Pronunciamento do presidente Lula durante a VI Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, em Luziânia (GO)
Vocês sabem que o dia de hoje é um dia de aprendizado para nós que somos um pouco mais velhos do que vocês. Nós estamos vivendo um momento na humanidade em que é a primeira vez que, em muitas coisas, um jovem sabe mais do que seu pai, sabe mais do que seu avô, sabe mais do que sua mãe.
Algum tempo atrás, toda a sabedoria e todo o conhecimento, a gente sempre achava que os mais velhos sabiam mais. E essa revolução digital da humanidade, ela permite que uma criança de seis anos de idade saiba manusear um controle remoto infinitamente mais do que o pai, do que a mãe, do que o avô, do que a avó.
Vocês devem ter experiência em casa, quando a avó de vocês quer mudar o canal. Sabe? “Querido, vem aqui mudar o canal, querido, eu quero ver tal filme, querido, eu quero ver tal jogo”. A coisa está tão difícil, Marina [Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima], que hoje uma pessoa de mais idade, se quer ver um jogo do seu time, muitas vezes ele não consegue ver porque é um canal que não existe na regra normal de televisão.
Você tem que entrar no YouTube e procurar um canal para ver o jogo. Então eu já vi muita gente reclamando: “não consegui ver o jogo do Corinthians porque passou da TV, não sei das quantas”. Esse é um dado.
O outro dado é a quantidade de informações que a humanidade recebe por segundo. Em nenhum momento da história da humanidade, a gente foi tão massificado por uma quantidade de notícias e de informações que antes levava anos para a gente saber. Só para você ter ideia, no tempo que o Brasil tinha o imperador Dom Pedro, para ele fazer uma viagem daqui para a Europa era uma viagem que levava, entre ida e volta, seis meses. Para você mandar uma carta de um país para outro, a carta levava anos. Ou seja, hoje a coisa acontece em segundos. Em segundos.
Por isso, Marina, que quando você falou do presente, eu falei para o Camilo [Santana, ministro da Educação]: eu acho que não existe mais o verbo presente. É futuro e passado. Eu acabei de falar e já virou passado. Não é mais presente. O conhecimento humano está mais ou menos assim: a gente não tem tempo sequer de ficar remoendo uma coisa que a gente sabe e já vêm outras 500 coisas na cabeça da gente.
E, sobretudo, vocês que são viciados no celular e que ficam no celular horas, horas e horas procurando notícias. Eu tenho essa inveja de vocês porque no meu tempo de jovem a gente queria jogar um game. Era um joguinho de pingue-pongue. “Pá, pá, pá, pá”. Era uma bolinha que ia e voltava e aquilo era o máximo. Hoje a quantidade de opções de coisas que vocês têm são inimagináveis para pessoas da nossa idade.
Qual é a vantagem que nós temos sobre vocês? Vocês sabem qual é? Vocês estão aí dizendo assim: “nossa, que mesa de pessoas velhas. Olha o Márcio [Macêdo, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República] como está velho, a Marina. Só o Lula que é jovem”. Vocês devem estar pensando isso. E sabe qual é a vantagem que eu tenho sobre vocês?
Vocês têm a vantagem sobre mim que vocês sabem pelas redes digitais coisas que eu não sei. Agora, eu já tive a idade de vocês. Então, vocês que têm 14 anos, 10 anos, 11 anos, 12, 13, 15, 16, 17, eu sei tudo que um menino ou uma menina faz nessa idade. Porque a gente já fez. Então, eu estou dizendo isso para vocês para estabelecer uma certa intimidade entre nós. E por que intimidade?
Porque a Marina falou: “eu estou com 67 anos e está na hora de passar o bastão”. Acontece que tem uma coisa na vida da gente que é o seguinte: quando a gente tem uma causa, quando a gente tem uma motivação de vida, os anos passam, mas a gente não envelhece. Se você tiver motivação de fazer alguma coisa e você levantar todo santo dia motivado em fazer aquela coisa acontecer, você não vê o tempo passar.
