Pronunciamento do presidente Lula durante cerimônia de posse do novo ministro da Justiça e Segurança Pública
Veja, duas palavras importantes nesse dia de hoje. Quando eu chamei o companheiro Lewandowski [Ricardo, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública] para ser ministro da Justiça, havia muita gente que dizia que o Lewandowski estava num grau muito superior para aceitar ser ministro da Justiça.
Ele tinha deixado a Suprema Corte, onde tinha prestado um trabalho extraordinariamente respeitado pela sociedade brasileira e pelos juristas do mundo inteiro que acompanham a trajetória política do Lewandowski. E ele tinha se aposentado, e as pessoas diziam “olha, ô Lula, vai ser difícil o Lewandowski aceitar, porque um cidadão com o gabarito dele, com o conhecimento jurídico dele, depois de se aposentar, não vai nem trabalhar mais, ele vai dar pareceres, ele vai escrever parecer para advogado menor, e vai escrever poesia, vai cuidar da sua vida, ele não vai aceitar”. E eu já conhecia o Lewandowski, conhecia a esposa do Lewandowski, e eu sabia que ele poderia ter um pouco de dificuldade.
E a minha surpresa agradável é que quando eu conversei com o Lewandowski, ele disse “eu vou conversar com a Yara [de Abreu Lewandowski, esposa de Ricardo Lewandowski]”, e eu fiquei com medo que a Yara dissesse não, e quase nenhum marido recusa o não da sua esposa, então, eu fiquei muito feliz quando o Lewandowski me disse, “olha, presidente, eu conversei com a Yara, e ela disse: ‘eu sei que você quer, eu sei que você quer ajudar o Lula, eu sei que você quer ajudar o governo, então vá’”.
E eu fiquei muito feliz de ter um ministro da Justiça com a qualificação jurídica e com a vida pública do companheiro Lewandowski. Então, Lewandowski, nesse dia de hoje, eu quero agradecer o momento que você decidiu, e da mesma forma que eu fiquei feliz, eu fiquei feliz quando você me disse, “presidente, eu preciso cuidar dos meus netos”.
E eu falei para o Lewandowski: “Jamais eu iria pedir para que um avô não tivesse tempo de cuidar dos seus netos. Se os seus netos são a sua prioridade nesse instante, que eu espero que viva até 120 anos como eu, cuida dos seus netos, porque os seus netos são fruto, sabe, da semente que você plantou, que são os seus filhos. Então, cuide com muito carinho, e obrigado por tudo que você fez nesses dois anos de governo”. Muito obrigado, querido.
E eu estou feliz por conta do companheiro Wellington [César Lima e Silva, novo ministro da Justiça e Segurança Pública] porque é muito difícil você convencer um jogador, que joga no Corinthians e ganha muito bem, ir para um time ganhar menos da metade do que ele ganhava. Não tem mais aquele negócio do cara beijar o distintivo e jogar no time por amor, não. Hoje, quem manda no futebol é o salário, é a quantidade de dinheiro que se ganha.
E o Wellington é uma surpresa, porque o Lewandowski falou comigo, eu estava no Aeroporto de Congonhas, ele me deu uma gravata de presente, e me comunicou, e eu fiquei pensando, “bom, eu já tenho a pessoa, e eu vou chamar o Wellington para ser o ministro da Justiça”.
Eu fiquei pensando, esse cara já trabalhou comigo. Quando eu fui tirar ele daqui, foi com muita pena que eu cedi ele para a Petrobras, porque a Magda [Chambriard, presidenta da Petrobras] estava tomando poste na Petrobras, e eu queria que ela tivesse a melhor assessoria jurídica que a gente poderia oferecer à Petrobras.
E ofereci ele para a companheira Magda. Ele foi, esqueceu de mim, porque quando começa a ganhar bem, se esquece dos amigos pobres. E aí o Wellington foi, e eu falei, o Wellington está bem de vida, não vem nem a Brasília mais, ele agora vive só em Copacabana, Ipanema, Leblon.
E eu resolvi ligar para ele, pensando que ele ia falar “presidente, eu estou bem aqui, minha família vai vir para cá, eu estou dando presente para minha mulher, eu estou ganhando melhor, não vou aceitar”. Meu querido Gonet [Paulo, procurador-geral da República], a minha surpresa agradável é que ele disse, “eu jamais poderia recusar uma convocação sua, eu largo a Petrobras e vou para aí”. Ganhar menos, bem menos, na verdade, do que ganhava na Petrobras.
E uma coisa importante que nós precisamos fazer, eu disse ao Lewandowski, eu disse ao companheiro Wellington ontem, é que nós estamos vivendo um momento muito especial nesse país. Especial do ponto de vista de tudo que aconteceu nesses últimos três anos. Porque as pessoas não podem esquecer como é que nós pegamos esse país em 2023.
As pessoas não podem, quando as pessoas falarem em déficit fiscal, tem que lembrar o que nós encontramos. Quando as pessoas falarem em desordem econômica, tem que lembrar o Brasil que nós pegamos. Quando as pessoas falarem em responsabilidade, tem que lembrar o Brasil que nós pegamos.
