Pronunciamento do presidente Lula na assinatura do decreto que reconhece a cultura gospel como manifestação cultural
Eu não ia deixar de falar porque eu estou com uma coceira na garganta, mas acho que a coceira era vontade de falar. Então, já que coçou…
Deixa eu dizer uma coisa para vocês. Nós estamos terminando um ano que começou com muita gente desacreditando no futuro desse país. Se vocês pegarem a parte da imprensa, que fala do crescimento do Brasil, que fala da relação com o Congresso Nacional, que fala do crescimento econômico, vocês vão perceber que todas as previsões eram negativas.
Todas. Não tem uma previsão positiva no começo do ano. Era como se tivessem pessoas pensando que o Brasil não pode dar certo, não deve dar certo. Então, nós temos que fazer com que a sociedade acredite que o ano vai ser ruim antes do ano começar.
Eu aproveito esse momento, que eu estou com um discurso muito curto aqui, para dizer para vocês que eu nasci, criado por uma mãe que não me permitia não acreditar. Eu nasci acreditando que não tinha nada que você não pudesse mudar.
Era só você ter vontade, disposição e muitas vezes tirar a palavra “não”, ou “é difícil”, ou “é impossível”, do seu vocabulário. E sempre colocar a palavra que você vai buscar fazer acontecer.
E nós estamos terminando um ano que poucos presidentes da República, desde a proclamação da República, tiveram o prazer de terminar um ano. Nós terminamos o ano com a menor inflação acumulada, em quatro anos, da história do Brasil. Nós terminamos o ano com o menor desemprego da história do Brasil. Nós estamos terminando o ano com o maior crescimento da massa salarial da história do Brasil.
E nós estamos terminando o ano com a maior quantidade de política de inclusão social que tem esse país. A começar pelo Imposto de Renda, que muita gente achava que era impossível e foi aprovado por unanimidade no Congresso Nacional.
Quando nós decidimos fazer o Gás do Povo, parecia impossível. Desde 2010, eu queria fazer um programa de distribuir gás de graça. A companheira Graça [Foster] era diretora da política de gás da Petrobras e nós fizemos vários estudos para saber como é que a gente poderia fazer com que o gás de cozinha fosse entregue para as pessoas como se fosse uma coisa da cesta básica. Porque não era possível uma pessoa que ganhasse um salário mínimo gastar 10% ou 15% do seu salário para comprar um botijão de gás. Que hoje sai da Petrobras a 37 reais e chega na casa das pessoas a 140 reais, a 180 reais.
Nós então decidimos fazer um programa chamado Gás do Povo em que mais de 15 milhões de famílias vão receber o gás de graça. Não é um vale gás, é o gás de graça. As pessoas mais pobres, aquelas que ganham menos, vão receber… quem tem três filhos, até quatro botijões de gás, por ano. Ou seja, nós vamos atender, vamos ultrapassar 15 milhões de famílias. Isso significa mais de 60 milhões de pessoas.
Da mesma forma que nós fizemos o programa Luz do Povo. Nós já tínhamos o Luz para Todos, que eu criei no meu primeiro mandato, que era fazer com que 17 milhões de famílias brasileiras que viviam nas trevas, porque não tinha luz e viviam na base do candeeiro.
Nós levamos energia elétrica para mais de 17 milhões de brasileiros, levando Luz para Todos. As pessoas não têm noção do que significa uma pessoa pobre do interior desse país, que vive sentado, a molecada fazendo a lição, com a vela acesa, fumaçando na cara deles, ou a lamparina soltando o gosto de querosene na cara deles.
A sensação quando a gente colocava um bico de luz e a gente pegava a mãe para apertar a tomada e ligar a luz. Era como se tivesse saído do século XV para o século XXI.
Vocês não têm noção da alegria. A alegria de uma pessoa que nunca tinha tomado um banho de chuveiro, de uma pessoa que nunca tinha conseguido lavar um prato dentro de casa, de uma pessoa que nunca podia ter dado um banho no filho com chuveirinho. Tudo isso nós fazemos porque o papel do governo é cuidar das pessoas e nesse cuidado, como todas as mães, a gente tem que cuidar daquelas pessoas que precisam mais.
