Pronunciamento do presidente Lula na abertura do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026
Senhores chefes de Estados, senhores chefes de Governo. Meu querido amigo José Raúl Mulino, presidente da República do Panamá. Meu querido amigo Sergio Díaz-Granados, presidente-executivo da CAF [Banco de Desenvolvimento da América Latina]. Senhores chefes de Estados, senhores chefes de Governo, empresários e convidados desse Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe.
É com muita alegria que aceitei o convite para poder participar de um evento como esse, porque nós, presidentes e governantes da América Latina, não podemos perder a oportunidade de discutir coisas de interesse da nossa região.
Eu quero começar agradecendo ao presidente-executivo da CAF, Sergio Díaz-Granados, pelo honroso convite para participar desta sessão de abertura do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026.
Aproveito para cumprimentá-lo pela reeleição para o novo mandato à frente da CAF.
Agradeço também ao meu amigo, presidente José Raúl Mulino, pela hospitalidade com que nos recebe.
Saúdo todos os chefes de Estado e de Governo aqui presentes, os empresários, e todas as pessoas, mulheres e homens, que participam deste evento.
É muito oportuna a realização deste Fórum, em um contexto de crescentes desafios de ordem geopolítica, econômica e tecnológica para o mundo e, em especial, para América Latina e Caribe.
A escolha da cidade do Panamá para receber este evento possui um simbolismo especial.
Este é o verdadeiro ponto de união entre o Atlântico e o Pacífico.
Aqui, há exatos 200 anos, reuniu-se o Congresso Anfictiônico, em que as jovens nações americanas buscavam consolidar sua independência e definir seu lugar no mundo.
Do Congresso de 1826 surgiram muitas das ideias que encontrariam expressão no moderno direito internacional e na própria Carta das Nações Unidas.
Ideias como a manutenção da paz, a solução pacífica de controvérsias, a garantia da independência política, a igualdade jurídica e a integridade territorial dos Estados.
Embora tenha peso simbólico relevante, esse legado normativo e conceitual foi insuficiente para fomentar instituições regionais efetivas.
Dois séculos se passaram do Congresso do Panamá e vivemos um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração.
A breve experiência da UNASUL entre 2003 e 2014 sucumbiu ao peso da intolerância que impediu a convivência de visões diferentes.
Voltamos a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria.
Permitimos que conflitos e disputas ideológicas alheios se imponham.
As ameaças do extremismo político e da manipulação da informação se incorporam ao nosso cotidiano.
Passamos de reunião em reunião, repletas de ideias e iniciativas que nunca saem do papel.
Nossas Cúpulas se tornaram rituais vazios, dos quais se ausentam os principais líderes regionais.
Como resultado, a única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a CELAC, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente Petro.
A CELAC não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região.
Não fomos capazes de enfrentar de forma coordenada desafios sistêmicos como a Covid-19.
Avançamos lentamente no combate ao crime organizado transnacional.
O enfrentamento do aquecimento global ainda padece de ação coletiva mais robusta e mais forte.
Esses desafios recolocam a questão do modelo do regionalismo possível para a América Latina e o Caribe.
Em um contexto global de ruptura da ordem liberal e do ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo, os paradigmas endógenos ligados ao panamericanismo e ao bolivarianismo são insuficientes.
Também não podemos nos valer de modelos de integração que pouco refletem as nossas realidades.
Devemos olhar para a União Europeia como uma referência positiva, mas sem ignorar todas as diferenças históricas, econômicas e culturais.
O peso das identidades nacionais torna inviável a curto prazo qualquer projeto de envergadura parecida com o europeu.
A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é outra referência inescapável, seja pela sua presença ou pelo seu distanciamento, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas.
Falta às lideranças regionais convicção sobre os benefícios de adoção de um projeto mais autônomo de inserção internacional.
Diante das dificuldades de pactuar um marco teórico próprio, nossos países deveriam concentrar-se na mobilização dos trunfos inexplorados pela região para promover sua inserção competitiva na ordem global.
