Pronunciamento do presidente Lula ao enviar o PL que cria as universidades federais Indígena e do Esporte
Eu quero dizer para vocês que hoje é mais um dia desta semana em que a gente descobre como é possível governar um país fazendo as coisas que interessam à maioria das pessoas e não atendendo interesses escusos que não são do interesse do país.
Nós começamos esta semana sancionando uma lei que garante que nenhum brasileiro que ganha até 5 mil reais pagará mais Imposto de Renda e quem ganha até 7 mil 600 reais também será premiado, pagando menos imposto.
Depois sancionamos a lei que dá ao esporte, definitivamente, o direito de ser tratado como política de Estado e não como benevolência dentro daquele governo. E hoje estamos realizando mais um sonho, um sonho que é o pagamento de uma dívida ao povo indígena.
Porque, se fosse eu que tivesse chegado aqui em 1500 e encontrasse os indígenas, eu ia sentar para conversar com eles e falar: “Eu venho de uma terra tão pequena, vocês têm uma terra tão grande... Deixa eu conviver com vocês aqui, vamos ser parceiros, vamos compartilhar esse mundo aqui, vamos nos associar.”
Não. Mas o que é que fizeram os que chegaram aqui? Utilizaram o indígena como cobaia, como escravo, tentaram ensinar ao indígena a religião deles, os costumes deles e aquele que não se adaptava era extinto.
Os outros trabalhavam de graça, não ganhavam nada e ainda eram chamados de preguiçosos. Quase dizimaram os povos indígenas do nosso país, graças à resistência de alguns e de algumas e graças à resistência de pessoas que também, que vieram de lá, e não queriam dizimar, nós, hoje, estamos recuperando a decência, a dignidade dos povos indígenas que nunca deveriam ter sido tratados da forma como foram no Brasil.
Ninguém quis compartilhar com eles, as pessoas quiseram destruir a lembrança dos povos indígenas neste país. Nós queremos que os povos indígenas sejam, tanto quanto os outros povos que vivem neste país, tratados com respeito, com carinho e terem o que eles merecem ter: o direito à dignidade, à vida, ao trabalho, à sua cultura, a comer, a fazer o que eles quiserem.
Essa universidade é para isso, é para devolver para vocês a cidadania e o respeito que, um dia, tentaram tirar de vocês, indígenas.
E eu tenho certeza que aqueles que vierem depois de nós, daqui a alguns anos, vão ter certeza que os povos indígenas vão viver com muito mais dignidade, com muito mais respeito e ser tratados com decência.
Porque não basta o Estado demarcar uma terra indígena, pois há um milhão de obstáculos para a gente demarcar uma terra indígena, e vocês sabem disso. Quando a gente demarca, achar que, por conta própria, vocês vão conseguir sobreviver com integridade, não é assim.
Eu discuti isso com a Marina [Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima] hoje de manhã, o Estado ao demarcar uma terra indígena ou demarcar uma terra quilombola, deve também garantir financeiramente que vocês tenham condições de viver com decência, com respeito, sem precisar viver de favor.
Porque não é possível que a mortalidade infantil nos povos indígenas seja mais do que o dobro de outras partes mais pobres do Brasil. Não é possível que a longevidade indígena seja menos do que a minha longevidade. Isso está nas condições humanas que a gente tem que permitir que vocês tenham, sem permitir que vocês percam a identidade de vocês, porque são vocês que têm que definir esse meio de vida que vocês querem.
E cabe a nós, Estado brasileiro, cuidar para que vocês não sejam violentados na sua cultura, nos seus direitos, nos seus hábitos alimentares, nos seus hábitos de produzir as coisas que vocês querem. Cabe ao Estado servir aos indígenas e não se servir deles. Por isso, essa universidade é uma coisa necessária para dar a vocês um direito que nunca deveria ter sido tirado.
E a Universidade do Esporte é a mesma coisa. A gente não pode permitir que o esporte sobreviva por conta do milagre de cada um individualmente. O Adhemar Ferreira [primeiro bicampeão olímpico do país, atleta do salto triplo] chegou onde ele chegou, possivelmente por esforço próprio, porque jamais teve o incentivo do Estado.
O João do Pulo [medalhista olímpico no Salto Triplo], chegou onde chegou porque era uma coisa da natureza fazer dele o que fez. A Maria Esther Bueno, chegou a ser campeã de tênis por esforço próprio, onde é que estava o papel do Estado de ajudar as pessoas a fazerem mais, a serem mais? A universidade tem esse objetivo.
Ninguém vai conseguir, na universidade, fazer um Pelé. Se bem que eu espero que a gente faça, para o Corinthians ter outros Pelés. O que a gente vai é dar condições científicas e técnicas para aperfeiçoar aquilo que a pessoa já tem.
