Declaração do presidente Lula à imprensa, em Nova Délhi, por ocasião da visita de Estado à Índia
Bom dia a todos e a todas.
Eu queria começar essa entrevista dizendo a vocês que eu fui surpreendido ontem, no jantar e no almoço. Não sei se os jornalistas brasileiros se lembram, quando o primeiro-ministro Modi [Narendra] foi fazer uma visita no Brasil, ano passado, nós pesquisamos a música que ele mais gostava e fomos a São Paulo procurar uma cantora que cantava a música que ele mais gostava. Então, foi feita uma surpresa para ele na recepção, no Palácio da Alvorada, e era visível que ele tinha ficado emocionado com a música que nós escolhemos para ele. Eu já tinha feito o mesmo com o Xi Jinping [presidente da República Popular da China].
Quando o Xi Jinping foi ao Brasil, nós pesquisamos a música que ele mais gostava e, por coincidência, era uma música que a mulher dele cantava para ele. Então, nós arrumamos uma cantora para cantar a música para ele. E ontem eu fui surpreendido, porque no almoço, daqui a pouco, começou a tocar uma música e eu notei que a música tinha alguma coisa a ver com a gente, e era Disparada.
Então, o conjunto lá tocou Disparada, depois eles tocaram outra música do Zeca Pagodinho, Deixa a Vida Me Levar, depois eles cantaram Disparada, depois eles cantaram Asa Branca. E à noite, na minha surpresa, no jantar oferecido pela presidenta, eles cantaram Sem Medo de Ser Feliz, a famosa música da campanha de 89. E eu, sinceramente, fiquei emocionado, porque eu não lembrava, eu não imaginava que eles tivessem lembrado da boa recepção que nós fizemos para eles.
E ele resolveu, então, me dar o troco. E foi muito, muito importante. Alguns ministros ficaram emocionados, cantaram, alguns sabiam, outros não sabiam, quem não sabia, eu estou levando de conta quem não sabia.
Eu estou levando de conta, numa escala de 1 a 10, quem sabia vai ganhar 10, quem não sabia está arriscado a ganhar 1,5, 2,5. Bom, dito isso, nós estamos encerrando um ciclo de viagens internacionais que estava dentro da nossa estratégia nesse terceiro mandato. Recuperar a imagem e o poderio de negociação que o Brasil tinha conquistado no mundo, que depois teve um interregno, e vocês sabem porquê, e que nós resolvemos recuperar a imagem do Brasil ao mundo.
E é com muita satisfação que eu posso dizer para vocês que em apenas 3 anos e 2 meses nós fizemos mais de 520 novos mercados de produtos brasileiros. É mais do que tudo que a gente já tinha alcançado em muito tempo. Porque sempre prevaleceu na ideia do governo de que quem quer vai, quem não quer manda.
E quando a gente quer, a gente vai atrás. E a autorização minha para os ministros é viajar e tentar vender aquilo que for produtos brasileiros com possibilidade de atender as necessidades do mercado internacional. E essa viagem para a Índia tem toda uma característica muito especial.
Foi na Índia, em 2005, que pela primeira vez eu me dei conta da importância de reservas internacionais. Eu vim aqui na minha primeira viagem e a Índia tinha acumulado 100 bilhões de dólares de reserva internacional. E eu voltei para o Brasil convencido de que nós precisaríamos fazer reserva internacional, de que nós precisaríamos comprar um colchão extra para evitar que a gente ficasse vulnerável às mudanças internacionais.
E conseguimos, pela primeira vez, sair de devedores do FMI para credores do FMI e acumulamos uma reserva de 370 bilhões de dólares, que chegou a ser a quarta reserva internacional entre todos os países do mundo. Até hoje, essa reserva é um colchão de muita segurança para o nosso país. Não pense que não houve gente com vontade de utilizar essa reserva para muitas coisas, mas a gente acha que é desnecessário você utilizar um colchão que está guardado para determinadas situações críticas, sabe, sem necessidade.
Aqui também, em 2005, eu voltei para o Brasil e no Brasil nós comemoramos 100 bilhões de dólares de comércio exterior. Os jornalistas que estavam no Brasil se lembram que nós colocamos um contêiner na porta do Ministério da Indústria e Comércio e ficou pendurado mais de dois meses para a gente provar a grandeza de um país que tinha chegado a 100 bilhões de dólares de comércio exterior. Hoje, esse comércio está por volta de 649 bilhões de dólares e eu espero que, dentro de algum tempo, a gente possa comemorar um trilhão de dólares de comércio exterior.
