Pronunciamento do presidente Lula no 14º Encontro Nacional do MST, em Salvador (BA)
Queridas companheiras e queridos companheiros, trabalhadores rurais do Movimento Sem Terra e de outras entidades do movimento na luta pelo campo neste país. Vamos deixar a bandeira rolar.
Bem, companheiros e companheiras que participam do 14º Encontro Nacional do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], companheiros ministros do meu governo, Sidônio [Palmeira, Secretaria de Comunicação Social da Presidência], Marcia [Lopes, Mulheres], Boulos [Guilherme, Secretaria-Geral da Presidência], companheiro Rui Costa [Casa Civil], Paulo Teixeira [Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil], Gleisi Hoffmann [Secretaria de Relações Institucionais], companheiros da direção do Movimento Sem Terra, companheiro João Pedro Stedile [dirigente nacional do MST] e João Paulo [Rodrigues, dirigente nacional do MST], que me parece que são remanescentes da velha diretoria do MST. Finalmente uma renovação aqui, mas o João Paulo conseguiu ficar. Veja que coisa. Este João Paulo é esperto, viu?
Este João Paulo é que nem o Fidel Castro [ex-presidente de Cuba], muda, mas ele fica. O João Pedro diz que é que nem o Lula, tudo muda no PT, mas o Lula fica. E o João Paulo, tudo muda no MST, mas o João Paulo fica.
Bem, você sabe que eu tenho uma crise agora profunda, sempre de ser o último orador. Eu estou brigando comigo mesmo, porque eu todo dia ouço muita gente falar, e quando eu vou falar, o pessoal já falou tantas coisas que eu tenho que inventar outras coisas para falar. Eu já combinei com a direção do MST, que ainda no mês de fevereiro, eu quero ter uma reunião com o agrupamento do movimento rural neste país, para discutir com mais precisão tudo o que foi feito, e para discutir o que precisa ser feito no próximo período neste país.
Vocês se lembram que quando eu tomei posse em 2023, eu chamei o ministro da Reforma Agrária [Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar], chamei a presidência do INCRA [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], e pedi para eles que eu desejava um levantamento de todas as terras no Brasil possíveis de serem disponibilizadas para a Reforma Agrária: aquelas que estavam em conflito; aquelas que estavam sendo adjudicadas; aquelas terras que era necessário a gente desapropriar, comprar ou fazer acordo para que a gente pudesse fazer o máximo possível de assentamento.
Isso falado parece ser muito fácil, parece ser muito fácil de fazer. Acontece que quando os companheiros tomaram posse, a primeira dificuldade que eles encontraram é que o INCRA não tinha estrutura sequer para fazer 10% das coisas que eu queria que fosse feito. Então, é preciso reestruturar, fazer concurso, contratar mais gente para você começar a fazer um levantamento.
Na conversa com os bancos públicos brasileiros, sobretudo com o Banco do Brasil, que está aqui a nossa companheira Tarciana [Medeiros, presidenta do Banco do Brasil], a mulher que mais empresta dinheiro para o FAT [Fundo de Amparo ao Trabalhador] neste país, que merece uma salva de palmas. É a primeira banqueira junto com a Caixa Econômica Federal [Carlos Vieira, presidente da Caixa], que é outro companheiro valoroso, e eu acho que pela primeira vez a gente vai, no Encontro Sem Terra, aplaudir o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, porque no nosso governo eles funcionam a serviço do povo trabalhador deste país.
Vocês viram os anúncios das casas, feito pelo companheiro João Paulo? Vocês viram os anúncios de muitas coisas que foram feitas? Mas eu sei que falta fazer muito mais. Inclusive, eu pretendo, ir no Pontal do Paranapanema, e pretendo também ir a uma cidade, Andradina, em São Paulo, fazer duas coisas: a gente tem interesse de, ainda este ano, distribuir 300 mil embriões para melhorar a qualidade do rebanho leiteiro dos pequenos produtores rurais brasileiros que vivem da produção de leite. E isso é muito mais rápido do que inseminação. E eu vou tentar fazer essa experiência lá em Andradina, que também vamos tentar financiar uma fábrica de laticínio, de leite em pó, uma fábrica de leite em pó aos pequenos produtores.
Vamos satisfazer o companheiro Baggio [Roberto, dirigente do MST no Paraná] e resolver totalmente a questão da reforma agrária naquela terra da empresa do Paraná. Araupel, que há tantos anos esse moço briga para resolver. Está resolvido uma parte. Custou 584 milhões de reais para resolver uma briga dessa, que vai assentar quase 3 mil pessoas. Mas eu sei que ainda falta muita coisa.
