Pronunciamento do presidente Lula durante inauguração da fábrica da montadora chinesa BYD
Eu não poderia deixar de começar as minhas poucas palavras aqui, porque eu não consigo falar muito quando a minha cabeça está disputando com o meu estômago, que está com fome. Porque já são 14h, e a comida chinesa também esfria, e eu quero comer comida quente. Se tiver a maniçoba aí, feita pela Eliana, eu vou pedir para o companheiro Chuanfu [Wang, presidente da BYD] comer um pouco de maniçoba. Porque a maniçoba da Bahia vai disputar um campeonato mundial com a maniçoba do Pará. Nós queremos saber qual é o estado que produz a melhor maniçoba. Vamos ver, vamos ver, vamos ver. Se eu não souber dar o resultado, eu vou chamar o VAR, e o VAR são vocês. Aí vocês vão dizer quem é que vai ganhar.
Eu quero, primeiro, agradecer ao meu querido governador Jerônimo Rodrigues [da Bahia]. Quero agradecer ao meu querido companheiro Geraldo Alckmin [vice-presidente da República e ministro de Indústria, Comércio e Serviços]. Feliz é o presidente da República que tem a sorte de ter os vices que eu tive. Eu tive o Zé Alencar [José Alencar, ex-vice-presidente da República], que era um grande empresário, que foi vice nos meus dois primeiros mandatos, que eu acho que era impossível arrumar um vice melhor do que ele. E eu posso garantir para vocês que eu não quero que o Alckmin seja melhor, só quero que o Alckmin continue sendo o que ele é. De igual com viés de melhor daqui para frente.
Quero agradecer o Wang Chuanfu, o fundador e presidente da BYD. Quero agradecer a nossa querida Stella Li, vice-presidente executiva [da BYD] e o embaixador. Os meus ministros todos que estão aqui, não vou precisar citar o nome deles, os nossos deputados, os nossos senadores.
Mas eu queria dizer que nada disso aqui iria acontecer se não existissem umas coisas que às vezes não são lembradas no nosso discurso, que são os trabalhadores que vão tocar essa fábrica para frente e vão fazer acontecer. Por isso, eu quero agradecer a presença do Júlio Costa Filho, presidente do Sindicato do Metalúrgicos de Camaçari. Você que venha muitas vezes na porta desta fábrica fazer assembleia para poder manter estes trabalhadores bem organizados.
E queria dizer uma coisa muito importante. O que me fez admirar esse homem aqui [Wang Chuanfu] desde a primeira vez que eu o conheci, é que eu li uma biografia dele pela internet. E eu sou um homem que acredita muito na existência de um ser superior que é responsável por tudo que acontece neste planeta e nas nossas vidas.
Eu, para chegar até aqui, eu sou uma pessoa que eu digo sempre: eu duvido que tenha alguém que tenha mais motivo de acreditar em Deus do que eu. Primeiro, porque eu nasci em uma terra onde muitas crianças morriam antes de completar 5 anos de idade [em decorrência] de fome. Depois eu só fui comer pão pela primeira vez com 7 anos de idade, já em São Paulo, porque eu sou de Pernambuco. Eu sou o único presidente da República que não tem diploma universitário. Não consegui fazer um curso universitário. E estou no terceiro mandato como presidente da República.
E certamente isso é obra da grandeza do povo brasileiro e, dentro do povo brasileiro, a grandeza do povo baiano e a existência de Deus, que dá a ele sabedoria para escolher alguém que possa cuidar deles com muito carinho e com muito amor.
Eu estou dizendo isso porque na vida desse homem aqui aconteceu algo muito grave. Ele ficou órfão do pai com 13 anos de idade, 13 anos. Dois anos depois da morte do pai, morreu a mãe. E ele foi criado por um irmão que tinha 18 anos, recém casado e que possivelmente não tinha condições de dar para ele tudo o que ele precisava ter. Mas como Deus existe, mesmo para os chineses, ele está lá em cima, algo superior a nós.
Esse homem conseguiu se transformar em um gênio do carro elétrico, em um gênio da tecnologia mais avançada do mundo, e constrói essa fábrica extraordinária e deposita confiança no Brasil. Porque eu não conhecia ele, ele não me conhecia. Nós conversamos, o Rui Costa [ministro da Casa Civil] conversou, o Jerônimo conversou, e esse homem acreditou que era possível vir ao Brasil.
E como Deus escreve certo por linhas tortas, o fato da Ford ter nos deixado foi o fato dele ter vindo para cá. Então é uma substituição que eu acho que nós temos que ganhar, porque é a tecnologia mais importante que nós temos hoje na indústria automobilística mundial.
Então, meus agradecimentos. Eu quero que você saiba que o povo brasileiro e o povo baiano agradecem a sua disposição. E qual foi a grande surpresa? Que eu vim para cá, porque essa empresa iria produzir 300 mil carros por ano. E ela anunciou que, logo, logo, a gente vai estar produzindo 600 mil carros por ano aqui na Bahia. Porque eles não querem vender carro apenas no Brasil, eles querem vender na América do Sul, eles querem vender na América Latina.
