Pronunciamento do presidente Lula no encerramento da 6ª Conferência Nacional das Cidades
Antes queria compreender um número que o ministro Jader [Filho, das Cidades] falou aqui. Eu queria entender o seguinte, você disse que no PAC nós colocamos 3 milhões e meio [de reais] só para o estado de Minas Gerais, então quando a gente determinou 3 bilhões e meio, o que o governador tinha que fazer para que esse dinheiro fosse para Minas Gerais?
Ministro Jader - Apresentar o projeto e a documentação para que as obras pudessem ser contratadas, ele fazia a licitação e iniciava a obra.
Presidente Lula - E ele apresentou quantos projetos?
Ministro Jader - Até agora nenhum.
Presidente Lula - É só, eu estou perguntando isso porque amanhã, amanhã eu vou a Juiz de Fora fazer uma visita para as famílias das pessoas que foram vítimas da chuva. Eu vou fazer uma visita. Eu vou à Ubá também fazer uma visita e vou conversar com os prefeitos das cidades. Nós temos problemas também na região de Paraty, na região de Angra dos Reis, temos alguns problemas no interior de São Paulo e isso, companheiros e companheiras, é o resultado do descaso histórico que se tem com o povo pobre deste país.
É o descaso, porque um prefeito, ele pode saber antemão que uma determinada área não pode ser ocupada porque ela não garante condições das pessoas morarem por conta disso, porque pode haver deslizamento, porque pode haver enchente.
Então, o prefeito sabe disso. Então, é importante que a gente comece a discutir que nunca na história do Brasil um governo teve tanta preocupação em colocar dinheiro para cuidar de urbanização, para cuidar de saneamento básico, para cuidar de encosta. Porque nesse Brasil os pobres são invisíveis, as pessoas não querem enxergar. E quando vocês se organizam e reivindicam uma Conferência Nacional da Cidade, quando vocês reivindicaram o Ministério da Cidade, vocês sabem o que isso resultou de benefício para a população brasileira. Eu não sei por que alguém toma a atitude de acabar com o Ministério das Cidades.
Eu não sei que atitude tem um governo que resolve acabar com políticas públicas que permitam ao povo o direito de viver minimamente com decência. Então, eu queria dizer para vocês, olha, qual é a nossa relação? Primeiro, eu quero dizer para vocês, os movimentos, os líderes, que estão reclamando faz tempo que não tem audiência comigo. Eu fui comunicado hoje, porque nunca chegou um pedido oficial, que chegou ontem. Ontem, chegou um pedido oficial que as entidades querem uma reunião comigo. Então, eu posso dizer, então a gente vai ter uma reunião com vocês, possivelmente nos próximos dias, a gente vai fazer uma reunião para ouvir vocês.
E eu queria dizer para vocês, gente, que há razão de eu ter sido eleito presidente em 2003, de eu ter sido reeleito em 2006, da Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil] ter sido eleita em 2010, dela ter sido reeleita em 2014, de eu ter sido reeleito em 2022. Eu não devo isso a nenhum banqueiro da Faria Lima. Eu não devo isso a nenhum grande empresário brasileiro e nem a um grande latifundiário. Eu devo isso a vocês.
Então, é importante que vocês saibam que eu sei de onde eu vim, eu sei para onde eu vou, eu sei quem são meus amigos de sempre, eu sei quem teve do meu lado quando eu estive preso. Vocês podem ter certeza, vocês conquistaram o direito, não de me eleger, vocês conquistaram o direito de cobrar de mim tudo o que vocês quiserem cobrar.
Porque essa é a relação fidedigna que a gente tem que ter, uma reação de companheiros que se conhecem, que já viveram o mesmo drama e que, portanto, a gente sabe para quem que a gente tem que governar. Isso é muito importante. E o que é que vocês têm que levar em conta? Vocês têm que levar em conta o que aconteceu com vocês depois do impeachment da Dilma.
Eu não vou citar nomes, mas vocês têm que levar em conta o que aconteceu com o impeachment da Dilma. Vocês sabem o que aconteceu. Acabaram com o Ministério da Cultura, acabaram com o Ministério da Igualdade Racial, acabaram com o Ministério dos Direitos Humanos, acabaram com o Ministério das Cidades, não existia Ministério dos Povos Indígenas, acabaram com o Ministério do Trabalho, ou seja, com o Ministério da Cultura também. E acabaram com várias políticas públicas que a gente tinha.
Então, vocês sabem o que uma tempestade faz. E este ano vai ter eleição. E é importante que vocês levem em conta -- a gente não pode falar em eleição --, é importante vocês levarem em conta que cabe a vocês não permitirem que uma pessoa que vai destruir aquilo que vocês construíram possa chegar à Presidência da República deste país.