Dispomos de ativos de ordem política e econômica que podem conferir materialidade ao impulso integracionista:
(i) contamos com potencial energético relacionado às reservas de petróleo e gás, hidroeletricidade, biocombustíveis, e energia nuclear, eólica e solar;
(ii) possuímos variadas condições de solo e clima e avanços científicos e tecnológicos para a produção de alimentos;
(iii) abrigamos a maior floresta tropical do planeta, mais de um 1/3 das reservas de água doce do mundo e riquíssima biodiversidade;
(iv) reunimos recursos minerais abundantes, inclusive minérios críticos e terras raras, essenciais para a transição energética e digital;
(v) temos escassos contenciosos na fronteira;
(vi) somos um mercado consumidor expressivo de 660 milhões de pessoas;
(vii) não vivenciamos graves conflitos religiosos ou culturais; e
(viii) contamos com uma predominância de governos eleitos democraticamente.
A América Latina e o Caribe são únicos. Cabe a nós assumir que a integração possível é a que estará calcada na pluralidade de opções.
Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região.
Essa é a única doutrina que nos convém.
Seguir divididos nos torna todos mais frágeis.
Minhas amigas e meus amigos,
Em um mundo envolto em turbulências, o Brasil escolheu o caminho da democracia, da paz, do multilateralismo e da integração regional.
Nossa estabilidade política, social, econômica, fiscal e jurídica tem sido reconhecida em todo o mundo.
Nos últimos anos, o Brasil atraiu volumes recordes de capital estrangeiro.
Seguimos promovendo um comércio internacional justo, equilibrado e baseado em regras multilateralmente acordadas.
Respondemos a práticas protecionistas com diálogo, firmeza e apoio a nossas empresas.
Em 2025, superamos marcas históricas de exportações e importações. Nossa corrente de comércio foi de 629 bilhões de dólares.
Isso é resultado de uma estratégia consistente de diversificação de parcerias com economias tradicionais e emergentes.
Mostramos que um novo modelo de desenvolvimento, com inclusão e sustentabilidade, é possível.
Desde 2023, o Brasil cresceu acima da média mundial, controlou a inflação e alcançou o menor desemprego da nossa história.
Valorizamos o salário mínimo, aumentamos a renda dos trabalhadores e levamos justiça tributária a milhões de brasileiros.
Saímos mais uma vez do Mapa da Fome da FAO.
Em dois anos, a pobreza deu lugar à inclusão social e 17,4 milhões de pessoas ascenderam de classe no Brasil.
Estamos na vanguarda da economia verde.
90% da nossa matriz elétrica é renovável.
Somos líderes em biocombustíveis.
Nosso “Plano de Transformação Ecológica” identificou 90 bilhões de dólares em projetos que vão impulsionar a economia verde.
Em breve, lançaremos um Mapa do Caminho para reduzir gradativamente a dependência de combustíveis fósseis.
Desde 2023, retomamos nossos esforços com a integração regional, buscando ampliar e diversificar nossos parceiros.
Concluímos os acordos entre o MERCOSUL e Cingapura e entre o MERCOSUL e a Associação Europeia de Livre Comércio, a EFTA.
Após 26 anos de negociações, assinamos o acordo MERCOSUL-União Europeia, que abrangerá um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB de 22 trilhões de dólares.
Vamos ampliar os acordos comerciais que temos com a Índia e o México.
Retomamos as tratativas com o Canadá e avançamos nas negociações com os Emirados Árabes Unidos.
Adotamos marcos para negociar parceria estratégica com o Japão e preferências tarifárias com o Vietnã.
Esperamos progredir rapidamente nas negociações com Panamá, República Dominicana e El Salvador.
Vamos ainda atualizar os acordos do MERCOSUL com Colômbia e Equador.
O Brasil está avançando em ritmo acelerado na implementação de seu programa Rotas de Integração Sul-Americana.
Continuamos empenhados em trabalhar com todos os países vizinhos.
São dezenas de obras de melhoria de rodovias, hidrovias, ferrovias, portos e aeroportos, além de infovias e linhas de transmissão, com potencial para dobrar o comércio intrarregional em poucos anos.
A integração em infraestrutura não tem ideologia.
Por isso o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não-discriminatória há quase três décadas.
