Entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal The Hindu, Índia
The HIndu: Durante sua visita a Nova Délhi, quais medidas concretas e acordos são esperados para aprofundar e diversificar esse comércio entre Índia e Brasil?
Presidente Lula: O comércio bilateral entre o Brasil e a Índia atingiu o seu maior patamar em 2025, mas segue muito abaixo do seu verdadeiro potencial. A Índia tem 1,4 bilhão de habitantes e o Brasil tem 215 milhões. Não tem sentido a nossa relação comercial ser de apenas 15 bilhões de dólares. Por isso, ampliar significativamente nosso fluxo de comércio é um dos principais objetivos dessa viagem. Vamos assinar diversos acordos para cumprir essa meta. Assinaremos acordos sobre minerais críticos, o primeiro dessa natureza a ser assinado pelo Brasil, e sobre pequenas e médias empresas, um setor que gera milhões de empregos. Ainda durante minha visita, participarei do Encontro Empresarial Brasil-Índia, com 600 representantes dos setores privados dos dois países. Porque é o setor privado, com parcerias e projetos conjuntos, que transformará a excelente relação que temos com a Índia em prosperidade compartilhada para nossas sociedades.
Brasil e Índia não podem ficar distantes. Duas das maiores democracias do mundo, com culturas extraordinariamente diversas e economias pujantes têm a obrigação de terem uma relação muito mais próxima. Eu e meu amigo, o primeiro–ministro Narendra Modi, estamos trabalhando para esse objetivo.
The HIndu: O senhor está viajando com a maior delegação empresarial brasileira já levada à Índia, além de vários ministros. Qual é a importância da Índia para a estratégia econômica de longo prazo do Brasil, especialmente num momento em que economias emergentes buscam novos mercados na era das tarifas e guerras comerciais?
Presidente Lula: Eu costumo dizer que a resposta para a crise do multilateralismo é mais multilateralismo. E a resposta para as guerras comerciais é mais comércio internacional. A diversificação das parcerias comerciais com economias emergentes e tradicionais é uma parte central da estratégia do Brasil. Temos nisso uma convergência muito grande com a Índia. Essa convergência precisa se traduzir em resultados concretos.
Nós, do Mercosul, assinamos um acordo de parceria com a União Europeia. Menos de duas semanas depois, a Índia fez o mesmo. Precisamos agora tornar realidade a ampliação do acordo comercial entre o Mercosul e a Índia. Temos interesses complementares em áreas como biocombustíveis, inteligência artificial, ciência e tecnologia, defesa, indústria espacial e saúde. Ambos defendemos um comércio justo, multilateral, aberto e baseado nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os futuros do Brasil e da Índia andam juntos.
The HIndu: O senhor participará da cúpula sobre Inteligência Artificial em Délhi. Como o Brasil e a Índia podem liderar uma cooperação mais ampla entre os países do Sul Global na área de IA, garantindo acesso equitativo à tecnologia, desenvolvimento conjunto e regras que atendam aos interesses das economias emergentes?
Presidente Lula: Precisamos evitar uma nova forma de colonialismo: o digital. O desenvolvimento da inteligência artificial é um caminho sem volta, mas ele não pode se tornar um privilégio de poucos países, nem um instrumento de manipulação na mão de bilionários. Ao Brasil e à Índia interessa uma inteligência artificial emancipadora, que tenha a cara do Sul Global, fortaleça a diversidade cultural e seja uma ferramenta a serviço da paz, não da guerra.
Precisamos que cada chip, cada algoritmo, carregue a marca da inclusão social. Para isso, precisamos de uma governança intergovernamental da inteligência artificial. É urgente que as Nações Unidas sejam o centro desse debate, e que todos os Estados tenham assento. Nossos países têm condições de estar na vanguarda dessa agenda, como demonstra a Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, organizada pelo governo indiano.
The HIndu: O Brasil tem enfatizado a importância da próxima presidência indiana do BRICS, em 2026. Quais são suas expectativas em relação à liderança da Índia no bloco, especialmente no que diz respeito à reforma das instituições de governança global?
Presidente Lula: O Brasil passou a presidência do BRICS para a Índia em 2026. Tenho certeza de que a presidência indiana dará continuidade a iniciativas brasileiras importantes para a cooperação dentro do bloco, em áreas como saúde e combate a doenças socialmente determinadas, mudança do clima e inteligência artificial.
