Pronunciamento do presidente Lula na reunião ministerial
Um candidato a alguma coisa veio me comunicar que, em função da reivindicação das bases, da pressão das bases, ele será obrigado a se afastar para ser candidato, porque o povo do estado quer que ele seja candidato. É sempre assim, quando você tira um ministro, ele chora. “Por que eu?”. Mas quando você não quer tirar, que ele quer sair, ele encontra todos os argumentos necessários para sair e joga a responsabilidade em cima do povo.
O povo quer que eu saia, a base está fazendo pressão, o meu estado está exigindo. Então, eu reconheço isso e eu vou ficar muito feliz que aqueles que tiverem de se afastar, se afastem e, por favor, ganhem o cargo que vão disputar. Não percam.
A segunda coisa é que nós estamos completando hoje dois anos, 11 meses e 15 dias de governo. Aqui, nessa reunião, o companheiro Alckmin [Geraldo, vice-presidente e ministro de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços] vai falar depois de mim. Depois o Rui [Costa, ministro da Casa Civil], fará uma apresentação de tudo o que foi feito em infraestrutura, em todos os campos, porque não é possível a gente dar a palavra para todos os ministros, porque a gente percebe que, depois que fala quatro, cinco, seis, sete ministros, a reunião começa a se esvaziar, porque as pessoas começam a pegar o celular embaixo da mesa, começam a tuitar e as pessoas param de prestar atenção.
Então, eu pedi para que o companheiro Rui compilasse as coisas mais importantes que foram feitas nesses dois anos, 11 meses e 15 dias, para que a gente faça uma apresentação e vocês tenham uma noção de tudo o que vocês contribuíram para que nós fizéssemos esse ano. Depois, o companheiro Haddad [Fernando, ministro da Fazenda] vai fazer uma apresentação, como não poderia deixar de ser, sempre é muito importante a economia, mostrar tudo o que aconteceu na economia, essas coisas que a imprensa passa o ano inteiro falando, déficit fiscal, despesa demais, gasto demais. O Haddad vai mostrar o sucesso que foi o nosso terceiro ano de administração deste país.
Depois disso, o companheiro Sidônio [Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República] fará uma fala sobre a questão da comunicação, não só do que está sendo feito, mas do que nós vamos fazer, e depois a companheira Gleisi Hoffmann [ministra da Secretaria de Relações Institucionais] fará uma avaliação da conjuntura política na relação nossa com o Congresso Nacional, Câmara e Senado.
Bem, dito isso, eu queria dizer para vocês que aqui tem gente que participa de governo nosso desde 2023, e eu acho que nós estamos vivendo um momento, do ponto de vista econômico, do ponto de vista do financiamento dos nossos bancos, BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], Caixa [Econômica Federal], Banco do Brasil, Basa [Banco da Amazônia] e BNB [Banco do Nordeste], do ponto de vista do crescimento da nossa indústria, do ponto de vista do crescimento da agricultura, nós estamos vivendo um momento quase que ímpar na história desse país. E muito mais importante é que nós vamos terminar o ano aprovando algumas coisas sagradas nesse país.
Ontem terminou de votar a política tributária na Câmara, que foi aprovada, hoje acho que vai para o Senado para ser votada e eu acho que vai ser aprovada. Nós aprovamos a questão do Imposto de Renda. Tudo aquilo que teoricamente os analistas políticos achavam impossível acontecer num governo que tinha menos de 120 deputados, numa Câmara de 513, e num governo que tinha 14 ou 15 senadores, num Senado de 81, aconteceu.
Aconteceu pela persistência de cada um de vocês, aconteceu pela capacidade de conversa que vocês tiveram, pela capacidade de argumentação. Aliás eu falei para o Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos]: “Ô, Trump fica mais barato conversar e menos sofrível conversar do que guerra”.
Se a gente acreditar no poder do argumento, no poder da palavra, a gente evita muita confusão na vida dos países. E, assim, nós conseguimos terminar o ano numa situação amplamente favorável, embora isso não apareça com a força que deveria aparecer nas pesquisas de opinião pública.
Não aparece porque existe uma polarização no país, é como se fosse Corinthians e Palmeiras, como se fosse Ceará e Fortaleza, como se fosse Grêmio e Internacional, como se fosse Atlético Mineiro e Cruzeiro, Flamengo e Vasco. Você tem uma rivalidade que ninguém muda de posição a não ser em momentos extremos. E esses momentos extremos são as eleições que se aproximam o ano que vem.
No ano que vem, as pessoas terão a oportunidade de escolher que tipo de país eles vão querer, vão ter que escolher. E aí é muito importante uma coisa que nós temos que mostrar, nós começamos esse governo falando as palavras “Reconstrução e União”. A gente pegou um país desmontado, a gente começou a reconstruir e a gente trabalhou muito a questão da união.
Depois, no começo desse ano, a gente começou a falar que a gente estava plantando e que esse ano seria o ano da colheita. Então nós já anunciamos todas as políticas sociais que a gente tinha que anunciar, todas, pode faltar uma ou outra, mas que não deu tempo de anunciar, nós vamos saber como é que nós vamos tratar o ano que vem.
Mas o dado concreto é que o ano eleitoral vai ser o ano da verdade. Nós temos que criar a ideia da hora da verdade para mostrar quem é quem nesse país, quem faz o que nesse país, o que aconteceu antes de nós e o que acontece quando nós chegamos ao governo. Qual foi a mudança que houve na economia, na educação, na saúde, no transporte, nas políticas de inclusão social, na igualdade racial, na mulher, nos indígenas, nos quilombolas, o que aconteceu na verdade. É importante que a gente tenha a noção que nós precisamos fazer com que o povo saiba o que aconteceu nesse país. Eu tenho a impressão que o povo ainda não sabe, eu tenho a impressão que nós ainda não conseguimos a narrativa correta para fazer com que o povo saiba fazer uma avaliação das coisas que aconteceram nesse país.
E o ano que vem é o ano em que a gente tem oportunidade, não só porque estaremos em disputa, mas porque cada um ministro, cada partido que vocês participam, vai ter que estar no processo eleitoral e vai ter que se definir de que lado está, será inexorável, será inexorável as pessoas terem se definindo e definindo o discurso que vão fazer. Eles vão ter que defender aquilo que ele acha que pode elegê-lo.
