Entrevista coletiva do presidente Lula após visita do primeiro-ministro do Vietnã
JORNALISTA: Gostou do título do São Paulo ontem?
PRESIDENTE LULA: Não, eu fiquei feliz pelo meu neto. Mas fiquei triste pela Janja, porque ela é fanática flamenguista.
JORNALISTA: Como está a expectativa para a cirurgia? O senhor conversou com os médicos, recebeu algum retorno?
PRESIDENTE LULA: Eu tô com essa máscara aqui, inclusive, para evitar que eu pegue alguma gripe até sexta-feira (29/9).
JORNALISTA: E até a cirurgia o senhor não decide o ministro do STF?
PRESIDENTE LULA: Não. Gente, eu vejo o noticiário todo dia. Eu vejo uma angústia que eu não tenho, sabe? Se eu que tenho que escolher, no momento que eu achar que é importante escolher, eu vou escolher. Eu vou escolher o ministro da Suprema Corte, eu vou escolher o procurador-geral, eu vou escolher as pessoas do Cade, eu vou escolher gente do Superior Tribunal de Justiça, mas tudo tem o seu tempo, sabe? Tem que conversar com muita gente, tem que ouvir muita gente. Vocês sabem que sempre tem gente dando conselho. E eu sou muito bom para ouvir conselho, sabe? No momento que eu tiver que tomar decisão, vocês podem ficar tranquilos que eu vou anunciar para vocês que escolhi a pessoa certa para colocar no lugar. Mas eu não tenho pressa. Não existe nenhuma vinculação com a minha cirurgia. A minha cirurgia é apenas para cuidar da saúde. Eu quero voltar a jogar bola, eu quero voltar a correr, eu quero voltar a fazer esteira, eu quero voltar a fazer ginástica. E eu tô, desde agosto do ano passado, com dor. Dói para dormir, dói para levantar, dói para sentar, dói para ficar em pé. E eu, até agora, resolvi que eu tinha alguns compromissos. O primeiro compromisso era de recuperar as políticas públicas que nós colocamos em vigor nos nossos dois primeiros mandatos. No primeiro mandato da Dilma e que foram esvaziadas pelos governos que nos sucederam. Ou seja, nós já recuperamos 42 políticas públicas. A segunda tarefa que eu tinha era a tarefa de recolocar o Brasil no cenário mundial. E eu acho que nós já colocamos o Brasil no cenário mundial. O Brasil tá muito bem-visto no mundo. A gente recuperou as relações civilizadas que a gente tinha. Nós temos vários compromissos importantes agora, porque nós temos que participar da COP-28 nos Emirados Árabes, que vai ser um momento importante pra gente lançar uma proposta dos países amazônicos para o mundo. Depois, nós vamos ter que presidir o G20 aqui, que vai ser uma coisa muito importante e nós queremos convidar muita gente para nos ajudar a organizar e para participar os convidados. Depois, nós vamos ter que organizar, em 2025, a COP 30, no estado do Pará, que é outro momento importante pro país, e vamos ter que presidir os BRICS. Então, nós estamos com uma quantidade de tarefas muito importante. Agora, eu resolvi parar exatamente por isso. Eu já tinha cuidado de recuperar as políticas de inclusão, já tinha lançado a política de desenvolvimento aqui, até 2026, que foi o PAC. Agora, eu vou parar um pouco, vou me tratar e o Brasil vai continuar viajando. Porque os ministros vão viajar, o Alckmin vai viajar, porque agora nós temos que colocar os projetos de desenvolvimento do Brasil, sobretudo aquilo que diz respeito à transição energética, à transição ecológica, à transição climática. Colocar tudo que nós temos, porque a verdade nua e crua é essa: se tratando de energia verde, o Brasil é mais do que a Arabia Saudita é hoje com o petróleo. O Brasil tem um potencial excepcional, um potencial estupendo. Temos tecnologia, temos terra, temos água, temos sol, temos trabalhador e nós precisamos criar mercado para as coisas que nós seremos capazes de produzir. Por isso, foi importante a gente assinar, tirar aquela fotografia importante com o presidente Biden e com o primeiro-ministro Modi e outros países, sobre a questão do combustível não-poluente, do combustível, sabe, sustentável, renovável. E agora, nós vamos tentar fazer o Brasil se transformar em uma grande nação. Eu estou convencido que o Brasil vive, nesse final do ano de 2023, a oportunidade que poucas vezes ele teve na história. Finalmente, se o