entrevista do presidente Lula à jornalista Amna Nawaz, no programa PBS NewsHour, da rede de TV americana PBS
Apresentador: É a Copa do Mundo de Diplomacia Global nas Nações Unidas, em Nova York. Centenas de dignitários estão reunidos esta semana para a ONU [Organização das Nações Unidas]. Assembleia Geral. O primeiro discurso de amanhã para iniciar os trabalhos virá do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido por todos simplesmente como Lula.
O destino de seu antecessor, Jair Bolsonaro, que tentou um golpe contra Lula há dois anos, tornou-se uma questão explosiva nas relações EUA-Brasil. O presidente Trump [Donald, dos Estados Unidos] aplicou uma tarifa de 50% sobre muitos produtos brasileiros como penalidade pelo processo contra Bolsonaro. Ele foi condenado no início deste mês (09/2025) e sentenciado a 27 anos de prisão.
Amna Nawaz [coapresentadora da PBS NewsHour] conversou com o presidente do Brasil esta manhã em Nova York.
Amna - Presidente Lula, bem-vindo de volta ao NewsHour. Obrigado por se juntar a nós.
Presidente Lula - É um grande prazer estar aqui para conversar com você novamente.
Amna - Eu adoraria começar com as tarifas dos EUA sobre o seu país neste momento, que, com 50%, estão entre as mais altas de qualquer nível em qualquer país. Você os chamou de equivocados e ilógicos. O quanto você acredita que a raiva do presidente Trump com o julgamento e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, o quanto isso influenciou o nível tarifário do seu país?
Presidente Lula - Bem, antes de tudo, é inacreditável que o presidente Trump tenha esse tipo de comportamento com o Brasil devido ao julgamento de um ex-presidente que tentou dar um golpe de estado contra o Estado democrático de direito, que conectou e planejou minha morte, o meu assassinato, do vice-presidente [Geraldo Alckmin] e do presidente da Suprema Corte [Alexandre de Moraes]. Portanto, a explicação de uma tarifa de 50% devido ao julgamento de um antigo presidente não é explicação para a opinião pública mundial. E o Brasil quer ter uma relação civilizada com os EUA. As pessoas me perguntam: “você gosta do presidente Trump ou não?” Nunca conheci o presidente Trump, então não é uma questão de eu gostar dele ou não.
Ele também não me conhece. O que importa é que ele é o chefe de Estado dos Estados Unidos e eu sou o chefe de Estado do Brasil. E como dois chefes de Estado, temos que respeitar um ao outro, porque fomos eleitos democraticamente pelo povo dos nossos países, e precisamos dar apoio a essas pessoas e governá-las da melhor maneira possível.
É assim que espero manter nosso relacionamento com os EUA, e é por isso que acho isso absurdo. Acho que essa tarifa é absurda em relação ao Brasil.
Amna - Você disse que não tem nenhuma relação com o presidente Trump. Posso afirmar, então, que você nunca falou com ele? Isso está correto?
Presidente Lula - Nós nunca conversamos. Nunca conversamos antes. Nunca conversamos antes, porque ele fez uma escolha. Na minha opinião, isso foi um erro. Ele fez uma escolha de relacionamento, construindo um relacionamento com Bolsonaro, mas não construindo uma amizade com o povo brasileiro. Um chefe de Estado tem de ter uma relação com outro chefe de Estado, independentemente da sua posição política.
Estes são dois estados importantes, as maiores democracias das Américas, as maiores economias das Américas, e por isso é muito importante para nós termos uma relação que seja uma relação civilizada.
Amna - Se não há relação com o presidente dos EUA, entendo que isso significa que não há negociação sobre as tarifas? Então, o que o Brasil fará? Você retaliará com suas próprias tarifas?
Presidente Lula - Posso lhe garantir uma coisa. Estamos tentando fazer as coisas com a maior tranquilidade possível. Não tomo decisões com raiva. E no momento em que os Estados Unidos desejam negociar, estaremos prontos para negociar. As pessoas que tenho prontas para negociar são o meu vice-presidente da República, que é também o ministro da indústria e do comércio, o meu ministro da Fazenda, o meu ministro das Relações Exteriores.
Estão todos prontos para negociar. Mas não há ninguém do lado dos EUA. Toda vez que tentamos falar sobre comércio com alguém dos EUA, eles dizem: “Isso não é comigo. Não, esta não é uma questão comercial. Esta é uma questão política”. Então, na hora que o presidente Trump deseja falar de política, também posso falar de política.
Amna - Você deixou claro que acredita que esta é uma questão política, não econômica. E o presidente Trump deixou claro que acredita que Jair Bolsonaro está sendo perseguido politicamente no Brasil. Ele disse publicamente que estava muito descontente com a condenação. Vimos o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmar que o governo dos Estados Unidos responderia de acordo. O juiz que conduziu o caso foi sancionado. O senhor está preocupado com a possibilidade de que os EUA adotem novas medidas, de que o próprio senhor possa ser sancionado?
Presidente Lula - Em primeiro lugar, Amna, duvido que qualquer outro país do mundo tenha tido um processo judicial mais democrático que garantisse à pessoa acusada a presunção de inocência como fizemos no Brasil. É um processo extraordinário e respeitado em todo o mundo. Não há tribunal no mundo que não tenha elogiado o sistema judiciário brasileiro, porque há uma defesa legítima para todos os acusados. Portanto, o presidente Trump não pode colocar sobre a mesa uma questão política quando lidamos com chefes de Estado.