E eu estou dizendo para ele que nós queremos vender no continente Africano, na parte africana que faz fronteira com o Brasil, dividida por um rio chamado Oceano Atlântico, que vai da Cidade do Cabo, na África do Sul, a Cabo Verde, quase chegando na Europa. Então, nós queremos que daqui do Brasil, com a inteligência, com o amor, carinho e com a sabedoria desse povo baiano, a gente comece a vender carro para o mundo inteiro, para ele saber o que a Bahia tem. É importante ele saber o que a Bahia tem.
Bem, o que está acontecendo hoje aqui é que nós estamos tentando apresentar ao mundo um projeto de nação. Nós não temos preferência por países. O que nós queremos é estabelecer uma relação civilizada com o mundo. É por isso que nós defendemos o multilateralismo. É por isso que nós não concordamos quando os Estados Unidos tomaram a posição de taxar os produtos brasileiros com base em coisas que não eram verdadeiras.
E, graças a Deus, também, aquilo que parecia impossível, eu tive uma conversa com o presidente Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos], segunda-feira, meia hora por telefone, e eu acho que também o nosso problema com os Estados Unidos será resolvido. Porque a gente quer estar bem com a China, e a gente quer estar bem com os Estados Unidos, a gente quer estar bem com a Argentina, a gente quer estar bem com o Uruguai, a gente quer estar bem com a Bolívia. Nós não queremos estar mal com nenhum país. Nós queremos estar bem, porque esse povo aqui é um povo motivado à paixão, ao amor.
E quando precisa de briga, as nossas mulheres aqui são porretas, que foram elas que expulsaram os portugueses daqui em 1823, no 2 de julho, quando o Brasil consagrou a sua independência. Esse ato aqui é a demonstração de que nós estamos criando uma pátria soberana. Um país que tem a maior reserva florestal do mundo, um país que tem 12% de água doce do planeta Terra. Um Brasil que tem 16,8 mil quilômetros de fronteira seca, um país que tem 8,5 mil quilômetros de fronteira marítima, mais 5,7 milhões de quilômetros de mar, do qual nós tomamos conta.
Um país que tem uma riqueza mineral extraordinária, ainda não totalmente conhecida pelo povo brasileiro. Porque nós, agora, vamos levantar o que a gente tem de verdade no solo, no subsolo e até no fundo do oceano. Este país tem a empresa de petróleo que tem a maior tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas — ninguém compete com o Brasil nessa área. Mais importante do que isso é que esse país tem um povo trabalhador.
Eu lembro que quando a Ford veio se implantar aqui, o diretor mundial da Ford esteve aqui no Brasil e ele disse para mim: “presidente Lula, é impressionante aquilo que os americanos levam muito tempo para aprender, um trabalhador brasileiro, em 90 dias, já está fazendo com a maior perfeição”. Então, o que o povo brasileiro precisa é oportunidade, é chance.
E é por isso que nós estamos investindo em universidade. É por isso que nós estamos fazendo mais oito Institutos Federais aqui na Bahia. Institutos Federais para produzir mão de obra qualificada para que o Brasil possa competir internacionalmente com qualquer país do mundo. Porque a gente não quer parar de exportar commodities, mas a gente quer exportar inteligência, conhecimento, valor agregado e, por isso, que a gente vai continuar fortalecendo a nossa relação com a China.
Eu posso dizer para vocês que eu me considero amigo do presidente Xi Jinping [da China] e tenho certeza que ele se considera amigo do Brasil. Porque nós nos tratamos como dois países importantes do Sul Global e não aceitamos que ninguém meta o dedo no nosso nariz. Nós queremos ser respeitados e tratados com muita decência.
Bom, a vinda dessa empresa para cá me traz muito orgulho, porque eu sei o que é ser trabalhador e ficar desempregado. Eu sei o que é um homem ou uma mulher, casado, levantar de manhã e não ter o que fazer, sair para procurar emprego, não ter emprego para ele trabalhar e voltar para casa de tarde cansado sem esperança de ter emprego. Eu fiquei um ano e meio desempregado. Eu sei o que é a gente passar, inclusive, necessidade de pagar uma simples conta da luz, de pagar uma simples padaria que nos entrega o leite e, ao mesmo tempo, eu sei o que é a gente ter o emprego.
E se a gente tiver emprego, a garantia, a certeza e a motivação que a gente passa para a mulher da gente, que a gente passa para o filho da gente, que a mulher que trabalha passa para o filho dela e passa para o marido dela. Porque é um trabalho. É o trabalho. É a certeza de no final do mês você receber o salário merecido pelo seu trabalho, que dá a você o direito de andar de cabeça erguida em qualquer lugar da cidade, do estado, do país.