Sempre tem alguém que precisa de um carinho a mais, de um chamego a mais, de um pedaço de carne a mais, de uma colher de comida a mais. E são para essas pessoas que nós temos que dar a mão em primeiro lugar para tentar criar uma sociedade equânime em que todos tenham as coisas que são elementares para todos nós.
E isso a gente só pôde fazer porque o Congresso, que era totalmente adverso, vocês se lembram, quando eu tomei posse, de 513 deputados, meu partido só tinha 70. De 81 senadores, meu partido só tinha 9. Então, pensando aritmeticamente, a gente não ia conseguir aprovar nada na vida.
E posso dizer para vocês que eu não sei se tem na história do Brasil um governo que aprovou a quantidade de coisas que nós aprovamos nesses três anos que vai terminar dia 31 de dezembro.
Então, o ano termina bem. O preço do alimento está caindo, as pessoas estão voltando a acessar coisas que ficaram mais caras. Mesmo a taxação que os Estados Unidos fez contra o Brasil, ela terminou sendo irrelevante quando muita gente imaginava que eu e o Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos] iríamos entrar em guerra, nós terminamos virando amigos.
Ora, porque há uma coisa que nós temos que fazer, nós temos que acreditar sempre, desacreditar jamais, lutar todo o santo dia, não desistir nunca.
E eu estou falando isso para reconhecer aqui, Eliziane [Gama, senadora] uma coisa que vale para você. A coisa que mais me irrita no esporte é quando um jogador fica parado dentro da área, o outro se mata para tomar a bola do adversário, tira 4 ou 5 e passa a bola para aquele que está parado e ele marca o gol.
Ao invés dele correr para agradecer quem marcou o gol, ele corre para a galera e fica lá, soltando beijinho, mexendo na camisa e se esquece de ir lá agradecer o cara que passou a bola para ele.
Na política é assim. A gente nunca agradece quem ajudou a gente, a gente sempre acha que a gente é melhor. Eu estou falando isso porque esse decreto surgiu por conta de uma conversa minha com a Eliziane.
Ela apareceu no meu gabinete, sempre dizendo que eu demoro para receber ela, com um papelzinho na mão, falou: “Presidente transforma a música gospel num patrimônio nacional”. E eu então liguei para a companheira Margareth [Menezes, ministra da Cultura] e falei: “Margareth, vamos fazer isso, vamos fazer isso”. E hoje, antes de terminar o ano, a tua reivindicação está sendo atendida porque é fazer justiça ao povo evangélico e à música gospel.
Então, isto é apenas um reconhecimento. Isso não teria sido feito se você não tivesse aparecido na minha sala com essa cara de menina reclamona, dizendo... Porque é muitas vezes assim que acontecem as coisas no país.
Ou seja, muitas vezes uma conversa com uma pessoa faz surgir uma lei. Às vezes uma conversa, até uma conversa que não estava sendo esperada. E se dependesse de mim, possivelmente não saísse esse decreto.
Se não tivesse alguém que falasse: “Ô presidente, se manca aí, cara, vamos fazer um decreto”. Já fiz tanto. Já fiz tanto, tanto, por que não podia fazer isso? Porque faltava alguém se lembrar, com tantos amigos que eu tenho evangélicos, alguém lembrar, e você lembrou, foi um dia que você lembrou.
Você tinha entrado outras vezes na minha sala e não tinha lembrado. Mas teve um dia que você veio com a missão de lembrar. E lembrou.
Então, eu queria dizer para vocês que a assinatura desse decreto que reconhece a cultura gospel como manifestação da cultura nacional representa mais um passo importante de acolhimento e respeito à comunidade e ao povo evangélico do Brasil.
É um ato simples, mas com força simbólica muito profunda. Com esse decreto, o Estado brasileiro confirma que a fé também se expressa como cultura, como identidade, como história viva do nosso povo.
Abre portas para valorização, promoção e proteção, não só da música, mas de todas as manifestações da cultura gospel no âmbito das nossas políticas públicas.
Não só das manifestações, mas também dos artistas, agentes culturais e espaços comunitários envolvidos na cena cultural gospel. É, portanto, uma celebração da cultura brasileira em toda a sua diversidade artística, humana e espiritual.
Sabemos que a cultura gospel tem crescido e conquistado mais e mais corações e mentes em todo o país. A música, especialmente, atravessa gerações, regiões e classes sociais. Ecoa nos templos, nas casas, nas praças, nas rádios, nas redes, levando mensagem de esperança, consolo, justiça e amor ao próximo.