Brasil souber tirar proveito das oportunidades que estão colocadas para nós em várias áreas, eu acho que o Brasil pode, finalmente, deixar de ser tratado como um país em vias de desenvolvimento e ser um país efetivamente desenvolvido. Pra isso, a gente não pode esquecer de cuidar do povo. Porque o país só será definitivamente desenvolvido quando o povo estiver comendo, quando o povo estiver estudando, quando o povo tiver acesso ao lazer, ao emprego decente, que foi essa outra iniciativa importante que tivemos com o Biden e com os sindicalistas americanos e brasileiros. Tentar criar a ideia de que é possível a gente criar, nesse mundo digitalizado, em que a maioria dos trabalhadores não conhece nem o seu patrão, o emprego decente. Para que as pessoas possam se tratar de forma adequada. Vocês sabem que essas pessoas que trabalham em plataforma, muitos meninos que trabalham de bicicleta, que trabalha de motocicleta, muitas vezes eles não têm banheiro para frequentar. Muitas vezes tem o problema de falta de água. Então essa gente tem que ser tratada com respeito. O que nós queremos é isso. Não é que nós queremos obrigá-lo a trabalhar com a carteira assinada. Não. Ele tem o direito de querer ser empreendedor individual, mas ele tem também o direito de ser tratado de forma decente, com respeito, com seguridade social. Então, tudo isso está planejado, tudo isso está em andamento e eu estou muito feliz.
Eu confesso a vocês que eu estou muito otimista com o futuro do Brasil. Eu acho que o Brasil tem uma chance que a gente tem que agarrar com unhas e dentes. O Brasil, definitivamente, é a bola da vez. Tem poucas, poucas momentos na história do mundo que o Brasil participou e que o Brasil foi tão requisitado, que o Brasil foi tão bem-aceito como está sendo agora. Eu já fui presidente oito anos, já fui dirigente político há muito tempo. Já fui sindicalista, mas eu nunca vivi um momento de tamanha expectativa com relação ao Brasil que tem o mundo hoje. Daí o meu otimismo, daí a minha tranquilidade de ir, sexta-feira, no hospital me internar, fazer a minha cirurgia e, quem sabe, na segunda-feira já estar outra vez trabalhando. Se Deus quiser, isso que vai acontecer na minha vida.
JORNALISTA: O senhor já tem um retorno de quando tempo vai ficar afastado?
PRESIDENTE LULA: Não. Se depender de mim, eu não fico nem um dia, cara. Se depender de mim, eu me interno na sexta-feira, faço a cirurgia – que eu peço a Deus que corra bem – e, se depender de mim, para a surpresa do Stuckert, eu estarei lá no Palácio do Planalto despachando, não no Alvorada. É uma cirurgia que a ciência domina bem, não tem nenhuma novidade. Mas, obviamente, que é sempre cirurgia, é sempre anestesia e, se vocês querem saber da verdade, o que eu tenho medo mesmo é de anestesia. Porque vou ficar dormindo e eu não gosto de perder o domínio da minha consciência. Mas os médicos disseram também que a anestesia avançou muito, que hoje não é como no passado, que hoje é mais tranquilo. Então tô muito tranquilo, sabe? Tô muito otimista com relação ao momento que vive o povo brasileiro. Nós temos que trabalhar muito para que a gente consiga colocar na cabeça da juventude, das meninas e dos meninos desse país, as perspectiva de que eles vão ter um mundo melhor, de que eles vão ter um emprego melhor. O jovem hoje, sabe, quando eu tinha 16 anos e entrei no Senac para fazer um curso de torneiro mecânico, eu sabia o que eu queria. Eu queria ter uma profissão, eu queria construir minha família. Queria, sabe? Hoje a molecada tem curso universitário e não sabem o que querem ser, porque o mercado está muito difícil, está muito trancado o mercado. As pessoas estão com pouca perspectiva, então o papel de um presidente é tentar criar essa expectativa. Você pensa que foi fácil a gente aprovar a lei do salário igual para mulher e homem que exercerem a mesma função? É uma coisa que está na CLT desde 1943, mas nunca foi regulamentado. Você pensa que é uma coisa fácil, não parece teoricamente fácil? Mulher e homem tem que ganhar igual em exercício da mesma função, mas vocês sabem que nem dentro do jornalismo isso acontece. Nenhuma profissão.
