Pronunciamento do presidente na cerimônia do Tour da Taça da Copa do Mundo Fifa
Transcrição do pronunciamento do presidente na cerimônia do Tour da Taça da Copa do Mundo Fifa, em 26 de fevereiro de 2026, em Brasília/DF
Publicado em
27/02/2026 16h01
Bem, eu quero cumprimentar o meu querido companheiro Alckmin [Geraldo], vice-presidente da República e ministro do Estado de Desenvolvimento, Indústria e Comércio; o ministro do Trabalho, Luiz Marinho; o do Esporte, André Fufuca; da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira; cumprimentar o nosso querido Cafu, Campeão do Mundo [de Futebol] em 94 e 2002 pela Seleção Brasileira; nossa querida Formiga, símbolo da participação das mulheres no futebol deste país, e cumprimentar algumas pessoas que estão na minha cabeça, na cabeça das pessoas da minha idade, na cabeça do Alckmin, figuras como o Pepe, que é uma figura lendária do futebol brasileiro, não só pelo tempo que ele jogou na Seleção Brasileira, porque ele fez parte de um time inesquecível que todo e qualquer adversário sabe o nome de todo e qualquer jogador: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Eu não esqueço nunca, que eu sou corintiano fanático, e esse time judiou muito do meu Corinthians, ganharam muito do Corinthians. Nós ficamos 23 anos sem ganhar um título do Campeonato Paulista, ficamos 15 anos sem ganhar do Santos, fomos ganhar de 2 a 1 com o gol do Oswaldo Cunha.
Quero cumprimentar o nosso querido senador Randolfo Rodrigues, líder do governo; a nossa querida senadora de Pernambuco, Tereza Leitão; os deputados federais que estão aqui, o Bandeira de Melo, flamenguista juramentado; a Benedita da Silva, vascaína juramentada, não, ela é flamengo também, e o Orlando Silva, que é corintiano também.
Bem, o nosso Bruno Pietracci, presidente da Unidade Operacional da América Latina da Coca-Cola; a Luciana Batista, presidente da Coca-Cola do Brasil e Cone Sul, meus amigos e minhas amigas.
Eu tenho um discurso por escrito, eu não sei porque escreveram um discurso para mim, para falar de futebol, se eu sou especialista.
Se tem uma coisa que todo brasileiro é metido à besta é que todo mundo acha que entende de futebol: “Eu marcaria o pênalti que o jogador não marcou”, “eu marcaria o gol de falta, tudo eu faço”. Mas o dado concreto é o seguinte, é que a Copa Feminina aqui no Brasil, ela tem que significar um símbolo para nós, neste momento histórico que estamos vivendo.
Primeiro, porque nós temos que nos redimir do que aconteceu conosco em 2014. Não, em 2014 foi um vexame. E não foi um vexame dos jogadores.
O Brasil vivia um momento muito delicado, um momento muito irritante, um momento muito nervoso. Já começava naquele momento a quantidade de mentiras inesquecíveis sobre a corrupção na Copa do Mundo. O companheiro Orlando era ministro do Esporte.
E eu lembro que quando começou a denúncia de corrupção do Estado, Cafu, nós fomos no Tribunal de Contas. O Tribunal de Contas elegeu um ministro para ser responsável de fiscalização dos 12 estádios de futebol que nós estávamos fazendo. E depois de todas as denúncias sobre corrupção, o Tribunal de Contas chega à conclusão que não houve corrupção em nenhum Estado, em nenhum Estado dos 12 que estavam sendo construídos.
Tinha havido um problema no Rio de Janeiro e que o Tribunal de Contas, junto com o governador na época, Sérgio Cabral e a empresa que estava construindo, resolveram o problema. Mas passou-se a ideia para a sociedade de que aquilo tinha sido um monte de corrupção e aquilo resultou na meninada toda nervosa, toda irritada, porque não havia clima sequer para jogar futebol. A única explicação que eu tenho para aquele banho que a gente tomou da Alemanha, que se ela quisesse jogar sério teria feito mais 3 ou 4 gols.
A Alemanha, sabe, resolveu respeitar o Brasil, deixou só 7 para a gente nunca mais esquecer. Mas na Copa Feminina temos que nos redimir do que aconteceu em 2014. Nós temos que fazer disso uma festa.
Eu não esqueço nunca, Cafu, a grosseria da torcida xingando a Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil]. Eu não esqueço. Era uma coisa que eu jamais imaginei ver numa festa que o Brasil estava organizando, em que a gente fazia a abertura de uma Copa do Mundo que a última tinha sido em 1950, as pessoas tratarem uma presidenta com o desrespeito que trataram a Dilma.