É só acreditar e continuar trabalhando para que a gente possa chegar a isso. Mas o mais importante é que, quando se trata de uma negociação com a Índia, nós não estamos tratando com um colonizador. Porque quando você vai fazer negócio com um país rico, ou aqueles países habituados a serem colonizadores, é uma espécie de autoritarismo nas negociações, não levando em conta a especificidade de cada nação, sempre querendo que prevaleça a lei do mais forte.
Com a Índia é diferente. Nós somos dois necessitados. Ninguém é superior a ninguém.
Apenas a diferença religiosa, a diferença de linguagem, porque aqui se fala 40 idiomas, ou seja, a verdade é que nós temos muitas similaridades nas virtudes e nas necessidades. Então, quando você senta com os empresários indianos, quando você senta com o primeiro-ministro Modi, como eu sentava com o primeiro-ministro Singh [Manmohan], há uma coisa muito parecida nas nossas necessidades. E, portanto, fica muito mais fácil a gente trabalhar, estabelecer planos de ação, estabelecer metas, construir parcerias entre os empresários indianos e empresários brasileiros, convidá-los a fazer investimentos no Brasil e se oferecer para fazer investimento na Índia.
Ou seja, não existe o tom da supremacia, o tom do maior, o tom do grande. É a política dos iguais. Isso é que me dá muito prazer e muito otimismo.
É importante lembrar que, quando eu vim aqui a primeira vez, o comércio Brasil-Índia era de apenas 2 bilhões e 400 milhões de dólares. Chegou agora a 15 bilhões e meio, o que é muito pouco. O que é muito pouco para duas economias razoavelmente grandes.
É muito pouco. E o presidente Modi estabeleceu comigo a ideia de que nós precisamos ter uma meta para chegar a 20 bilhões até 2030. E eu queria falar aqui para a imprensa, para vocês anotarem.
Quando eu estou dando entrevista que eu vejo que ninguém está anotando, eu fico pensando, será que eu estou dizendo alguma coisa que não interessa? Às vezes, eu fico pensando que está na hora de parar. Então, deixa eu dizer uma coisa para vocês.
Eu quero que vocês anotem pelo seguinte, porque eu disse ao presidente Modi, nós vamos chegar a 30 bilhões em 2030. É um desafio que está colocado. Nós vamos chegar a 30 bilhões em 2030 porque o potencial econômico dos dois países é muito forte.
E as necessidades da Nova Indústria Brasil é mais forte ainda, sobretudo se a gente levar em conta a área da saúde. Nós estamos saindo daqui com sete acordos na área da saúde. Sete acordos.
Porque uma coisa que é importante a imprensa brasileira descobrir é que o SUS oferece ao Brasil a oportunidade de ser um dos mais extraordinários mercados consumidores, não apenas de remédio, mas também de máquinas modernas para reparar e descobrir novas doenças na humanidade. E a Nova Indústria Brasil tem na questão da saúde um dos seus polos principais. É ali que a gente vai atacar para oferecer ao povo pobre brasileiro, ao povo mais humilde e a todos que quiserem, a melhor política de saúde oferecida de graça para um país com mais de 100 milhões de habitantes.
A novidade que nós estamos fazendo é que o ano passado nós chegamos à primazia de 14 milhões e 700 mil cirurgias eletivas. A verdade é que o ano passado nós começamos o Agora Tem Especialistas, que é uma novidade extraordinária no Brasil, de modernização do atendimento ao nosso povo. E tudo isso vai precisar de convênios, de convênios com a Índia, de convênio com a China, de convênio com os Estados Unidos, de convênio com os países europeus.
Ou seja, nós não temos preferência comercial. O Brasil tem interesses comerciais. E o faremos com quem quiser fazer, desde que seja uma política de ganha-ganha.
Nós também não queremos fazer a política de que nós só queremos levar vantagem. Não. Nós achamos que a boa relação comercial, a boa relação política, a boa relação cultural é aquela que você dá e aquela que você recebe.
Porque assim você não tem desequilíbrio entre os países. E da mesma forma que o Brasil está aberto para a China, a China está aberta para o Brasil. Não sei se vocês perceberam, nós trouxemos o governador da Bahia [Jerônimo Rodrigues], aquele jovem simpático ali, que parece mais indiano do que brasileiro.