E eu acho que nós temos uma força extraordinária, se a gente for analisar o que os bancos públicos brasileiros fizeram, a gente vai perceber que há décadas os bancos não faziam a capacidade de investimento que estão fazendo agora, todo tipo de investimento. E nós precisamos fazer muito mais, porque a minha teoria é que pouco dinheiro na mão do povo resolve o problema.
Não tem macroeconomia, não tem câmbio, se tiver dinheiro na mão do povo está resolvido o nosso problema. Está resolvido o problema da industrialização, está resolvido o problema do consumo, está resolvido o problema da agricultura, está resolvido o problema da inflação. Eu acho que o que nós vamos demonstrar de lição ao povo brasileiro é que, na hora que a gente consegue fazer com que o dinheiro circule, e eu não vou falar de número, porque o Haddad é que vai falar, na hora que a gente faz com que o dinheiro circule na mão de todos, está resolvido parte do trauma desse país.
A verdade nua e crua é que nós acabamos com a invisibilidade do povo pobre desse país. Nós acabamos com a invisibilidade de um povo que só era reconhecido em época de eleição. Hoje as pessoas estão tendo o direito de comer três vezes ao dia, as pessoas estão tendo o direito de ir ao cinema, as pessoas estão tendo o direito de ir ao cinema porque também nunca se investiu tanto em Cultura como se investiu nesses três anos, num país em que não existia mais Ministério da Cultura.
Então, essa reunião de hoje é para que todos vocês tenham um quadro real do que aconteceu nesses três anos. Possivelmente, nem cada um de nós individualmente saiba a grandeza do que foi feito. Por isso, eu encomendei, que ainda não está pronto, eu encomendei uma maquete sobre a Transposição do Rio São Francisco, porque a verdade, os companheiros do Nordeste que estão aqui, sobretudo dos quatro estados mais beneficiados pela Transposição: Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, sobretudo esses quatro estados, a gente não tem dimensão do significado dessa obra hídrica.
Possivelmente, muitas pessoas pensam que é só um canal de 640 quilômetros. São vários canais interligando as açudes, transformando o rio que já estava seco em rio perene outra vez e fazendo com que a gente não tenha mais problema de seca para uma grande parcela da sociedade brasileira que, durante 300 anos, padeceu de nascer pobre, morrer pobre, muitas vezes morrer de fome, sem perspectiva.
E isso aqui eu posso contar a minha história de que, em 1952, eu tive que sair de Pernambuco, com a mãe e oito filhos por causa da fome. E assim milhões e milhões e milhões de brasileiros, durante 50 anos, percorreram o Brasil para tentar salvar. E nós estamos resolvendo isso. Agora a água está lá.
Obviamente que agora a gente está transferindo responsabilidade, porque a água, quando chega no açude, quando ela chega no canal, ela tem que chegar nas propriedades das pessoas, ela tem que chegar na casa das pessoas e nós temos que envolver prefeitos e governadores construindo uma parceria para que a obra final seja realizada. Além disso, a última novidade da semana que vem é que nós vamos transformar a semana que vem a música Gospel, Messias [Jorge, Advogado-Geral da União], em patrimônio brasileiro. Nós vamos fazer um reconhecimento e na semana que vem você pode estar preparado que, além de ser ministro da Suprema Corte, você vai poder cantar a música Gospel dentro do Palácio do Planalto.
Dito isso, eu passo a palavra ao nosso companheiro, nosso querido vice-presidente, companheiro Alckmin.
(Fala após apresentação dos ministros)
E mostrar exatamente aquilo que eu fiz, nada mais, nada menos. Apenas mostrar com a narrativa correta e dar ao povo o direito de decidir se aquilo é bom ou não para ele. Porque quando a gente fala do Bolsa Família, o Bolsa Família não é um programa mais nosso, é um programa do Brasil.
Ele foi criado por nós, mas ele já passou por seis anos da Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil], já passou por três anos do Temer [Michel, ex-presidente do Brasil], já passou por quatro anos do Bolsonaro [Jair, ex-presidente do Brasil], agora voltou conosco. Não é um programa mais do governo Lula, é um programa do Brasil. E outros programas que têm essa duração também são do Brasil.
Aliás, nós não fizemos para nós. Se fosse nosso, a gente registrava e quando a gente fosse embora, a gente levava. O programa é feito para o povo brasileiro. Por isso é que nós precisamos ter um esforço muito grande, de todo mundo, todo ministro tem que conhecer todas as políticas, porque quando a Sonia Guajajara [ministra dos Povos Indígenas] for falar para os indígenas Yanomami, ela tem que falar das outras coisas.
Quando a Márcia [Lopes, ministra das Mulheres] for falar das mulheres no Paraná, ela tem que falar dos Yanomamis. Se a gente tiver o conhecimento do todo, fica muito mais fácil a gente trabalhar e a gente defender o governo, que não é o governo do Lula. Eu, às vezes fico pensando quando vocês falam, dizendo “porque é no governo do presidente Lula, do governo do presidente Lula” dá a impressão de que vocês não são o governo.
Dá a impressão que vocês não são o governo. Vocês estão comigo esse tempo todo, então o governo não é do presidente Lula, o governo é nosso, o governo é de quem está no governo. Então, é isso que eu quero que aconteça a partir de agora. Deixa eu dizer uma coisa para vocês, a comunicação, ela tem a responsabilidade do Sidônio, ela tem a responsabilidade das entrevistas que eu dou, mas ela tem também a responsabilidade de cada companheiro.
Eu não quero, nesse final de ano, ser grosseiro com ninguém, mas é preciso que a gente não confunda poluição visual com comunicação. Não adianta a gente querer colocar 80 coisas em um único pedaço de papel, porque as pessoas olham e não entendem. É preciso não ficar embaralhando 800 coisas em uma página só, imaginando que as pessoas vão entender alguma coisa, as pessoas terminam não entendendo nada.
Então, comunicação também é uma coisa profissional. Eu queria pedir para os ministros, quando tiver que fazer alguma coisa, conversem com quem conhece para não querer colocar o mandato inteiro numa única folha de papel, que as pessoas terminam não compreendendo. Outros, que são ministérios mais sofisticados, ministérios mais de conhecimento jurídico, às vezes fazem um documento que ninguém vai conseguir ler, ninguém vai conseguir ler.