É uma música que nasce da fé, mas que dialoga com a sociedade inteira, porque fala daquilo que é universal: a dignidade humana, a superação da dor, a confiança no amanhã. Até então, a cultura gospel não tinha reconhecimento formal no âmbito da política cultural. Isso dificultava sua inclusão no planejamento das ações e na preservação de suas manifestações.
Hoje, nós estamos inaugurando esse momento.
Queridos companheiros e companheiras, esse decreto se soma a outros gestos que reafirmam o compromisso do Estado brasileiro com a liberdade religiosa, com o diálogo e com o respeito. Foi com esse espírito que sancionei a lei da criação do Dia Nacional da Música Gospel em 2024.
Foi com esse mesmo espírito que, em 2009, criei o Dia Nacional da Marcha para Jesus como manifestação legítima da fé e da cultura popular. Com a mesma alegria, assinei, em 2003, a lei da liberdade religiosa. E é com esse espírito que seguimos defendendo, de forma firme e serena, a liberdade religiosa como valor essencial da nossa democracia.
A Constituição garante que o Estado é laico, mas isso não significa um Estado indiferente à fé do seu povo. Significa um Estado que respeita todas as crenças, que não discrimina, que não hierarquiza. E que entende a espiritualidade como parte da experiência humana e da formação cultural do nosso Brasil.
Que esse ato de reconhecimento fortaleça os artistas, os músicos, os corais, os compositores, os fiéis e todos aqueles que, com talento e fé, ajudam a construir ponte de diálogo, paz e compreensão no nosso país.
Que possamos seguir cantando, cada um à sua maneira, mas sempre com respeito, amor, compromisso, com um Brasil mais justo, mais humano e mais fraterno.
E um país menos algoritimizado. Uma das lutas que eu pretendo fazer nesse momento histórico da minha vida, com 80 anos, é tentar educar o ser humano a não perder o que lhe tem de essencial, que é o humanismo.
Nós não temos o direito de sermos dominados pelos algoritmos. Da mesma forma, nós temos que assumir a responsabilidade, e aí são os homens.
Temos que assumir a responsabilidade de que a luta contra a violência contra a mulher, de que a luta contra o feminicídio não é uma luta do homem, ou melhor, não é uma luta da mulher.
Tem que ser uma luta do homem, porque é ele que é violento, é ele que agride, é ele que violenta. Ou seja, você não vê um filme em que a mulher é violenta contra o homem, é sempre um filme do homem sendo violento contra a mulher.
E nós precisamos pensar que isso tem que ser discutido nas nossas igrejas. Em todas as igrejas, o pastor tem a obrigação de falar isso, o padre tem a obrigação de falar isso, o bispo tem a obrigação de falar isso, no terreiro as pessoas têm a obrigação de falar isso. Porque é uma questão cultural e educacional.
Nós precisamos mudar o currículo da nossa escola. A molecada não tem que aprender só que Cabral descobriu o Brasil, ele tem que aprender a se reeducar para saber que nenhum menino é superior a uma menina. E isso também parte pela educação dentro da nossa casa, em que muitas vezes o menino pode tudo, a menina não pode nada.
O menino é machão e a menina tem que ser frágil. É um problema educacional que está na nossa formação há milênios. E por isso eu também assumi a responsabilidade de fazer parte de um movimento, com todos os poderes, com a Câmara, com o Senado, com as cortes superiores deste país, com a Justiça, com as igrejas, com o sindicato.
Um sindicalista vai na porta de fábrica reivindicar o aumento do salário, custa ele pedir para os maridos lá: “Por favor, respeita a sua mulher, não violenta a sua mulher, não agrida a sua mulher”? Custa falar isso na porta de fábrica? É tão fácil falar isso.
E se a gente falar isso todo santo dia, todo santo dia, a gente vai convencendo as pessoas de que o anormal é ser violento, o normal é a gente ser parceiro.
Então, companheiros e companheiras, esse dia de hoje é um dia gratificante para mim. Eu digo sempre que se tem alguém que tem que agradecer todo santo dia a Deus, sou eu.