Era uma espécie de clima nervoso que estava vivendo o Brasil. E aí aconteceu o que aconteceu. A gente que imaginava que ia ser seis vezes campeão do mundo, perdemos aqui no Brasil.
E tem uma história engraçada com o Brasil. A gente pensava que ia ganhar na Suíça em 1954. Surgiu um tal de Puska no time, sabe, e não deixou a gente, um time adversário.
Depois, nós pensávamos que a gente saiu desacreditado em 1958. Os jogadores, muitos com dentes cariados, muitos com dentes cariados. Muitos jogadores, o Pepe se lembra, com dentes e realmente cariados por falta de tratamento. Foi a primeira vez que a Seleção Brasileira deu tratamento minimamente digno ao jogador. A gente foi campeão do mundo, com o Pelé se sobressaindo com apenas 17 anos de idade.
Depois, a gente tinha a certeza que ia ganhar 62[1962] no Chile, quando o Pelé se machucou, a gente pensou que o mundo tinha acabado. Entrou o Amarildo e o Garrincha e resolveram ser donos da Copa do Mundo e a gente foi campeão.
Em 66 [1966], a gente pensava que era imbatível. Se convocou 40 jogadores. A loucura, se convocou 40 jogadores. A gente foi para a Copa do Mundo e tomamos uma “trolha” quando, sabe, Portugal, quando na verdade o Eusébio eliminou o Brasil. Eu lembro de uma frase do Pelé sobre o Eusébio. O Pelé uma vez me comentou que um dos melhores jogadores do mundo que ele viu jogar bola na vida dele foi o Eusébio, naquela Copa do Mundo de 66.
Depois fez 70 [1970], que eu acho que foi a seleção mais perfeita que a gente conseguiu manter. A seleção mais perfeita. A seleção até que não tinha o melhor goleiro, não tinha o melhor isso, mas ela tinha o ataque, sabe, imbatível. Acho que a gente juntou tudo aquilo que a gente tinha de melhor neste país.
Sabe, o Jairzinho. O Jairzinho. Jovem, chamado de furacão. O Gerson, que tinha sido, tanto quanto o Dunga foi, o Gerson tinha sido rifado como o fracasso da Copa de 66. Depois o Tostão, no auge da carreira dele. Depois o Pelé, no auge da carreira dele.
E depois o Rivelino, na ponta esquerda. Aquela seleção poderia tomar dois gols, que ela ia marcar três, poderia tomar quatro, que ia marcar cinco. Ou seja, era uma seleção de pessoas experientes, motivadas. E vou dizer uma coisa para vocês, gente e moleque de muito caráter.
Porque tem isso também na vida, né? Tinha o sentido de patriotismo, tinha aquele negócio de ganhar. Já a seleção de 94 [1994], a de 90 [1990], que eu fui assistir um jogo, o Brasil e Escócia, quando a gente empatou 0x0, que o Romário reclamava que deveria jogar, não colocaram ele para jogar. Bebeto não colocaram para jogar. Ou seja, a gente perdeu.
Em 94, a gente saiu desacreditado daqui. Desacreditado. Se não fosse o Romário milagroso marcar aquele gol contra o Paraguai, aqueles dois gols que ele marcou, a gente possivelmente não fosse classificado. E a seleção que saiu desacreditada para jogar nos Estados Unidos, sob a liderança do Cafú, trouxe a nossa Copa depois de 20 anos, 24 anos, sem a gente ganhar um título.
E agora está completando outra vez 24 anos que a gente não ganha um título. 24. Se a gente não ganhar agora, vamos matar o recorde dos recordes sem ganhar a Copa. Por isso eu estou convencido que nós vamos ganhar essa Copa. Eu estou convencido porque o Ancelotti [Carlo], eu achei ele uma figura extremamente séria, com a cabeça muito no lugar, e convencido de que só vai jogar, só vai jogar quem tiver 100% de condição de jogar, que não vai convocar ninguém pelo nome, vai convocar se a pessoa estiver jogando, se a pessoa estiver treinada, se a pessoa estiver preparada. E quando o técnico tem seriedade, normalmente os jogadores sabem que têm responsabilidade.
Então eu estou um pouco convencido que a gente vai ganhar essa Copa do Mundo. E você vai ser convidado para levantar um terceiro plano da Copa do Mundo também em 2026.
