Pronunciamento do presidente Lula em reunião sobre prevenção e combate à violência contra as mulheres
…Com algumas ministras mulheres, a governadora Raquel Lyra, de Pernambuco, e eu pedi para vir aqui o nosso Defensor Público da União, o nosso companheiro Leonardo [Cardoso de Magalhães] e o companheiro ministro da Educação [Camilo Santana] e o meu ministro da Justiça [e Segurança Pública] [Ricardo Lewandowski]. Vocês estão lembrados que algum tempo atrás, eu comecei a falar isso em Pernambuco, em um ato da Petrobras, em que tinha muitas mulheres, e eu contei uma história que eu levantei um domingo para tomar café, a minha mulher estava na mesa tomando café comigo e, com lágrimas nos olhos, me contando a violência que tinha havido: um cidadão num carro, estava atropelando a mulher, arrastando a mulher por um quilômetro e não parou o carro e foi embora.
Depois me contou de um caso de Recife, que um cidadão pegou a mulher com três filhos e grávida, tranca dentro da casa e toca fogo. Depois me contou do caso de um cara que pegou duas pistolas e descarregou na mulher. Aquilo me tocou porque normalmente isso é um assunto que não se discute muito em família, mas a Janja [Lula da Silva, primeira-dama do Brasil] estava falando porque ela estava violentada com a cena que ela viu na televisão, depois eu não sei se repetiu em outros programas.
Eu resolvi, no ato da Petrobras, que tinha lá umas mil pessoas, um pouco mais, eu resolvi assumir a responsabilidade de que era preciso que a gente criasse ou construísse uma espécie de movimento que pudesse se transformar num pacto contra o feminicídio, contra a violência contra a mulher, contra o estupro, contra tudo que é crime bárbaro que a gente não imagina que pudesse acontecer.
Eu resolvi, então, dizer que eu ia assumir a responsabilidade, como Presidente da República, de tentar criar condições de juntar os Poderes brasileiros, inclusive a Câmara e o Senado, que não estão aqui porque tem a sessão agora, mas que estão dispostos a assumir conosco essa tarefa, e é um movimento que nós precisamos construir.
Qual é o papel do Poder Judiciário? Que tipo de pena que a gente vai dar? Qual é o papel dos políticos? Qual é o papel do Governo do Estado? Qual é o papel do prefeito? Qual é o papel do dirigente sindical? Qual é o papel do bispo da cidade? Qual é o papel do empresário? Qual é o papel do pastor?
Eu estou convencido que a luta em defesa da não violência que o Gandhi [Mahatma, ativista indiano] fez para conseguir a independência da Índia, não era a defesa da mulher, era a independência de um país, nós precisamos fazer. E com o agravante. Nós precisamos conversar com o homem, porque no Brasil, quando se fala de violência contra a mulher, de marcha contra a violência, passeata contra a violência, se pensa que é uma coisa só de mulher. O violento fica em casa e a pacífica vai para a rua.
Então, eu botei na cabeça que é preciso que a gente envolva os homens nessa luta em defesa da não violência, do não feminicídio contra a mulher. É o homem que é educado para ser superior. Esse é o dado concreto, já se aproveitar que o ministro da Educação está aqui.
Nós, homens, somos criados como seres superiores, o sexo forte, nós podemos tudo, as meninas não podem nada. Nós crescemos assim. Uma menina, o pai quer que a menina case virgem, o homem, ele quer levar para a atividade sexual com 14 anos de idade, por que ele quer provar que o filho dele é macho. Esse processo educacional vai para a escola, esse processo educacional vai para qualquer lugar.
Então, o homem cresce sem uma regulamentação de que ele não pode ser dono da mulher. Ele não pode ser dono da mulher, se apropriar da mulher, porque casou com ele, porque namorou com ele, como escravagista se apoderava do escravo. Ele era dono, ele podia vender, ele podia matar, ele podia bater. Ele até tomava, muitas vezes, matava o filho de uma escrava, que era mãe de leite do filho dele, para que a escrava desse leite para o filho dele.
É assim nesse país. Então, isso está incrustado na cabeça nossa, isso está incrustado, e acontece que as mulheres conseguiram conquistar espaço. Eu, Gleisi [Hoffmann, ministra das Relações Institucionais], uma vez, não consegui imaginar. Eu trabalhava na fábrica, torneiro mecânico era profissão de homem, ferramenteiro era profissão de homem, soldador era profissão de homem.
E aí eu comecei a entrar na fábrica, não, as mulheres estavam sendo soldadoras, torneiras, ferramenteiras, mandrilhadoras. As mulheres querem subir em prédios, as mulheres querem ser motoristas de caminhão, as mulheres querem ser motoristas de ônibus, as mulheres querem ser prefeitas, querem ser presidentas. As mulheres não querem mais se conformar a ser a tomadora de contas de boneca, fazer coleção de boneca.
