Pronunciamento do presidente Lula durante cerimônia de assinatura de contratos do Programa Mar Aberto, em Rio Grande (RS)
Meus queridos companheiros e companheiras,
Primeiro, quero dizer a vocês que já são 17h15. Nós não almoçamos para que eu pudesse fazer essa agenda aqui e fazer a inauguração de um conjunto habitacional e visitar a área do porto -- que foi feita uma concessão para que a gente possa fazer esse porto voltar a funcionar com toda a força possível. E eu, se tivesse que almoçar, eu teria que ter suspendido um dos eventos. Bem, eu estou falando isso porque significa que eu vou falar pouco: não tão pouco que vocês não saibam o que falei e nem muito para cansar vocês.
Eu vou tentar falar o essencial, e o essencial só eu sei, vocês não sabem, então não tem limite o meu essencial aqui. Eu, pela primeira vez, eu estou um pouco confuso do que falar com vocês. Porque eu, desde que fui eleito a primeira vez presidente da República em 2003, eu tinha herdado um país que tinha sido vítima da chamada década perdida. Não havia um economista nesse país, dos mais renomados que vocês possam compreender, que não achasse que eu tinha conquistado uma massa falida.
O Brasil não tinha recursos para pagar a sua importação. O presidente da República era o Fernando Henrique Cardoso, uma pessoa com quem eu tinha uma relação de amizade e de respeito, embora participássemos de partidos diferentes. Companheiro, sabe, ministro da Fazenda, era o Malan [Pedro], que era um homem da máquina pública séria, não tem nenhuma notícia que coloque qualquer dúvida sobre o comportamento ético do Malan durante o período que ele foi ministro da Fazenda, mas a economia não andava bem das pernas. E eu lembro de quantas vezes o Malan viajava para Washington [EUA], no final do ano, atrás de dinheiro para resolver o problema das contas brasileiras.
Mais grave do que as viagens que o Malan fazia, e muitas vezes não era recebido por ninguém do FMI [Fundo Monetário Internacional], nós víamos todo ano descer um casal, um homem e uma mulher, que descia no aeroporto ou de São Paulo ou do Rio de Janeiro para fiscalizar as contas brasileiras e dizer o que a gente tinha que fazer neste país. Então, quando eu assumi a presidência, muita gente, inclusive companheiras do tamanho da Maria da Conceição Tavares, do Paul Singer, diziam: “Olha, você não vai conseguir governar. Você pegou um país quebrado”. E eu, então, chegava à noite, governador, eu ia deitar naquele Palácio da Alvorada, deitava de barriga para cima e eu falava: “Será que eu vou terminar a minha vida como o Walesa [Lech, ex-presidente da Polônia] terminou na Polônia?
O Walesa fez as greves no mesmo período que eu fiz em São Bernardo do Campo, nos anos 80. Era a greve dos metalúrgicos da indústria automobilística e a greve dos estaleiros de Gdansk. E como naquele tempo o Papa João Paulo II era uma figura importante e tinha-se uma luta muito grande para terminar um regime autoritário que tinha na Polônia, o Walesa teve a primazia de chegar na presidência primeiro do que eu.
E eu perdi três eleições antes de chegar na presidência. E eu ficava deitado imaginando: será que o meu destino, depois de brigar tanto para chegar à presidência, é terminar como um fracassado? E eu lembrava que o Walesa foi candidato à reeleição e ele só teve 0,5% de votos, ou seja, menos que um. Aliás, metade que um. Isso significa um fracasso total, retumbante. E eu falava com a minha consciência: eu não posso errar.
Eu saí da porta de fábrica para vir para cá, eu não posso voltar para a porta de fábrica desmoralizado. Eu tenho que fazer acontecer neste país. E depois eu pensava: qualquer presidente que já passou por aqui, se ele não der certo, ele vai passar alguns anos em Paris, outros vão passar uns anos em Nova Iorque, outros vão passar uns anos em Londres. Eles vão estudar, vão escrever livros.
Eu vou ter que voltar para São Bernardo do Campo, a 600 metros do sindicato que eu fui criado, e ouvir o discurso do sindicalista, dizendo do meu fracasso na porta de fábrica, às 5h da manhã. E eu falava: eu preciso vencer. Mas eu também sabia que não é possível vencer se você não tiver capacidade de ouvir, se você não tiver capacidade de conversar com as pessoas, muitas vezes pessoas do povo comum, que são tratadas como anônimos ou invisíveis, muitas vezes sabem mais coisas do que a gente que pensa que sabe.