É importante que a gente, na hora da comunicação, a gente não faça a comunicação para a gente mesmo. “Ah, eu fiz a comunicação, eu gostei, está ótimo”. Não, não é para você que você está fazendo, você está fazendo para alguém, e é preciso saber se esse alguém está entendendo o que você está falando.
Eu conto sempre uma história, Sidônio, que quando eu era presidente do sindicato, a gente fazia os boletins convocando a assembleia e a gente fazia primeiro um monte de críticas ao governo e lá embaixo a gente colocava “assembleia às 19 horas, sexta-feira” e nunca ia ninguém na Assembleia. Aí, quando eu fui ver um texto, ao invés de entregar boletim, eu fiquei pegando o boletim e fui andando igualzinho aos trabalhadores para saber. Quando chegava na portaria, que ele jogava o boletim fora, porque ele não tinha que entrar com o boletim, ele não tinha chegado para saber onde que era a assembleia, ele não tinha conseguido chegar na assembleia.
Ele tinha ouvido críticas ao Delfim [Netto, economista e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura e Pecuária do Brasil], a não sei mais quem, então eu passei a utilizar um gibizinho. Eu peguei o João Ferrador e eu fazia um bonequinho contando história com o João Ferrador. Aquele bonequinho o cara levava para casa, ele não jogava fora, porque era uma coisa que ele apreciava.
Então, a comunicação não é um monte de letras. Apenas alertar para vocês: vocês que vão prestar, porque a partir dessa reunião aqui, a partir de janeiro, eu vou tirar uns dias de descanso, dia 6 de janeiro eu estou de volta. E vou, antes do Carnaval, eu vou querer ter reuniões por áreas de ministério, viu, Marcola [Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe do Gabinete Pessoal do Presidente da República]. Anota você, Oswaldo [Malatesta Neto, chefe do Gabinete Adjunto de Agenda].
Eu vou querer ter reunião por áreas de ministério para tentar aperfeiçoar as coisas que faltam, e reunião com os bancos públicos brasileiros, porque até lá já fecharam o ano, todo mundo já deve ter o que fizeram até dia 31 de dezembro, aí vai ficar melhor a gente receber esse material. Tudo isso até o Carnaval, porque depois do Carnaval, eu vou dançar Carnaval. Não sei se vocês sabem, eu estou me preparando para ser mestre de sala em algum lugar, não sei se vai dar certo. É que eu estou convidando vocês para ir no desfile da Acadêmicos de Niterói, é isso? Que vai fazer uma música em homenagem à dona Lindu. Dizem que a música é para mim, mas a música é para a dona Lindu.
Depois eu tenho três viagens internacionais para fazer, importante, Alckmin [Geraldo, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços], lamentavelmente você não vai poder viajar comigo, mas você tem que preparar as viagens. Eu quero fazer uma megaviagem para a Índia, com muitos empresários, para discutir a questão da saúde, Padilha [Alexandre, ministro da Saúde], para discutir a questão de remédio, da indústria farmacêutica, para discutir a questão da indústria da defesa, a questão espacial e para discutir outras coisas, porque não tem sentido Brasil e Índia, 1 bilhão e 600 milhões de habitantes, a soma dos dois, e a gente só ter 12 bilhões de comércio exterior, é nada.
Depois eu vou para a Coreia do Sul, da Índia eu vou para a Coreia do Sul, fazer talvez a última viagem internacional, porque eu não estou querendo nem ir ao G7 em junho, porque aí nós já estamos em frente a campanha aqui no Brasil.
Nós temos, amanhã, a possibilidade, amanhã eu vou nos catadores. Não, amanhã eu tenho entrevista coletiva, amanhã às 11 horas; depois na sexta-feira eu vou ao Natal com os catadores de papel. Depois eu vou para Foz do Iguaçu, inaugurar a Ponte Brasil-Paraguai; depois eu vou fazer a reunião do Mercosul.
É importante lembrar que nessa reunião do Mercosul, era para ser no dia 2 de dezembro. Eu mudei para o dia 20 de dezembro, porque a União Europeia pediu, porque ela só conseguiria aprovar o acordo com o Mercosul no dia 19. E eu agora estou sabendo que eles não vão conseguir aprovar. Está difícil, porque a Itália e a França não querem fazer por problemas políticos internos.
E eu já avisei para eles, se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente. É bom saber, faz 26 anos que a gente espera esse acordo, 26 anos. O acordo é mais favorável para eles do que para nós. O Macron [Emmanuel, presidente da França] não quer fazer por causa dos agricultores deles, a Itália não quer fazer não sei por causa do quê.
O dado concreto é que nós do Brasil e nós do Mercosul trabalhamos muito para aceitar esse acordo e passar uma ideia nesse momento em que você tem um presidente dos Estados Unidos querendo fragilizar o multilateralismo e fortalecer o unilateralismo, nós queríamos fazer um acordo para mostrar ao mundo que uma população de 722 milhões de habitantes e um PIB de US$ 22 trilhões estavam fazendo um acordo para defender o multilateralismo.
Então eu vou para Foz do Iguaçu na expectativa de que eles digam sim e não digam não, mas também se disserem não, nós vamos ser duros daqui para frente com eles, porque nós cedemos a tudo que era possível a diplomacia ceder. Dito essas coisas, companheiros, eu queria dizer para vocês que nós vamos terminar um ano bem. Eu quero agradecer os meus líderes no Congresso, na Câmara, no Senado, tanto Randolfe [Rodrigues, líder no Congresso], quanto Jaques Wagner [líder do governo no Senado], quanto Guimarães [José, líder na Câmara]; aos líderes partidários que nos ajudaram.
Vocês sabem que nós tomamos posse em uma situação muito adversa, parecia tudo teoricamente difícil, quase que impossível, nós tivemos uma boa relação com o [ex-]presidente Lira [Arthur] na Câmara, temos uma boa relação com o Pacheco [Rodrigo], [ex-]presidente do Senado. Conseguimos aprovar quase tudo o que a gente queria aprovar, discutindo, cedendo, conquistando, fazendo aquilo que é próprio da democracia, fazendo aquilo que todo mundo aqui sabe fazer. Conversar, ceder quando tem que ceder, não ceder quando não precisa ceder e ganhar aquilo que é o melhor para o povo brasileiro.
