Pronunciamento do presidente Lula durante cerimônia de anúncios do Governo Federal no Vale do Jequitinhonha (MG)
Eu quero dizer para vocês da minha emoção, da minha alegria, de estar de volta ao Vale do Jequitinhonha. Eu aprendi na construção do PT, em 1980, andando por essa região. Eu saí de São Paulo com a notícia de que o Vale do Jequitinhonha era terra de viúvas de maridos vivos.
Isso é o que a gente ouvia falar em São Paulo. O Vale do Jequitinhonha era uma terra de viúvas de maridos vivos, porque os maridos iam para o interior de São Paulo cortar cana e passavam seis meses, e depois também para catar laranja, para ganhar um mísero salário mínimo, e as mulheres ficavam passando fome aqui. Mas quando eu cheguei ao Vale do Jequitinhonha, eu tive a sorte de encontrar um bispo muito importante, Dom Enzo, na cidade de Araçuaí, que era um homem extremamente maravilhoso, não apenas como religioso, mas como ser humano.
E tive o prazer de conhecer uma baixinha chamada Cacá, que foi eleita prefeita de Araçuaí. Tive o maior prazer de saber que poucas terras desse país, e poucas regiões tinham a riqueza cultural que tem o Vale do Jequitinhonha. Desde que conheci a Janja, eu tenho falado para a Janja: você precisa conhecer o Vale do Jequitinhonha.
Você precisa conhecer o que é a capacidade cultural daquele povo. A capacidade de produzir arte, de produzir cultura, seja música, seja teatro, seja o trabalho que vocês fazem no artesanato. Eu tive o prazer de ouvir muitas músicas daqui do Rubinho do Vale. Não digo que não fui amigo, porque amigo a gente só fala o seguinte: amigo é aquele que convida a gente para ir na casa dele para tomar cerveja ou aquele que a gente leva em casa. Então, a minha história com o Vale do Jequitinhonha é muito rica.
Em 1992, parece que foi o ano que a Luiza Erundina ganhou as eleições... Não. Em 88 ela ganhou as eleições. Em 92 a Cacá foi eleita prefeita ou em 2002. Eu sei que eu não fui na posse de São Paulo, eu não fui na posse da cidade de São Paulo, para vir na posse da Cacá eleita prefeita em Araçuaí.
E quando chegamos em Araçuaí, prefeito, o prefeito que tinha perdido as eleições tinha fechado a porta da prefeitura e a gente precisou arrombar a porta para poder entrar na prefeitura. Então, a minha história com o Vale do Jequitinhonha é uma coisa de amor, de amor, de respeito, de admiração, porque o Vale do Jequitinhonha significa resistência, resiliência e competência. É isso que significa o Vale do Jequitinhonha.
A coisa mais extraordinária que aconteceu comigo no Vale do Jequitinhonha é que o PT tinha uma cidadezinha que tinha um prefeito na cidade chamada Itinga. E eu vim várias vezes à Itinga e quando eu chegava à Itinga a gente tinha que atravessar o rio Jequitinhonha numa balsa. Mas não era uma balsa com motor ou uma balsa com cabo de aço. Era um homem com uma tora de bambu na mão, empurrando uma balsa com o bambu aqui no peito dele para ele fazer força. Ele tinha um calombo no peito e eu disse para ele: companheiro, eu vou ser candidato a presidente. Se eu ganhar as eleições eu vou fazer uma ponte e você vai ser o fiscal daquela ponte.
Eu não ganhei em 89, eu não ganhei em 94, eu não ganhei em 98, Rui. Só fui ganhar em 2002. Aí eu falei: vou fazer a ponte de Itinga. Chamei a companhia Vale, que naquele tempo chamava Vale do Rio Doce. Chamei a Usiminas, e falei para eles: vocês vão dar a esse povo uma ponte. E foi feita a ponte, Pacheco. E quando eu fui inaugurar a ponte, eu procurei o parceiro, ele tinha morrido. Ou seja, o parceiro que ganhou a vida inteira atravessando aquele rio, empurrando uma balsa com bambu, não teve o privilégio de dar um passo na ponte que eu construí.
E isso marca a minha vida. Porque para construir o PT aqui, eu andei muitas léguas de carro, comendo poeira. E não era carro moderno não, era uma Brasília velha, em que às vezes entrava mais pó dentro do que fora. E foi assim que eu conheci essa região.
Em 94, eu voltei a essa região. Fui a várias cidades aqui. Nós fomos a várias cidades de Minas Gerais. E eu descobri uma outra coisa. Em 1975, o presidente Geisel tinha distribuído aos donos de usinas de aço, nesse estado, 1.275.000 hectares de terra para plantar eucalipto, para fazer carvão. Para atender a demanda das usinas de Minas Gerais.
Ora, o que aconteceu é que surgiu o carvão vegetal aqui no Brasil, mais barato do que o carvão feito de eucalipto. E o que aconteceu é que os eucaliptos ficaram em pé e não tinha sequer forno para fazer o carvão. Eu fiz um projeto e fui levar para o governador Azeredo.