Quando as pessoas falarem em gasto, tem que lembrar o Brasil que nós pegamos. Porque três anos depois, nós estamos entregando esse país de uma forma extraordinariamente bem-sucedida. Obra de muita gente, mas sobretudo eu acredito na benção de Deus de nos dar a oportunidade de a gente conseguir consertar.
Não é a primeira vez que a gente conserta o Brasil. Já consertamos outras vezes. Eu digo para ninguém esquecer nunca: quando nós chegamos nesse país em 2003, esse país devia 30 bilhões de dólares ao FMI [Fundo Monetário Internacional], esse país não tinha dinheiro para pagar as suas importações, esse país não tinha a confiança de ninguém, o FMI mandava todo ano dois diretores aqui para fiscalizar as contas do governo, o Malan [Pedro, ex-ministro da Fazenda], que era um homem sério, o Fernando Henrique Cardoso [ex-presidente da República], que era um amigo meu, presidente da República, tinha que todo ano ir para Washington mendigar uma reunião com a FMI para ver se conseguia acertar as contas brasileiras, e nós chegamos aqui.
Não apenas consertamos esse país, como nós pagamos a dívida, viramos credor do FMI e fizemos a primeira vez na história uma reserva de 370 bilhões de dólares que perdura até hoje, que é o grande colchão de estabilidade desse país.
Eu estou contando isso para as pessoas lembrarem, eu estou falando desse bom momento econômico para lembrar do bom momento do nosso trabalho na questão da justiça. Nós nunca estivemos tão perto e nunca tivemos tanta oportunidade, tanta chance, de chegar no andar de cima da corrupção e do crime organizado neste país como agora, nesse exato momento histórico do Brasil.
Depois da operação Carbono Oculto, que foi a maior operação já feita pela Polícia Federal, junto com a polícia de São Paulo, junto com a Receita Federal, depois a [Operação] Refit, quando nós conseguimos bloquear cinco navios com 250 milhões de litros de gasolina contrabandeada. Depois que nós fizemos isso, depois da situação do Banco Central com o Banco Master, eu quero falar ao meu delegado da Polícia Federal, ao procurador-geral desse país, falei ao presidente da Suprema Corte, estou falando ao ministro, ao advogado-geral da União, que eu não convidei para reunião porque achava que estava de férias, mas hoje nós fizemos uma reunião para dizer o seguinte: nós vamos mostrar que o Estado Brasileiro vai derrotar o crime organizado.
Nós vamos mostrar que o Estado Brasileiro vai derrotar o crime organizado. Já foram aprovadas muitas leis, eu tenho confiança, Lewandowski, que a gente vai aprovar a PEC da Segurança Pública para definir qual será o papel da União na participação da Segurança Pública deste país.
Porque a Constituição de 1988 transferiu para os estados a responsabilidade. E nós vamos saber onde é que o Estado pode participar. Não é só a transferência de dinheiro. Qual é a ação da Polícia Federal? Qual é a ação da Guarda Nacional que nós temos que criar com muita força? Qual é a ação da Polícia Rodoviária Federal? Qual é o papel de cada um?
Para que a gente possa definitivamente dizer que o Estado não pode ser derrotado por nenhuma organização criminosa, por nenhuma organização empresarial, por nenhuma organização religiosa, nada pode derrotar o Estado, a não ser a incompetência e a incapacidade dos governantes e das instituições. E nós temos instituições sólidas, e por isso nós tomamos essa decisão hoje.
Então este jovem aqui assume a tarefa, dando sequência ao trabalho do que você começou, com a Polícia Federal, com a Receita Federal, com o Banco Central, com todo mundo que puder, para que a gente possa, pela primeira vez, não ficar apenas matando gente em favelas, não apenas ficar prendendo o pobre, mas para chegar na cobertura e saber quem é efetivamente responsável, quem ganha dinheiro, quem não paga imposto, quem sonega neste país, que é uma das razões do empobrecimento do nosso país.
Então, meu querido Wellington, eu estou grato, feliz, e queria dizer para você: nós temos um ano, exatamente um ano, até 31 de dezembro de 2026, para a gente mostrar ao Brasil que valeu a pena escolher para ser ministro da Justiça desse país. Faça o que você sabe fazer de melhor, com respeito às instituições, mas com a tenacidade, a combatividade que é peculiar sua.
Você sabe que o nosso Ministério Público tem muita autonomia. Você sabe que a nossa Polícia Federal tem muita autonomia. Você sabe que a nossa Receita Federal tem muita autonomia. E eu vou lhe dizer uma coisa, quando a gente governa, a gente muitas vezes acha ruim que vocês tenham tanta autonomia. Mas se vocês não tivessem autonomia, certamente as instituições não teriam a importância que têm, porque elas seriam facilmente cooptadas pelo poder político. E é importante que vocês digam em alto e bom som, eu não pertenço a um presidente da República, eu não pertenço a um presidente do Senado, eu não pertenço a um presidente da Câmara, eu sou uma instituição democrática do Estado Brasileiro que pertenço ao povo brasileiro.
É isso que dá a vocês a qualificação e a competência da gente chegar pela primeira vez ao andar de cima da corrupção desse país. Parabéns, que Deus te abençoe e que você faça o seu melhor.