Nós fizemos isso, eu quero agradecer aos ministros, que com muita competência, sobretudo a área da Fazenda e a área da Casa Civil, trabalharam com muita maestria para tentar fazer com que as coisas acontecessem. De vez em quando aparece uma rusga, de vez em quando tem uma manchete no jornal: “O governo perdeu”, “o governo ganhou”. O governo não perde nem ganha, para nós o que é bom é se o povo ganha, se o povo ganha é o que interessa para nós, é isso que interessa. Eu não tenho nada pessoalmente contra ninguém, sou amigo do Hugo Motta [presidente da Câmara dos Deputados], sou amigo do Lira, sou amigo do Pacheco, sou amigo do Alcolumbre [Davi, presidente do Senado] e sou grato pelo que eles fizeram nesses três anos comigo.
E na hora que surgir uma divergência é importante a gente lembrar que a gente precisa conversar mais, precisa aparar as arestas e eu estou disposto a fazer isso porque nós somos gratos por tudo que foi aprovado até agora. Eu não conheço na história um governo que conseguiu, num Congresso adverso como nós pegamos esse Congresso, aprovar metade do que nós aprovamos. Portanto, é a vitória do multilateralismo, é a vitória da negociação, é a vitória da paciência, é a vitória da conversa e é assim que a gente vai conseguir ir tocando esse país.
Eu acredito, companheiro, que nós, em algum momento, vamos ter que discutir um salto de qualidade no que nós temos que fazer no Brasil. Eu acredito, é o seguinte: nós não podemos continuar nesse país que era a oitava economia do mundo, a Rússia nos passou. A Rússia demonstrou que a guerra fez bem para eles, porque eles cresceram a economia e o PIB deles passaram a gente, eles foram para a oitava economia.
Então, deixa eu lhes falar uma coisa. O Brasil não pode continuar de política de inclusão social a vida inteira, porque o que está provado é que quando entra alguém que não gosta de política social, destrói. Eu, de vez em quando vejo o pessoal falar, os ministros, o Sidônio fala de vez em quando, é preciso algo novo, é preciso apresentar algo novo. Eu fico pensando, quando for reconstruir a Faixa de Gaza, eles vão fazer daquilo o resort que o Trump queria que se fizesse ou vão fazer as casinhas pobres que eles moravam? Vai ser as casinhas pobres e vai ser a maior conquista deles.
O que é que nós tivemos que fazer? Recuperar as coisas que nós tínhamos feito, que ajudavam o pobre, que eles destruíram. Mas agora nós temos que pensar qual é o salto que a gente vai dar para fazer com que o Brasil salte de qualidade. O Brasil pode chegar à sexta economia do mundo, o Brasil pode chegar à quinta economia do mundo, nós temos todas as condições, o que nós precisamos é construir um projeto.
Eu quero saber, eu sei que está ao vivo, eu estou dizendo isso porque está ao vivo mesmo. Eu, de vez em quando, me pergunto, para que é que eu vou ser candidato outra vez? Para fazer o mesmo que eu estou fazendo? Ou eu tenho que ser candidato para fazer outra coisa? Eu vou ser candidato para todo mês ficar discutindo o déficit fiscal? Para todo mês ficar discutindo o corte no orçamento? Para todo mês encontrar um ministro dizendo: “presidente, libera 200 para mim, me leva 300, me leva 400, me leva não sei das quantas”. É para isso que eu quero ser, eu não preciso disso, não preciso disso. Então nós vamos discutir claramente o que é que nós vamos construir no próximo período.
Qual é o salto de qualidade que a gente vai dar? Onde é que a gente quer chegar? Porque, veja, eu não tenho nenhuma preocupação em competir. Aliás, eu já mandei fazer um estudo das políticas sociais dos nossos possíveis adversários, do Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo], do Zema [Romeu, governador de Minas], do Caiado [Ronaldo, governador de Goiás], do Ratinho [Junior, governador do Paraná]. Eu já mandei fazer um estudo de todas as políticas sociais que eles fizeram nos estados. Sinceramente, perto de nós, eles não fizeram nada, nada. E esse é o dado concreto.
Vocês receberam aqui hoje as informações de uma coisa que não é narcisismo meu dizer, mas não tem, eu vou dizer em letras garrafais aqui, palavras garrafais, não tem na história do Brasil, eu vou livrar Dom Pedro II disso, que era imperador, não discuto com imperador. Mas depois da proclamação da República, todos vocês aqui são letrados, o único que não tem diploma aqui sou eu.
Então todos vocês podem pesquisar a história desse país, para saber se em algum momento de todas as Presidências, depois da proclamação da República, alguém fez a quantidade de inclusão social que nós fizemos em apenas três anos nesse país. Pode pesquisar. E eu tenho feito desafio nos encontros que eu faço, pedido para os professores, para os jornalistas. Pesquisem.
Pesquisem, porque, quem sabe, a gente não está fazendo tudo. Mas o máximo que se faria nesse país era um vale. Vale isso, vale aquilo, vale-leite, vale-refeição, vale isso, vale aquilo. Nós estamos tentando fazer políticas de inclusão social que sejam estruturantes. Ela começa pela correção da tabela do Imposto de Renda, pelo aumento do salário mínimo, pelo aumento do Bolsa Família? Por criação de programas como o Pé-de-Meia, garantindo que essas políticas se transformem no aumento da renda das pessoas.
Quando a gente cria a política do Gás do Povo, e a gente resolve dar um botijão para 15 milhões ou 17 milhões de famílias é porque um botijão custa, para quem ganha um salário mínimo, 10%. Se ele não precisa pagar, vai ser 10% de aumento no rendimento dele. Isso significa mais consumo, significa mais comércio, significa mais crescimento, mais indústria, porque esse é o nó da questão. É fazer com que os milhões de brasileiros, porque o mapa que me mostraram, Haddad mostra, é que 90% do povo brasileiro ganha abaixo de 5 mil reais.
Olha, se isso é verdade, gente, se isso é verdade, nós estamos fazendo o mínimo necessário que era possível fazer. E nós temos que compreender que é preciso, nas eleições, aumentar a correlação de força das pessoas que querem ajudar o povo pobre, para que a gente possa aprovar mais coisas, fazer mais coisas. Quando a gente fala em escala 6x1, eu estou nessa briga de redução para 40 horas há muito tempo.