Um projeto que ele poderia construir várias fábricas pequenas para produzir móveis de casa de campo e móveis de praia com eucalipto para poder gerar emprego. Fui a Belo Horizonte, fui ao Palácio da Liberdade, entregar o projeto para o Azeredo e nunca recebi resposta. Mas o projeto está feito porque a gente queria que o povo tivesse emprego nessa cidade.
E hoje eu venho aqui, muito tempo depois, fazer uma outra coisa que eu acho mais sagrada. Reconhecer os saberes do povo dessa região. Reconhecer o valor dos indígenas. Reconhecer o valor dos quilombolas. Reconhecer os valores das mulheres. Reconhecer os valores daquelas pessoas que trabalham de sol a sol para construir a sua própria vida, a cidade e a região.
E venho anunciar um instituto para um quilombo. E por que isso, gente? Porque a menina que está fazendo doutorado em Brasília, que é uma quilombola, ela me chamou a atenção, porque muitos de vocês ficam se perguntando por que ela conseguiu vencer na vida? Ela ainda vai vencer mais, ela é muito nova.
Ela está começando a vida dela. E ela só venceu na vida porque ela acreditou. Ela venceu na vida porque tinha programa de políticas públicas que permitia que uma pessoa pobre pudesse estudar nesse país. Que uma quilombola possa ser doutora, possa fazer mestrado, possa fazer pós-graduação e possa ser o que quiser. A história nos ensina isso. E eu sou o melhor exemplo desse país. Não tem exemplo melhor do que o meu. A gente tem que ser persistente. A gente tem que acreditar. A gente tem que lutar. E a gente não pode desistir.
Eu nasci numa região do Nordeste em que a maioria das crianças morriam antes de completar 5 anos de idade de fome. De fome. Eu vim pra São Paulo com 7 anos, foi a primeira vez que eu comi pão na minha vida. Eu fui o primeiro filho da minha mãe a ter um diploma primário.
Eu fui o primeiro a ganhar mais que um salário mínimo. Eu fui o primeiro a ter um carro, a ter uma televisão, a ter uma geladeira, a ter uma casa. Eu fui o único a ser presidente do sindicato e o único a ser presidente da República, mas graças ao sacrifício.
Vocês pensam que chegar à Presidência da República é uma coisa fácil. A primeira eleição que eu disputei, eu disputei contra todos aqueles gigantes da política brasileira. Eu era simplesmente um metalúrgico, presidente de um sindicato. E me colocaram como candidato para disputar com o doutor Ulisses Guimarães, que tinha sido presidente da Constituinte, o “senhor Diretas”. Para disputar contra pessoas importantes, como o governador de São Paulo, o Maluf. Pra disputar com pessoas extremamente importantes, como o Mário Covas. Pra disputar com pessoas importantes, como o doutor, engenheiro, Leonel de Moura Brizola. Pra disputar com Afif e com tantas outras personalidades, inclusive contra o Aureliano Chaves, que era vice-presidente da República.
E eu fiquei pensando: meu Deus do céu, como é que eu posso disputar com tanta gente? Eu não sabia nem falar em microfone. Como é que eu posso querer ser presidente da República disputando com essa gente? De repente, irmã, de repente, o milagre existe. De repente, o metalúrgico foi para o segundo turno nas eleições de 1988.
De repente eu descobri que era possível. Aí veio 94. Eu fui candidato outra vez. Perdi as eleições. Pensa que eu desisti? Não. Eu tinha seguido a lição da minha mãe quando ela dizia: Lula, teima, teima, não desiste nunca. Eu fui candidato em 98, perdi outra vez. No partido muita gente dizia: tá na hora de parar, só perde. Perde. Mas quando olhava, não tinha outro, era eu mesmo. Era eu mesmo. Pois bem.
Chegou 2002. Doze anos depois de perder a primeira. Depois de perder mais duas, eu fui eleito presidente da República por obra de vocês. Eu não devo a ninguém as minhas eleições, a não ser ao povo desse país. E, sobretudo, ao Vale do Jequitinhonha.
Porque aqui nesse Vale, companheiro Pacheco, nós nunca perdemos uma eleição. E aqui, quando você fala do prefeito, você tem que falar do ex-prefeito. Porque o ex-prefeito também é uma liderança extraordinária aqui.
E aqui é importante você ter amizade com os prefeitos. Porque Minas Gerais tem 840 e poucos municípios. E a maioria dos prefeitos não gosta de visitar a prefeitura. Nem gosta de receber prefeito. É só você analisar o que os governadores fazem pelas prefeituras. Agora se analisar você vai perceber que nunca os prefeitos foram tratados tão bem como nos governos Lula e no governo Dilma Rousseff.
E eu digo sempre que a gente gosta do prefeito porque é lá que o povo está. É na casa do prefeito que o povo vai reclamar. É pra mulher do prefeito que ele vai reclamar. É pro secretário da prefeitura que ele vai reclamar. Vai reclamar do ônibus, vai reclamar do posto de saúde, vai reclamar dos salários da prefeitura. Vai reclamar da falta do asfalto, vai reclamar da poeira, vai reclamar da falta de remédio. Ele reclama de tudo.