E eu disse ao presidente Trump, se ele tivesse feito o que fez no Brasil, o que aconteceu no Capitólio, ele também estaria sendo julgado, porque a lei brasileira é para todos.
Amna - Presidente Lula, quero ter certeza de que entendi o que você disse. Você está dizendo que acredita que o presidente Trump deveria ter sido processado após o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos após sua derrota nas eleições de 2020?
Presidente Lula - Não estou dizendo que ele deveria ter sido julgado, porque não conheço o sistema judicial dos EUA. Eu disse que, se fosse no Brasil, se tivesse acontecido no Brasil, o que aconteceu no Capitólio, então ele iria a julgamento no Brasil.
Amna - Também vimos o presidente Trump ir mais longe. Ele acredita que o que está acontecendo com Jair Bolsonaro no Brasil terá impacto na sua próxima eleição. Ele diz que isso prejudica a capacidade do Brasil de realizar eleições livres e justas para a presidência em 2026. Gostaria de saber sua reação a isso. E, se você decidiu se concorrerá novamente em 2026.
Presidente Lula - O Brasil tem um sistema de justiça eleitoral extraordinariamente forte e democrático. O Brasil possui urnas eletrônicas que são o sistema mais perfeito do mundo, os sistemas de votação eletrônica. Se pudéssemos fazer alguma fraude em uma cédula eletrônica, Lula nunca teria sido eleito presidente três vezes no Brasil. Eu nunca teria vencido as eleições presidenciais porque a classe dominante brasileira nunca quis que eu chegasse à presidência.
Agora, se vou ser presidente novamente, não sei se vou concorrer novamente. Farei 80 anos no dia 27 de outubro. Terei 80 anos e espero ter uma boa saúde que desfrute hoje. Acordo todos os dias às 5h30 da manhã e vou à academia duas horas por dia porque quero viver até os 120 anos. Se eu estiver bem fisicamente com a mesma mentalidade que tenho hoje, concorrerei à presidência porque não permitirei e nem o povo brasileiro permitirá que a extrema direita fascista retorne e governe o Brasil novamente.
Amna - Gostaria de lhe perguntar sobre algumas preocupações muito sérias que você levantou em um artigo recente que escreveu para o New York Times sobre o enfraquecimento da democracia ao redor do mundo. Você disse que o multilateralismo, respeito à diversidade e soberania nacional. E como você escreveu, os EUA se autoproclamaram os maiores representantes disso, isso agora está desaparecendo. Então, se você acredita que os EUA não estão liderando nessas frentes, quem está?
Presidente Lula - Bem, uma coisa que me preocupa, Amna, é que os EUA transmitiram durante muito tempo a mensagem à humanidade de que era o símbolo da democracia mundial. Era o guardião da democracia. Era um guardião da liberdade. Ele se coloca como o imperador, o dono do mundo.
O presidente Trump diz que para proteger o povo americano, ele vai taxar todo mundo. Mas ele diz isso com alguma inverdade. No caso brasileiro, é importante que você saiba que os EUA têm um superávit comercial de US$ 410 bilhões nos últimos 15 anos.
Quatrocentos e dez bilhões. Eles não têm nenhum déficit comercial conosco. Agora, no caso do sistema de justiça, ele tem que saber que no Brasil, nosso sistema de justiça é livre. O presidente da República não pode interferir em processos judiciais. É um ramo autônomo do poder, o sistema judiciário. E a nossa democracia, a nossa constituição diz que devemos ter independência e harmonia entre os três ramos do poder.
E assim o presidente Lula não pode interferir no julgamento do Supremo Tribunal Federal. No domingo, o povo brasileiro saiu às ruas para se manifestar contra a anistia a Bolsonaro, contra outras medidas inapropriadas no Congresso. As pessoas estão prestando atenção.
Se os partidos de extrema direita quiserem concorrer às eleições, podem fazê-lo, claro. Eles são livres para fazer isso. Já concorri a muitas eleições no passado. Ganhei eleições. Perdi muitas eleições no passado. E isso faz parte da democracia. Sofremos para nos livrar da ditadura militar. Não queremos mais ditaduras.
Amna - Presidente Lula, por que você acredita que o presidente Trump está tão envolvido na política brasileira?
Presidente Lula - Acho que o presidente Trump precisa ter o comportamento de um chefe de Estado, de um estadista da maior economia do mundo, da maior potência militar do mundo, do país mais tecnológico do mundo. Portanto, penso que um país com tanta grandeza e tanto poder tem de ter muito mais responsabilidade. Queremos ter relações com todos em igualdade de condições. Mas o que não aceitamos é que ninguém, nenhum país do mundo, interfira na nossa democracia e na nossa soberania.
No momento que o governo dos EUA estiver disposto a conversar com o governo brasileiro, posso garantir que estamos prontos para conversar. Tudo pode ser resolvido numa mesa de negociações. Uma mesa de negociações não custa nada. Não destrói uma ponte. Não destrói um barco. Não mata uma única pessoa. Leva tempo, mas é melhor, é mais saudável e é humanamente compreendido por toda a sociedade.
Amna - Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, muito obrigada pelo seu tempo, senhor presidente.
Presidente Lula - Obrigado, Amna, e espero que depois desta entrevista os EUA abram o seu coração para negociar com todos os países do mundo.