E eu então me determinei: eu ia ser um sobrevivente nessa briga. E resolvi assumir o compromisso de tirar o Brasil da miséria que o Brasil estava. Eu não esqueço nunca, no segundo ano do meu governo, eu não pude dar nem 1% acima da inflação para o salário mínimo.
Os dirigentes sindicais estavam na Avenida Paulista fazendo o ato do primeiro de maio, o Marinho [Luís] era presidente da CUT e hoje é meu ministro do Trabalho, e o Marinho ligava: “Ô Lula, vem pra cá, rapaz, vem pra cá, o povo está te chamando, vem pra cá”. E eu não tive condição moral de ir na porta de fábrica no primeiro de maio, porque eu não tinha como explicar para o trabalhador porque eu não dei nada de aumento real para o trabalhador. Era um compromisso de vida minha.
E não fui no 1º de maio. Fiquei em casa amargando a minha frustração de não poder ir na Avenida Paulista anunciar pelo menos meio por cento de aumento. O tempo passou, e nós começamos a fazer as coisas acontecer, trabalhando com muita seriedade, fazendo nenhuma mágica no governo, mas tentando fazer aquilo que era possível fazer, ouvindo muita gente, ouvindo muito conselho, não fazendo nenhuma loucura, porque era preciso fazer as coisas darem certo.
Em 2004, acontece a denúncia do Mensalão. E vocês sabem o que aconteceu naquele período. Começou em 2004, só foi terminar em 2012 com o julgamento de alguns companheiros.
E até hoje não foi provado que houve compra de voto de ninguém. E nós conseguimos sobreviver. Em 2005, eu fui para a Índia. E na Índia eu cismei depois de assistir um discurso do primeiro-ministro Singh [Manmohan], depois de ver que a Índia tinha conseguido fazer uma reserva internacional de 100 bilhões de dólares, eu voltei com a disposição de resolver definitivamente o problema do Brasil. Mandei chamar o presidente do Fundo Monetário Internacional. O Brasil devia 30 bilhões de dólares para o fundo. E o Brasil não tinha dinheiro sequer para financiar suas exportações. Eu disse para o FMI: eu vou pagar a minha dívida. E ele dizia, não, mas eu não estou precisando de recursos agora. Eu falei, mas eu vou pagar. Eu vou pagar porque eu aprendi com a minha mãe que a gente não pode ficar devendo. E eu não gosto de dever.
Eu gosto de andar de cabeça em pé, de olhos para frente, olhando na cara das pessoas e eu não me sinto bem e eu não quero que você venha mais ao Brasil fiscalizar a minha conta. A minha conta, quem vai fiscalizar sou eu. E eu aprendi com a minha mãe que era analfabeta, de que responsabilidade a gente não aprende na escola. A gente aprende de berço: ser responsável e cuidar das coisas públicas. Bem, paguei 30 bilhões de dólares do FMI e pela primeira vez na história do Brasil a gente conseguiu chegar a 100 bilhões de dólares de exportação. Não sei se vocês estão lembrados, nós colocamos um guindaste, sabe, com uma propaganda muito grande na frente do Ministério do Comércio Exterior, para mostrar que a gente tinha chegado a 100 bilhões de dólares.
Mas eu falei: eu preciso mais, porque o câmbio estava muito vulnerável e o câmbio brasileiro a gente não resolve com medidas políticas do Brasil. O câmbio brasileiro se resolve quando os americanos mexem em alguma coisa. Então, era preciso que a gente acabasse com essa volatilidade do dólar.
Então, eu resolvi fazer reserva internacional. Pela primeira vez na vida, nós conseguimos fazer 370 bilhões de dólares de reserva e o Brasil passou a ter a quarta reserva internacional do mundo. Essa reserva, até hoje, garante que o Brasil tenha força suficiente para evitar toda e qualquer mexida do dólar que tenha impacto na nossa economia.
E aconteceu aquilo que eu previa. O Brasil ganhou e começou a ter respeitabilidade no mundo. Eu não esqueço nunca, minha cara Magda [Chambriard, presidente da Petrobras]: eu tive uma reunião com um alemão presidente do FMI em Paris e eu fui dizer para o cara: eu não quero que você mande ninguém fiscalizar o Brasil.
