Pronunciamento do presidente Lula durante a abertura da 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres
Eu vou pedir desculpas aos meus companheiros e companheiras ministras que estão aqui, aos nossos convidados e não vou repetir a nominata com o nome de todas as autoridades que estão aqui presentes.
Eu, na verdade, gostaria apenas de prestar a minha homenagem às meninas que foram as minhas primeiras ministras desde que nós ganhamos as eleições. A companheira Emília Fernandes [ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres], que foi ministra de 2003 a 2004; a companheira Iriny Lopes [ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres], que foi ministra de 2011 a 2012; a companheira Eleonora [Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres], que foi ministra de 2012 a 2015; e a minha querida companheira Cida Gonçalves [ex-ministra das Mulheres], que foi ministra até 2025.
Eu queria dizer para vocês que, em uma conferência feita pelas mulheres e para as mulheres, não caberia discurso de homem. Não deveria caber. Entretanto, quem está aqui não é um homem, é o presidente da República Federativa do Brasil. E eu, então, me sinto na obrigação de fazer um pequeno discurso para vocês.
É muito feliz um presidente da República que preside um país e que tem momentos auspiciosos como esses das conferências que nós fazemos. As conferências significam a primeira demonstração de que democracia não é apenas o povo votar. Além de votar, o povo precisa fiscalizar. Além de fiscalizar, o povo precisa propor. E, além de propor, o povo tem que ajudar a fazer. Ajudar a fazer e, mais importante, ajudar a cuidar das coisas que a gente faz.
Essa é a coisa que pode simbolizar a democracia. Não é você dizer “o presidente fez tal coisa”, é você dizer “nós fizemos tal coisa, porque nós participamos na nossa cidade, no nosso estado e na nossa comunidade”.
Por isso, minhas queridas amigas… Tem tão pouquinho amigo aqui, eu estou vendo quatro homens aqui na minha frente, que é bom nem falar “companheiras e companheiros”, só “companheiras e companheiras”.
Vocês, pouquíssimos homens, serão esquecidos por mim nesse momento. Eu, antes de vir para cá, eu pedi para o meu assessor de imprensa fazer um levantamento do 1º Congresso das Trabalhadoras Metalúrgicas que realizei em 1º de janeiro de 1978. Certamente, em 78, muitas de vocês não tinham nascido ainda, portanto, não sabem desse congresso.
Depois, tem algumas que têm uma meia-idade que sabem, mas eram crianças com 10 anos, 11 anos, naquele tempo e não sabem. E tem algumas da minha idade que já ouviram falar, mas pela idade já esqueceram, então eu tenho que falar outra vez. E é o seguinte: a coisa mais marcante naquele encontro é que a gente queria algumas coisas.
Primeiro, a gente queria convencer as mulheres a começarem a frequentar o sindicato, porque o sindicato era tido como coisa de homem. Então a gente queria criar uma certa consciência política para as mulheres compreenderem que o sindicato também era delas. E nós fizemos esse congresso, se inscreveram oitocentos e poucas mulheres, mas só compareceram 350 mulheres, porque teve muita ameaça de que as mulheres que fossem no congresso poderiam ser mandadas embora.
E as mulheres não queriam nada diferente do que vocês querem hoje. Vocês sabem qual era a principal reivindicação daquelas mulheres em janeiro de 1978? Era simplesmente igualdade salarial. Porque dentro das fábricas as mulheres ganhavam simplesmente metade do que ganhava um homem exercendo a mesma função.
Então vocês vejam que a briga não é nova, a briga é antiga. E entre a gente aprovar uma lei, entre a gente regulamentar e as mulheres começarem a receber o salário igual, ainda vai ter muita briga, vai ter muito processo, vai ter muita justiça, porque é difícil você fazer as pessoas mudarem de hábito quando se trata de colocar um pouquinho de ‘dindin’ [dinheiro] na mão do povo trabalhador.
Então se preparem, companheiras, porque tem muita luta pela frente.
