Transcrição do pronunciamento do presidente Lula durante cerimônia que marca o início da produção de veículos elétricos da GM no Brasil
Eu penso que o dia de hoje não é apenas um dia de comemoração, é um dia em que a gente tem que fazer uma reflexão, porque as coisas não aconteceram com mais rapidez neste país. Veja o que aconteceu no Brasil: quando eu deixei a presidência, dia 1º de janeiro de 2011, este país produzia 3 milhões e 600 mil carros por ano.
Naquele tempo, a estratégia da indústria automobilística era chegar a 6 milhões de carros até 2015. Presta atenção: a gente produzia 3 milhões e 600 mil e a estratégia da indústria automobilística era chegar a 6 milhões de carros. Eu voltei para a presidência em 2023, 15 anos depois, e a indústria automobilística só produzia 1 milhão e 600 mil carros, menos da metade do que ela produzia em 2010, 2011.
É de se perguntar o que aconteceu neste país para as coisas não andarem. Por que as coisas não andam com a pressa que nós precisamos? Eu sempre botei na cabeça que não existe dificuldade para governar um país quando a gente tem compromisso com o país e quando a gente tem uma definição de que lado a gente está e para quem que a gente quer governar. Não existe dificuldade.
Deixa eu contar um pequeno caso para vocês. Eu ganhei as eleições. Eu e o Alckmin [Geraldo, vice-presidente da República e ministro de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços] tínhamos sido adversários em 2006 e como a idade serve para a gente amadurecer, veja que em 2022 eu fui convencer o companheiro Alckmin a ser o meu vice-presidente da República e deu certo.
Depois, eu precisava de uma pessoa experiente e ele tinha sido prefeito, foi deputado constituinte comigo, foi governador de São Paulo durante 16 anos, ou seja, ele já tinha sido quase tudo. E eu falei: eu preciso de uma pessoa experiente comigo para ajudar a gente a dar um salto de qualidade neste país. E aí eu precisava de um ministro da Indústria e Comércio e fui procurar um monte de gente.
Conversei com muitos acadêmicos, com muitos teóricos, e chegou um dia que eu conversei com um cidadão. Eu nunca vi ninguém saber de tanta coisa como aquele cidadão sabia. Ele tinha tudo na ponta da língua. E aí eu resolvi fazer uma pergunta para ele. Eu perguntei, de tudo isso que você está me falando, você já colocou alguma coisa em prática? Não. Ou seja, ele não tinha nenhuma experiência. Aí eu falei, sabe de uma coisa? Eu não vou errar.
Eu vou convidar o Alckmin para ser o meu ministro da Indústria, Comércio e Desenvolvimento. E foi o que eu fiz. E acho que hoje eu posso dizer, que tenho o mais importante ministro de desenvolvimento industrial que o Brasil já teve.
Porque ele junta a competência técnica, competência política com o jeito de conversar. Por exemplo, quando o Trump [Donald, presidente dos EUA] ameaçou a taxação ao Brasil, eu logo coloquei o Alckmin à frente. Ele vai ser o meu negociador.
Alguém que não gosta de brigar, alguém que quer conversar, alguém que quer construir, alguém que não fala grosso, alguém que respeita todo mundo. Porque quando você tem uma pessoa que fala grosso com a Bolívia, mas fala fino com os Estados Unidos, não dá certo. Você tem que ter uma pessoa que seja educada com a Bolívia, educada com os Estados Unidos, educado com o pequeno e educado com o grande.
E por isso a Nova indústria Brasil é um sucesso que é neste país de hoje, fazendo com que a indústria brasileira passe a ter um processo muito vigoroso na exportação. Essa é a primeira coisa do sucesso. A segunda coisa do sucesso é que eu tenho uma tese econômica que eu não sei se todos os jornalistas concordam comigo ou melhor, todos os economistas.
A minha tese é simples: é que muito dinheiro na mão de poucos significa pobreza. E pouco dinheiro na mão de muitos significa riqueza. Ora, na hora que você tem uma indústria que produz um determinado produto, mas o povo que produz aquele produto não tem dinheiro para comprar, essa empresa vai produzir para quem? Para exportar.