Nosso Banco de Desenvolvimento, o BNDES, tem sido um parceiro essencial, mas a integração requer mais recursos e mais cooperação.
É imperativo mobilizar os bancos multilaterais e regionais — como a CAF, o FonPlata, o BID e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS — para transformar essas iniciativas em realidade.
Com projetos de geração de energia renovável, inovação e conexão digital, podemos reposicionar a América Latina e Caribe na economia internacional.
Centros de dados, beneficiamento de minerais críticos, indústria verde e bioeconomia podem contribuir para um modelo de desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.
Sabemos que a economia não existe no vácuo.
O mercado não é uma entidade abstrata, apartada da política e da sociedade.
Estabilidade política e social são essenciais para criar um ambiente próspero para os negócios.
A concentração de riqueza gera pobreza, fome e violência.
A América Latina também ostenta o triste recorde de ser a região com maior número de feminicídios.
Segundo a CEPAL, onze mulheres latino-americanas são assassinadas diariamente.
Essa não é uma batalha só das mulheres. Nós, homens, temos que nos somar a essa luta e assumir a responsabilidade de acabar com a violência contra as mulheres.
Quando o povo tem dignidade e segurança a sociedade prospera.
Garantir o acesso a serviços básicos, e implementar políticas de combate à desinformação e à criminalidade são essenciais para a estabilidade e para a democracia.
Para uma integração regional duradoura e estratégica, é essencial envolver atores subnacionais, a sociedade civil e a iniciativa privada.
Sistemas de pagamentos digitais e inovadores como o PIX que fizemos no Brasil podem impulsionar o comércio regional.
Programas de cooperação entre universidades e centros de pesquisa criam laços baseados no conhecimento e na inovação.
Senhoras e senhores,
A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós.
A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos.
Entre tantos corolários e doutrinas que nos foram dedicadas ao longo da história, também houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento.
O presidente Franklin Roosevelt implementou uma política de boa vizinhança que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia em sua política externa para a América Latina e Caribe.
Roosevelt também defendia que deveríamos erigir um mundo com base no que chamou de 4 liberdades fundamentais para a defesa da democracia e dos direitos humanos:
Primeiro: liberdade de expressão, em que todos possam expressar suas opiniões livremente, sem manipulação de dados e informações, como vemos hoje nas redes digitais.
Liberdade de culto: em que cada um possa professar a sua fé sem ser perseguido.
Liberdade contra as privações: em que todos tenham direito a uma vida digna, incluindo acesso a alimentação, moradia e trabalho.
E liberdade contra o medo: em que o desarmamento limitaria o recurso ao uso da força e agressões entre as nações.
Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade.
E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado.
Minhas amigas e meus amigos,
Reconquistar a confiança na integração é uma tarefa árdua, mas necessária.
Dispomos de credenciais econômicas, geográficas, demográficas, políticas e culturais excepcionais para aspirar a uma presença relevante no contexto mundial.
Necessitamos de lideranças comprometidas com mecanismos institucionais que articulem de forma equilibrada os distintos interesses nacionais de nossa região.
A integração regional pode e deve alimentar-se de princípios e do exame crítico de outras experiências históricas.
Mas ela será resultado da nossa capacidade de conviver com a diversidade das vontades políticas.
Essa é uma condição essencial para manter a América Latina e Caribe como zona de paz e cooperação, regida pelo direito internacional.
Isso dependerá da nossa inserção soberana no mundo.
Meus amigos e minhas amigas, vou usar mais dois minutos para dizer uma coisa que eu preciso dizer a vocês.
Eu assumi a presidência da República pela primeira vez com 57 anos de idade no ano de 2003. Naquela época, o Brasil era um país que estava muito comprometido com a década perdida, que era uma dívida externa impagável, onde o Brasil não tinha sequer recursos para pagar as suas importações.
Os diretores da CAF sabem disso, em que o Brasil recebia todo ano dois agentes do FMI para corrigir as finanças brasileiras. Quando eu tomei posse, muitos amigos da América Latina achavam que o Brasil não podia dar certo e que eu não teria nenhuma condição de governar o Brasil.