Veja que engraçado, para que serviu o crescimento do conhecimento e do desenvolvimento da tecnologia dentro das empresas? Eu lembro, companheiro Marinho [Luiz, ministro do Trabalho e Emprego], que era metalúrgico de São Bernardo do Campo, nos anos 80, Zé Múcio [José, ministro da Defesa], eu era contra a robotização, dizendo que a robotização ia tirar o trabalhador da fábrica. Naquele tempo, os que pensavam diferente de mim diziam: “Não, Lula, você está errado, cara. A robotização vai melhorar a produção de carro, vai tirar o trabalhador do serviço pesado, ele não vai precisar mais soldar, vai ter um robô para fazer, ele vai poder trabalhar de terno e gravata”.
Falava assim. Ele vai poder comer num restaurante de mensalista. Você sabe o que cresceu? O desemprego. Sabe o que cresceu? A favela. Sabe o que cresceu? A miséria. Porque a empresa, naquele tempo, tinha 40 mil trabalhadores, produzia 1.200 carros por ano e hoje ela tem 12 mil trabalhadores, produz o dobro de carros.
Quem é que ganhou? Não foram os trabalhadores. São Bernardo do Campo tinha meia dúzia de favela, São Bernardo do Campo hoje tem um monte de favela. Então, redução de jornada de trabalho não precisaria nem ser discutida, os empresários é que deveriam propor.
Gente, nós estamos ganhando mais dinheiro com os avanços tecnológicos, nós estamos ganhando muito mais dinheiro, então é possível que a gente não precise, que o povo trabalhe todo esse tempo, de segunda a sábado. O que seria isso para a economia? Seria, na verdade, um aumento de oportunidade para que o povo pudesse estudar mais, ter mais lazer, ficar mais em casa com a família, cuidar melhor dos filhos, seria isso. E eu acho que, do ponto de vista econômico, não pesa nada, porque a tecnologia ganhou.
Renan [Filho, ministro dos Transportes], eu trabalhava numa máquina, eu fazia um parafuso que tinha uma rosca à direita de um lado, uma rosca à esquerda do outro, que juntava a parte dos blocos do motor de navio. E, Alckmin, eu fazia quatro por dia. Quatro.
E era lucrativo. A empresa comprou uma máquina que fazia 80 por dia. E eu, ao invés de ser um artesão, um artista, que era o que era o torneiro mecânico, eu virei um operador de máquina. Colocava lá o ferro e fazia sozinho. Então eu virei um operador de máquina. Eu caí profissionalmente, porque eu era um artista, deixei de ser artista, virei um operador de máquina.
A empresa passou a ganhar dez vezes mais do que ganhava. E o que aconteceu? Menos emprego. Eu não estou dizendo isso para alguém dizer: “O Lula é contra os avanços”. Não. Pelo contrário, eu até vi aquele holograma na inauguração do SBT News. Eu quero que você faça um holograma comigo. Ao invés de fazer um comício, eu faço 27 por dia. Eu quero ter. Você pensa que eu não vou querer aquilo? Eu vou aparecer em todas as cidades ao mesmo tempo, falando bonito.
Essa coisa é extremamente importante a gente ter em conta, de que o momento que nós estamos vivendo exige que a gente seja mais profissional e mais pragmático. Eu até hoje não conversei com vocês sobre política. Até hoje. Um monte de vocês eu nem conhecia. Ou conhecia de jornal. E eu, quando trago uma pessoa para ser meu parceiro, eu estabeleço uma relação de confiança.
E nessa relação de confiança, as pessoas têm liberdade para montar o seu time. A única coisa que nós não queremos é que cada ministro fosse o ministro dele. O programa é dele. A obra é ele que define. Por isso é que nós criamos o PAC, que era para poder tentar enquadrar todo mundo. Nós, agora, vamos para uma disputa com quem? Nós vamos para uma disputa com alguém que nós sabemos que não tem o mesmo perfil de compromisso com a sociedade como nós.
Qual é o perfil que algum dos possíveis candidatos e outros que não estão candidatos ainda têm para o povo pobre? A história vai se repetir. O povo vai voltar a ser invisível. O povo vai voltar a ser invisível porque essa gente não enxerga o povo. É por isso que nós precisamos fortalecer a democracia.
Cada ministro aqui tem que saber que dia 8 de janeiro a gente vai ter o ato aqui, o ato simbólico contra o 8 de janeiro, aqui em Brasília. Portanto, os ministros que querem tirar férias, tirem férias, mas dia 8 estejam aqui, porque não adianta o presidente convocar e os ministros não vierem. Então, Sidônio precisa saber o que a gente vai fazer, tem que entrar em contato com o Congresso Nacional, com a Câmara dos Deputados, para a gente dizer com a Suprema Corte, com as instituições, para a gente convidar todo mundo.
Eles querem que o 8 de janeiro caia no esquecimento. E nós queremos que a sociedade não se esqueça nunca que um dia esse país teve alguém que não soube perder a eleição e resolveu, pela forma mais cretina, continuar governando esse país. Inclusive, tentando matar nós dois. Nosso casalzinho aqui de periquita, dois anjos aqui, os caras quererem bolar um plano para matar eu e o Alckmin. Se fosse um cara bruto como você, Rui, mas eu e o Alckmin, os dois maiores anjos aqui. Então, veja, a coisa mais importante que vocês fizeram junto comigo foi resgatar a democracia brasileira.
E nós precisamos aprender a valorizar a democracia. A valorizar a democracia não como uma conquista apenas no institucional. Não é a democracia só institucional. É a democracia da vida real. A democracia que o povo saiba que democracia é ele ter o direito de comer, ter o direito de trabalhar, ter o direito de estudar, ter acesso à cultura, ter o direito de ir e vir, ter o direito de fazer o que ele tiver vontade de fazer, desde que não interfira no direito do outro também. É isso que nós vamos valorizar.
E é o melhor sistema de governo, porque a sociedade coloca um e tira a hora que quiser. Ela tira, se for bom, fica. Se não for bom, cai fora. Se é homem, não presta, coloca uma mulher. Se é mulher, não dá certo, volta a colocar um homem. Se não dá certo, coloca uma mulher.