Vocês sabem perfeitamente bem que eu estou falando que na hora de votar para deputado, na hora de votar para senador, é importante a gente saber em quem que a gente está votando. A gente não pode votar para quem recebe um número. A gente precisa analisar quem são as pessoas que estão pedindo o nosso voto. Porque se não, a gente vai cometer erro e a gente vê, por exemplo, você tem uma bancada ruralista com mais de 170 deputados e você tem dois trabalhadores rurais eleitos deputados.
Quantos operários nós temos na Câmara dos Deputados? Quantos? Dois ou três deputados? Quantas mulheres nós temos? Ou seja, significa que algo está errado na nossa compreensão quando chega no dia de votar. A gente nunca consegue eleger aquilo que é o pensamento da gente durante quatro anos antes das eleições. É importante que vocês pensem nisso, porque vocês sabem o que significa o retrocesso.
Vocês sabem o que significa o desemprego. Vocês sabem o que significa o abandono de milhares de casas que nós encontramos desconstruídas, casas abandonadas. Foram mais de 87 mil casas abandonadas, quase 6 mil escolas e creches abandonadas.
Isso tem um custo para o Brasil, mas, sobretudo, tem um custo para a sociedade brasileira, tem um custo para o povo. Quantos institutos federais eles fizeram? Quantas universidades eles fizeram? Quantos empregos eles geraram? Quantas casas verdes e amarelas eles fizeram? E depois tem uma coisa, vocês que usam o celular, vocês têm que ser duplamente espertos. Vocês que participam de grupos de zap, vocês que passam o dia inteiro no celular e, à noite, ficam cutucando o dedo no celular e, de manhã, levantam cutucando o dedo, procurando notícia no celular.
O que vocês têm que procurar tanta notícia que não interessa para vocês? E aí tem muita gente contando mentiras. Tem mais gente contando mentira do que gente contando a verdade. Tem mais coisa ruim do que coisa boa. Tem mais violência do que paz e amor.
Então, é preciso que a gente saiba fazer uma divisão, porque na campanha vem uma coisa agora chamada inteligência artificial, que pode mudar a voz, pode mudar a cara, pode inventar, pode pegar esse companheiro que está na cadeira sentado e fazer dele, uma inteligência artificial, e colocar ele pelado, sentado, do jeito que ele está aí. E é importante que a gente fique atento para a gente não acreditar em mentiras.
É muito importante. Se tiver alguma coisa berrante, você tem que denunciar para alguém, porque a gente não pode permitir que a mentira derrote a verdade, que a mentira prevaleça.
E aí tem mais uma briga, a violência contra a mulher. Eu resolvi assumir essa briga, porque a briga contra as mulheres, a mulher, ela faz o movimento, as passeatas, os protestos, nós fazemos a lei, mas a violência continua. E não é a mulher que bate no homem, que mata o homem, é o homem que bate na mulher e mata a mulher. Então, nós homens precisamos repensar o nosso comportamento.
O que é que um homem tem que bater na mulher? Se a mulher não quer mais ele, paciência. Paciência, ninguém é obrigado a viver com ninguém. Se ele não quiser a mulher, ele também não é obrigado a ficar junto, vai embora.
Mas não pode transformar sua companheira num saco de pancada. Não pode. Então, o que é que eu estou reivindicando? Eu assumi a responsabilidade de assumir essa luta e construímos um Pacto Contra o Feminicídio, que envolve o Poder Judiciário, que envolve o Senado e a Câmara e que envolve a Presidência da República.
E o nosso movimento é para que o homem assuma a responsabilidade. Um bispo, quando ele for rezar uma missa, ele comece falando da violência contra a mulher e pedindo para o homem parar de ser violento. Um pastor vai fazer o seu culto, vai fazer os seus milagres. Faça o milagre de evitar que os homens batam na mulher.
Um dirigente sindical vai na porta de fábrica fazer discurso para aumentar o salário dos trabalhadores. Fale para os trabalhadores não serem violentos com as suas companheiras, porque a mulher é vítima de ex-marido, de ex-namorado. A mulher é vítima de amigos do trabalho, sabe? Ela é vítima de tudo. Então, até da polícia. Então, é importante que a gente... eu falei esse dia para o movimento sindical, vai para a porta da fábrica, faça a sua reivindicação, mas, ao mesmo tempo, fale para os homens terem um outro comportamento.
E isso é tão sério, que eu falei para o ministro da Educação [Camilo Santana], que a gente vai ter que começar a preparar, na creche, o menino para ele ser educado e saber que ele não é maior do que a mulher, que é mais importante do que a mulher. Se a gente não começar a ensinar isso desde pequeno, ele começa nascendo achando que ele é melhor do que a mulher, que ele pode violentar a mulher, que ele pode bater na mulher, que ele é mais forte que ela. E nós temos que ensinar que não é verdade.