E por isso vocês precisam compreender de que tudo acontece de acordo com a correlação das forças políticas existentes no nosso país. Nós precisamos estar convencidos, convencidos de verdade. Se a gente não se envolver na política, se a gente não tomar consciência de que a gente precisa ter noção de que gostar da política não é gostar de coisa errada.
Gostar da política é assumir a responsabilidade de definir o projeto que a gente quer para o nosso movimento, mas o projeto que a gente quer para o nosso país. Não adianta a gente sonhar muito e depois, no resultado eleitoral, coloca 574 deputados como bancada ruralista e apenas dois sem-terra eleitos como deputado federal. O João Daniel [deputado federal] sabe como é difícil.
O Valmir [Assunção, deputado federal] sabe como é difícil. Então é preciso que a gente comece a pensar corretamente na política. E eu fiquei muito feliz hoje, companheiro João Paulo, quando vocês me apresentaram um conjunto de companheiros do Sem Terra que vão ser candidatos nas próximas eleições.
Graças a Deus vocês tomaram a decisão de entrar na política. Porque sabe qual é a desgraça de quem não participa da vida política? Você sabe qual é a desgraça de quem não gosta de política?
É que é governado por quem gosta. E se quem gosta, não gosta de nós, não vai acontecer nunca as coisas que nós queremos. Foi por isso que eu resolvi criar o PT [Partido dos Trabalhadores].
Eu fui a Brasília brigar contra uma lei de greve. Saí de São Bernardo disposto a visitar o gabinete de 513 deputados. Quando eu cheguei lá, Jerônimo [Rodrigues, governador da Bahia], eu descobri que só tinha dois trabalhadores no Congresso Nacional.
O Aurélio Peres, que era metalúrgico do PMDB de São Paulo, e o Benedito Marcílio, que era presidente do sindicato dos metalúrgicos de Santo André. Aí eu fiquei com a cara de tacho, porque eu entrava no gabinete dos deputados e eu falava: “companheiro, você não pode votar essa lei de greve, essa lei não vai deixar bancário fazer greve, essa lei não vai deixar metalúrgico fazer greve”. E o cara falava assim pra mim: “eu não preciso do voto de vocês, eu não fui eleito pelo voto de vocês”.
Aí eu voltei pra casa e falei, então não tem jeito, eu vou ter que criar um partido. E criei um partido. E eu tenho dito isso para a juventude brasileira, a juventude rebelde, que muitas vezes não gosta de política, que muitas vezes diz que odeia política: o político que ele quer está dentro dele, não está dentro de mim.
Então, ele tem que entrar na política, ele tem que ser candidato a alguma coisa, ele tem que participar, porque a omissão leva a gente a ver o que aconteceu neste país. Essa é uma coisa que nós precisamos aprender. E eu fico feliz que o Movimento Sem Terra tenha tomado a atitude de participar mais ativamente da luta eleitoral para eleger companheiros e companheiras.
A segunda coisa, companheiros, é que muitas vezes a gente vai num encontro maravilhoso como esse e a gente fala de tudo. A gente consegue falar de tudo. A gente consegue criticar tudo.
E uma coisa que falta a gente fazer é falar as coisas boas que nós fizemos. As coisas boas. Quando a gente critica o agronegócio, 90% das críticas são verdadeiras. Mas a contrapartida é dizer o que nós fizemos. O que acontece neste país por conta do pequeno e médio produtor brasileiro. Quem é que produz alimento?
Quem é que luta contra o agrotóxico? Quem é que tenta produzir o alimento que vai para a nossa mesa? Somos nós. E é preciso que o mundo saiba que somos nós que fazemos isso. É preciso. Porque o agronegócio produz para exportar e o pequeno produz para a gente comer.
E isso precisa ficar claro para a sociedade brasileira. E nós temos que repetir todo dia todo o discurso que vocês fizeram. Você tem que colocar o que acontece na mesa de cada um quando vocês recebem financiamento, quando vocês recebem financiamento para comprar máquinas, quando vocês têm o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos].
Vocês sabem a diferença. Porque nós tivemos oito anos de Temer [Michel, es-presidente do Brasil] e de Bolsonaro [Jair, ex-presidente do Brasil]. E vocês sabem como é que era este país. E vocês sabem a diferença com apenas três anos do nosso governo. Essa coisa que faz a diferença nas conquistas que nós vamos ter daqui para frente. Isso não vale só para nós, dos trabalhadores rurais.