Uma outra questão importante, eu queria pedir desculpa, porque na minha nominata esqueceram de colocar uma pessoa que eu tive um profundo respeito, que foi a mulher que introduziu a primeira cota na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a ministra Nilcéa Freire [ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres], já falecida. Nilcéa, eu sei que você está aí em cima, por Deus do Céu, foi erro de nominata, porque eu não poderia esquecer você nunca, porque eu sei o favor que você fez a este país aceitando ser ministra no lugar da Emília Fernandes. Então obrigado, querida. Obrigado. Nem me espere aí, porque eu vou demorar para chegar. Não, pode dormir descansada, porque o Lulinha vai demorar.
Bem, eu também não posso esquecer aqui nessa fala de hoje o papel que a minha ex-mulher Marisa [Letícia Lula, ex-primeira-dama do Brasil] teve na construção desse partido, na construção da CUT. Também, eu vou demorar. E não posso esquecer da minha companheira Janja [Lula da Silva, primeira-dama do Brasil].
Quando eu perdi a Marisa, eu achei que o meu mundo tinha acabado, e, aliás, quando eu perdi a Lourdes [Maria de, primeira esposa do presidente], eu fui casado com a Lourdes dois anos, eu casei em 69, ela morreu em 71, ela morreu no parto, e eu fiquei praticamente três anos indo ao cemitério todo dia. Eu ia todo santo dia no cemitério.
Então eu pensei que o mundo tinha acabado, eu depois encontrei a Marisa. Com a Marisa eu vivi 45 anos, quando ela morreu, eu achei que o mundo tinha acabado, e eis que Deus é tão poderoso que me deu a Janjinha para fazer com que eu viva com a felicidade que eu estou vivendo hoje.
Tem uma música que diz que o homem só se apaixona uma vez. É mentira. O homem e a mulher têm capacidade de se apaixonar muitas vezes, é só ter oportunidade de aparecer o sapato, aparecer o sapo ou a sapa que a gente quer.
Então, obrigado Janjinha por você ter nascido e ter conhecido essa pérola de homem que você encontrou para casar. Eu brinco muito com a Janjinha, dizendo para ela que a Unesco já deu uns dez prêmios para ela de presente, a mulher mais bem casada do planeta Terra. E, quando eu for conversar com o Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos], eu vou levar ela. Eu quero que ele veja.
Bem, gente, eu resolvi falar coisas que não estão no meu discurso, porque ontem à noite eu fiquei muito puto da vida, o Corinthians jogou contra o Flamengo, a Janja é flamenguista fanática, eu sou corinthiano fanático, e o Corinthians, por erros do Corinthians, não por mérito do Flamengo, o Corinthians perdeu o jogo ontem.
De qualquer forma, eu acho que felicidade não é só a gente receber as coisas, é a gente oferecer. E quando a minha mulher ficou feliz e eu triste, eu falei: “eu não posso ficar triste porque minha mulher está feliz, eu vou ficar feliz junto com ela”, e comemorei a vitória do Flamengo, mesmo o Corinthians correndo o risco de ser rebaixado.
Mas é com muita alegria que participo desta celebração, que marca o retorno das Conferências Nacionais de Políticas para as Mulheres.
Esta quinta conferência acontece após um intervalo involuntário simplesmente de dez anos.
Dez anos de retrocessos em tudo o que havíamos conquistado.
Dez anos de repetidas tentativas de calar a voz das mulheres.
De institucionalizar o silêncio que as mulheres enfrentam todos os dias – em casa, no trabalho, em todos os ambientes em que lutam para serem ouvidas.
Quantas vezes vocês foram interrompidas ou caladas por homens que se julgam mais inteligentes, mais sábios e mais entendidos em qualquer assunto.
Quantas vezes foram obrigadas a expor suas ideias e opiniões de um fôlego só, sem pausa para respirar, para não serem cortadas no meio do raciocínio.
Por isso, esta conferência é também um grito contra o silêncio.
Um grito pela liberdade das mulheres falarem o que quiserem, quando quiserem e onde quiserem.