Você definitivamente não vê. Quando é que a pessoa envelhece? Quando ela acha: “eu não tenho mais nada para fazer, eu já estou aposentado, eu vou ficar em casa sentado no sofá. Eu não quero caminhar, porque caminhar cansa. Eu não vou na assembleia do sindicato, porque eu já conheço. Eu não gosto de política, porque política ninguém empresta”.
Quando a pessoa está assim, ela envelhece rápido. Fica uma pessoa azeda, uma pessoa ‘resmunguenta’. Uma pessoa que ninguém quer ficar perto. Porque ninguém quer ficar perto de uma pessoa desagradável. Não é isso? Vocês não convidam para ir à casa de vocês uma pessoa que vocês não gostam, aquela menina chata da escola, ou aquele menino chato da escola. Porque, às vezes, é a gente que é chato e a gente pensa que é ele.
Então é importante a gente passar a se gostar levando em conta a necessidade de a gente tirar das pessoas aquilo que cada um de nós tem de bom para oferecer. E é por isso que eu acho que esse país está fazendo uma coisa extraordinária. Nenhum país do mundo ousou, há muito tempo, fazer uma conferência infantojuvenil para discutir a questão do clima. Nunca. Nenhum país do mundo.
E vejam, nós começamos em 2003 com a proposta da Maiara, filha da [ministra] Marina, e não paramos de fazer essa conferência. E vocês viram que o Camilo começou dizendo assim: “eu vou parar porque vocês vieram aqui para ouvir o Lula”. Também não é verdade, Camilo. Eles não vieram aqui para me ouvir. Eles vieram aqui para me ensinar como é que a juventude brasileira conhece a questão do clima.
E essa carta que vocês me entregaram é um aprendizado. Eu duvido que tenha no mundo… Cadê a câmera do Stuckert [Ricardo, secretário de Produção e Divulgação de Conteúdo Audiovisual] para eu falar para a câmera que nem jogador de futebol? “Nós é nós. Eu estou dando o meu melhor”.
Eu duvido que tenha no mundo um presidente que tenha tido o prazer que eu estou tendo hoje ouvindo a meninada do meu país. Duvido. Porque quando a gente resolve ouvir as pessoas a gente não está dando uma demonstração de humildade. A gente está apenas dizendo: “eu não conheço tudo. Eu não sei tudo”.
E a melhor forma de eu aprender é ouvir o que as pessoas têm para dizer. O que uma criança indígena tem para dizer? O que uma criança da periferia tem para dizer? Mas o que uma criança também da classe média tem para dizer?
Esses dias eu conversava com um rapaz da Faria Lima, um banqueiro, que o filho dele, ele é banqueiro e o filho dele está em Londres para estudar para ser banqueiro. E eu falei para ele: “ô cara, você não é um cara ruim. Por que que você não pega teu filho e leva ele para ele conhecer um pouco a periferia desse país? Para ele ver como é que vive o povo. Por que que, ao invés de ficar mandando o seu filho para conhecer França, para conhecer Inglaterra, para conhecer a Disney, por que não leva ele para conhecer a Amazônia brasileira? Por que não leva?”
E eu tenho brigado com o ministro do Turismo [Celso Sabino] e aí, Camilo, uma coisa que nós temos que fazer na escola é que nós temos que fazer publicidade, incentivo, para que a meninada nossa da escola que tem vontade. E é todo dia, todo dia propaganda para ir para a Disney, para ver o Mickey, para ver o Pateta, para ver o Mickey, para ver o Pateta, que eu acho que tem que ver mesmo, mas eu acho que é preciso a gente ver o Curupira. É preciso a gente ver a Amazônia. É preciso que a gente veja os nossos rios. É preciso que a gente veja as coisas que são ricas para a sobrevivência da humanidade.
Agora, é preciso que a gente diga isso na escola. É preciso que a gente diga isso na televisão e é preciso que o governo crie facilidade para que a gente possa fazer viagens e levar as crianças.
Não tem colégio que pega 50 crianças ou 100, aluga um avião e leva para conhecer não sei o quê? Ora, por que a gente não pega as nossas crianças e a gente faz um turismo pelo Rio Amazonas? Pelo Rio Tapajós? Pelo Rio Solimões? Por que a gente não leva as nossas crianças para conhecer a riqueza do Pantanal? Isso é turismo. Isso é desenvolvimento de conhecimento. É fazer com que a gente possa crer, ver aquilo que é nosso. Aquilo que nos é útil.