A mulher quer fazer uma coleção de conquistas, na sociedade, no emprego, na academia, na intelectualidade. E eu acho que é isso que incomoda os homens. Aquela era, ministra Cármen [Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal], em que o marido chegava em casa, meia-noite, e a coitada da mulher estava dormindo com três crianças na cama, e tinha que levantar para esquentar o feijãozinho dele, a sopa dele, como se fosse obrigação, acabou.
A mulher tem o direito de falar: “ô cara, se você quer comer, chega na hora certa, depois que eu tomar banho e deitar com as minhas crianças, eu não vou levantar. Esquenta a comida, tá aí. O cara, se você não quer ir ao cinema, eu quero ir, então eu vou ao cinema”.
Isso tudo, para o homem, ainda é muito difícil de aceitar. O homem adora fazer a mulher esperar em casa, ele adora, mas ele não suporta esperar 15 minutos, 20 minutos. Ele acha que se demorou, onde foi, porque foi, com quem foi, o que fez.
Isso vai gerando essa coisa nervosa que está na sociedade. Então essa reunião aqui não vai decidir nada. A gente vai assumir o compromisso, cada um dos Poderes aqui, a gente vai preparar propostas para um pacto, onde é que cada um pode ajudar, o que cada poder pode fazer, para que a gente possa um dia sonhar em que não haverá violência do homem contra a mulher, em que as coisas serão pacíficas, as pessoas moram com o outro porque querem morar, porque gostam de morar, não porque é obrigado. É assim.
Então, é muito difícil a gente falar “mas tem Casa da Mulher [Brasileira], que não sei das quantas, e tudo isso”. É preciso importar o seguinte: a mulher sabe, porque o cinema mundial retrata 80 filmes de marido batendo na mulher e nenhum de mulher batendo no marido. O cinema só reproduz um lado da história.
Então, quando a mulher faz uma denúncia contra a violência, o cara volta para casa, o que acontece no filme? É um filme de terror, porque o cara passa a vigiar a casa, vigiar a mulher, até dar o fim à mulher. Não é o contrário que passa o filme, a mulher que bate no homem, é exatamente o contrário.
Isso é mostrado na novela, isso é mostrado na televisão, isso é mostrado no filme, isso é mostrado na internet, com a internet massificou. Então isso me inquietou. Então eu queria dizer para vocês que além da quantidade de problemas que eu tenho todo santo dia, eu resolvi trazer mais esse problema para a minha cabeça.
Eu falei para a Janja que eu vou assumir a responsabilidade de colocar a luta contra o feminicídio, a luta contra a violência contra a mulher no meu dia a dia. Cada discurso que eu fizer, eu vou tocar nesse assunto. Esses dia eu liguei para o sindicato de São Bernardo. O Moisés [Selerges, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC] foi na porta da Mercedes fazer discurso, discutir a pauta salarial, qual era o tema? Feminicídio.
Tem que chegar na porta de fábrica e conversar com o trabalhador. E aí entra a questão da educação, Camilo. Você que é o ministro da educação, é o seguinte, a criança tem que aprender na escola também. Não é só a mãe e o pai. A criança tem que aprender na escola a respeitar as meninas, a ter brinquedos iguais para os dois. Não tem essa coisa de um ser superior ao outro. Então, é para isso que a gente está discutindo isso.
Isso aqui é o seguinte, tem muita coisa feita, mas muita coisa que não está resolvida ainda. Achar que porque a mulher pode denunciar 180, ela vai denunciar, ela fica com medo de quanta coisa ela vai sofrer se ela fizer a denúncia. E se o marido souber que ela fez a denúncia, o que vai acontecer na vida dela?
Então ela prefere se acovardar com medo, ficar em casa, suportar. Porque para muitas mulheres, a hora que o marido chega do trabalho, é o terror. É o terror. Porque se o cara chegar a tomar cachaça, ele fica violento em casa. Ele está com raiva do salário dele, o patrão não pagou, atrasou o salário. Ele não tem coragem de brigar com o patrão, ele vai brigar com a mulher, vai descontar nos filhos.
Então essa reunião não é para isso. Essa reunião é para ver se a gente consegue construir uma proposta que envolva a sociedade brasileira, homens e mulheres, mas que envolva, sobretudo, o poder público, que pode mais. O prefeito pode mais, o governador pode mais, o Congresso pode mais, fazer com que a gente possa viver mais tranquilo.
E eu chamei vocês da imprensa agora, porque a ministra Cármen Lúcia [do Supremo Tribunal Federal] tem um compromisso no Tribunal, ela tem que ir.
Então eu não queria que essa reunião terminasse sem vocês tirarem essa fotografia aqui das pessoas que participaram.
E eu sou muito agradecido a você, Cármen, a você, às ministras que vieram aqui, ao nosso presidente do Supremo Tribunal Federal, ao nosso Lewandowski. Eu ainda tenho que ouvir o Defensor Público da União, tenho que ouvir o Lewandowski, que tem um calhamaço de informação aqui. E depois ouvir outras pessoas. Eu tenho tempo de ficar aqui. A ministra das Mulheres [Márcia Lopes], tá?
Você estava com a palavra Leonardo. Termina de falar, você nem começou, para depois a Márcia falar.