JORNALISTA: Aproveitando o ensejo da diversidade, no Supremo o senhor pode escolher uma mulher para o cargo?
PRESIDENTE LULA: Deixa eu lhe falar, o critério não será mais esse. Eu tô muito tranquilo, por isso eu vou escolher uma pessoa que possa atender os interesses e expectativas do Brasil. Uma pessoa que possa servir o Brasil. Uma pessoa, sabe, que tenha respeito com a sociedade brasileira. Uma pessoa que tenha respeito, mas não tenha medo da imprensa. Uma pessoa que vota adequadamente sem precisar ficar votando pela imprensa. Eu vou escolher. Já tenho várias pessoas em mira. Não precisa perguntar essa questão de gênero ou de cor. Eu já passei por tudo isso e, no momento certo, vocês vão saber quem que eu vou indicar. E eu pretendo indicar a pessoa mais correta que eu conhecer. A pessoa que eu tenha mais fé que vai ser, sabe, uma grande pessoa na Suprema Corte. Que é isso que o Brasil está precisando, porque, veja, eu disse que minha vitória iria trazer o país de volta à normalidade. O Congresso Nacional faz política, o Poder Executivo executa e o Poder Judiciário julga. Eu quero voltar a isso, não quero ficar nessa disputa entre política e Judiciário, entre Judiciário e Executivo. Não. Se cada um cumprir sua função no país, as coisas vão ficar muito bem. Se vocês trabalharem para dar notícia mais verdadeira possível, se o político trabalhar para fazer as coisas da melhor qualidade, se o Poder Judiciário votar corretamente as coisas que têm que ser votada, é disso que a sociedade brasileira está precisando. Os anos da predominância da fake news acabou, gente. Eu sei que ainda é muito forte, mas nós precisamos estar convencidos que nós temos que vencer a mentira. Nós temos que vencer porque o país não pode suportar os anos que nós vivemos.
JORNALISTA: Presidente, o senhor conseguiu concluir a reforma ministerial e ampliou sua base no Congresso. Queria saber o que o senhor espera e qual sua prioridade para semestre no Legislativo. Que tipo de apoio o senhor espera dos partidos que indicaram ministros para o seu governo?
PRESIDENTE LULA: Deixa eu dizer uma coisa para vocês. Eu sempre disse pra vocês que não tinha conversa com o centrão. Que a minha conversa era com partido político. E eu conversei com os partidos políticos que eu achei que deveria conversar. Compus um governo, eu não tenho nenhum projeto de interesse pessoal, não tenho na Câmara ou no Senado nenhum projeto Lula. Todos os projetos que nós mandamos para lá chama-se projeto Brasil. É de interesse do povo brasileiro. O que eu espero é que os ministros que fazem base do meu governo convençam as suas bancadas a fazer aquilo que interessa ao povo brasileiro. E tudo que tá na câmara, para ser votado, é de interesse do povo brasileiro. Não haverá nada que não seja de interesse do povo brasileiro. Quando a gente manda um projeto para a Câmara, eu nunca mandei nenhum projeto achando que deputados e senadores têm obrigação de votar naquilo que quer o presidente da República, ou o que quer o ministro da Fazenda. Às vezes, tem emenda que ajuda a melhorar, às vezes tem emenda que ajuda a piorar. Naquilo que piora a gente pode vetar, naquilo que melhora a gente pode deixar. É simples assim.
Eu não faço da governança nenhum sacrifício. Tem gente que acha que é difícil governar, tem gente que acha que sofre, tem gente que não dorme. Eu durmo muito tranquilo, sei dos problemas do Brasil, sei do compromisso que eu tenho de tentar resolvê-los, eu sei o que é a fome, eu sei o que é a pessoa ficar desempregada, eu sei o que é a pessoa ficar na rua, eu sei o que é a pessoa ser vítima de enchente, eu sei de tudo isso porque já vivi tudo isso. Não diga uma coisa ruim na minha vida que eu já não vivi.