Vale para os metalúrgicos. Você sabe que quando eu era presidente em 2010, a indústria automobilística produzia 3 milhões e 600 mil carros em 2010. Quando eu voltei em 2023, a indústria automobilística produzia só 1 milhão e 600 [mil].
Menos da metade do que produzia 15 anos atrás. Onde é que foram esses trabalhadores? Onde é que eles foram?
Faziam parte dos 33 milhões que estavam passando fome nesse país. Quando nós deixamos a presidência em 2010, a gente tinha 82 mil trabalhadores trabalhando na indústria naval. Eu fui agora a Rio Grande, uma cidade portuária do Rio Grande do Sul. Nós chegamos a ter 15 mil trabalhadores. Caiu para 200. E agora vamos voltar para 15 mil outra vez.
Porque nós estamos outra vez fazendo navio aqui no Brasil. Fazendo grande, pequeno e médio navio. É importante a gente saber, a última vez que o Brasil tinha crescido acima de 3%.
Esse é um dado que vocês não podem esquecer. A última vez que este país tinha crescido acima de 3% no PIB [Produto Interno Bruto] foi em 2010, quando eu era presidente da República, que a gente cresceu 7,5%. Depois que eu deixei a presidência, o Brasil só vem crescer, acima de 3%, em 2023, 2024 e 2025. E se Deus quiser, vai continuar crescendo outra vez. É importante lembrar que o salário mínimo ficou sete anos sem reajuste acima da inflação.
Se não fôssemos nós aumentar o salário mínimo de acordo com o PIB, Valmir, você sabe quanto estaria o salário mínimo hoje? 800 reais. Portanto, o salário mínimo, o aumento além da inflação, foi para 1.621 [reais], que é muito pouco. Mas é o dobro do que era sem a gente colocar o PIB. Vocês sabem uma coisa muito importante. Nós estamos vivendo nesse momento histórico.
É a menor inflação acumulada da história do Brasil, João Paulo. Ou seja, a menor inflação do Brasil acumulada nos quatro anos é nesse período. É o menor desemprego da história do Brasil.
É a maior quantidade de trabalhadores em atividade. É a maior massa salarial. É a maior exportação. É a maior entrada de capital externo direto para investimento no Brasil. É o maior crédito do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar]. E nós sabemos que isso resulta no crescimento do PIB.
Nós sabemos que isso resulta na queda da inflação de alimento. E nós sabemos que isso resulta na melhoria da qualidade de vida do nosso povo. É por isso que nós precisamos ter a política em mente.
Ou nós assumimos, ou eles assumem. Ou nós assumimos, ou eles assumem. E, portanto, é muito, muito sério a gente levar a sério o que pode acontecer este ano no Brasil.
Vocês estão acompanhando o que está acontecendo na América Latina. Vocês estão acompanhando o que aconteceu no Chile. O que aconteceu na Argentina. O que aconteceu com a Venezuela. O que aconteceu com o Paraguai. O que aconteceu com o Equador. Vocês estão acompanhando o que aconteceu com a Costa Rica. Em Honduras. E o que está acontecendo no mundo com a eleição do presidente Trump [Donald] para presidente dos Estados Unidos.
Vocês estão acompanhando. E vocês estão percebendo que nós estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. Ou seja, o multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo.
Ou seja, está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU [Organização das Nações Unidas] está sendo rasgada. E, ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente em 2003, reforma da ONU, com a entrada de novos países, com a entrada de México, do Brasil, de países africanos, o que está acontecendo?
O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU em que ele sozinho é o dono da ONU. Então, o que nós precisamos é ter em conta a fragilidade política dos partidos no mundo hoje. Eu estou há uma semana telefonando para todos os países do mundo.
Já falei com muitos países. Já falei com as figuras mais importantes. Já falei com o Putin [Vladimir, presidente da Rússia]. Já falei com o Xi Jinping [presidente da China]. Já falei com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Já falei com o presidente da Hungria, Tamás Sulyok.
E já falei com muitos outros presidentes, com a Cláudia [Sheinbaum] do México. Ou seja, tentando ver se é possível a gente encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado para o chão para que predomine a força da arma, da intolerância de qualquer país do mundo. O Brasil não tem preferência de relação.