No que diz respeito à governança global, estamos presenciando colapso sem paralelo do multilateralismo. A paralisia das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança tem favorecido o aumento dos conflitos armados no mundo, em níveis não vistos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O BRICS tem um papel muito importante a desempenhar nesse processo. O bloco é um defensor do multilateralismo e tem legitimidade nos debates a respeito de uma governança revigorada, na qual a voz do Sul Global tenha peso.
Brasil e Índia concordam que as instituições de governança global devem refletir a nova realidade multipolar do século XXI e promovam efetivamente a paz. Somos países que tradicionalmente defendem a reforma do órgão, para torná-lo mais legítimo, representativo, eficaz e democrático. Não faz sentido, a esta altura do século XXI, que o Conselho de Segurança não tenha a Índia, o Brasil e países africanos como membros permanentes.
Damos todo o apoio à presidência indiana do BRICS para seguir na defesa desses objetivos.
The HIndu: O acordo comercial entre Mercosul e Índia, há muito pendente, deve entrar em discussão durante sua viagem. O senhor vê esta visita como um momento decisivo para avançar nesse marco, particularmente à luz do recente acordo Mercosul–União Europeia e das mudanças nos padrões globais de comércio?
Presidente Lula: Quando assumi novamente a Presidência do Brasil, no início de 2023, assumi o compromisso de abrir novos mercados e construir parcerias comerciais em todo o mundo. Em três anos, abrimos mais de 500 mercados e assinamos, por meio do Mercosul, acordos comerciais importantes com a União Europeia (UE), o EFTA e Singapura.
Esses acordos são a resposta do multilateralismo ao protecionismo e à lógica das guerras comerciais que empobrecem países e aumentam a desigualdade. O primeiro-ministro Modi tem visão muito próxima da nossa quanto à importância dos acordos comerciais.
É nesse espírito que a ampliação do Acordo Mercosul-Índia, em vigor desde 2009, é uma das prioridades da minha visita. Em seu estado atual, o acordo é muito limitado, porque cobre uma porcentagem pequena de produtos. Vamos expandi-lo e reduzir as barreiras que ainda obstruem nosso comércio. Com isso, vamos ampliar nosso fluxo de comércio, que está muito aquém do tamanho de nossos países e economias, que estão entre as maiores do mundo.
The HIndu: Num momento em que o multilateralismo enfrenta pressões e as grandes potências estão redefinindo regras comerciais e de segurança, como o senhor vê Brasil e Índia trabalhando juntos para moldar uma ordem global mais equilibrada, baseada em regras, e que reflita os interesses do Sul Global?
Presidente Lula: Brasil e Índia são países que mantém coordenação de longa data em foros internacionais. Na OMS, defendemos a soberania sanitária e o acesso a medicamentos, vacinas e insumos essenciais para a saúde pública. Na OMC, defendemos o comércio baseado em regras.
Uma nova ordem global passa por reformas das instituições internacionais e pelo reforço do multilateralismo e da diplomacia. A geografia que está lá foi pensada em 1945 e não reflete o mundo de hoje. Mas muitas outras instituições também precisam mudar. O Banco Mundial, por exemplo, precisa de uma reforma que amplie a participação dos países em desenvolvimento em sua liderança. A Organização Mundial do Comércio (OMC) também recuperar seu papel na regulação do comércio internacional.
Brasil e Índia estão especialmente bem posicionados para impulsionar essas transformações. Como membros do G20, do BRICS e do IBAS, atuamos de maneira inequívoca em defesa do multilateralismo. Somos aliados naturais na resposta a alguns dos maiores desafios do nosso tempo, que são a erradicação da fome e da pobreza e o enfrentamento à mudança do clima. Somos, ainda, duas das dez maiores economias do mundo e duas das maiores democracias. Cultivamos tradições diplomáticas universalistas. A “diversificação estratégica” perseguida pela Índia converge com o universalismo da política externa brasileira. Somos países que dialogamos com todos, sem alinhamentos automáticos. Somos pontes entre o Norte e o Sul Global, entre o Ocidente e o Oriente. Queremos continuar a expandir nossas relações com o mundo. Há muito tempo se diz que é natural que Brasil e Índia colaborem mais de perto. Por tudo isso, a hora de transformar esse potencial em realidade chegou.