Porque muitas vezes eu tenho um remorso, porque eu tenho um filho caçula que uma vez, ele tinha acho que 13 ou 14 anos, e ele chegou em casa, a classe dele toda ia para a Disney. A classe dele inteira. Ele chegou em casa pedindo pra mim para ir para a Disney. Eu falei: você não vai. Primeiro porque eu não tenho dinheiro. É a primeira coisa. A segunda porque eu acho que você precisava conhecer um pouco o Brasil. Vá conhecer o Nordeste onde eu nasci. Vá ver como é que vive o povo daquela região.
Por quê? Porque é assim que a gente desenvolve uma consciência de nação. Uma consciência de cidadãos. Uma consciência de soberania sobre o seu território, sobre as suas coisas. A gente não tem noção do que nós somos ainda.
Só para vocês terem ideia. Nós só temos conhecimento de 30% das nossas riquezas minerais. Tem 70% que a gente não conhece. A gente não tem o mapeamento ainda. A gente não tem o mapeamento das terras raras que o mundo inteiro está brigando por terra rara. Terra rara na verdade é aquela que a gente nasce. Aquela que a gente pisa o pé. Essa é uma terra rara. A outra é uma terra que tem um valor econômico para fazer coisas que a gente está aprendendo a fazer agora.
Então, esse encontro de vocês é uma coisa mais que extraordinária. É uma coisa excepcional. Porque não há televisão. Não há internet. Não há influencer que seja mais importante do que vocês educando o pai de vocês e a mãe de vocês sobre as coisas certas que eles têm que fazer dentro de casa no cuidado do filho. Não tem. Não tem.
Eu já fui filho. Sou caçula de uma família de 12 pessoas. E eu sei o poder que vocês têm sobre a mãe e o pai de vocês. Sobretudo se for caçulinha. Sobretudo se for o dengoso da família ou a dengosa da família.
Então eu estava dizendo para o companheiro Camilo como é que a gente tem que fazer junto com a Marina e com outros ministros, para a gente fazer com que a educação do clima não seja uma coisa eventual. Que ela faça parte do nosso dia a dia. Que ela faça parte da nossa cultura sistematizada. E nós temos condições de fazer. Isso aqui é um exemplo. Isso aqui é um exemplo.
Ou seja, se quase 3 mil municípios fizeram conferência, se os 27 estados fizeram conferência, se envolveu milhões de crianças, milhares de professores e de jovens educadores que estão aí para trabalhar, para ajudar. Isso é uma revolução que vocês estão fazendo nesse país. É uma revolução.
A inveja que eu tenho é de não ter tido, com a idade de vocês, as oportunidades que vocês estão tendo. Porque vocês sabem que destruir é muito mais fácil do que construir. Destruir é num segundo. Você vê nas guerras a facilidade que eles têm de destruir casas, de destruir pontes que você levou uma vida inteira para fazer, de destruir ferrovia que você levou... E mais grave, destruir vidas que não têm retorno.
Uma ponte custa, mas você refaz uma ferrovia, você refaz. E uma vida? O que você vai fazer com as milhares de mulheres que morreram na faixa de Gaza? Mulheres e crianças inocentes. O que é que você vai fazer com as pessoas que foram assassinadas pelo Hamas em Tel Aviv? O que é que você vai fazer? Essa vida você não recupera.
Então, vocês estão fazendo uma pequena revolução nesse país. E eu só tenho a agradecer vocês. Eu só tenho a agradecer pela lição. Eu vou chegar na ONU com essa carta de vocês. Eu vou chegar na ONU. A Marina vai me ajudar. Dia 6, dia 5 ou 6 ou 6 e 7 [de novembro], nós vamos ter a reunião de chefes de Estado na cidade de Belém. E eu quero entregar uma carta dessa, Marina, para cada presidente de país estrangeiro que chegar aqui no Brasil.