Mas e para exportar o mercado também não é convincente porque nós temos países que produzem mais tecnologicamente do que nós, o que vai acontecer? A nossa indústria quebra. Então a primeira esperteza de um presidente da República e do seu vice é definir para quem você quer vender. E o Brasil tem um mercado interno muito grande e o que nós precisamos é produzir carro para vender para o povo brasileiro e o excesso de carro, a gente exporta.
Mas primeiro nós temos que garantir que o povo brasileiro tenha o direito de andar num carro bonito como aquele ou num carro bonito como aquele. É para isso que a gente trabalha, para ter acesso às coisas que a gente produz. E é por isso que as coisas dão certo no Brasil.
Hoje, nós temos no Banco do Nordeste a maior política de crédito da história do Brasil e muito crédito para pequeno e microempreendedor neste país. Nós temos o maior saldo de empréstimo do Crediamigo. Nós temos no Banco do Brasil a maior política de crédito, inclusive de crédito para o trabalhador.
Nós temos na Caixa Econômica a maior política de crédito também para financiamento de casa e para financiar reforma de casa. Nós temos no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] a melhor política de investimento na indústria do Brasil que nós fizemos; e temos o BASA, o Banco da Amazônia, que era utilizado para emprestar dinheiro para fazendeiros, para grandes proprietários, para madeireiros. E nós fizemos uma inversão, vamos emprestar dinheiro para o pequeno e para o médio.
E quando o dinheiro começa a circular, as coisas começam a funcionar. O dinheiro tem que circular na mão do povo, não pode ficar na mão de uma única pessoa. É por isso que nós fizemos a inversão do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
A partir de janeiro, não haverá mais desconto na folha de pagamento de quem ganha até R$ 5 mil. E quem ganha de R$ 5 mil até R$ 7.350 mil também haverá redução. É por isso que nós temos um programa chamado Gás do Povo, porque o gás sai da Petrobras a R$ 37 e chega na casa de vocês a R$ 150, a R$ 140.
E a gente acha que uma pessoa que ganha um salário mínimo não pode gastar 10% do salário com gás de cozinha. Então nós criamos um programa que beneficiará quase 17 milhões de famílias, até o mês de março, com um botijão de graça gratuito pago pelo governo, porque as pessoas têm direito a comer. É por isso que nós reduzimos a conta de luz para o povo mais pobre.
Quem consome até 80 quilowatts não vai pagar nada e quem consome até 120 vai pagar uma pequena diferença, porque não é possível que no Brasil, da mesma forma do Imposto de Renda, o empresário pague menos energia do que paga uma pessoa que tem um pico de luz. O que nós estamos fazendo é garantindo que, no mercado livre, o povo consumidor possa ter acesso também. A gente não quer prejudicar nenhum empresário.
O que a gente quer é que o povo tenha o mesmo direito para que a energia seja justa com todo mundo. Afinal de contas, nós vamos nos transformar no maior produtor de energia renovável do mundo: eólica, solar, biomassa, hidrogênio verde e outras coisas que tais.
Só para os empresários terem certeza de uma coisa. O Brasil fez a COP30 agora. O grande discurso da COP30, que envolve toda a União Europeia, que envolve os países ricos, é o seguinte: o mundo quer chegar até 2050 a 40% de energia renovável. A Europa, Estados Unidos, Canadá, todo mundo quer chegar até 2050. A gente está em 2025, portanto, daqui a 15 anos, não 2050, daqui a 25 anos eles querem chegar a 40% de energia renovável.
Nezinho [Farias, prefeito de Horizonte], fala para a sua mãe, para a Dona Rita. Este país, chamado Brasil, enquanto eles querem chegar a 40% de energia renovável em 2050, em 2025 o nosso Brasil já tem 53% de energia renovável. É por isso que é importante o carro elétrico.
É por isso que é importante a decisão da GM vir para cá. Por isso é importante a decisão da PACE [Polo Automotivo do Ceará] vir para cá. Para a gente poder mostrar que este país não deve nada a ninguém. Este país é um país grande. O que ele precisa é tomar decisões grandes.