Contei minha história para ele. Falei para ele, olha, eu sou um cara que nasci numa terra em que muitas crianças morriam antes de cinco anos de idade, de fome. Eu sou um cara que fui comer pão pela primeira vez na minha vida com sete anos de idade em São Paulo.
Eu sou um cara que fui criado com mãe e pai analfabeto, mas eu fui um cara que aprendi a capacidade de negociar quando eu fui eleito presidente do sindicato de São Bernardo do Campo. E eu quero lhe dizer: eu vou lhe pagar porque responsabilidade eu tenho de sobra e não quero vocês xeretando na minha vida. Pois bem: depois que nós pagamos o FMI, veio a crise de 2008 e nós emprestamos 15 bilhões de dólares para o FMI.
Então nós deixamos de ser devedores e passamos a ser credores. Hoje são eles que devem para a gente uma quantia em dinheiro. Bem, nós conseguimos sobreviver.
Eu fui reeleito em 2006 e resolvi criar uma coisa chamada PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]. Eu resolvi, no mês de fevereiro, dizer ao mundo todas as obras que eu ia fazer no país, conversando com o governador, conversando com o prefeito, porque eu tinha medo que se a gente não tivesse um projeto para o país, cada ministro teria o seu projeto. Então o ministro fazia a ponte que ele queria, a pontezinha na cidade dele, a casinha na cidade dele, o portozinho na cidade dele e o Brasil ficava sem projeto.
E para construir o PAC eu chamei os 27 governadores no primeiro mandato, chamei muitos prefeitos e foi um dos melhores momentos da história deste país. E foi aqui em Rio Grande, no discurso que eu fiz em 2009, que eu anunciei o dinheiro de 41 bilhões de reais para a ciência e tecnologia, para que a gente conseguisse recuperar os investimentos na ciência e tecnologia deste país.
Pois bem, eu já vou terminar, mas eu vou dizer para vocês o seguinte: nós que pegamos um país quebrado, devendo para o FMI 30 bilhões de dólares, eu, que era o único presidente da história deste país que não tem diploma universitário, não tem doutorado, não tem mestrado, não tem pós-graduação. Eu tive o prazer de terminar o meu mandato com a economia brasileira crescendo 7,5% ao ano e conseguimos eleger a primeira mulher na história do Brasil presidenta da República deste país.
Bem, vocês sabem o sucesso da economia, vocês sabem. Naquele tempo, Eduardo [Leite, governador do Rio Grande do Sul], a gente produzia 3 milhões e 600 mil carros por ano.
Naquele tempo, uma parte da elite brasileira me acusava por excesso de carro na rua, porque os pobres estavam comprando carro neste país. Vocês se lembram disso. Vocês se lembram como é que cresceu o poder aquisitivo do povo pobre deste país. E veja que engraçado: eu sou um cara de muita sorte, porque depois que o Brasil, depois que eu deixei a presidência em 2010, a primeira vez que o Brasil cresceu acima de 3% foi na minha volta para presidente da República deste país.
Eu estou dizendo isso porque nós já crescemos em 2023, crescemos em 2024, vamos crescer em 2025 e vamos crescer em 2026 na expectativa que o povo brasileiro nunca mais eleja um presidente que não tenha sorte para governar este país. Nunca mais. Nós estamos no terceiro ano de mandato deste país, estamos no terceiro ano do meu terceiro mandato e nós temos um número extraordinário.
Nós pegamos um país quebrado, vocês sabem, vou dizer que não tinha mais Ministério do Trabalho, não tinha Ministério da Cultura, não tinha Ministério do Esporte, não tinha Ministério da Mulher, não tinha Ministério dos Direitos Humanos, não tinha Ministério dos Povos Indígenas, não tinha Ministério da Igualdade Racial, porque alguém dizia que quanto menos ministérios você tem, menos gastos você tem.
Eu vou dizer: quanto menos ministérios você tem, mais incompetente você é, porque você precisa colocar os movimentos da sociedade brasileira. Eu, por exemplo, peguei o Ministério da Pesca, não tinha. Quem cuidava da pesca? Agricultura. Eu nunca vi peixe nascer em terra. Então, olha, vem tipo a Agricultura, tem o Ministério da Agricultura, para pesca eu tenho que ter o Ministério da Pesca.