Bem, voltando à questão das nossas mulheres. Essa Copa do Mundo, ela tem alguns ingredientes. Primeiro, é preciso que a gente comece a valorizar o futebol feminino, como ele merece ser valorizado. Você tem jogador ganhando um milhão e meio no banco de reservas sem jogar há vários meses, e você tem pessoas, titular da Seleção Brasileira, ganhando 20 mil reais por mês, ganhando 25, algumas ganhando cinco nos clubes que estão jogando, algumas ganhando o salário mínimo.
Ou seja, é um disparate a valorização do jogador masculino e a desvalorização da jogadora mulher. É um disparate. Esse é um processo que é o chamado preconceito de gênero.
É, na verdade, a diferença que existe na sociedade machista, no tratamento que dão para as mulheres. Porque elas mereciam ganhar um pouco mais, porque são profissionais, vivem disso, cuidam da família jogando futebol, e eu acho que esta Copa do Mundo é um alento para que a gente possa, depois da Copa do Mundo, sair com as mulheres mais valorizadas. O quanto profissional, para poder as mulheres se tornarem, efetivamente, profissionais do futebol, respeitadas como são os homens hoje.
Às vezes, eu fico pensando que o Pelé, como foi o melhor atleta do século, o Pelé possivelmente não tenha ganho na vida dele toda, o que um menino ganha hoje com dois anos de futebol. Não ganhou. O Pelé ficou de 1955, de 1956, até o fim da carreira dele jogando no Santos, quando parou, aí foi para o Cosme ganhar um dinheirinho.
Eu lembro, você que é Santista, lembra de uma coisa, o Pelé, que era o melhor jogador do mundo, o Pelé tinha como empresário um depósito de material de construção. Era a riqueza do Pelé, no auge da carreira dele, nos anos 68, 69, 66, um depósito de material de construção que tinha um sócio que não era o Pepe, era o Pepe Gordo, que ainda diz que roubou o Pelé.
Então o futebol virou uma máquina de fazer dinheiro hoje. Obviamente que não para todo mundo, porque tem jogador de várzea, tem jogador em time da série C, da série D, ganhando muito pouco. Mas a verdade é que o futebol hoje virou a máquina de fazer dinheiro como jamais se imaginava que fosse acontecer. Jamais se imaginava.
E eu acho que as mulheres têm que entrar nesse ritmo. As mulheres têm que entrar nesse ritmo e ela tem que ser respeitada, não apenas no Brasil, no mundo inteiro. E tem alguns países em que as mulheres têm mais respeito. É o caso da Alemanha, os Estados Unidos, a Inglaterra, as mulheres são tratadas com um pouco mais de respeito.
E aqui no Brasil nós precisamos avançar para isso. E a Copa do Mundo Feminina vai servir para isso. Inclusive, da gente fazer um chamamento para que as mulheres possam lotar os estádios.
Quando o Corinthians foi disputar a final da Libertadores, tinha 40 mil pessoas assistindo ao jogo do Corinthians, coisa que era impensável. Então, cabe à Federação Brasileira, à Confederação, às federações estaduais, a tratar o futebol feminino com o respeito que ele merece. Não apenas do ponto de vista do salário, mas do ponto de vista do tratamento mesmo.
Então, companheiros e companheiras, eu acho que o Brasil está vivendo um momento muito importante. Diferentemente de 2014, a gente está vivendo uma situação do Brasil muito boa do ponto de vista econômico, do ponto de vista social, do ponto de vista do crescimento do emprego. As coisas estão muito, muito tranquilas.
E, portanto, Formiga, pelo amor de Deus, não nos envergonhe. Você vai ter que ser a nossa mola propulsora para fazer as meninas correrem e ganhar essa Copa do Mundo. Porque os homens vão ganhar agora em junho e as mulheres não podem ficar para trás.
Portanto, eu estou depositando muita fé. Espero que a Marta [jogadora de futebol] esteja nos ouvindo, espero que todas as jogadoras estejam ouvindo. Porque é uma coisa importante também. As jogadoras da Seleção Brasileira já estão no exterior. Muita gente. O time do Corinthians está quase desmontado. Todo mundo é vendido para o exterior. E as pessoas vão porque vão ganhar um pouquinho de dólar, um pouquinho mais do que aqui. Por ser tratada com mais respeito.