O que ele precisa é saber que a gente não está governando para uma minoria, que a gente está governando para 215 milhões de habitantes. E é por isso que eu fico feliz. Vocês sabem que a indústria automobilística me procurou, eles procuraram o Alckmin, e o Alckmin levou eles para conversar comigo.
E procuraram sempre reclamando de preço, sempre reclamando de imposto. O patrão também é, vou contar uma coisa, viu? O patrão e sindicalista, só procura a gente atrás de aumento.
Então deixa eu falar uma coisa para vocês. Os patrões lá, toda a indústria automobilística procura a gente para dizer, não, olha, é preciso a gente baratear um certo imposto, é preciso, está difícil vender carro. Você sabe o que aconteceu no país, você que é colombiano? Há oito anos, a indústria automobilística brasileira tinha suspendido o Salão do Automóvel.
O Salão do Automóvel, que é a feira anual de todas as novidades que a indústria automobilística faz, que vai milhares de pessoas visitar, tinha parado. Porque algum cara, algum esperto, alguém inteligente, achou que não precisava mais. Eu falei, se você não está fazendo propaganda do carro de vocês, quem vai vender? Eu?
E graças a Deus, este ano voltou o Salão do Automóvel no Brasil e foi um espetáculo, com 26 indústrias se apresentando no Salão do Automóvel. Olha, quando isso acontece, o milagre começa a acontecer.
Hoje, presta atenção, esse dado é muito importante: nós temos a menor inflação acumulada em quatro anos. Nós temos o maior crescimento do salário mínimo. Temos o maior crescimento da massa salarial e o menor desemprego da história deste país.
Nós temos o melhor índice de pobreza de todos os 525 anos deste país. Por uma razão muito simples: o dinheiro está chegando na mão do povo. E quando o dinheiro chega na mão do povo, o povo compra.
Ele não pode comprar um carro zero, ele vai comprar um usado. Ele não pode comprar o carro, mas ele pode comprar comida, se ele pode comprar uma roupa, o cara que vende a comida, que vende a roupa, vai poder comprar o carro. Então, é assim que a gente faz a economia.
E é por isso que as pessoas falam que eu tenho sorte. Quando eu deixei a presidência, no dia 31 de dezembro de 2010, a economia brasileira crescia a 7,5% ao ano. Vocês sabem que depois que eu deixei a presidência, a economia nunca mais cresceu acima de 3%.
Nunca mais cresceu acima de 3%. Precisou eu, que não tenho diploma universitário, voltar a governar o país para que o Brasil crescesse 3 anos acima de 3%. 3.2%, 3.4%. E vai continuar crescendo. Porque é na hora que o povo está consumindo, na hora que o povo está comendo, passeando, viajando, podendo comprar as coisas que ele precisa -- uma roupa nova, um televisor, um computador, um telefone, um sapato, uma pele?, uma calça, uma casa – que as coisas começam a acontecer.
Imagina vocês, se eu tivesse R$ 1 milhão aqui no bolso e eu desse um milhão para o Alckmin, ele é um cara de confiança, eu vou dar um milhão para ele. O que que iria acontecer? O Alckmin iria correr para um banco e escolher um banco e iria depositar na conta dele.
Quanto é que estão pagando de juros? A taxa selic é 15%, então eu vou depositar. Ia ganhar 15% ao ano sem trabalhar, sem fazer nada. Então, só ele ficava bem e você ficava chupando o dedo.
Agora imagina vocês, se eu pego esse milhão e em vez de dar para o Alckmin, eu distribuísse R$ 1 mil para cada um. O que que iria acontecer? Todos vocês iriam correr para uma padaria, num bar, num restaurante, numa loja e esse dinheiro iria circular e todo mundo iria ganhar, não apenas um. É este país que nós temos que fazer acontecer.
Todo mundo tem que participar da riqueza produzida. É por isso que nós fizemos o desconto do Imposto de Renda, porque no Brasil o rico paga proporcionalmente menos do que o pobre. Vocês querem um exemplo? No ano passado, a nossa Petrobras distribuiu R$ 45 bilhões de dividendos. R$ 45 bilhões para os acionistas. Sabe quanto esses 45 bilhões pagaram de imposto de renda? Zero. Preste atenção!