Não tem outra coisa. Nós temos 12% da água doce do mundo, nós temos uma costa marítima de 8.500 quilômetros quadrados, temos mais 5 milhões e 700 mil quilômetros de mar sob os cuidados do Brasil. Por que não ter o Ministério da Pesca?
Por que não ter o Ministério da Igualdade Racial numa sociedade que 50% da população é negra e ainda temos preconceitos “incorrigidos”? Por quê? Por que não tem o Ministério das Mulheres se elas são 52% da população brasileira e hoje são vítimas do desrespeito à política de gênero e são vítimas dos homens por conta do feminicídio. Por isso eu assumi a responsabilidade no final do ano. Quem tem que lutar contra o feminicídio não é a mulher, é o homem, porque é ele que é agressivo. É ele que é agressivo.
E por isso, cada ministro meu sabe que cada discurso que ele fizer agora, ele tem que falar da violência contra a mulher. Cada dirigente sindical que for na porta da fábrica defender o salário tem que pedir para o seu trabalhador não ser violento com a mulher. Não há por que as pessoas serem violentas com a mulher. Não há por que. Não gosta mais, separa, vai embora. Não gosta mais, deixa a mulher ir embora. O que não dá é para a gente ver as agressões. Um cara matar e arrastar uma mulher por um quilômetro. Um outro pegar a mulher no elevador e matar de soco.
O outro matar uma mulher grávida com três filhos e com o filho na barriga. Que estupidez é essa? Então, nós homens temos que assumir a responsabilidade, ter juízo, responsabilidade e vergonha e parar com essa violência. E eu estou muito à vontade para fazer isso para vocês. E é por isso que eu provoco as mulheres, pelo amor de Deus, estudem. Vocês não podem viver com alguém a troco de um prato de comida ou de um aluguel.
Vocês têm que ser independentes, pelo amor de Deus. É porque o homem não respeita se você for subserviente. Se você ficar esperando que ele dê 10 reais para comprar uma coisa para o neném, dê 10 reais para comprar um sutiã, dê 10 reais, ele vai achar que é dono de você. É importante que o homem saiba que a mulher mora com ele porque gosta dele, não porque depende dele. Isso é muito importante. E quem tem que evoluir somos nós, homens.
Portanto, eu assumi essa luta, estamos construindo um pacto nacional contra a violência e contra a mulher. E eu vou dizer o seguinte: quem bater mulher não precisa votar em mim. Não precisa. Não precisa. Não precisa. Bem, depois disso, nós temos que ver o seguinte: eu sou de muita sorte, porque veja o negócio, nós pegamos esse país quebrado, passamos dois anos recuperando esse país, dois anos.
Vocês estão lembrados que no ano passado eu disse: “Agora nós estamos plantando, preparamos a terra, aramos a terra, colocamos fertilizante na terra e agora estamos colhendo”. E veja que engraçado, não sei se tem economista no meio de vocês, presta atenção, mesmo a imprensa, presta atenção. Eu vou terminar o terceiro ano de mandato com a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil.
Eu vou repetir: eu vou terminar meu terceiro ano de mandato com a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil. Eu vou terminar meu terceiro ano de mandato com o menor desemprego da história do Brasil. Eu vou terminar o meu terceiro ano de mandato com o maior crescimento da massa salarial da história desse país.
Eu vou terminar o meu terceiro ano de mandato com o maior fluxo de exportação da história do Brasil: 628 bilhões de dólares. Só nesses três anos, nós abrimos 508 novos mercados para vender os produtos brasileiros.
Ah, o Trump nos taxou? Tudo bem, eu não vou ficar chorando, eu vou procurar alguém para comprar o que ele não quer comprar, eu não vou ficar lamentando, não vou ficar lamentando. Pois bem, companheiros, depois de todo esse processo, eu quero fazer um apelo para vocês. Esse ano eu estou definindo na minha vida como o ano da verdade.
E não é um ano para o governo, é um ano para vocês. Não é para mim, é para vocês. Vocês sabem o que foi a vida de vocês aqui nessa cidade quando esse estaleiro deixou de ter 15 mil pessoas para ter apenas 2.200 pessoas.
Vocês sabem o que se passou com a vida de vocês. Vocês sabem o sacrifício da família de vocês. Então, vocês sabem que para construir uma casa, um quarto e cozinha, às vezes leva meses. Para destruir, basta uma enchente. Para destruir, passa um minuto para a gente destruir. E para construir é muito difícil.