Eu quero que eles saibam o grau de maturidade política do nosso jovem. Eu quero que eles saibam o grau de maturidade climática que tem o nosso jovem. Porque tem muito presidente que não tem noção de quanto gás de efeito estufa uma bomba solta no planeta. Tem pessoas que não têm noção.
Só para vocês terem uma noção, no ano passado foram investidos 2,7 trilhões de dólares em armas. E tem 760 milhões de pessoas que vão dormir toda noite sem ter o que comer. É esse mundo que nós temos que mudar. É esse mundo que vocês estão contribuindo para que a gente possa mudar.
E ninguém pode dar lição ao Brasil sobre a questão do clima. Nós não somos os donos da verdade. Nós não sabemos tudo. E nós não podemos tudo. Mas não tem ninguém fazendo mais do que nós com a dedicação que nós estamos fazendo.
E isso, é por causa desse aprendizado que eu vim aqui hoje. Eu, na verdade, deveria ter ficado calado, agradecer a carta e ir embora. Mas eu não podia fazer isso. Porque eu queria dizer para vocês que hoje aconteceu outra coisa fantástica, que não é climática, mas é uma limpeza neste país.
Só para vocês terem ideia, hoje teve uma operação da Polícia Federal e da Polícia Civil dos 27 estados para combater a exploração sexual infantil praticada por meio da internet. São 900 policiais em ações, 182 mandados de busca e apreensão, 11 mandados de prisão e 47 pessoas presas em flagrante.
Somente assim, a gente vai acabar com a exploração de meninas nas terras indígenas, com garimpeiros explorando meninas. Na periferia, nos bairros pobres desse país, nas cidades, na classe média. Porque o que não falta é gente safada nesse país para fazer coisa errada.
Então essa gente tem que ir para a cadeia e isso faz parte da limpeza climática que a gente quer fazer. Uma outra novidade, Marina, é o seguinte: você sabe que o território de Fernando de Noronha é tocado a energia por termoelétrica a diesel. Pois você está convidada, a hora que terminar a conferência de chefes de Estado na COP, nós vamos pegar um avião e vamos a Fernando de Noronha acionar, que ele agora vai ser tocado por energia solar e não mais por energia [térmica].
Então eu vou terminar por aqui, porque o meu discurso está aqui e eu não li. Eu queria terminar dizendo para vocês: gente, é muito importante o que vocês estão fazendo aqui.
Eu quero agradecer a cada professor. Eu quero agradecer a cada jovem que se dispôs a ser o influencer dessa meninada aqui. Quero agradecer ao pai e à mãe de vocês que liberaram vocês para virem aqui.
Eu posso dizer para vocês: isso aqui pode não ser a melhor coisa do mundo que vocês queriam fazer. Pode até não ser. Mas eu acho que não tem ninguém que possa sair daqui com mais orgulho do que cada um de vocês, não importa a idade. Até esse baixinho aqui, porque o que vocês fizeram é um gesto para envergonhar gente grande. O que vocês fizeram é um gesto para que o presidente Lula veja, para que o presidente Trump [Donald Trump, dos Estados Unidos] veja, para que o Macron [Emmanuel Macron, presidente da França] veja, para que o Xi Jinping [presidente da China] veja, para que o Putin [Vladimir, presidente da Rússia] veja, para que todos os presidentes do mundo vejam. A solução do planeta está nas oportunidades que a gente garantir de participação dos nossos filhos, dos nossos netos e da nossa juventude.
Um beijo do coração para todos vocês e que Deus nos abençoe.
Peraí, peraí, peraí. Ô gente, eu não acabei não, quando vim falar aqui, vocês viram que eu fui conversar com a Valentina ali atrás. E a Valentina falou: “presidente, deixa eu falar um pouquinho depois que o senhor falar”. Então eu trouxe a Valentina aqui para dar o microfone para saber o que de importante que a Valentina tem para falar para nós.
[fala da Valentina]
Muito bem, agora sim, agora sim terminou o ato. Gente, um beijo no coração, um beijo a cada professor, a cada professora, a cada um de vocês. Um beijo, que Deus nos abençoe.