Não há democracia plena sem a voz das mulheres. De todas as mulheres.
Pretas, brancas, indígenas.
Do campo e da cidade.
Trabalhadoras domésticas, empresárias, profissionais liberais.
Que trabalham fora ou se dedicam a cuidar da família.
Mulheres que cumprem dupla jornada de trabalho, às vezes até tripla jornada de trabalho.
Mães-solo. As avós que cuidam dos netos sozinhas.
Mulheres que se mobilizam e vão às ruas lutar não apenas pelos seus direitos, mas também em defesa da democracia e contra todas as formas de injustiça nesse mundo.
Mulheres que nunca se calaram.
Mulheres que nunca tiveram voz – e que por isso mesmo merecem ser ouvidas com toda atenção.
Queridas companheiras e companheiras e companheiras, já que os companheiros são muito poucos aqui.
Meu compromisso com as mulheres vai além da condição de presidente da República.
Sou, antes de tudo, filho da Dona Lindu. Uma migrante sem formação escolar nem rede de apoio, que se rebelou contra a violência doméstica e decidiu criar sozinha oito filhos.
A recusa de Dona Lindu em aceitar o desrespeito e a violência marcou profundamente e por toda a minha vida.
Foi com esse exemplo que, ao assumir a presidência em 2003, decidi criar pela primeira vez na história uma secretaria dedicada a políticas públicas para as mulheres.
Na época, um verdadeiro marco na conquista de direitos.
Mas alguns anos depois, o Brasil e as mulheres sofreram um duro retrocesso.
O golpe contra a presidenta Dilma Rousseff serviu não apenas para derrubar a primeira mulher a governar esse país.
Foi também a tentativa de calar milhões de vozes femininas. Porque o autoritarismo não apenas odeia – ele também teme as mulheres.
Estruturas de proteção foram desmontadas. Discursos preconceituosos, violentos e carregados de ódio ecoaram do mais alto escalão da República, e fizeram das mulheres um dos seus alvos preferidos.
Quando recuperamos o governo, em 2023, criamos o Ministério das Mulheres. Aprovamos a Lei de Igualdade Salarial. Criamos programas de combate ao feminicídio e a todas as formas de violência contra as mulheres.
Trouxemos de volta políticas de inclusão social e criamos novas iniciativas, a exemplo do Programa de Dignidade Menstrual. Para que nenhuma menina seja impedida de ir às aulas por falta de acesso aos absorventes.
Mas nada disso nasce por geração espontânea ou por concessão de governo.
Vocês nunca receberam nada de mão beijada.
Todas as conquistas foram o resultado de muita luta ao longo da história e da vida de vocês.
Do direito ao voto até a construção de espaços de diálogo e articulação com o governo, a exemplo desta conferência.
Tudo isso existe porque vocês lutaram e foram capazes de construir.
É verdade, avançamos muito, mas ainda há muito a ser feito, há muito a ser conquistado.
Sabemos também que esses avanços não chegam a todas as mulheres por igual.
É preciso vencer as barreiras impostas pelas diversas formas de desigualdade.
Desigualdade social, de raça, de acesso à educação, à saúde e ao trabalho digno.
Desigualdade na autonomia sobre seus corpos e no direito de dizer “não”.
Por isso, priorizamos as mulheres nas políticas de inclusão social.
Hoje, as mulheres são 84% dos beneficiários do Bolsa Família, 63% da população atendida pela Farmácia Popular, 85% dos beneficiários da linha subsidiada do Minha Casa, Minha Vida, 65% entre estudantes bolsistas do Prouni, e 59% das matrículas na educação superior.
Somente com pluralidade e transversalidade seremos capazes de construir políticas públicas que respeitem e acolham todas as formas de viver e existir.
Somente quando construídas de forma compartilhada, essas políticas serão capazes de contemplar as diversidades e particularidades que marcam a vida de mais de 100 milhões de brasileiras.
Por isso, a importância do pacto federativo.
