Declaração do presidente Lula à imprensa durante visita de Estado à Índia
Excelentíssimo senhor Primeiro-Ministro da República da Índia, Narendra Modi, amigos ministros da Índia, amigos e amigas ministros e ministras do Brasil.
Meu caro amigo Modi,
É motivo de alegria retornar pela sexta vez a este grande país.
O encontro entre Índia e Brasil é uma reunião de superlativos:
Não somos apenas as duas maiores democracias do Sul Global.
Este é o encontro da farmácia do mundo com o celeiro do mundo.
De uma superpotência digital com uma superpotência da energia renovável.
Somos ambos países megadiversos e pólos da indústria cultural.
Somos ambos defensores do multilateralismo e da paz.
O convite do Primeiro-Ministro Modi para esta Visita de Estado e também para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial demonstra a sintonia e a confiança mútua que nos unem.
Há poucos meses, em julho de 2025, tive a honra de receber meu amigo Modi em Brasília.
Sua visita foi um divisor de águas.
Naquela ocasião, reestruturamos a agenda bilateral de cooperação em cinco eixos:
i. Defesa e Segurança;
ii. Segurança Alimentar e Nutricional;
iii. Transição Energética e Mudança do Clima;
iv. Transformação Digital e Tecnologias Emergentes;
v. Parcerias Industriais em Áreas Estratégicas.
Hoje, em Délhi, no ano em que celebramos 20 anos do estabelecimento da Parceria Estratégica Brasil - Índia, estamos passando à ação.
Por isso, a preparação desta visita envolveu a vinda do meu Vice-Presidente Geraldo Alckmin e de uma delegação empresarial no ano passado.
Envolveu, também, a vinda antecipada de vários ministros e de trezentos empresários nesta semana.
Assinamos diversos acordos que dão concretude à nossa cooperação nesses campos.
A notável evolução indiana em setores de ponta — como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial — criam muitas oportunidades de cooperação com o Brasil.
A Parceria Digital para o Futuro com a Índia – a primeira desse tipo para o Brasil – traduz nosso compromisso com uma agenda que coloca a tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo.
Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje.
No marco da Aliança Global para Biocombustíveis, nossos países estão assegurando o devido espaço para essa tecnologia na agenda climática e energética global.
O estabelecimento de sinergias entre os complexos industriais da saúde de nossos países também é uma parte central da cooperação bilateral.
Índia e Brasil trabalham lado-a-lado, há décadas, na defesa do acesso equitativo a medicamentos, sobretudo genéricos, e da soberania sanitária na Organização Mundial da Saúde.
Nesta visita, a FioCruz assinou diversos acordos para pesquisa e produção local de insumos estratégicos, como a vacina para tuberculose e medicamentos oncológicos, imunossupressores e para doenças negligenciadas e raras.
Também há grande potencial de colaboração na área de hospitais inteligentes, como o que o ministro Padilha visitou em Bangalore há dois dias.
Na área da defesa, nossa indústria aeronáutica vem fortalecendo sua presença na Índia, como comprova a abertura do Escritório da Embraer em Nova Délhi.
O acordo trilateral entre a Mazagoan Dock e as Marinhas indiana e brasileira vai integrar as atividades de manutenção de submarinos da Classe Scorpène e de outros navios militares.
Todos esses esforços contribuirão para alcançarmos a meta que o Primeiro-Ministro Modi e eu acordamos no ano passado: elevar nosso comércio a 20 bilhões de dólares até 2030.
Em 2025, o fluxo bilateral superou 15 bilhões de dólares pela primeira vez na história, um crescimento de 25% em relação a 2024.
Estamos avançando tão rápido que deveríamos revisitar nosso objetivo para chegar a 30 bilhões de dólares de intercâmbio.
O acordo para ampliar a validade dos vistos de turismo e negócios de cinco para dez anos constitui um passo inicial para facilitar e aumentar o fluxo de pessoas entre nossos países.
Da mesma forma, o Fórum Econômico Brasil – Índia reunirá cerca de 600 representantes dos setores privados dos dois países em torno de inúmeras oportunidades de negócios.
Como resposta ao unilateralismo comercial, tanto o MERCOSUL como a Índia concluíram recentemente acordos de livre comércio com a União Europeia.
É, portanto, mais do que natural que o MERCOSUL e a Índia trabalhem para ampliar de forma significativa o Acordo de Comércio Preferencial que já existe entre nós.
Meus amigos e minhas amigas,
Um cenário global turbulento exige que nossos países aprofundem seu diálogo estratégico.
Recebi a presidência do G20 do Primeiro-Ministro Modi, em 2024.
Este ano, a Índia recebeu do Brasil a presidência do BRICS.
Esse “trânsito de presidências” entre nossos países é extremamente benéfico para os interesses do Sul Global.
Índia e Brasil são vozes fundamentais nas Nações Unidas, na OMC e no G20.
Somos parceiros na construção de uma governança multilateral mais justa, pacífica e regida pelo Direito Internacional.
O Primeiro-Ministro Modi e eu conversamos longamente sobre a perseverança no caminho da Paz.
Não há possibilidade de desenvolvimento sustentável e justo em um mundo conflagrado.
Como afirmou o Primeiro-Ministro Modi na Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, "é impossível rodar um software do século 21 em velhas máquinas de escrever do século 20".
Reiteramos nosso compromisso com a reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança, que represente os interesses do Sul Global e que tenham Brasil e Índia como candidaturas naturais.
Aqui é importante lembrar à imprensa indiana e brasileira que, há mais de 20 anos, Brasil, Índia, Alemanha e Japão construíram um grupo chamado G4 defendendo a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, coisa que não aconteceu até agora, mas certamente vai acontecer logo. Porque a ONU precisa de mais representatividade, a ONU precisa ter força para interferir nos conflitos que existem pelo mundo hoje, e ela sendo inoperante não vai resolver. Por isso nós vamos continuar a luta para que a ONU seja mais representativa, mais países do mundo inteiro, e mais Índia e Brasil no Conselho de Segurança como membros permanentes.
A ampliação das categorias de membros permanentes e não permanentes é condição essencial para conferir legitimidade e eficácia à governança global, em meio a tantos desafios.
Apoiamos os esforços pelo fim da guerra na Ucrânia.
É igualmente urgente aliviar o sofrimento do povo Palestino.
O Brasil repudiou veementemente os atentados na Caxemira.
Sabemos que o terrorismo não está associado a nenhuma religião ou nacionalidade.
Também não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam.
São fenômenos distintos e que não devem servir de pretexto para intervenções à margem do direito internacional.
Reafirmei ao Primeiro-Ministro Modi que o Brasil está comprometido com a manutenção da América do Sul como zona de paz.
Afinal, as únicas guerras que a humanidade deve lutar são as contra a fome, a pobreza e a degradação do meio ambiente.
Esta visita de Estado traça um novo capítulo para a longa jornada de cooperação bilateral entre Brasil e Índia.
Meu caro amigo Modi,
Eu queria terminar dizendo a Vossa Excelência que tenha certeza absoluta de que o olhar do Brasil para a Índia é um olhar muito, muito esperançoso. Nós temos na Índia um país com muitas similaridades. Apesar da diferença de quantidade de habitantes, vários dos nossos problemas são similares, nossos conhecimentos científicos e tecnológicos estão próximos e, se nós trabalharmos juntos, a gente vai fortalecer a relação bilateral Brasil-Índia, a gente vai fortalecer a nossa relação com o MERCOSUL e a gente vai fortalecer o Sul Global, para que a gente não entre nunca mais numa guerra fria entre duas potências.
Muito obrigado.