Está cheio de mulher mais forte que homem, está cheio de mulher mais inteligente que homem, e o homem é tão invejoso que ele não aceita que a mulher ganhe mais do que ele. Veja, nós homens que estamos aqui. Às vezes, a gente encontra os amigos, vai tomar um “birinaite” e chega em casa meia noite. A mulher está esperando a gente desde às sete. E a gente fica dizendo para a mulher, não, meu amor, você tem que compreender, meu amor. Eu estava com meus amigos, eu fui jogar um futebol de salão, eu fui jogar um futebol society, eu fui fazer não sei o quê. Compreenda, meu amor.
Então, ele quando chega com cinco horas de atraso, ele quer que a mulher compreenda. Se a mulher chegar com meio minuto de atraso, ele já está nervosinho. Se ela for comer uma pizza com as amigas delas, ele já não aceita e fica nervosinho. Então, é preciso um processo de educação de homem para homem. Sabe, é isso que nós temos que fazer.
Por isso que eu assumi essa responsabilidade. Em qualquer lugar que eu abrir a boca, eu vou dizer para nós homens, quem bate mulher não é homem, é covarde. Esse é o dado.
Sabe, quem me levanta a mão, a minha mãe era analfabeta. A minha mãe dizia para mim: “meu filho, você casou. Se um dia você tiver que levantar a mão para a sua mulher, é melhor que a sua mão caia. Você saia de casa, deixe a sua mulher viver a vida dela e vá viver a sua vida”.
Porque normalmente o cara mata de ciúmes, o cara mata de raiva, o cara mata de desconfiança. Sabe, porque muitas vezes, as pessoas pensam que o homem é dono da mulher –"É minha propriedade” --, mulher não é propriedade de ninguém. Mulher é livre, ela faz o que quiser, trabalhar onde quiser, se veste como quiser. Olha, se a gente não fizer isso, a gente não muda o mundo.
A gente não muda. Então, eu queria dizer para vocês, companheiros e companheiras, que eu estou num momento muito especial da minha vida. Eu acho que aos 80 anos eu vivo o meu melhor momento nesta passagem pelo planeta Terra. Eu tenho uma companheira extraordinária. Eu estou bem de saúde e me cuido.
Só para vocês saberem, eu levanto todo dia às 5 e meia da manhã e faço duas horas de ginástica. Faço todo dia uma hora a seis quilômetros por hora. Eu cuido da perna, porque a gente começa a envelhecer pela perna. Se o marido de vocês estiver arrastando a perna, pode saber que ele está ficando velho.
Mande ele treinar, fazer ginástica, correr, fazer qualquer coisa. Porque quando você começa a arrastar a perna, é porque você está chegando no fim. E eu, sinceramente, eu quero viver até 120 anos e, para mim, eu só vou ter fim quando não tiver uma causa.
Como a minha causa são vocês, eu jamais vou parar de ter uma causa para lutar neste país. E eu estou bem, porque a gente está vivendo um momento econômico muito bom. É a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil.
É o menor desemprego da história do Brasil. É o maior aumento da massa salarial da história do Brasil. É a maior exportação da história do Brasil. É o melhor saldo comercial da nossa história. E o preço da comida barateou. Vocês pegam para vocês verem o custo da comida como baixou.
E vai baixar ainda mais. E vocês têm que ajudar. Se pegar um negócio que está caro demais, denuncie. A gente tem que saber. Porque o presidente da República não está em supermercado toda hora. Mas vocês estão.
Então, vocês têm que ajudar a gente a cuidar deste país. Se a elite brasileira soubesse a inteligência acumulada em duas, três mil pessoas em uma conferência dessas, eles jamais deixariam de convocar uma conferência. É que eles preferem juntar meia dúzia de empresários e cuidar da vida deles.
Se eles soubessem que na cabeça de cada um de vocês tem uma inteligência e que a gente juntar essa inteligência, a gente fica quase que invencível. É só acreditar. E eu acredito em vocês. Porque, na verdade, eu sou um de vocês que cheguei à Presidência da República. Nada mais do que isso.
Nós vamos chegar ao recorde de 3 mil casas populares. Três mil casas do Minha Casa Minha Vida. Três milhões. Três milhões. Eu tinha prometido dois milhões, vamos chegar a três milhões.
Eu fui numa casa, é verdade, eu fui numa casa no Rio Grande do Sul que tinha uma churrasqueira. Uma churrasqueira. Agora todos os prédios estão tendo... estão tendo a “varandinha do pum”. Vocês sabem da história.
Eu fui inaugurar um prédio no Rio de Janeiro e eu perguntei para o presidente da Caixa, que era o Hereda [Jorge Fontes], e perguntei para o empresário. “Por que não tem uma varandinha? Quanto custa uma varandinha de um metro no prédio?” Não custa nada, cara. Você tem que fazer a varandinha.