Nós trouxemos o diretor-geral da Polícia Federal [Andrei Rodrigues], porque agora, onde eu for, a Polícia Federal vai atrás, porque nós precisamos fazer convênios, precisamos colocar adidos da Polícia Federal nos países, precisamos fazer convênios para combater o crime organizado, para combater o narcotráfico. Na medida em que a gente sabe que o crime organizado é uma coisa, uma empresa multinacional, nós temos então que saber que a nossa Polícia Federal precisa construir parcerias com todos os países que tiverem interesse em fazer essa disputa conosco.
É por isso que quando eu for aos Estados Unidos conversar com o presidente Trump [Donald], nós vamos levar a nossa Receita, a nossa Polícia Federal, o nosso ministro da Fazenda, o nosso ministro da Justiça, porque se o governo americano estiver disposto a combater o narcotráfico, o crime organizado, nós estaremos dispostos na linha de frente para acabar de uma vez por todas, inclusive reivindicando deles mandar para nós os bandidos que estão lá.
Brasileiros que cometem crime, que todo mundo já sabe que cometeu crime, gente que contrabandeava gasolina, que está lá. Então nos mandem para a gente poder mostrar que a gente quer combater o crime organizado com muita seriedade.
Essa minha vinda à Índia é o marco de uma nova relação entre Brasil e Índia. Eu posso dizer para vocês que a tendência natural é melhorar e muito a nossa relação com a Índia, em todos os aspectos, em todos. Inclusive com investimentos brasileiros aqui, na área de inteligência artificial, com investimentos deles no Brasil, com parceria entre as nossas universidades, entre os nossos ministérios, porque nós somos os irmãos democráticos do sul global mais importantes e nós precisamos dar exemplo. Por isso eu volto para o Brasil muito, muito satisfeito.
Fiz questão que o Haddad [Fernando, ministro da Fazenda] viesse nessa reunião. Fiz questão, porque é importante mostrar para o mundo o momento que vive o Brasil, que muitas vezes, lendo a imprensa brasileira, a gente não sabe. Mas é importante a gente mostrar para o mundo que nós vivemos no Brasil, nesse instante, um dos melhores momentos econômicos da história do Brasil.
Não pelo crescimento do milagre brasileiro de 14%, sabe, em 1970. Porque não basta o PIB crescer para o país melhorar. O país só vai melhorar se for distribuído o crescimento do PIB.
E é o que nós estamos fazendo. É por isso que nós estamos aumentando o salário mínimo. É por isso que nós temos a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil.
É por isso que nós temos a maior população economicamente ativa da história do Brasil. É por isso que nós temos, nesse momento, o menor desemprego da história do Brasil. É por isso que nós temos, nesse momento, o maior comércio exterior do Brasil.
Ou seja, tudo está acontecendo tal como estava previsto e tal como nós trabalhamos. Porque foi com muito trabalho que a gente conseguiu, inclusive, oferecer aos empresários internacionais previsibilidade, estabilidade fiscal, estabilidade econômica, estabilidade social, estabilidade jurídica. E hoje eu tenho certeza que o Brasil é um dos países de maior credibilidade a nível internacional.
Isso só é possível com muito trabalho e com muita seriedade. Dito isso, eu fico satisfeito quando o Jorge Viana [presidente da ApexBrasil] vem aqui e fala da reunião com os empresários.
Eu tive uma reunião com os empresários muito importante. Já tinham feito uso da palavra sete ministros antes de mim. E eu tive reunião com outros empresários que representam um PIB de um trilhão de dólares. E tive com essas pessoas para dar para eles a segurança de que investir no Brasil é vantajoso, de que comprar produto brasileiro é vantajoso, de que comprar avião da Embraer é um avião que vai dar mais garantia do que os outros aviões que podem ser comprados.
Porque se nós não tivermos coragem de elogiar os produtos que nós fazemos e disputar mercado, a gente nunca será um país com economia muito forte. E eu estou convencido que Brasil e Índia vão dar um salto de qualidade na sua relação de forma extraordinária, inclusive com a perspectiva de um voo direto Nova Délhi, Joanesburgo, São Paulo ou Rio de Janeiro. Dito isso, meus amigos, eu passo a palavra para vocês, lembrando vocês que o Corinthians ganhou do Atlético Paranaense de 1 a 0. Muito difícil, mas ganhamos.
E me colocar à disposição de vocês para as perguntas. Por favor, façam só perguntas que eu saiba responder. Se for uma coisa mais difícil, eu vou chamar a minha bancada de universitários daqui para eles responderem.