O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos. O Brasil quer ter relação com Cuba. O Brasil quer ter relação com a China. O Brasil quer ter relação com a Índia. O Brasil quer ter relação com a Rússia. A gente não tem preferência. O que a gente não aceita mais é voltar a ser colônia para alguém querer mandar na gente. Eu não quero guerra. Eu sou um homem da paz.
E é importante a gente saber que toda vez que o presidente Trump fala na televisão, ele fala: “eu tenho o Exército mais forte do mundo. Eu tenho os melhores aviões do mundo. Eu tenho os navios mais fortes do mundo.” Ele agora falou em Davos “eu tenho armas que vocês nem sabem o poder dessa arma”. Eu fico olhando e falo: eu não tenho nada. Eu tenho um Exército, a Marinha, a Aeronáutica que muitas vezes não tem dinheiro nem para comprar bala para treinar.
Então, eu não quero fazer guerra armada com os Estados Unidos. Eu não quero fazer guerra armada com a China. Eu não quero fazer guerra armada com a Rússia.Eu não quero nem com o Uruguai nem com a Bolívia.
Eu quero fazer guerra com o poder do convencimento, com o argumento, com narrativas, mostrando que a democracia é imbatível se a gente não quiser se impor aos outros mas a gente compartilhar aquilo que a gente tem de bom. É importante lembrar que Mahatma Gandhi derrotou o império inglês sem dar um tiro, quase pelado.
Ele conseguiu mobilizar toda a Índia e derrubou o império inglês. É assim que a gente quer fazer política na paz, na conversa, no diálogo e não aceitando imposição de qualquer país sobre outro país.
Nós não queremos mais Guerra Fria. Não queremos mais Guerra Fria. Nós não queremos mais Gaza. Vocês viram a fotografia do que eles vão tentar fazer em Gaza? Um resort. Eles mataram mais de 70 mil pessoas para dizer: “nós vamos agora recuperar Gaza e fazer hotel de luxo”. E o povo que morreu?
E as pessoas pobres que estão lá? Vão morar onde? Aqui no Brasil, mesmo quando a direita é intolerante, ela desapropria, ela apaga. Lá não, lá eles mataram.
E ao invés de recuperar Gaza. Poderia chamar o Brasil, ô Lula vem aqui como é que a gente constrói casa para pobres? Nós iríamos fazer o Minha Casa, Minha Vida e colocar o povo pobre para morar decentemente como a gente coloca aqui no Brasil com o programa Minha Casa, Minha Vida.
Portanto, companheiros do Movimento Sem Terra se preparem, porque nós estamos vivendo um momento delicado. Eu, sinceramente, eu fico toda noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Eu não consigo acreditar. O Maduro [Nicolás, ex-presidente da Venezuela] sabia que tinha 15 mil soldados americanos no mar do Caribe. Ele sabia que todo dia tinha uma ameaça. Todo dia tinha uma ameaça. Ou seja, os caras entram à noite na Venezuela, vão no forte que é um quartel onde morava o Maduro e levam o Maduro embora.
E ninguém soube que o Maduro foi embora. Ou seja, como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país? Não existe isso na América do Sul. A América do Sul é um território de paz. A gente não tem armas nucleares. A gente não tem bomba atômica.
A gente só tem gente pobre que quer trabalhar e quer viver, que quer comer, que quer almoçar, que quer jantar, quer estudar. A gente não quer guerra. Então o que nós temos para mostrar para eles é o nosso caráter e a nossa dignidade.
A gente não tem arma, mas a gente tem caráter e dignidade e a gente não vai baixar a cabeça para ninguém, quem quer que seja. A gente vai conversar olho no olho de cabeça erguida, respeitando o povo brasileiro e a nossa soberania. Isso vale para todos os países do mundo.
E por isso, companheiros e companheiras, eu estou vivendo um momento muito bom na minha vida. Eu quero dizer para vocês, companheiros do Sem Terra, eu nunca estive tão bem na minha vida. Vocês percebem que eu tenho 80 anos. Compara eu com o João Paulo. O João Paulo parece um velhinho e eu pareço um garotão aqui, sabe.
É o João Paulo. Vem aqui, vem aqui. Se morasse perto de mim, se morasse perto de mim, dormia menos, fazia mais ginástica, mais musculação, corria todo dia de manhã, preparado.
Porque agora, pela quantidade de mulher, agora pela quantidade de mulher que eu vi na direção do PT, você está ferrado, cara. Na direção do MST. Pela quantidade de mulher que vocês elegeram na direção do MST, você está ferrado, cara. Você vai agora acordar mais cedo, você vai ter que trabalhar mais, porque as mulheres não são fáceis, cara.
