Pronunciamento do presidente Lula no encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Índia
O dia de hoje é um dia muito promissor para a Índia e para o Brasil. Por isso, eu quero cumprimentar o ministro do Comércio Exterior da República da Índia [Piyush Goyal]. Quero cumprimentar os ministros brasileiros que me acompanham, os deputados e senadores.
Quero cumprimentar os empresários indianos, as empresárias e os empresários brasileiros que fazem parte deste Fórum Empresarial.
Eu sou muito otimista da relação Brasil e Índia. Sou muito otimista porque nós temos muitas similaridades, porque nós temos muita coisa em comum, porque nós temos o desejo de deixarmos de sermos países, em vez de desenvolvimento, para nos transformarmos em países desenvolvidos.
As oportunidades estão dadas.
O papel do Primeiro-Ministro Modi [Narendra] e o papel do presidente da República do Brasil é apenas abrir as portas para que os empresários possam fazer aquilo que eles sabem: negociar, construir parcerias, fazer investimentos no Brasil e na Índia para que as duas economias possam crescer juntas.
Por isso, eu faço questão de participar de fóruns empresariais em todas as minhas viagens. É muito importante que os presidente aprendam que, junto com eles, eles devem levar uma delegação de empresários para que a gente possa fazer com que os negócios aconteçam de verdade.
Mas nenhum outro seminário esteve tão presente no meu planejamento.
Desde que eu combinei com o Primeiro-Ministro Modi que eu queria fazer uma visita à Índia para retribuir a visita que ele fez ao Brasil, eu disse para ele que era importante que nós tivéssemos uma grande reunião empresarial para fazer jus aos desejos da Índia, aos desejos do Brasil de se transformarem em grandes economias.
Por isso, eu mandei aqui meu Vice-Presidente Geraldo Alckmin, que chefiou a primeira delegação empresarial no ano passado.
Nesta minha visita de Estado, venho acompanhado possivelmente da maior delegação de ministros, e a maior delegação de empresários de todas as viagens que eu fiz até agora, numa demonstração do compromisso que eu tenho com a Índia.
As trocas comerciais e os fluxos de investimento conferem lastro às relações políticas entre os países.
Eventos como este impulsionam o desenvolvimento nacional e o avanço de tecnologias inovadoras.
Também atraem investimentos que geram oportunidades e renda para o povo trabalhador da índia e para o povo trabalhador do Brasil.
A distância entre o Brasil e a Índia é apenas um detalhe diante do potencial de amizade entre Brasil e Índia.
Tive a honra de estar à frente da celebração da nossa Parceria Estratégica em 2006.
De lá para cá, nosso comércio bilateral saltou de 2,4 bilhões de dólares para 15,2 bilhões, em 2025.
É um grande crescimento, mas é muito pouco diante do tamanho da Índia e do tamanho do Brasil.
Mas vocês imaginam que, em 2006, o nosso comércio era de apenas 2 bilhões e 400 milhões [de dólares]. Ou seja, nada. Numa demonstração de que nem a Índia olhava para o Brasil nem o Brasil olhava para a Índia.
Todos nós, todos nós, fomos criados e orientados para olhar para as grandes potências. Para olhar para a Europa; para os Estados Unidos; para o Japão, mais recentemente, para a China e a gente não se olhava. Nós não nos enxergávamos
E nós agora resolvemos mudar esse comportamento. Resolvemos mudar esse comportamento porque o potencial de entrosamento político, econômico, cultural, científico e tecnológico entre Brasil e China é uma coisa de uma dimensão tão grande que nós talvez não tenhamos capacidade de enxergar isso.
Eu estava dizendo agora há pouco para os empresários que eu estive na Índia em 2005, quando a Índia conseguiu, pela primeira vez, ter uma reserva internacional de 100 bilhões de dólares. Isso em 2005.
O Brasil não tinha nenhuma reserva. O Brasil devia 30 bilhões de dólares ao FMI [Fundo Monetário Internacional] e o Brasil era sempre cobrado por fiscais do FMI indo ao Brasil.
Por conta daquela minha viagem à Índia, eu resolvi que o Brasil deveria ter reservas internacionais. Em pouco tempo, nós chegamos a ter 370 bilhões de dólares de reservas internacionais.
Naquele mesmo ano de 2005, o Brasil, pela primeira vez, conseguiu exportar o equilavalemnte a 100 bilhões de dólares. Foi uma festa para o Brasil.
Hoje, nosso fluxo internacional chega a 640 bilhões de dólares. Numa demonstração de que as possibilidades estão aí.
O Primeiro-Ministro Modi e eu nos comprometemos a trabalhar para chegarmos a 20 bilhões de dólares de intercâmbio em poucos anos.
Eu queria lembrar que quando eu vim aqui em 2005, eu e o Primeiro-Ministro Singh [Manmohan, Primeiro-Ministro da Índia 2004 - 2014], nós comprometemos a chegar a 10 bilhões de dólares 10 anos depois.
Ou seja, eu disse ao Primeiro-Ministro Modi que 20 bilhões de dólares é muito pouco para o Brasil e para a Índia. Com a quantidade de empresários indianos que já estão no Brasil e com a quantidade de empresários brasileiros que querem fazer investimento na Índia; e com a tentativa de se colocar um fim no multilateralismo e se implantar o unilateralismo China [Índia] e Brasil, ao invés de ficar chorando aquilo que não aconteceu, nós temos que fazer acontecer entre os nossos dois países.
Portanto eu acho, e disse ao Primeiro-Ministro Modi, que a gente ao invés de 20 [bilhões de dólares] chegar a 30 bilhões de dólares de comércio entre os dois países. É só correr atrás.