Então, quando eu digo que este ano vai ser o ano da verdade, é porque nós precisamos destruir essa fase da mentira e do ódio que tem tomado conta do nosso país. É impressionante a quantidade de manipulação e de mentiras passadas 24 horas por dia. E eu sei que todo mundo tem um celular na mão, eu sei que todo mundo não consegue fazer outra coisa a não ser com o celular.
Eu queria dizer para vocês: não se permitam virar algoritmos. Vocês são seres humanos, vocês têm que ter paixão, solidariedade, afeto. Você não tem que saber o que você não precisa, você só tem que saber o que você precisa.
Vocês não sabem o bem que significou quando a gente acabou com o celular na escola, para as crianças poderem estudar, para os professores poderem dar aula. Vocês não sabem… Vamos ser francos, eu estou aqui olhando a cara de mulher e de homem.
Quantas vezes vocês vão deitar na cama com o companheiro ou com a companheira e deita meia-noite no celular [imita movimento de rolar a terra]? Fazer o quê, porra? O que você quer fazer meia-noite?
Por que não faz um cafuné na querida, apaixonada? Por que a mulher acorda 5 horas da manhã ao invés de olhar para o marido, pega o celular e fica também por... O que você quer também 5 horas da manhã?
Aí eu sou presidente da República, eu depois das 8 horas da noite não quero saber de notícia ruim. E quando eu me levanto, eu também só quero saber depois das 8 horas, porque antes eu não vou poder tomar nenhuma decisão. Se eu quiser falar com o presidente, está todo mundo dormindo. Se eu quiser falar com a Caixa, o cara está dormindo. Se eu quiser falar com a Magda, ela está dormindo. Se eu quiser falar com o Olívio, ele está dormindo. Que porra eu tenho que saber de notícia 4h da manhã? Que bobagem é essa? Eu tenho que saber o quê...
O que é que você, governador, tem que saber? Você vem meia-noite, vai dormir, pega o celular. Se sair uma matéria ruim contra você, você vai ligar para o jornal? Não! A única coisa que vai acontecer é que você vai perder o sono. A única coisa é que você não vai conseguir dormir. Vai ficar de barriga para cima pensando, pô, estou ferrado.
Então, gente, vamos utilizar o nosso tempo para fazer as coisas que o ser humano tem que fazer. Nós nascemos para viver em comunidade. Nós vivemos para nos ajudar uns aos outros. A gente está ficando muito individualista. Eu quero comida, eu peço por telefone. Eu quero pagar a minha conta, eu pago no telefone. Eu não quero...
Se aparecer um amigo, já está enchendo o saco. E o grupo do zap? Eu tenho que contar o que eu fiz hoje? Eu tenho que contar o café? Eu tenho que contar... Porra, quem quer saber disso? Isso é futrica pura. E a direita sabe disso. E é por isso que a direita tem uma indústria de mentir. Tem uma indústria. Uma indústria poderosíssima. Só para você ter ideia, na campanha do presidente Trump, na última semana, eles fizeram 2 milhões de mensagens contra a adversária dele. Dois bilhões! Vai ser assim a campanha.
Ontem, Magda, eu estava vendo o teu anel. Eu estava vendo que a Magda tem um anel bonito e brilhante. A Magda é uma mulher poderosa. A Magda é uma mulher estudada. Finíssima. Mas você sabe o que eu fiz? Quando o cara vai me dar uma foto e bota para mim uma foto de bermuda, com as minhas coxonas lá, para todo mundo ver, de roupa branca, dando uma joia para a Janja [Lula da Silva, primeira dama do Brasil].
E aí o cara que me mostrou a foto... Olha, presidente, como o senhor e a Janja tão bonitos. Eu e a Janja falamos...Não somos nós, não. Isso é inteligência artificial. A coitada da Janja nunca ganhou uma joia minha, porra.
Então, Magda, se a gente não tomar cuidado... Por exemplo, se eles tirarem uma foto da Magda, do jeito que ela está aqui, vestida, eles podem publicar uma foto dela pelada, nua. E pode acontecer com vocês, homem e mulher. É isso que está tomando conta da cabeça da gente. E eu queria que vocês assumissem a responsabilidade.