Uma política pública capaz de gerar bons resultados depende da articulação entre União, estados e municípios.
Cada prefeita ou cada prefeito, cada governadora ou cada governador são peças fundamentais nessa caminhada.
Queridas companheiras e companheiras,
Ao longo da história, as mulheres sempre tiveram muito o que ensinar ao mundo.
Felizmente, o Brasil recuperou a capacidade de ouvi-las.
Eu poderia concluir homenageando as grandes mulheres que marcaram e ajudaram a mudar a história do Brasil.
E que mesmo diante da invisibilidade e da falta de oportunidades conseguiram romper barreiras.
Todo mundo sabe. Maria Filipa, Maria Quitéria e Joana Angélica, no famoso 2 de julho, que deu a independência definitiva do Brasil. Que ajudaram a consolidar definitivamente a independência.
Chiquinha Gonzaga, que abriu alas para as mulheres na música, ao se tornar a primeira regente feminina de uma orquestra no Brasil.
Maria Carolina de Jesus, que se tornou uma das principais vozes da literatura negra brasileira, ao escrever do ponto de vista de um quarto de despejo.
Nísia Floresta, pioneira no ensino para meninas, criticada pelos que consideravam sua proposta educativa inadequada para crianças do sexo feminino.
Bertha Lutz, fundamental na conquista do voto feminino e na inclusão das mulheres na ciência e na política.
Lélia Gonzalez, ativista, filósofa e antropóloga, referência nos debates de gênero, raça e classe no Brasil e na América Latina.
Nossa rainha Marta, que não deu ouvidos quando lhe disseram que lugar de mulher não é dentro de um campo de futebol – e se tornou a melhor jogadora do mundo.
Ana Maria Magalhães, autora de “Um defeito de cor”, primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras.
E a nossa querida Marta Suplicy [ex-ministra do Turismo e da Cultura], que desafiou o conservadorismo ao levar a sexualidade feminina para a televisão no final dos anos 70 e começo dos anos 80. Eu na verdade acho que a Marta Suplicy, quando ela tomou aquela atitude, eu lembro que, um dia, eu almocei com a Marta e com o pai dela e o pai dela falava assim para mim: “você vê, Lula, eu empresário, eu eduquei minha filha achando que ela ia ser minha herdeira e o que ela faz? Está falando de sexo na televisão. Você não sabe como eu sou achincalhado pelos meus amigos empresários.” Mal sabia ele que aquela menina loira, desaforada, fez uma revolução na política de costume deste país, levando o debate da mulherada para a televisão ainda no tempo da ditadura militar.
É preciso homenagear, todos os dias, essas e tantas outras grandes mulheres da história. Mas eu quero terminar homenageando todas vocês que estão aqui e também as que não puderam estar aqui. Em nome de vocês, homenagear cada mulher brasileira, mulheres anônimas que com trabalho, dedicação, inteligência, talento e espírito de luta, ajudam a fazer do Brasil um país mais desenvolvido, menos desigual e mais generoso.
Eu quero terminar com uma frase que a Janja diz muito: o futuro da humanidade é feminino. Portanto, se preparem que mais dia, menos dia vocês vão estar governando esse planeta e eu espero que vocês governem muito mais com o coração do que com a cabeça, porque o coração é sempre mais sensato que a razão.
Quero desejar a todas uma feliz e produtiva conferência e que Deus faça com que a gente saia daqui maior, muito maior, e que a gente saia daqui com diretrizes, com coisas concretas que possam fazer com que o governo possa fazer muito mais por essa gente que, se não fosse vocês, eu não teria nascido. Imagina a importância da mulher. Quando eu fui nascer, Dona Lindu gritou: “vai meu filhinho, vai meu Lulinha, vai ajudar as mulheres a conquistar coisas nesse mundo”.
E eu quero terminar dizendo: Marielle [Franco, ex-vereadora, ativista e irmã da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco] vive entre nós!
Um grande abraço e um beijo para todas vocês.