Porque, às vezes, está o marido, a mulher e dois filhos vendo televisão, tem alguém que está com o intestino meio ruim, solta um pum fedido, os outros são obrigados a ficar cheirando aquele pum, pô. Então, faz a varandinha, o cara levanta, faz na varandinha, faz o sucesso dele e volta. Volta depois que passar o cheiro. Porque não adianta fazer lá fora e voltar. Não, tem que esperar um pouco. É uma questão de respeito, gente.
Eu falei isso brincando, porque é uma questão de respeito. É uma coisa tão simples. Eles têm, quando você vai no apartamento do rico, tem 50 metros de varanda. Por que é que eles têm tanta varanda e nós não temos nenhuma? E as casas rurais também. Tem que pensar num fogãozinho à lenha também. Só para fazer uma coisinha diferente.
Você já comeu um feijãozinho feito num fogão à lenha? Já comeu um franguinho com quiabo feito num fogão de lenha? Então, é o seguinte, não é que a gente quer queimar lenha, mas, uma vez na vida, fazer num fogãozinho de lenha, não tem nada melhor do mundo. E as casas têm que ser feitas de acordo com as necessidades da pessoa.
Uma vez eu fui inaugurar uma casa em Feira de Santana, Jader. Eu fui inaugurar uma casa. E aí, quando eu fui entregar a chave para a mulher, que ia ganhar a casa, veio a mulher, o marido e dois filhos. Os quatro cegos. Na hora, eu perguntei para o empresário, me diga uma coisa, na casa que esse companheiro vai morar, tem alguma coisa especial para eles andarem dentro de casa, para ir para a cozinha, para ir ao banheiro? Não tinha. E eu fiz ele e o meu querido companheiro Hereda assumir o compromisso que eles iam fazer as coisas especiais, a acessibilidade para as pessoas.
Eu fui a Manaus, com o Eduardo Braga [senador e ex-governador do Amazonas], inaugurar um conjunto habitacional. Primeiro, quando nós vamos subir da rua, para subir na varanda da casa, tinha uma altura desse tamanho. Quatro moleques cegos, a mulher cega e o marido cego. Eu falei, Eduardo, pelo amor de Deus, como é que vai dar uma casa dessa para essa família? Vai todo mundo quebrar a cara. É muito alto para descer.
Então, se a gente não levar em conta, de olhar com sensibilidade o direito à acessibilidade, a gente não faz as coisas corretas, porque custa barato fazer as coisas corretas. E aí eu quero dar um parabéns para o Minha Casa Minha Vida Entidades, porque as entidades conseguiram. As entidades conseguiram fazer casa maior do que as outras casas e com mais qualidade que as outras casas. Então, é o seguinte, a gente não tem que ter medo de dar às pessoas como vocês o direito de provar que vocês podem fazer as coisas.
E é isso que nós queremos fazer. E por isso, Jader, eu quero te agradecer pela compreensão que você tem dessa conferência e dessa gente toda. Essa gente aqui, Jader, essa gente aqui é que está com a gente na chuva, que está com a gente no sol, que está com a gente quando está com barriga cheia e quando está com barriga vazia. É essa gente que vai à luta quando a gente precisa.
E é por isso que eu digo para vocês, nós temos que fortalecer a conferência, nós temos que fortalecer, nós temos que fazer mais casas, cada vez mais, para que a gente possa ter nesse país todo mundo com a sua casinha própria para morar.
Deixa eu falar uma coisa, gente. Me falaram aqui que tem gente que vai pegar avião sete horas e estão com medo de perder o avião. Eu, quando terminar de falar, eu queria descer para cumprimentar essas pessoas que estão aqui numa cadeira de roda. Mas se eu descer e quem está aí invadir aqui, não vai dar para cumprimentar.
Então eu queria que vocês permitissem primeiro que eu abraçasse essas pessoas que estão em situação, sabe, mais delicada para depois abraçar o restante das pessoas, tá? Mas é preciso que tenha compreensão, porque se todo mundo invadir aqui, eu termino não abraçando as pessoas que eu quero priorizar. No mais, companheiros e companheiras, que Deus abençoe cada um e cada uma de vocês. Quero que Deus dê a vocês a força necessária para que vocês nos ajudem a continuar lutando para mudar este país.
Pode ter certeza, nós nunca mais vamos permitir que a mentira derrote a verdade. Nós nunca mais vamos permitir que a insensatez tome o lugar da sensatez. Nós nunca mais vamos permitir que o ódio ocupe o lugar do amor. E nunca mais vamos permitir que a paz perca lugar para a guerra.
Dito isso, um abraço. E viva a 6ª Conferência das Cidades.
Viva o Brasil! E viva as entidades que cuidam de moradia neste país!
Um beijo no coração, gente!