Eu não tenho celular. Eu só uso celular para as minhas coisas de serviço que eu peço para os meus companheiros. Eu não carrego celular. Eu, ao invés de ficar carregando celular na mão, eu prefiro coçar outras coisas. Então, quando eu quiser falar com alguém sério, o dia que eu quiser falar com você, governador, pode ficar certo que nem eu. Eu vou pedir para alguém, me ligue para o governador. Quer falar com o Rui [Costa, ministro da Casa Civil]... Ele também vive com celular na mão. Puta merda.
São viciados. Isso é uma dependência digital. Não tem dependência química, isso é dependência digital. Sabe? As pessoas estão desaprendendo. Vamos ver uma coisa. Antigamente, a gente, quando vocês eram menores, sentava na frente do sofá toda a família, pai, mãe, os filhos, para ver televisão, não é isso? Quando não tinha controle remoto, a briga era para ver quem ia levantar para mudar de canal. Aí arrumaram o controle remoto. A briga agora é para saber quem pega o controle remoto primeiro e vai ficar dono do canal. E depois da briga, quem é que sabe lidar com o controle remoto? Porque o controle remoto agora, antigamente era só ligar e desligar e mudar o canal. Agora tem 80 coisas. A Janja coloca a letra, tira a letra, coloca inglês, tira inglês. Eu não sei fazer coisinha nenhuma. O máximo que eu sei é gritar, Janja, me arruma essa televisão. Se eu tivesse neto em casa, era o meu neto. Eu estou dizendo isso para a gente aprender a conviver socialmente entre nós.
Eu estou dizendo que é preciso a gente convidar um amigo para jantar e guardar o celular, conversar, pegar na mão da namorada, do namorado, sabe? Trocar carícias. É assim que é o ser humano, é assim que é o mundo animal. E nós estamos robotizados, nós estamos virando algoritmo. E eles fazem com a gente o que eles querem. E contam mentira 24 horas por dia. Então, o que eu queria pedir para vocês: quem vai desmontar isso são vocês. Se vocês souberem da verdade e vocês não brigarem com a mentira, prevalece a mentira que é muito mais fácil acreditar na mentira. É muito mais fácil.
Quando a gente era pequeno, não sei se vocês ouviram isso, minha mãe dizia: “a verdade engatinha, a mentira voa”. É assim mesmo, continua assim. E agora a gente está vendo a mentira em tempo recorde, em tempo recorde. Então, o que eu quero pedir para vocês? O país que vocês sonham, não sou eu que vou construir, não é o Eduardo, não é o Rui Costa, quem vai construir são vocês. Vocês é que têm que decidir que país que vocês querem e não ficar esperando que os outros construam o país que vocês querem.
Vocês é que têm que construir. E para desmontar essa fábrica de mentira tem que ser vocês. Se vir uma coisa que é mentira, denuncie ou delete. Não passe para frente, não passe para frente. Porque a capacidade de produção de mentira é uma máquina fantástica. Vocês sabem o que eles estão fazendo agora, governador?
Os seus adversários vão filmar o que você fala. Eles vão tirar uma palavra sua fora de contexto e vão colocar ela em outro contexto para dizer que você falou as coisas. Eu tenho certeza que tem gente me filmando só para isso.
Eu tenho certeza que, não é o Stuckinha [Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do presidente Lula], o Stuckinha é o meu cara do bem aqui. Mas também não sei depois que ele me deixa o que ele faz. Mas a verdade é o seguinte: é que está cheio de gente filmando o que você falou, filmando o que o Rui Costa falou. E o cara vai pegar uma frase, uma palavra, tira do contexto para poder avacalhar com a sua vida. Esse mundo interessa para nós? Vocês querem construir os filhos de vocês com base na mentira?
Vocês acompanham o que a molecada faz com o telefone celular? Porque vamos ser francos, eu sou católico. Eu, durante muito tempo, fui contra jogo de azar. Vocês sabem que eu joguei uma vez na loteria esportiva, em 1974. E eu ganhei. Eu estava com a minha namorada quando a zebrinha [quadro antigo de programa de televisão que dava o resultado da loteria esportiva] deu lá os times que ganharam. E eu olhei minha cartela, puta fiz treze, vocês sabem o que eu fiz? Eu não contei para a minha namorada, nem para mulher, nem para a minha mãe. Eu descobri que eu tinha um lado avarento.