Pois bem, o que aconteceu no Brasil é que nós conseguimos pela primeira vez fazer uma revolução de inclusão social e fazer com que as coisas fossem melhor distribuídas dentro da sociedade brasileira, colocando as pessoas pobres no orçamento da União.
Os pobres não podem ser tratados como invisíveis. Eles não existem apenas na época eleitoral. Eles existem todo santo dia.
E toda vez que nós, governantes, formos discutir o país, nós temos que lembrar dos pobres, daqueles que constroem a riqueza do país.
Pois bem, o que aconteceu com o Brasil que devia 30 bilhões para o FMI? Nós pagamos a dívida do FMI, juntamos uma reserva internacional de 270 bilhões de dólares, emprestamos 15 bilhões de dólares ao FMI e o Brasil terminou meu mandato crescendo 7,5%, em 2010. A gente produzia 3 milhões e 600 mil carros por ano.
Quando eu voltei, em 2023, o Brasil crescia 1%, a indústria automobilística produzia apenas 1 mihão 600 mil carros, a inflação estava incontrolável e nós, pela primeira vez, desde 2010, voltamos a crescer acima de 3% em 2023, 2024, 2025 e vamos continuar crescendo com a maior política de inclusão social da nossa história.
Nós temos a menor inflação acumulada em quatro anos da história, nós temos hoje a maior quantidade de pessoas empregadas da história, nós temos o menor desemprego da história, nós temos a maior massa salarial da história, nós temos a maior exportação da história e nós temos um futuro promissor se a gente souber trabalhar.
Com uma coisa muito simples que eu disse ontem ao futuro presidente do Chile [José Antonio Kast]: muito dinheiro na mão de poucos significa pobreza, pouco dinheiro na mão de muitos significa riqueza.
Essa mágica simples de fazer que nós precisamos fazer. E uma outra coisa importante: todo mundo hoje no mundo está falando de minerais críticos e de terras raras. Para que a gente fala tanto em terras raras e minerais críticos? Para a gente ficar exportando material bruto, matéria prima in natura, para ser transformada nos outros países e a gente comprar as coisas transformadas a peso de ouro? Não. Os minerais críticos e as terras raras só têm sentido para enriquecer os nossos países se a gente tiver coragem de construir parcerias e eles serem transformados nos nossos países para gerar riqueza nos nossos países, para gerar emprego nos nossos países e para gerar desenvolvimento nos nossos países.
E quero terminar contando a experiência possivelmente do presidente mais longevo da história do meu país. Não há nenhuma possibilidade de qualquer país da América Latina sozinho achar que vai resolver os problemas. Nós já temos 525 anos de história, não são 525 dias, são 525 anos de história, nós já fomos colonizados, recolonizados, já fizemos independência e continuamos colonizados. Porque muitas vezes a colonização não está na interferência de outro, está na formação cultural que o nosso povo teve, e nós precisamos mudar de comportamento. E precisamos criar um bloco. Um bloco econômico, um bloco que possa dizer que a gente vai acabar com a fome neste país.
Em 2014, meu caro presidente da CAF, você sabe, eu cheguei na presidência com 54 milhões de pessoas passando fome. Em 2014, nós anunciamos o fim da fome no Brasil reconhecido pela FAO. Eu fiquei 15 anos fora, quando eu voltei tinha 33 milhões de pessoas passando fome. Em dois anos e meio, eu acabei com a fome outra vez.
Então é importante que a gente saiba que nós, líderes eleitos, fomos eleitos para governar para melhorar a vida do povo, senão não faz sentido a gente ser presidente da República. E o desafio que está colocado para vocês, eu vou dizer com meu coração, como se eu estivesse falando com meus irmãos, não existe ninguém, nenhum país do mundo que vá resolver o problema de cada país individualmente. Somos nós, os chilenos, os argentinos, os colombianos, os panamenhos, os venezuelanos, os hondurenhos. Somos nós que temos que ter vontade de resolver os nossos problemas e fazer o nosso país ficar rico. Se a gente não pensar assim, nós vamos terminar esse século tão pobre como começamos o século.
Muito obrigado e boa sorte.