Não apenas a Petrobras, qualquer banco, do Brasil, a Caixa Econômica, o BNDES, o Itaú, o Bradesco, qualquer empresa, quando ela paga dividendos, é zero de imposto de renda. Agora, quando um trabalhador ou uma trabalhadora recebe R$ 10 mi de participação de lucro, o que que acontece? Ele paga 27,5%. É justo? Não é justo, é? Então, quando chegar o ano que vem que vocês forem votar, pense nisso, para saber que deputado você vai eleger, que prefeito você vai eleger, que governador, que senador ou que presidente.
Pense nisso, que a gente vai conseguir mudar este país. No mais, eu estou muito orgulhoso de estar aqui, porque não tem nada mais sagrado para mim do que o emprego. É o emprego que dá dignidade para a gente.
O homem ou a mulher, trabalhar, chegar no fim do mês, levar com o suor do seu trabalho o sustento para sua família, pagar suas contas, comprar novas coisas e dizer para os filhos, para o pai ou para a mãe, nós vamos em frente. Eu já fiquei um ano e meio desempregado. Sem emprego, a gente não é ninguém.
Sem emprego, nem os vizinhos acreditam mais na gente. Sem emprego, a gente tem vergonha até de sair de casa para os vizinhos não verem que a gente é vagabundo. Sem emprego, nem o sindicato recebe a gente, porque o sindicato recebe quando a gente está trabalhando, quando a gente está desempregado, nem o sindicato recebe.
Então, companheiros, eu quero dizer para vocês, tem três coisas para mim que não é compromisso, é profissão de fé. Uma é o emprego. Eu sei o que é procurar emprego sem profissão. Eu fiquei uma vez um ano e meio desempregado. E eu sei o que é a gente ter uma profissão e procurar emprego.
Essa é uma coisa sagrada. É por isso que a minha segunda profissão de fé é a educação. Uma menina bem formada ou um menino bem formado, eles têm muito mais chance na vida. Eles não serão tripudiados, não serão ofendidos, não serão molestados por ninguém. Porque se ele tiver uma profissão, mesmo que não tenha emprego na hora, a empresa vai pedir o currículo dele, porque daqui a pouco ela vai precisar. E é por isso que eu sou o presidente da República que mais investe em Instituto Federal.
Em 100 anos, o Brasil construiu 140. Em dez, eu vou produzir 762 Institutos Federais para formar os profissionais que vocês precisam, para formar os engenheiros, para formar as pessoas especializadas, nesse mundo digital que é totalmente desconhecido, nessa tal de inteligência artificial que a gente nem sabe ainda qual é o benefício que ela vai criar. Mas a gente sabe que ela existe.
E se a gente não souber transformar a inteligência artificial e a rede digital numa coisa do bem, há muita gente querendo transformá-la numa coisa do mal. E vocês sabem o que é fake news.
A outra coisa muito importante para mim, gente, é o posto de trabalho. A esperança de trabalhar. Essa coisa é sagrada e por isso eu estou muito agradecido ao governo do estado, a dedicação aos deputados que votaram a legislação, que permitiu. A vocês, tanto a GM como a Paz, que tomaram a decisão. E ao companheiro Alckmin, que é o companheiro que dá dignidade a todos os empresários que procuram o governo na tentativa de fazer investimento.
Eu saio daqui hoje, companheiro Elmano [de Freitas, governador do Ceará], muito mais prazeroso. Primeiro, porque nós vamos hoje anunciar que vai ter um data center aqui do TikTok que, ao longo do tempo, vai investir R$ 200 bilhões neste país. Segundo, porque nós vamos entregar a carteirinha da professora e do professor, uma carteira que nem se fosse carteira de deputado, que nem se fosse carteira de advogado, em que a professora vai ter desconto no hotel, no avião, na farmácia e em outros lugares que tiver convênio.
Porque a profissão mais sagrada que a humanidade construiu é a de professor e professora, porque sem ela nós não seríamos nada. Por isso, parabéns ao Ceará, parabéns à GM, parabéns à PACE e parabéns aos trabalhadores que voltaram a trabalhar. Eu espero que vocês sejam felizes, porque esse estado não irá regredir, esse estado irá avançar e conte comigo. Um beijo no coração de todos vocês.