Então, como eu já vivi isso, eu tenho noção da responsabilidade que eu tenho de tentar cuidar disso. E eu vou tentar cuidar com muito carinho. E eu faço do exercício da Presidência uma coisa confortável. Nem quando, muitas vezes, vocês da imprensa dizem que eu tô nervoso eu tô nervoso. Eu fico nervoso com o Stuckert porque ele quer que eu tire fotografia sorrindo toda hora e eu digo "Stuckert, às vezes eu tenho que ser normal, não tenho que rir todo dia".
Eu fico nervoso quando, sabe, eu não faço aquilo que eu tô com vontade de fazer. Mas no mais, eu gosto do que estou fazendo, briguei muito por isso. Se tem um cara que não pode reclamar do exercício da Presidência sou eu, porque eu estava fora.
Eu briguei pra voltar, e briguei muito. Eu sei o que eu enfrentei pra voltar, eu sei o que eu fui vítima nesse país. E nem isso me deixa magoado. Eu voltei, agradeço 1 milhão de vezes ao povo brasileiro, agradeço aquela vigília que tomou conta de mim durante 580 dias na Polícia Federal, agradeço a solidariedade, e agradeço inclusive aos eleitores que não votaram em mim.
Terminou as eleições eu não quero saber em quem que a pessoa votou, não quero saber em quem que vai voltar. Eu tenho que governar o Brasil até 31 de dezembro de 2026, e vou governar com o maior amor, com o maior carinho, tratando vocês com respeito que nem sempre vocês tiveram, dando resposta que nem sempre é a que vocês esperam. Mas eu quero fazer com vocês a relação mais honesta e fiel que um presidente já teve com a imprensa brasileira.
Essa é a minha função, eu estou convencido que vou fazer isso da melhor qualidade. Se alguém um dia disser pra vocês que o Lula está nervoso, tá irritado, eu não estou nervoso. Eu não fico nervoso com a Câmara, não fico nervoso com o Senado, não fico nervoso com ninguém.
Eu não tenho direito de ficar nervoso, eu tenho o direito de compreender o papel que eu estou exercendo, ninguém me ofereceu. Eu briguei para estar aqui, portanto eu só tenho... se eu tiver que me queixar de alguém, é de mim mesmo.
"Lula, você se meteu nessa porque quis, você já conhecia, você já sabia", e eu me meti. Sabe por quê? Porque eu acho que nós vamos recuperar o Brasil. Vocês vão ter muito orgulho quando vocês viajarem para o exterior, que mostrarem o passaporte brasileiro, vocês vão ver o carinho que vocês vão receber da aduana de cada país. Diferentemente do que era há um ano atrás. Vocês vão ser tratados como "graças a Deus chegaram meus amigos brasileiros e brasileiras aqui para me visitar", vai ser assim que esse país vai ser daqui pra frente e é por isso que eu estou feliz de governar o Brasil. Última pergunta.
JORNALISTA: Alguma mudança na Caixa, a gente vai assistir nos próximos dias?
PRESIDENTE LULA: Eu acabei de falar pra você que não adianta você ficar torcendo para que a água que você quer que passe embaixo da ponte chegue logo. Ela vai chegar no momento certo. Na hora que eu tiver que mexer em alguma coisa, eu vou mexer. Vocês saberão porque não haverá nada feito à meia-noite, será sempre de dia com comunicado expresso à imprensa.
Só eu tenho o direito de colocar, só eu tenho direito de tirar. Então fique tranquilo que isso será feito com a maior tranquilidade em qualquer mexida que eu vou dar. O único cargo que eu não posso mexer é no meu e no do Alckmin, que foi o povo brasileiro que deu. Mas o restante, eu posso mexer em qualquer um, e posso dizer que por enquanto eu não tô disposto a mexer com nada. Tô disposto a fechar o ano bem, eu tô disposto a aprovar as coisas que tem que aprovar no Congresso Nacional, e tô disposto a passar o final de ano junto com a minha família bem feliz. Um beijo no coração.