A pessoa nasce com aquele dom. O que precisa é ter chance. Há atletas que não têm um tênis para correr, tem pessoas que não têm as calorias e as proteínas necessárias para se alimentar. Essas pessoas terão menos chance de ser um atleta de alto rendimento. E de quem é o papel? É do Estado.
Porque a iniciativa privada é maravilhosa, ela é muito boa, mas ela só entra no jogo quando o cara já é famoso, porque ela não quer pagar, ela quer ganhar. Ela não faz propaganda para ajudar o atleta, ela faz propaganda para ajudar o seu próprio rendimento. Então quem tem que fazer o trabalho para ajudar é o Estado, é o município, é a União.
E é isso que nós estamos fazendo quando a gente quer criar uma universidade. Antigamente, a gente pensava em criar uma universidade do futebol. O pensamento era esse. E eu falei: “Não gente, o esporte é mais do que futebol”. Como é que um capoeirista como eu vai ter chance se não tiver a liberdade do esporte?
Então, eu resolvi que a gente tinha que fazer uma universidade mais ampla, para abraçar toda a área de esporte. Formar profissionais, qualificar profissionais para que a gente possa ser competitivo.
A gente vai ter dificuldade, Camilo [Santana, ministro da Educação], porque também nós temos que saber quais as experiências que existem em outros países do mundo, onde é que tem coisa melhor do que aqui. Se é que tem, que eu acho que não tem.
Mas nós temos que ser o exemplo. A questão das pessoas com deficiência. Na verdade, quem tem deficiência é quem acha que quem tem deficiência não pode praticar nada. Nós temos que despertar uma coisa chamada orgulho pessoal.
Nós temos que despertar… Todo mundo precisa só de uma chance. Eu visitei o centro Olímpico de São Paulo e vi pessoas que antes não conseguiam mexer a mão, mas pelo fato dela estar praticando esporte, ela estava mexendo a mão. Não é só medalha de ouro, medalha de prata ou medalha de bronze, é medalha de dignidade, de respeito, de decência. Medalha de orgulho pessoal. Então a universidade tem esse caráter.
A verdade é que nós já temos até um lugar para fazer. A gente não quis falar porque faltou uma conversinha aqui, outra conversinha acolá. Mas nós já temos um lugar para as duas universidades. E, se Deus quiser, a gente vai inaugurar isso o ano que vem, se Deus quiser.
Bem, dito isso, eu queria dizer para vocês que eu não gosto muito da palavra “governar”. Eu gosto muito da palavra “cuidar”. Porque o papel do Estado é cuidar das pessoas, como se fosse uma família. Um pai, uma mãe que têm responsabilidade com a sua família, eles cuidam da família de acordo com a carência de cada um. Todos são tratados de igualdade de condições.
Mas tem um que merece um chamego a mais, um carinho a mais. O Estado tem que fazer assim. O Estado precisa pegar aquelas pessoas que mais necessitam, aquelas que mais precisam, aquelas que tiveram menos chance e dar a mão para trazê-las.
Porque ele não tem ninguém burro, gente. Não tem ninguém incompetente. O que existe é gente que teve e gente que não teve oportunidade. Gente que se dedica e gente que não se dedica porque não é motivada.
Eu tenho dito aos professores nos encontros que o Camilo me convoca. Nós precisamos estar preocupados quando uma criança levanta de manhã e não quer ir para a escola. Alguma coisa não está certa dentro da escola. Porque se a escola estiver dando àquele menino o carinho que ele precisa, ele vai levantar querendo ir para a escola. Se ele se sentir bem na escola.
Então, o nosso o papel é criar as condições para que milhares (ou milhões) de meninas como a Verônica [Hipólito, representante dos atletas paraolímpicos no evento] possam ter o mesmo entusiasmo, a mesma crença e a mesma disposição que ela tem. Porque não há nada impossível para um ser humano quando ele tem disposição, quando ele tem vontade.
Muitas vezes, a própria família tem vergonha da pessoa que tem qualquer problema. Tenta esconder a pessoa. Então, não é possível que o Estado não se mexa.
O que eu estou fazendo é apenas reconhecendo que o Brasil precisa disso. E depois, a bola vai com vocês. E é vocês que vão jogar. Nós estamos apenas abrindo a porta, dizendo: “Entrem. Este país é de vocês.” A qualidade do esporte é de vocês. O que vocês vão ensinar e praticar é com vocês. E o mesmo vale para os indígenas.
E quando isso acontecer, a gente vai perceber que o milagre será este: a gente vai ter um povo melhor, pessoas mais preparadas, mais estruturadas, com mais assistência do Estado, para que possam suprir as suas dificuldades.