Porque na minha vida aconteceu quase tudo que não estava previsto acontecer. Eu nasci numa cidade em que a gente morria até cinco anos de idade de fome. E as crianças, quando morriam, eram enterradas.
Se fosse pagão, não era nem cemitério, era no terreno. E eu, Benedita da Silva [deputada federal], saí de onde eu saí, fui criado por uma mãe que se separou do marido com oito filhos, porque saiu de Pernambuco para encontrar com eles em Santos (SP). Imaginando que ele era o amor da vida dela e, quando chegou lá, ele estava casado com outra com quatro filhos.
E ela teve a coragem de se separar com oito filhos. E sozinha criou esses oito filhos. Numa demonstração de que a minha mãe nunca reclamava. Quando não tinha comida para colocar na mesa, ela falava: “Hoje não tem, mas amanhã vai ter”.
Essa é a minha formação. Por isso, jamais vocês vão ouvir dizer: “Essa coisa é difícil, essa coisa não pode fazer, acho que não dá”. Não existe no meu vocabulário isso. É só tentar. E eu tento.
Cada santo dia. A fazer o povo brasileiro compreender que nós estamos chegando na hora da verdade nesse país. Eu já fui presidente outras vezes. Já disputei muitas eleições. Nunca vivi o período de ódio que está estabelecido na política brasileira. E a quantidade de leviandades e mentiras que é jogado todo santo dia, sem nenhum compromisso com a verdade.
Porque quando a pessoa pensa que está mentindo para mim, ela está mentindo para a mulher dele, ela está mentindo para o filho, ela está mentindo para a mãe, ela está mentindo para pessoas que não têm nada a ver com ele.
Por isso, eu resolvi transformar o próximo ano no ano da verdade. É chegada a hora da verdade, Benedita.
É chegada a hora da verdade. É chegada a hora da gente conversar com esse povo com o maior respeito, mas com a maior seriedade. Que tipo de país a gente quer construir? Que futuro a gente quer para o nosso país? Quais são as nossas prioridades?
Porque tem alguma coisa errada no país agora. Não é possível que seja eu, o único presidente que não tem diploma universitário, a fazer mais universidade no Brasil. Não é possível, alguma coisa estava errada.
E o que estava errado, companheiros e companheiras, é que a elite brasileira nunca se preocupou em educar o nosso povo. Pobre não nasceu para ser educado. Ele tinha que trabalhar. As meninas tinham que ser empregadas domésticas.
E nós pensamos diferente. As meninas nasceram para fazer o que elas quiserem fazer. E cabe ao Estado dar oportunidade para que elas possam ter o aprendizado que quiserem ter, para fazer política, para ser candidato, para ser dirigente sindical, para ser cantor, para qualquer coisa.
Escolha o que ela quiser. E eu fiquei muito feliz. O dia que a Janja chegou em casa cantando essa música “Deus cuida de mim”. E ela cantou pelo menos umas 50 vezes no mesmo dia.
E eu fiquei muito feliz porque ela resolveu fazer reuniões com mulheres evangélicas. E isso é muito importante, porque um governo não tem que ter lado. Um governo não tem que ter religião. Um governo não tem que ter partido. Ele pode pertencer a um partido e se eleger, mas na hora de governar, ele governa para todos.
Eu nunca perguntei se alguém que venha conversar comigo é evangélico, católico. Eu nunca perguntei. Nunca perguntei que time torce, nunca perguntei que partido torce.
Eu estou aqui para cuidar do povo brasileiro.
E quero que vocês saibam. Quero que vocês saibam que eu faço isso como um aprendizado de uma mulher que nasceu e morreu analfabeta, mas que conseguiu dar educação aos filhos.
Porque tem muita gente que confunde educação com ano de escolaridade, não tem nada a ver. Educação, caráter e dignidade. É uma coisa que vem do útero da mãe da gente.
É uma coisa que vem da criação de pai e mãe. Por mais pobre que seja, a educação pode ser refinada. E por mais rico que seja, a educação pode ser grosseira, como a gente vê os grosseiros neste país.
Portanto, gente, os Vascaínos do Rio que me perdoem, meu Corinthians foi campeão. Que Deus nos abençoe e que a gente possa construir esse país mais justo, mais fraterno e esse país mais solidário. E eu espero contar com vocês nessa luta que não é minha, é de todos.
Um beijo no coração.