso significa estimular investimentos coreanos em plantas industriais no Brasil, promover centros conjuntos de pesquisa e desenvolvimento, ampliar parcerias entre empresas e universidades e fortalecer programas de formação de mão de obra. Esse tipo de cooperação aumenta a resiliência das cadeias de produção, gera empregos de qualidade e ajuda o Brasil e a Coreia a estarem na vanguarda da economia verde e digital.
The Chosun Ilbo: Assim como a Coreia, o Brasil mantém relações próximas tanto com os Estados Unidos quanto com a China. À medida que a competição estratégica entre os dois se intensifica, que tipo de estratégia de equilíbrio diplomático o Brasil está adotando? Há lições que a Coreia poderia extrair da abordagem brasileira?
Presidente Lula: O Brasil não deseja e não aceita a imposição de uma nova Guerra Fria nas relações internacionais. Não faremos opção entre um país ou outro. Vamos continuar a expandir nossas relações com o mundo, sem alinhamentos automáticos. Queremos negociar com todo mundo, vender e comprar com quem tiver o que nos vender e tiver interesse em nossos produtos. Fazer parcerias com todos. Isso é parte da vocação diplomática universalista do Brasil. Acreditamos que as relações entre os países devem se basear no diálogo e que nenhum país resolverá seus problemas sozinho. É por isso que defendemos o multilateralismo, como também faz o governo coreano. Para fortalecer o multilateralismo, que hoje está em xeque, defendemos a urgência de reformar as instituições de governança global. Essa foi uma das prioridades do Brasil à frente do G20, em 2024, e do BRICS, em 2025. A governança global precisa se tornar mais inclusiva, legítima e representativa. As Nações Unidas e seu Conselho de Segurança, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) precisam ser reformados para voltar a cumprir efetivamente seus mandatos, refletir a realidade multipolar do século XXI e contribuir para a paz e a prosperidade globais.
The Chosun Ilbo: O Brasil enfrenta o difícil desafio duplo de promover o crescimento econômico ao mesmo tempo em que reduz a desigualdade social. Trata-se também de um dilema enfrentado pelo governo coreano. Como o senhor pretende equilibrar esses dois objetivos?
Presidente Lula: O que temos feito, com muito sucesso, é garantir que a riqueza gerada pelo crescimento chegue nas mãos dos trabalhadores. Para fazer isso, valorizamos os salários e adotamos políticas para a criação de empregos. Reduzimos os impostos sobre quem ganha menos, ao mesmo tempo em que passamos a cobrar um pouco mais dos setores de maior renda de nossa sociedade, especialmente daqueles que vivem de aplicações no mercado financeiro. Com isso, há mais dinheiro circulando no país, elevando o consumo e, por consequência, a produção. Somado aos investimentos que estamos fazendo em infraestrutura, esse conjunto de ações está fazendo o PIB brasileiro crescer acima da média dos países ricos desde 2023. Temos a menor inflação acumulada em quatro anos, o maior crescimento da massa salarial, o menor desemprego e o mais baixo índice de pobreza da história do Brasil. Sempre acreditei que muito dinheiro nas mãos de poucos significa concentração de riqueza, significa fome e miséria. E que um pouco de dinheiro nas mãos de muitos gera desenvolvimento, emprego e reduz as desigualdades. Os resultados da política econômica adotada no Brasil mostram que isso é verdade.
The Chosun Ilbo: Sua trajetória, assim como a do Presidente Lee Jae-myung, como ex-operário, tem despertado grande atenção na Coreia. Como líder político que superou adversidades, que mensagem de esperança o senhor gostaria de transmitir aos jovens de ambos os países que enfrentam incertezas econômicas e dificuldades no mercado de trabalho?
Presidente Lula: O presidente Lee Jae-myung e eu temos muito em comum. As nossas histórias nos unem. Ele foi operário. Sofreu um acidente de trabalho. Foi politicamente perseguido. E sucedeu um presidente que tentou dar um golpe de Estado e desfazer décadas de democracia. Nos dois casos, a justiça dos países conseguiu se impor, impedir o golpe e punir os responsáveis. O presidente Lee ainda foi vítima de uma tentativa de homicídio, e eu passei por situação parecida, já que os golpistas no Brasil planejaram me assassinar. A mensagem que eu tenho para os jovens é que temos que valorizar a democracia. Porque ela permite, como foi o meu caso, que um operário se torne presidente da República. E, uma vez presidente, possa lutar para que outras pessoas não precisem passar pelas mesmas dificuldades. Então faço um apelo aos jovens para que sempre defendam a democracia, porque apenas com ela conseguimos gerar prosperidade compartilhada, com mais e melhores empregos, e reduzir desigualdades estruturais.