No mundo de hoje, conectividade e diversificação comercial viraram sinônimo de resiliência, diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial.
Desde o início de meu mandato, o MERCOSUL assinou acordos com Singapura, EFTA [Associação Europeia de Livre Comércio] e União Europeia.
Ampliar significativamente o Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUL–Índia, que vigora desde 2009, é uma prioridade, com vistas a um futuro acordo de livre-comércio.
Dois mercados tão importantes como o Brasil e a Índia precisam de um arcabouço mais abrangente e ambicioso.
O interesse recíproco é crescente.
Mais de 100 missões empresariais brasileiras visitaram a Índia nos últimos três anos.
Um grande número de empresários se beneficiará da extensão da validade dos vistos de negócio e de turismo, de cinco para dez anos.
Para apoiar o setor privado dos dois países a identificar oportunidades e fechar negócios, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos inaugurou ontem seu escritório aqui em Délhi.
O acordo sobre Cooperação em Micro, Pequenas e Médias Empresas que assinamos hoje vai apoiar a troca de experiências em um setor vital para a geração de empregos e para as nossas economias.
Nos setores de ponta — como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial — as oportunidades são inúmeras.
A Parceria Digital com a Índia é a primeira dessa natureza assinada pelo Brasil.
Ela reunirá a cooperação em inteligência artificial, computação de alto desempenho e startups de base tecnológica.
Também somos líderes na criação de infraestruturas públicas digitais.
O Pix brasileiro e o India Stack mostram que é possível democratizar a tecnologia e colocar a inovação a serviço da inclusão.
Enfrentar a mudança do clima é uma obsessão do meu governo.
Neste ano, reduzimos em 50% o desmatamento na Amazônia com relação a 2022.
Em 2026, teremos a menor taxa de desmatamento da história.
O Brasil está fazendo sua parte para assegurar um planeta habitável para as próximas gerações.
Monitoramos nossos biomas e usamos a ciência como ferramenta de cuidado e de soberania.
Juntamente com a Índia, queremos ser motores de um novo modelo de desenvolvimento.
Transformamos os desafios da transição energética e da mudança do clima em oportunidades.
A Índia é o mercado de bioenergia que mais cresce no mundo, e o Brasil tem meio século de experiência com o etanol e motores flex.
No marco da Aliança Global para Biocombustíveis, estamos criando um mercado mundial.
A transição energética e digital não se fará sem minerais críticos.
O Brasil conta com, pelo menos, 26% das reservas mundiais de minerais críticos, tendo apenas 30% de seu território prospectado.
Assim como a Índia criou a “Missão Nacional de Minerais Críticos”, o Brasil vai criar um Conselho Nacional vinculado à Presidência da República para garantir a nossa soberania.
Queremos atrair a cadeia de processamento dessa riqueza para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes.
O acordo que assinamos hoje com a Índia vai, exatamente, nessa direção.
Meus amigos e minhas amigas,
Há sinergias também no setor agropecuário.
Somos o segundo e o quarto maiores produtores de alimento do mundo.
O rebanho zebuíno brasileiro teve sua origem no início do século 20, com importações de exemplares de nelore e gir do Gujarat, estado natal do Primeiro-Ministro Modi.
Hoje, o Brasil vende sua genética animal para a Índia.
Podemos cooperar na integração de cadeias produtivas agrícolas, na inovação tecnológica, no uso sustentável do solo e na segurança alimentar global.
O Complexo Industrial da Saúde é outra vertente estratégica da cooperação e do comércio bilaterais.
A Índia é um grande fornecedor de insumos farmacêuticos para o Brasil.
Temos um histórico de atuação conjunta para garantir acesso amplo e barato de medicamentos genéricos para populações de baixa renda e para países em desenvolvimento.
Neste Fórum, celebramos três acordos de parceria estratégica da Fiocruz com empresas locais para desenvolvimento conjunto de vacinas, medicamentos e insumos essenciais.
Outro campo com enorme potencial é o de hospitais inteligentes, como o que o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, visitou em Bangalore.
A indústria brasileira é competitiva em vários setores de elevado conteúdo tecnológico e valor agregado, como o aeronáutico e o espacial.
A Índia já é o terceiro maior mercado de aviação comercial do mundo e um dos maiores mercados globais de defesa, com ambiciosos programas de modernização.
Em ambas as áreas, o Brasil está pronto para colaborar.
Não queremos apenas vender.
Queremos comprar, investir e consolidar nossa presença na Índia, com transferência de tecnologia e formação de pessoal.
Os acordos assinados pela Embraer com o Grupo Adani e a Mahindra vão propiciar a produção de aeronaves comerciais e de defesa aqui na Índia.
Para atrair investimentos, o Brasil fez uma reforma tributária histórica, que certamente o ministro Fernando Haddad [da Fazenda do Brasil] falou hoje na explanação dele.
Hoje, oferecemos segurança jurídica e estabilidade econômica, política e social.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a Nova Indústria Brasil (NIB) — que mobilizam mais de 50 bilhões de dólares — estão abertos à participação indiana em áreas de energia limpa, mobilidade elétrica, saúde, aeroespacial, semicondutores e inovação digital.
Meus amigos e minhas amigas,
O Brasil vai continuar a expandir nossas relações com o mundo — sem distinção ou alinhamentos automáticos.
Os negócios não têm cor, religião ou ideologia.
Vocês, empresárias e empresários, serão centrais para que essas oportunidades se tornem realidade.
Parafraseando a Primeira Ministra Indira Gandhi ao visitar o Brasil em 1968, o futuro não chega por si só — precisamos desejá-lo.
Vamos ao trabalho.
Boa sorte!