Eu falei, estou rico, estou rico, eu não quero que ninguém peça dinheiro emprestado para mim. Aí no outro dia eu descobri, fui comprar a folha da tarde para ver, quase 50 mil ganharam. Acho que deu 50 reais ou 100 reais para cada um. Eu nunca mais joguei na vida, nunca mais joguei. O Jogo do Bicho no Brasil é contravenção, é proibido. Mas todo mundo vai na padaria de manhã com a fezinha, e joga na borboleta, e joga no jacaré, e joga no sei-nas-contas e vai na fé. Mas é proibido. E eu a vida inteira fui contra cassino. Dizendo cassino é jogo de azar. O pobre vai gastar o que não tem. Coitado do pobre, nem pode entrar no cassino, gente, nem pode. No cassino vai quem tem dinheiro para gastar.
Mas na medida que a gente era contra o cassino, o que aconteceu com esse bichinho aí? O cassino foi para dentro de casa da gente. Hoje ele está na nossa sala. Hoje ele está na mão de um garoto de 14 anos. Está na mão de um garoto de 15. Está na mão de um garoto de 16. Porque a molecada pega o telefone do pai, da mãe. Pega. Hoje a vida está assim. Uma criança de seis meses. Não, seis meses não. Uma criança de um ano e meio começa a chorar. Ao invés de a mãe pegar ele no colo, ela dá um celular. Naquele carrinho de carregar a criança, tem um tablet pendurado. Para a criança desde cedo aprender a fazer aquilo. Quando na verdade a gente deveria pegar a criança, fazer um cafuné na criança, alisar a criança, beijar a criança, falar meu amor. Não.
Está tudo ficando digitalmente difícil de o ser humano lidar. Então se preparem. Porque o país que a gente vai construir vai depender do comportamento de cada um de vocês. De cada um. Do comportamento de vocês. Da capacidade de fiscalização que vocês tiverem que ter. Porque se vocês não tiverem isso, a gente tem uma situação delicada no mundo inteiro hoje. Você veja uma coisa: o presidente Trump, todo dia, ele é noticiário por conta de um Twitter [Atual X]. Antigamente você tinha que fazer uma reunião com os presidentes, convocar o conselho da ONU, discutir. Hoje ele pega um Twitter, fala o que ele quiser do Rio Grande do Sul e você passa o resto do ano respondendo. Então o mundo está virando do avesso, cara.
Nesse aspecto eu sou muito equilibrado. Eu primeiro não tomo decisão com 39 graus de febre. Eu espero a febre baixar. Segundo, eu não estou preocupado com o que acontece no mundo depois das 10 horas da noite. Eu quero dormir. Porque eu sei que se eu dormir bem, eu acordo bem. Se eu dormir mal, se eu perder o sono, porque o presidente de tal país falou tal coisa. Dane-se. Falou, falou. Eu quero é dormir. E quando eu acordar eu quero trabalhar. E para trabalhar eu tenho que estar com a cabeça em ordem. É por isso que eu tenho uma definição. É preciso cuidar desse povo.
E cuidar desse povo não cabe mentira. Não cabe mentira. Quanto mais verdadeiro a gente for, melhor é. E por isso eu quero terminar essa minha fala dizendo para vocês: esse país já provou por tudo que a Magda falou, já provou com a rapidez que nós ajudamos a recuperar o Rio Grande do Sul. Quem é que sabia que a gente ia fazer aquela compra, como é que chama a compra? A Compra Assistida. Quem é que sabia?
Quando a gente não tinha tempo de construir 10 milhões de casas ou 9 milhões de casas, se inventou uma coisa de Compra Assistida e a gente conseguiu vender as casas para o povo que precisava. Quem é que imaginava? A decisão de qualquer presidente da República é de não dar para fazer nada, vamos esperar, uma ou duas Medidas Provisórias, não é votado.
O que é que nós fizemos? Nós mobilizamos o Congresso, a Câmara, tanto o Pacheco [Rodrigo, ex-presidente do Senado] quanto o Alcolumbre [Davi, presidente do Senado], quanto o Lira [Arthur, ex-presidente da Câmara], quanto o Hugo [Motta, presidente da Câmara], todo o Ministério, para que a gente pudesse não perder tempo de ajudar o Rio Grande do Sul. E o Rui Costa tem razão: não há precedente na história do país, em 525 anos de história, a pressa com que a gente resolveu ajudar o Rio Grande do Sul. Não há precedente na história.