Eu sei da importância do Bolsa Atleta. Nessa última Olimpíada, quase 90% dos atletas receberam Bolsa Atleta. E o Brasil tem que acreditar que é isso que vai permitir que as pessoas pobres pratiquem.
Porque se o cara é rico, ele não precisa do Estado. O pai dele contrata o melhor técnico do mundo, o melhor especialista do mundo, o melhor oftalmologista do mundo. Não! E quem não pode? Quem é que vai cuidar? É o Estado. E é isso que eu estou dizendo. Por isso que eu gosto de falar a palavra “cuidar”.
É cuidar deste país. Cuidar do povo deste país. E cuidar da educação.
Eu tenho muito orgulho porque eu sou o único presidente da República deste país que não tem um curso universitário. E quando eu digo para as pessoas que eu me interesso pela educação é porque eu tenho uma obsessão de tentar garantir aos outros aquilo que eu não tive.
Possivelmente, se eu fosse formado, com um doutorado, eu provavelmente ia falar assim: “Ah, esses caras não têm diploma porque são vagabundos, porque não estudam. Porque não querem. É muito fácil. Eu já tive, então os outros que se danem.”
Não. Como eu não tive, eu quero que as pessoas tenham. Porque eu quero provar que, se as pessoas comerem bem, se as pessoas tiverem chance, se as pessoas tiverem ajuda, se as pessoas tiverem espaço para fazer as coisas, todo mundo pode ser competitivo. Quando eu falo que eu quero que uma filha de uma empregada doméstica dispute a mesma vaga com a filha da patroa, e que vença melhor, é porque, antes, a filha da empregada doméstica nunca tinha tido chance neste país.
Nunca o filho de um pedreiro imaginou ser doutor. Nunca o filho de um catador de lixo tinha imaginado ser alguma coisa. Porque o Estado não o enxergava. Ele era invisível. Quando o cara passa coletando lixo na rua no caminhão, correndo para pegar um saco de lixo, quem é que dá importância para esse cara? Ninguém dá importância. O que é um catador de lixo? É nada? Não! Ele é um ser humano como nós. Que merece ter a mesma oportunidade que nós.
É isso que a gente tem que dar. É isso que eu tenho que garantir. E por que eu sou assim? Eu sou assim porque a minha mãe saiu de Pernambuco com oito filhos para não morrer de fome. Eu tinha apenas sete anos de idade. Ela se separou do meu pai, foi morar sozinha e criou oito filhos e, sem diploma universitário, o caçulinha dela virou presidente da República deste país.
Se eu pude chegar aqui, significa que vocês podem. Aliás, você tem um discursinho [falou para a atleta Verônica Hipólito], pode até ser presidente da República. É o seguinte, a gente tem que acreditar que a gente pode.
Eu não permito-me levantar um dia achando que tem uma coisa difícil. O que é difícil é apenas um desafio para a gente tentar fazer. A gente não pode levantar de manhã e falar que tem uma coisa que é difícil que não dá para fazer.
É mais fácil dizer não, Verônica. É mais fácil dizer não. No governo também é assim. No governo, cada coisa que você solicita, aparece um burocrata para dizer não, não pode. O estatuto não deixa. A lei não deixa. A portaria não deixa. Não sei o que não deixa. O Tribunal de Contas não deixa. É tudo assim, tudo não deixa. O país foi feito para não deixar.
E eu vim para fazer o que tem que ser feito neste país. Essa é a diferença. É por isso que nós vamos fazer tudo aquilo que precisa ser feito neste país. Pode ficar certo. Não haverá nada que a gente não tente fazer. A gente pode não aprovar no Congresso Nacional, que é um direito do Congresso aprovar ou não, mas a gente vai mandar e vai brigar.
E agora vocês sabem, meus queridos indígenas e meus queridos esportistas, que vocês vão ter que ir para dentro do Congresso, conversar com os líderes, com os partidos e convencer as pessoas de que eles estarão fazendo um bem aprovando essa lei. Se tiver que fazer emenda, faça para melhorar.
Para piorar, jamais, melhorar, sempre. Esse é o nosso lema para que a gente possa aprovar.
Por isso, Camilo, meus parabéns. Meus parabéns, companheiros, meus parabéns Soninha [Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas] e meus parabéns, Fufuca [André, ministro do Esporte]. Eu já percebi que você não é o cara da fofoca. Você é o cara do esporte. Então, meus parabéns.
E parabéns a todos vocês, deputados, deputadas, senadores que aprovaram isso e eu espero que a gente esteja cumprindo uma coisa nobre com vocês.
Que Deus abençoe cada um de vocês. Que Deus abençoe com muita delicadeza. E que a gente possa continuar avançando. Um beijo no coração de todos vocês.