Coloca um preto, coloca um loiro, coloca um magro, coloca um gordo. O povo tem a liberdade de fazer o que ele quiser. Isso que é o exercício. E é isso que vocês ajudaram a construir neste país. E é isso que hoje o Brasil simboliza para o mundo. É isso que o Brasil simboliza para o mundo.
Eu tenho muito orgulho do Brasil ser um país muito respeitado no mundo hoje. O Brasil é muito levado em conta no mundo hoje, muito. E nós fazemos isso desde o meu primeiro mandato, com o companheiro Celso Amorim [Assessor-Chefe da Assessoria Especial do Presidente da República].
E eu dizia, Celso, nós temos que mudar a geopolítica do mundo. Não pode os mesmos G7 continuar mandando no mundo. Não é porque ganharam a Segunda Guerra. Nós existimos. E se nós existimos, nós temos que dizer que nós existimos. E nós temos que falar. Sem ser melhor do que ninguém, mas também sem ser menor do que ninguém.
Apenas queremos o direito da igualdade, das oportunidades de falar o que a gente pensa do jeito que a gente sabe, de defender a nossa brasilidade, a nossa cor, o nosso jeito de ser, a nossa cultura. Sem se subordinar a ninguém. Vocês estão lembrados que eu dizia: “nós não vamos ter uma briga muito séria com os Estados Unidos”. Da mesma forma que eu disse que aquela crise de 2008 era uma marolinha no Brasil. Ora, nós restabelecemos a conversa com os Estados Unidos num tom muito razoável, num tom muito amigável. Não está tudo resolvido, mas vai ser resolvido.
Se tem uma coisa que eu aprendi, é que em tempo de crise tenha paciência. Você não precisa gritar tanto contra o teu adversário. Minha mãe dizia: “quando um não quer, dois não brigam”. E eu não quero brigar com o Uruguai, por que eu vou brigar com os Estados Unidos? Sou doido? Não, eu quero paz. Não quero brigar com a China. Não quero brigar com a Índia. Não quero brigar com a Rússia. Não quero brigar com a Bolívia. Não quero brigar com a Argentina.
Não quero brigar com ninguém. Eu quero que o Brasil tenha uma política de paz. Por que esse continente é um continente de paz. Aqui nós não temos armas nucleares. Aqui nós não temos há 200 anos o hábito da guerra. E é por isso que eu falei com o presidente Trump. O poder da palavra pode valer mais do que o poder da arma. Custa menos e demora menos se a gente tiver disposição de fazer. É por isso que eu valorizo muito a democracia.
E é por isso que eu disse ao Trump: “se você tiver interesse de conversar com a Venezuela corretamente, nós temos como contribuir”. Agora é preciso ter vontade de conversar. É preciso ter paciência. E é assim que o Brasil tem se posicionado em todos esses atritos que têm acontecido no mundo e por isso nós ganhamos rentabilidade.
Outra coisa muito importante é o papel que o Brasil tem que assumir na luta contra o feminicídio. Eu quero nessa reunião ministerial dizer para vocês que a gente sempre achou que a luta contra a violência contra a mulher, era da mulher. E eu me convenci pela brutalidade da violência que eu vi esses dias, pela conversa com a minha mulher, de que essa luta é para nós homens. Porque não é a mulher que é a agressora. Ela é vítima da agressão.
Ninguém nunca viu um filme de uma mulher socando o marido na porrada. É sempre o contrário. Ninguém nunca viu um filme de uma namorada socando o namorado. É sempre ao contrário. E também eu dizia ontem, numa reunião que nós fizemos com o presidente da Suprema Corte [Edson Fachin], com a ministra Cármen Lúcia [ministra do Supremo Tribunal Federal], com o Benjamin Hermann [Hermann Benjamin], do Superior Tribunal de Justiça, quem é que já viu um filme da mulher sendo algoz do homem? É sempre o contrário.
Então, se nós homens somos algozes, nós precisamos assumir para nós a tarefa de sermos solidários às mulheres e entrarmos nessa luta para a gente definir qual é o papel do Poder Judiciário, Lewandowski [Ricardo, ministro da Justiça e da Segurança Pública].
Qual é o papel da polícia? Qual é o papel do sindicato? Qual é o papel da igreja? Qual é o papel de todos nós nessa luta em que, segundo os dados oficiais, e o não oficial deve ser o dobro, quase que 1.900 mulheres foram mortas nesse 2024, e mais, não sei quantas em 2023, 8 mil estupros. E quantos em criança que a gente não sabe? E quantos em criança? E isso está ligado a um processo da nossa formação cultural, ao longo de milênios, que a raça humana é isso. É o homem sendo tratado como se ele fosse dono da sua companheira.
Então, enquanto governo, nós precisamos mudar de comportamento. Nós temos que estabelecer políticas entrelaçadas com o Ministério das Mulheres. Muitas vezes a Márcia se queixa que, muitas vezes, ela procura um ministro para discutir alguma coisinha qualquer e é sempre muito difícil. Nunca é sempre um ministro que quer discutir, sempre passa para uma pessoa ou outra discutir. Então, a política da mulher não é do Ministério das Mulheres, a política da mulher é do governo nosso, de todo o governo.
E, às vezes, eu tenho a impressão, nós aprovamos 21 leis desde 2003. Aprovamos 21 leis. Mas eu estava vendo as leis que a gente aprova, é muita lei de compensação. É muita coisa de compensação. Não tem uma discussão mais séria, qual é a pena que um cara que ofende, um cara que violenta, um cara que mata a mulher tem que ter. Aí, de vez em quando, alguém fala: “Ah, mas a mulher não se queixa”.
Lógico que ela não se queixa. Por que é que muitos trabalhadores não abrem processo quando estão trabalhando? Porque tem medo de ser mandado embora. A mulher vai à delegacia dar queixa do marido, ela sabe, “bom, a hora que o meu marido for intimado, o que vai acontecer comigo? É que ele vai chegar em casa e vai me pegar na porrada”.
Ela não tem medo, não, ela está se protegendo. Ela quer retardar o sofrimento que ela tem. Então, qual é o papel nosso, enquanto governo, que tem que envolver governo federal, governo estadual, governo municipal, que tem que envolver sindicatos de trabalhadores em qualquer âmbito? Porque eu falei para o Moisés [Selerges Jr, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC] esses dias, o Moisés foi na porta da Mercedes fazer uma assembleia da campanha salarial, e já meteu um discurso contra o feminicídio.