A certeza de você poder comprar a comida para o seu filho, de você comprar a roupa do seu filho ou da sua filha, de você comprar o material da escola da sua filha, sabendo que ela não vai ser tratada como uma pessoa de segunda classe. Poder levar a sua filha, de vez em quando, para ir em um restaurante comer, comprar um presentinho para ela no aniversário dela, dar um presentinho para a sua afilhada.
Ou seja, não tem nada mais prazeroso para um homem ou uma mulher, vivendo de seu trabalho, poder fazer aquilo que tem vontade de fazer. É isso que essa fábrica representa para mim: a recuperação da dignidade do povo de Camaçari e do povo baiano. É o direito de vocês andarem de cabeça erguida, poder renovar a casa de vocês, poder comprar um móvel novo, poder comprar um televisor novo, um celular novo, um carro novo.
E é o carro da BYD que vocês vão comprar, porque o preço vai baratear, vai baratear, e, certamente, a BYD vai fazer um preço barato para os trabalhadores.
Vamos ter em conta aqui, não sei como é na China, não sei, Wang Chuanfu, eu não sei como é que é na China, mas aqui no Brasil a gente tem por hábito que o trabalhador da indústria automobilística onde ele trabalha, quando for vender um carro para o trabalhador, vende com um percentual um pouquinho mais barato e mais facilidade. Porque a coisa mais importante para uma empresa que produz carro é saber que os seus trabalhadores estão vindo trabalhar em um carro que ele fabricou e não entrar aqui com o carro de outra empresa.
Portanto, isso é soberania, gente, isso é soberania e dignidade. Porque tem uma coisa que a gente tem que aprender: a gente não compra em shopping a dignidade, a gente não compra em shopping a soberania, a gente não compra em shopping a respeitabilidade, a gente conquista ou a gente aprende no berço. E o povo baiano é um povo que tem tradição.
Quando Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil, dia 7 de setembro, o português ainda ficou aqui, precisou o povo baiano levantar a cabeça e falar: “chega, agora nós somos do Brasil e vocês vão ter que ir embora e nós viramos uma pátria totalmente livre nos 8,5 milhões de quilômetros quadrados.”
Companheiros e companheiras, a BYD não será apenas o que seu presidente quiser ou o que a sua vice-presidenta quiser. A BYD também será o que, a partir de agora, vocês quiserem. Vocês poderão passar para a história como produtores do carro mais sofisticado, do carro mais rápido e do carro mais econômico que o planeta Terra já produziu.
E os baianos levarão a fama, isso não é só da China. Isso é da China e isso é da Bahia. Isso é da China e isso é do Brasil. Porque daqui a pouco a gente vai estar ensinando os chineses a produzirem maniçoba e eles vão saber o quanto é bom essa troca de tecnologia do nosso lado: essa culinária da maniçoba. E do lado dele: o carro elétrico. Eu quero agradecer a todos vocês, diretores da BYD que acreditaram nisso. Aos deputados e aos senadores que deram uma contribuição para a gente fazer tudo o que tinha que fazer.
Ontem, por exemplo, foi triste porque uma parte do Congresso Nacional votou contra a taxação que a gente queria fazer aos bilionários deste país. Aos bilionários desse país, daqueles que ganham muito e pagam pouco. E vocês não podem ficar quietos, porque vocês vão receber o salário de vocês. Quem ganha até R$ 5 mil não pagará mais Imposto de Renda nesse país. Mas quem ganha mais paga até 27,5%. Se um trabalhador pode pagar 27,5%, por que que um ricaço não pode pagar 18%? Ainda fizemos acordo para 12% e eles não quiseram pagar. Eles podem saber que é uma questão de dias: eles vão pagar o imposto que merecem aqui no Brasil, porque o povo trabalhador não vai deixar isso barato.
Meu querido presidente da BYD, minha querida vice-presidente, meus queridos diretores, eu quero dizer para vocês que hoje é um dia marcante na minha vida. E quero dizer aos donos da Ford que foram embora, que a gente lamentou muito por vocês saírem, mas como Deus escreve certo por linha torta, o que veio para o Brasil será melhor do que os que saíram do Brasil.
Um beijo no coração do povo baiano, um beijo no coração da direção da BYD e até outro dia.
Agora, veja, agora a gente vai recuperar agora… A gente vai anunciar navio da Petrobras, barcaça para transportar minério, a gente vai anunciar e logo, logo, a gente vai fazer uma faculdade lá em Santo Amaro, que vai chamar o nome de Universidade Dona Canô, para homenagear a Bahia. E a gente também vai fazer logo, logo, um projeto de recuperar aquele rio Santo Amaro, que a Dona Canô [mãe dos cantores Caetano Veloso e Maria Bethânia] reivindicava para mim.
E a gente vai fazer mais a seguinte, a Fafen [Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados] vai voltar a funcionar aqui na Bahia e em Sergipe, porque a gente agora vai ser dono do nosso nariz também na produção de fertilizantes.
Um beijo no coração e até outro dia, se Deus quiser.