É como um jogador. Antigamente, o sonho de um jogador jovem, um moleque de 16 anos, era sair de um time do interior e vir para um time grande. E depois ir para a Seleção Brasileira. Hoje, não. Hoje, a molecada quer ir para a Europa. A molecada quer ir ganhar em dólar, aprender outra língua, ganhar dinheiro. Esse é o desejo. Então, o técnico tem mais trabalho hoje.
Cafu, não sei se você lembra, em 2002, eu conversei com o Felipão. Sabe, em 2002, a gente tinha uma seleção quase que perfeita. Em 2006, era perfeita. E a gente perdeu de uma vez, da França, nas quartas de final. Coisa que era impensável a gente perder aquele jogo. E uma coisa, o Felipão me falou, que parte do jogo se ganha no vestiário. Parte do jogo se ganha no vestiário.
Eu não sei se é verdade. Você que estava lá, o Felipão disse que ele fez um acordo com a Globo, que tinha uma repórter que entrava dentro do vestiário para entrevistar jogador. Foi um acordo que a seleção fez. Eu não sei o nome dela agora, mas é famosa. Fátima Bernardes. E o Felipão disse que exigia que a Globo desse para ele filme. Sabe, de índios, filme das favelas, os caras vendo o jogo do Brasil, torcendo. Ele disse que chamava alguns jogadores e falava, olha, é para esses caras que você tem que ganhar a Copa do Mundo. Não sei se é verdade. Em futebol, muita coisa vira lenda também.
Mas o dado concreto é que esse mesmo Felipão disse que na Copa de 2006, o auge da fama estava tão alto na cabeça de alguns jogadores que as pessoas só queriam dar entrevista, só queriam fazer propaganda. Era muita empresa fazendo propaganda. “Nego” vendia sapato, cueca, calça. “Nego” vendia tudo, porque todo mundo queria entrevistar o jogador brasileiro. Então eu acho que nós temos que levar em conta isso.
A gente tem o melhor futebol do mundo. Nós temos mais de 1.125 jogadores brasileiros jogando no exterior. Nós estamos em mais de 100 países do mundo, sabe, com o nosso futebol.
Agora a gente tem tudo para ganhar se a gente tiver vocação para ganhar como vocês tiveram em 94. 94 era quase que uma vocação. O Romário precisava provar. Sabe, a injustiça que cometeram com ele em 1990. E ainda não tinham convocado ele. Ele foi convocado, na verdade, para salvar o Brasil naquele jogo contra o Paraguai.
Então, Deus queira, Deus queira que o jogador brasileiro seja tomado do mesmo ímpeto que vocês tiveram em 94. E Deus queira que as nossas mulheres, que já foram vice-campeãs, que já foram campeã da Taça América, que já participaram das Olimpíadas, Deus queira que vocês possam trazer para nós aquela taça ali, a taça feminina, aquela taça com cara de mulher, não com cara de homem, com cara de mulher. E que uma mulher nossa possa fazer um gesto que o Bellini fez em 58, que o Mauro fez em 1962, que o Brito fez em 1970, que o Cafu fez em 94 e 2002.
O Carlos Alberto fez em 1970. Então, se isso der certo, Formiga, você não vai levantar a copa, você vai estar junto, sabendo que você é uma das propulsoras do orgulho de ser mulher nesse país. Portanto, meu caro Fufuca, parabéns. Trabalhe de forma muito forte para ajudar as nossas jogadoras. Não vamos deixar que nada fora do futebol abale o espírito das nossas guerreiras. Não vamos deixar que nada de futebol. E vamos fazer dessa Copa um exemplo que não pode ser de 2014.
Portanto, obrigado à patrocinadora Coca-Cola, que vai participar junto conosco da campanha para evitar a violência contra a mulher e contra o feminicídio, que é uma coisa muito importante. É importante vocês saberem que quando nós criamos o pacto contra o feminicídio é porque nós queremos responsabilizar os homens.
A luta contra a violência da mulher não é da mulher, ela é vítima. A luta é dos homens, que são os agressores. Então, ou nós criamos juízo e responsabilidade, porque deu até um pouco de vergonha na cara e chegamos à conclusão que mulher não foi feita para apanhar. Que homem não tem o direito de levantar a mão, seja qual for a circunstância. Não há nada que permita que um homem levante a mão para agredir uma mulher, e muito menos matar, como tem acontecido no Brasil, 1.770 mortes no ano passado. Não é possível.
Então, outra vez, Formiga, que as mulheres brasileiras e que a FIFA e a Coca-Cola façam disso uma bandeira. Levantar a copa e diminuir a violência.
Um beijo no coração e boa sorte para todos.