Entrevista do presidente Lula ao jornal O DIA, do Rio de Janeiro
Jornal O DIA: Campo Grande, na Zona Oeste, o maior bairro do Brasil, está ganhando um túnel e um anel viário que irão melhorar a mobilidade do entorno. Muitos moradores da região, no entanto, reclamam de problemas ainda na área de transportes, na saúde e na segurança pública, principalmente. Que tipo de outras ações e benfeitorias a população da Zona Oeste pode esperar por parte do governo federal, presidente?
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva: A Zona Oeste tem vários projetos em andamento para fortalecer os serviços públicos e melhorar a mobilidade na região. Estamos inaugurando hoje o trecho 1 do Anel Viário e o Túnel Luiz Bom, com investimentos de R$ 838,5 milhões. E já iniciamos as obras do trecho 2 do Anel, que terá 6,1 quilômetros de extensão e permitirá aos mais de 350 mil moradores de Campo Grande chegarem muito mais rápido à Avenida Brasil. Tudo isso faz parte do Plano de Mobilidade de Campo Grande, que é realizado em parceria com a prefeitura e conta com 38 quilômetros de intervenções viárias, 13 quilômetros de ciclovias e mais de 40 quilômetros de obras de drenagem. Em relação à saúde, estive em Jacarepaguá há menos de um mês para inaugurar a nova emergência 24 horas do hospital Cardoso Fontes, com investimentos de R$ 100 milhões do governo federal. Sobre a Segurança Pública, encaminhamos e já aprovamos na Câmara dos Deputados a proposta de emenda constitucional para que a União possa atuar mais diretamente no combate ao crime. Isso significa ter a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal com mais capacidade de ação, agindo em conjunto com as polícias estaduais e os órgãos de inteligência para combater com muito mais força as facções criminosas e o crime organizado.
O DIA: Pessoas em situação de vulnerabilidade na Comunidade do Aço, em Santa Cruz, estão ganhando moradias. O déficit habitacional, no entanto, continua sendo um dos maiores problemas da cidade e do estado do Rio. Como tentar equacionar ou melhorar essa questão de forma concreta, presidente? O governo federal tem algum projeto específico para outras comunidades daqui?
Presidente Lula: Desde 2023, o Minha Casa Minha Vida já contratou a construção de quase 35 mil casas e apartamentos apenas no município do Rio, com investimentos de R$ 5,6 bilhões. No estado inteiro, são mais de 88 mil moradias, com investimentos de R$ 13,5 bilhões para que as famílias conquistem o sonho da casa própria. Trabalhamos também com parcerias como a da Comunidade do Aço. Hoje mesmo, estou entregando moradias para 64 famílias no empreendimento, com financiamento de R$ 213 milhões pelo Banco do Brasil. Vou aproveitar a minha ida até lá para rever a Mariza Batista da Silva e cumprir um compromisso que firmei com ela em 2024, quando também estive na comunidade: tirar uma foto juntos em sua nova moradia, que ficou pronta no ano passado. Outro bom exemplo de ação é o PAC Periferia Viva na Maré, com investimentos de mais de R$ 170 milhões para construção de casas, redes de abastecimento e esgoto e urbanização. O Periferia Viva também já está em andamento em São Gonçalo e teve propostas selecionadas para o Complexo do Alemão e Caniçal, em Niterói.
O DIA: Presidente, tivemos recentemente a tragédia das chuvas em Minas Gerais. Em visita à região, o senhor prometeu esforços para ajudar pessoas que perderam casas, por exemplo. Aqui no estado do Rio, tivemos áreas bastante afetadas também, como Nova Iguaçu, Rio das Ostras e Paraty. De que maneira o governo pode ajudar mais efetivamente pessoas atingidas por enchentes, já que elas costumam ser recorrentes?
Presidente Lula: O mais importante é investir para que as enchentes não ocorram, como estamos fazendo no Jardim Maravilha, em Guaratiba. Ali, com o Novo PAC, estamos aportando R$ 340 milhões para controlar as cheias que sempre afetaram a região e que agora vão deixar de ser um problema. No PAC Seleções, já selecionamos ou retomamos quase 60 projetos de obras de drenagem e contenção de encostas para o estado do Rio, com recursos de R$ 3,9 bilhões. Fortalecemos a Defesa Civil e criamos um sistema para enviar alertas pelo celular quando há risco de enchentes ou deslizamentos, o que salva muitas vidas. Quando os governos locais pedem nossa ajuda, conseguimos deslocar rapidamente especialistas para as áreas afetadas, incluindo a Força Nacional do SUS. E estamos sempre prontos a avaliar e implementar os planos de ação propostos pelos municípios após os desastres, como estamos fazendo agora com Paraty, com o envio de profissionais e recursos financeiros.
O DIA: No Mês internacional da Mulher, estamos vendo o caso de estupro coletivo contra uma adolescente em Copacabana, algo que que vem mobilizando bastante a sociedade como um todo. Sabemos que os crimes de estupro e feminicídio continuam com números alarmantes em todo o Brasil. Como essa questão pode ser enfrentada com mais resultado pelo poder público?
Presidente Lula: Este é um tema que tem mexido muito comigo e que decidi trazer para o centro do debate público. É inaceitável que homens continuem achando que são donos das mulheres, que podem agredi-las ou fazer o que bem entendem com elas. Todos – especialmente nós, homens – temos que fazer nossa parte para que essa cultura desapareça de nosso país e se torne coisa do passado. Criamos o Pacto Brasil para Enfrentamento do Feminicídio, que mobiliza os poderes Legislativo, Judiciário e Executivo para dar celeridade às medidas protetivas, responsabilizar os agressores e fortalecer a rede de acolhimento. E estamos implantando o “Alerta Mulher Segura”, que aprimora o monitoramento eletrônico de criminosos que usam tornozeleiras eletrônicas e aumenta nossa capacidade de acompanhar os casos em tempo real. Também estamos abrindo novas Casas da Mulher Brasileira e novos Centros de Referência, além de reforçar as delegacias especializadas para que elas funcionem por 24 horas, com agentes qualificados. Com tudo isso, vamos dar a atenção e a prioridade que as mulheres precisam quando sofrem ameaças, sem perder tempo e deixar o pior acontecer.
O DIA: Presidente, Eduardo Paes (PSD) já anunciou que sairá da Prefeitura do Rio, no dia 20 de março, para disputar o governo do Estado. Por outro lado, o governador Cláudio Castro e o senador Flávio Bolsonaro, este seu adversário direto na eleição, já indicaram o deputado estadual licenciado e secretário Douglas Ruas (PL) pela situação, para concorrer. Como o senhor está vendo o cenário eleitoral no estado onde o bolsonarismo nasceu?
Presidente Lula: O Eduardo Paes é um excelente prefeito e trabalhamos muito bem juntos. E dessa parceria com o governo federal vieram muitas ações importantes, verdadeiras conquistas para os cariocas, como a renovação da frota de BRT e a grande melhoria na rede hospitalar da cidade. Sobre as eleições, temos que lembrar que não se escolhe adversários, mas sim aliados. Paes tem o meu apoio político e o importante agora é construir uma chapa forte, capaz de vencer não apenas a disputa pelo governo, mas também de conquistar cadeiras no Senado, na Câmara e na Alerj e não deixar que o autoritarismo e o retrocesso voltem a ganhar espaço no Rio de Janeiro e em nosso país.