Esse é o papel de todos nós, ministros, presidente, dirigentes sindicais, pastores, padres, todo mundo que abrir a boca tem que falar. Nós temos que falar, porque nós precisamos transformar esse assunto no assunto da sociedade brasileira e não no assunto das mulheres que são vítimas. Então, eu queria que a partir dessa reunião, esse meu governo, mesmo aqueles que já estão preparando a saída para disputar as eleições, que eu não quero nem olhar para a cara de quantos estão aqui, não quero nem olhar para a cara, só queria que vocês, enquanto vocês estiverem no governo, vocês agora vão ter que colocar a questão do feminicídio na pauta de vocês, tá? Para que a gente transforme isso em uma causa nacional.
Eu acho que se a gente criar uma indignação, nós, que somos homens, que não batemos nas nossas mulheres, que não violentamos ninguém, nós temos que ter a responsabilidade de educar aqueles que não são como nós. Nós temos a obrigação, em cada ato público que a gente fizer, quando o Renanzinho for inaugurar uma estrada, tem lá 30 peões, tem que falar para eles. Falar para o cara: “Ao invés de você querer bater na sua mulher, dá uma cabeçada na parede para ver como dói, pô. Faça alguma coisa, menos bater na sua parceira”.
Então, se a gente transformar isso em uma política de governo, a gente pode reeducar prefeito, reeducar governador, reeducar a sociedade, e a gente pode vencer mais rapidamente. Na escola, Camilo [Santana, ministro da Educação], querido, o que a gente faz na escola para que um menino não pense que é superior a menina? Porque eu sei como é a educação de homem.
O homem, todos nós aqui, que somos pais, que temos filha, nós queremos que a nossa filha se case aos 30 anos virgem. Ninguém pode tocar nela. Agora, o meu menino tem que ser macho. Quando ele completar 14 anos, eu tenho que levar ele para algum lugar, porque ele precisa aprender. Não é assim? Eu estou falando com pais aqui. Todo mundo aqui é pai.
Meu filho é o machão. A minha menina tem que virar uma santinha ali. As mulheres não querem mais isso, as mulheres querem ser iguais a gente. Elas já provaram que têm tanta competência quanto nós, e, às vezes, muito mais competência. Outras mulheres trabalham... Eu já falei ontem, as mulheres trabalham de torneiro. A mulher trabalha de ferramenteiro. A mulher trabalha de soldador. A mulher pilota no avião. A mulher dirige barco. A mulher dirige caminhão. A mulher corta cana.
O que é que falta na mulher que ela tem que ser tratada como se fosse inferior e o cara achar que é proprietário dela? Então, companheiros, vejam que engraçado. Aos 80 anos de idade, eu descubro que tem mais uma causa para eu colocar na minha cabeça para não ficar velho. E, de causa em causa, eu vou chegar aos 120 anos.
De causa em causa, eu vou chegar aos 120 anos. Por último, queridos companheiros, e queridas companheiras, eu quero confessar para vocês que eu estou encantado com as apresentações feitas aqui. É muito importante que a gente saiba que nunca teve, nesse país, um governo que fez o que vocês fizeram.
Pode falar com orgulho. Pode ter orgulho. Nunca houve, nesse país, um governo que fizesse 20% do que nós estamos fazendo de política de inclusão social.
E, obviamente, que isso é um instrumento, é um instrumento social, mas é um instrumento da disputa política. Eu quero saber o que os nossos adversários vão falar. Eu quero saber o que eles vão propor.
Eu quero saber qual é a novidade que eles têm para disputar conosco. Mas isso tem que ser uma coisa de cada um de nós. De cada um de nós.
Então, companheiros, eu quero Haddad, Rui, Gleisi, companheiro Sidônio. Muita gente, eu sei que tem muita coisa para falar. Eu tenho discutido com o companheiro Zé Múcio de que, se a gente quiser discutir a questão da defesa séria, nós vamos ter que definir o que nós queremos, na verdade, de defesa, para que a gente não ficar só discutindo a aposentadoria de militar.
Nós temos que discutir para que serve a Força das Armadas, para que um país precisa dela. E aí tem que ter dinheiro. Porque eu não quero o general gordo, aposentado, dizendo que vai servir a guerra, não. Eu quero um soldado preparado, bem armado, pedindo a Deus que nunca precise utilizar as armas, mas, se precisar, estaremos prontos. Isso é muito importante.
Segurança Pública. Todo mundo falando, precisa discutir Segurança Pública. Segurança Pública, Segurança Pública. Eu nunca quis discutir Segurança Pública, porque não era papel do Governo Federal, porque a Constituição não dá ao Governo Federal o direito de interferir na Segurança Pública. Por menor que seja, a Segurança Pública é um problema do governador Renan quando ele assumir.
E se a Polícia Federal se meter lá sem conversar com ele, ele vai pegar o telefone e vai me ligar: “Pô, presidente, está tendo interferência no meu estado”. Então, por isso que eu quero aprovar a PEC, porque depois que eu aprovar a PEC, que definir qual é o papel da União na questão da Segurança Pública, nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública nesse país.
Qual é o papel da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal? Qual é o papel de investimento do Governo? E aí, companheiro Haddad, companheira Simone [Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento], companheiro Rui, não é com essa merreca de dinheiro que a gente tem hoje que a gente vai criar a Segurança Pública. Segurança Pública significa dinheiro para investir em mais soldados, para investir em mais inteligência, para investir em mais estrutura. Se não, a gente fica desmoralizado.
Dito isso, meus companheiros e companheiras, uma hora e quarenta minutos, uma hora e quarenta minutos, eu quero terminar essa reunião dizendo a vocês o seguinte: Um Feliz Natal para todos vocês. Todo mundo que puder, por favor, quem tiver um senador amigo, não deixe de ligar para desejar Feliz Natal e pedir voto para o Messias [Jorge, advogado-geral da União].
Eu não indiquei o Messias porque ele é meu amigo. Eu indiquei o Messias porque ele é um grande advogado e o país tem gratidão pelo que ele fez em defesa da Presidenta Dilma Rousseff. Desde lá, ele continuou sendo leal. Só para saber, a indicação dele é por mérito, não é por amizade pessoal. É por mérito.