Não sei. Não sei quem foi que inventou. Não sei quem foi que inventou que mulher, a mulher é o “sexo fraco”. Mulher não-sei-das-contas. Quando essas bichinhas querem as coisas, quando essas bichinhas ficam invocadas, vocês sabem que elas podem tudo o que elas quiserem. E por isso, eu queria dizer aos homens do Movimento Sem Terra, a luta contra a violência, contra a mulher, a luta contra o feminicídio não é uma coisa das mulheres, é uma coisa dos homens. Nós temos que criar vergonha e defender as nossas companheiras.
Nós temos que defender as nossas companheiras, porque não é possível. A quantidade de gente que morre todo dia, a quantidade de mulher violentada, e nós achamos que são elas que vão resolver fazendo passeata. Não, somos nós.
Em cada discurso que a gente fizer na porta de fábrica, na igreja, na porta da loja, no Congresso, a gente tem que dizer: homem que bate em mulher não é homem. Não é homem.
Eu até brinco. Nessa campanha eu vou dizer, alto e bom som, o cara que levanta a mão para bater numa mulher não precisa votar em mim para presidente da República. Será um voto amaldiçoado, se eu aceitar um voto desse. E nós temos que saber que somos nós, homens, que temos que comprar essa briga, falar com os nossos companheiros no local de trabalho.
Ah, eu estou com raiva. Meta a cabeça na parede, porra. Está com raiva? Meta a cabeça na parede. Faz assim. Por que querer se vingar da companheira?
Então, companheiros do Sem Terra, meus queridos companheiros, eu estou com vocês desde a fundação. Eu estou vendo a cara de vocês. Muitos de vocês não tinham nem nascido ainda, eu já era um sem-terra. Aliás, eu já vim de Pernambuco porque eu não tinha terra. Não tinha terra, não tinha vaca, não tinha jumento, não tinha égua, não tinha porra nenhuma, não tinha. Ai, um dia uma jumenta que tentou me comer. Eu fui pegar água, a bicha me derrubou e a bicha queria comer minha barriga. Tão azarado que eu sou.
Agora vejam, eu cheguei em São Paulo, sobrevivi, labutei, morei em casa que encheu d'água, morei em rua que encheu d'água, levantei à noite com cocô boiando, com rato nadando, com barata nadando e estou aqui bonitão, presidente da República pela terceira vez e se preparem, se preparem porque nós queremos ser tetra e vamos disputar este ano as eleições.
Vamos disputar as eleições. Vamos disputar as eleições. Não sei com quem, não sei com quem vai ter um tal de março, ou abril que os partidos vão fazer convenção, todo mundo vai escolher um candidato.
O que eu posso dizer para vocês é o seguinte: venha quem vier, venha quem vier, venha quem vier. Nós vamos mostrar que esse é o ano da verdade, nós vamos mostrar que a mentira não vai prevalecer. Nós vamos mostrar que quem tiver o seu celular para contar mentira, fazer fake news, pode começar a guardar o celular, porque esse ano é o ano da verdade e nós vamos desmascarar todos eles. Porque o que nós precisamos é garantir que o povo brasileiro continue mudando de vida, continue melhorando, e se nós chegamos até agora na situação que nós estamos, companheiros, eu vou dizer para vocês, só Deus pode dizer que a gente não vai fazer mais, porque se depender de mim, vocês podem ficar certos que a gente vai fazer muito mais.
Essas crianças, essas crianças do Movimento Sem Terra que me trouxeram até a porta da entrada desse salão para essa reunião, eu tenho fé em Deus de que essas crianças haverão de ter uma qualidade de vida melhor do que a que nós tivemos. Mais educação do que nós, e que eles sejam mais respeitados do que nós. Por isso, companheiros da direção do Sem Terra, muito obrigado pela existência de vocês. Eu tenho certeza que se não fossem vocês, o Brasil possivelmente não tivesse chegado aonde nós chegamos.
Eu, portanto, sou grato a todos aqueles que um dia tiveram coragem de levantar a cabeça e lutar, como minha mamãe dizia: “teima Lula, teima, teima”. E a gente tem que teimar, porque não tem ninguém para dar nada de graça para a gente, ou a gente conquista ou a gente não tem nada.
Por isso, viva o 14º Congresso dos Sem Terra e se prepare para a luta esse ano, um abraço e parabéns a nova direção do movimento sem terra, um beijo no coração.