Ô gente, da mesma forma, se a gente quiser discutir quem nesse país fez mais pela educação, escola de tempo integral, Pé-de-Meia, universidade, ProUni, FIES, Bolsa de Professores, quem fez mais? Quem fez mais? Quem fez mais legalização de terras indígenas? Quem fez mais legalização de quilombo nesse país? Quem fez mais? Sabe o que acontece? Alguma coisa está errada no país. Me desculpe, mas alguma coisa está errada no país.
Porque este país já teve tanta gente da elite governando, não precisava ser um operário sem diploma universitário para fazer as coisas que eles deveriam ter feito há muito tempo atrás. Se a gente tivesse investido na educação há 50 anos, se a gente tivesse feito reforma agrária há 50 anos, se a gente tivesse investido no desenvolvimento desse país há 50 anos, se a gente tivesse mantido a nossa indústria naval, que na década de 50 era uma das maiores do mundo, se a gente não tivesse acabado elas, se a gente tivesse acreditado neste país, este país estava um país de classe média.
Agora precisa vir um metalúrgico, quase que semianalfabeto, para poder fazer uma campanha e isentar quem ganha até 5 mil reais de Imposto de Renda neste país. É preciso vir um peão que conhece a vida do povo para poder dizer que não é possível uma pessoa com salário mínimo gastar 10% do salário para comprar gás de cozinha. É por isso que nós resolvemos distribuir gás de graça para mais de 15 milhões de famílias do CADÚnico. Hoje as pessoas que consomem até 80 quilowatts de energia não pagam nada e quem consome até 120 kwh paga uma pequena diferença.
Por que a gente faz isso? É porque é experiência de vida. Eu comecei dizendo para vocês que eu nasci em uma cidade em que as crianças morriam antes de completar 5 anos de idade. Eu comecei dizendo para vocês que eu fui comer pão aos 7 anos. Mas eu quero dizer para vocês: eu aprendi a ter caráter assim que eu nasci, na barriga da minha mãe. Eu aprendi a ter dignidade ainda na barriga da minha mãe. E isso ninguém tira de mim.
E é por isso que eu criei uma frase. Uma frase que eu repito todo santo dia. Muito dinheiro na mão de poucos significa pobreza e miséria. E pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de renda. Essa é uma máxima econômica que ou este país aprende ou a gente não vai para lugar nenhum.
Estejam certos de uma coisa. Eu ainda vou voltar a esta cidade. Eu estou torcendo que a Petrobras encontre petróleo em Pelotas. Petróleo em Pelotas. Estou torcendo. Estou torcendo porque a Petrobras é a empresa brasileira mais extraordinariamente importante. É a melhor cara do Brasil é a Petrobras. É a melhor coisa que nós criamos é a Petrobras. E a Petrobras aos poucos, governador, ela vai se transformando numa empresa de energia. Cada vez mais ela vai se transformando numa empresa de energia. Porque esse país precisa ter a seguinte decisão: nós precisamos construir uma soberania energética. A gente não pode ficar dependendo de nenhum país do mundo e de tecnologia de outros países. Por isso estejam certos, companheiros, e Darlene e governador. Eu voltarei aqui este ano, talvez mais que uma vez.
E quero contar com vocês para que este estado recupere a primazia que ele já teve. Eu conheci o Rio Grande do Sul em 1975 pela primeira vez na posse do meu querido companheiro de Bossoroca [Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul]. Ele tinha tomado posse do sindicato dos bancários e eu tinha tomado posse dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
E depois que se encontrou um bancário de Bossoroca e um metalúrgico de Caetés, nós fizemos uma revolução no movimento sindical brasileiro, nós criamos o PT, nós criamos a CUT. Ele foi governador do estado e eu fui presidente da República. E sou o único brasileiro a ser presidente três vezes por conta de vocês e por obra de vocês.
E quero… Quero Darlene, quero dizer para você uma coisa que eu não sei se você sabe. Aqui, nesta cidade de Rio Grande, eu nunca perdi uma eleição em todas as eleições que eu disputei na vida. Então, não é Rio Grande que é Lula, é Lula que é Rio Grande. Sou eu.
Por isso, meus parabéns, parabéns a vocês, que a Petrobras continue investindo, que os empregos apareçam e que vocês sejam felizes para o resto da vida.
Um beijo no coração e até outro dia, se Deus quiser.