Dito isso, companheiras e companheiros, eu quero agradecer a cada um de vocês, desejar a vocês um Feliz Natal, um Feliz Ano Novo e que a gente possa estar junto até pelo menos o mês de abril, quando vocês terão que se afastar.
Quero dizer para vocês que eu estou preocupado com a América Latina, estou preocupado com as atitudes do presidente Trump com relação à América Latina, com as ameaças. Estou preocupado. Nós vamos ter que ficar muito atentos com essa questão, Mauro [Vieira, ministro das Relações Exteriores], se viajar, não viaje para longe.
Vamos ficar aqui, porque, quem sabe, a gente tenha que falar com alguém. E eu estarei aqui no Brasil, vou viajar para um lugar bem pertinho. A Marina [Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudanças no Clima] está pedindo para eu falar do clima.
Não vou falar do clima, só vou falar de uma coisa que nós fizemos nesse país. Eu tinha dito que a gente tinha feito o melhor G20 da história do G20. Depois nós fizemos o melhor BRICS da história dos BRICS.
E eu dizia que a gente ia fazer a melhor COP de todas as COPs. E quero dizer para vocês que, de vez em quando, a gente acredita na teimosia, porque foi um sucesso a gente teimar de fazer essa COP na cidade de Belém, no estado do Pará. Porque tinha gente que falava: “São Paulo já está tudo pronto, São Paulo já tem hotel, o Rio de Janeiro já está pronto”.
Mas o Brasil não é Rio de Janeiro e São Paulo. O Brasil é Pernambuco, é o Ceará, é a Alagoas, é a Bahia, é o Pará, é o Amazonas, é o Acre, é Roraima. O Brasil é muita coisa. Se a gente não ousar de fazer as coisas em outro lugar, a gente não consegue fazer. E a verdade é que Belém deu um show. E o povo do Pará deu um show e meio, porque não tem ninguém que tenha ido num boteco, numa festa, que não saía lá extraordinariamente embevecido com a qualidade da comida, com a qualidade do povo e com a participação do Movimento Social, Boulos [Guilherme, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República]. Foi a passeata mais extraordinária feita numa COP30 que vocês fizeram na cidade de Belém.
Então, Marina, é o seguinte, o Brasil mais uma vez provou que nós não somos um paisinho qualquer. Nós somos grandes e o Brasil saiu mais respeitado, muito, mas muito respeitado. Primeiro pela aprovação do TFFF, do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que foi um sucesso extraordinário, que foi vendido e vai angariar muito dinheiro. Eu espero que o Haddad, que o Aloizio Mercadante [presidente do BNDES], que o Banco do Brasil, arrecadem muito dinheiro para o TFFF, e que a Caixa Econômica e o ministro Jader [Filho, ministro das Cidades], quando fizer uma casinha, não se esqueça de uma planta na frente da casa, pô. Não se esqueça da biblioteca nos conjuntos habitacionais.
E a última coisa que eu queria falar. Também a questão do Mapa do Caminho, que foi uma invenção extraordinariamente bem feita, que fez com que o Brasil tivesse a coragem de dizer que nós queremos disputar a questão da discussão sobre o fim da utilização do combustível fóssil nesse país. Sem ferir ninguém, sem ofender ninguém, apenas discutir, criar um cronograma para a gente ver. E os países petroleiros vão ter que aprender que eles podem entrar nessa, ajudando a produzir energia renovável nos países em que não tem petróleo.
O continente africano está ávido a receber a ajuda dos países árabes para produzir energia alternativa. E, por último, dizer para vocês que na reunião de Hannover, em abril, que eu esqueci de falar, é uma reunião que vai ser marcada. Eu fiz um desafio para a Mercedes-Benz na porta do Palácio do Planalto.
Eu fiz um desafio ao primeiro ministro da Alemanha de que nós estamos pagando o caminhão brasileiro muito caro, porque a gente é obrigado a pagar o mix tecnológico que tem no caminhão para combater a emissão de gás de efeito estufa. E cada vez que eles criam um mix novo, o caminhão aumenta aqui no Brasil 15%. O Brasil não precisa do mix deles.
O Brasil não precisa. Por quê? Porque eu quero provar para eles. Enquanto a Europa vai toda metida lá, falando em nome da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], que em 2050 eles querem criar 40% da energia renovável, eu quero mostrar para eles que, em 2025, o Brasil já tem 53% da energia renovável. O que eles querem em 50, nós já temos em 2025.
E o desafio que eu fiz é o seguinte, eu quero testar um caminhão da Mercedes-Benz lá em Hannover com combustível nosso e combustível deles, para a gente provar qual é o combustível que tem menor emissão de gás de efeito estufa. E eu vou dizer para vocês, o nosso biodiesel, misturado com óleo diesel, tem 83% de emissão a menos de gás de efeito estufa. É esse o desafio, Zé Múcio. É esse desafio é o que a gente vai fazer. Então, este país está pronto para ser chamado de grande nação. Nós nunca tivemos tão bem.
Você pensa que eu não fico orgulhoso quando o Haddad fala “porque é a menor inflação acumulada em quatro anos da história do Brasil?”. Lógico que eu fico orgulhoso. É o maior aumento de salário mínimo acumulado. Eu fico orgulhoso. Porque eu sei que eu tenho alguma coisa a ver com isso. E eu sei que isso aconteceu no meu governo. Não poderia ter acontecido nos outros? Poderia ter acontecido em todos os governos.
Por que não acontece? Porque pobre não é levado em conta nesse país pela classe política brasileira. Tenham em conta isso para a gente não se iludir. Quando a gente fala taxar o super-rico, é importante a gente saber que quem vai pagar a taxa do super-rico é o pobre.
Porque o super-rico tem uma facilidade enorme. Ele nunca vai tirar do lucro dele o que ele vai pagar. Ele vai tirar do consumidor, porque vai colocar o percentual no produto que ele fabrica e quem vai pagar é o Lulinha que vai comprar.
É assim que funciona a coisa. É assim que funciona a economia. No mundo inteiro.
Então, gente, vamos em frente, que atrás vem gente. Um abraço, muito obrigado por tudo que vocês me ajudaram a fazer nesse país.