Eu uma vez fui dormir em uma cidade chamada Mirandiba, em Pernambuco. Eu fui lá porque eu tinha muita fome em Mirandiba. As crianças levantavam de manhã e uma vaca mecânica, produzida no governo Figueiredo, que fazia leite de soja. E a gente ia lá pra fazer suco pra criança, misturava algum adoçante lá, dava suco no leite de soja e a comida era simplesmente o farelo de soja. E eu fui dormir na casa do prefeito.
Quando foi quatro horas da manhã, começou uma barulheira na casa do prefeito. Eu falei, bom, estou invadindo a casa do prefeito. Não. Era um funcionário da prefeitura organizando a fila para as pessoas irem pedir dinheiro pro prefeito. Dinheiro para remédio, dinheiro pra viagem, dinheiro pra visitar o parente na cidade. Uma agonia desgraçada. E o prefeito falou pra mim: Lula, isso é todo dia. Isso é de domingo a domingo, Lula. Eu não tenho tranquilidade para ir em lugar nenhum porque o povo está atrás de mim.
Agora melhorou, prefeito. Porque depois das políticas de inclusão social, depois do Bolsa Família, o povo não vai mais pedir comida da prefeitura. Porque só há uma razão para uma pessoa como eu ser candidato a presidente da república. Primeiro porque eu sei que eu tenho lado. Eu sei da onde eu vim. Eu sei da minha origem e sei pra onde eu vou.
Eu já saí uma vez, diferentemente dos nossos adversários, não sei se vocês estão acompanhando a imprensa agora, o noticiário, o cara que tentou dar o golpe pra não dar posse pra mim, não teve coragem de me esperar, fugiu como rato foge. Fugiu. Agora, fez as bobagens que fez, agora mandou o filho dele sair de deputado federal e ir pra Washington. Pedir para que o presidente Trump intervenha no Brasil. É uma vergonha. Isso é uma falta de caráter. É falta de coragem. Fez as merdas que fez, pague pelas merdas que fez e respeite o povo brasileiro. Pague. E aqui tem justiça.
Quando inventaram as mazelas contra mim, quando inventaram as mentiras contra mim, que massacraram, não a mim, massacraram muita gente nesse país. Nós perdemos mais de 4 milhões de empregos. Se acabou com todas as empresas de engenharia civil neste país. Foram na minha casa, na casa dos meus filhos, quebraram televisão, tiraram o tampo do fogão para ver se tinha dinheiro. Não encontraram nada.
Mesmo assim, mandaram me prender. Tinha gente que falava assim: o Lula vai pro exterior. O Lula vai para a embaixada. E eu dizia: um cara que não morreu de fome, sabe, até os 5 anos de idade e sobreviveu, não vai correr não. Eu vou provar a minha inocência.
Vocês sabem, fiquei 580 dias preso. Vieram me oferecer um acordo. Pra mim ir pra minha casa com tornozeleira de aço. Eu disse: primeiro, não tem acordo. Porque eu não troco a minha dignidade pela minha liberdade. Segundo, eu não vou colocar tornozeleira porque eu não sou pombo-correio. Terceiro, eu não vou ficar preso na minha casa porque a minha casa não é cadeia. Quem inventou a mentira contra mim, que me solte. E graças ao povo brasileiro, graças ao povo brasileiro, que ficou 580 dias na rua, na frente da Polícia Federal, gritando bom dia Lula, boa tarde Lula e boa noite Lula, foi o povo brasileiro, o povo trabalhador e o povo mais humilde desse país.
Então agora, companheiros e companheiras, nós estamos vivendo uma situação que vocês precisam prestar atenção. Nós mandamos pro Congresso Nacional um projeto de lei que nenhum brasileiro ou brasileira que ganhar até 5 mil reais vai pagar mais Imposto de Renda nesse país.
E quem ganha até 7 mil e 600 vai também ter desconto. Me parece que no relatório o Lira colocou até 7 mil também não pagar. E o que é que nós queremos? Nós queremos descontar das pessoas que ganham menos e cobrar um pouco das pessoas que ganham mais de um milhão por ano, gente.
Nós estamos apenas fazendo justiça social, justiça fiscal. Nós estamos tirando de quem come 10 vezes por dia pra dar pra aquele que só come uma ou duas vezes por dia.
Agora, nós fizemos a isenção da energia para quem consome até 80 quilowatts não vai pagar mais nada e quem gasta até 120 quilowatts de energia, quem consome isso, só vai pagar a diferença entre 80 e 120. E isso é pouco. Porque nós temos que fazer mais pro povo pobre desse país.
Esse país nunca se importou com a educação do pobre. Porque filho de rico ia estudar no exterior e filho de pobre ia cortar cana, ia capinar ou trabalhar de servente de pedreiro ou de empregada doméstica em São Paulo. Nós não temos vergonha de ser domésticas ou domésticos. Nós não temos vergonha de ser pedreiro ou cortador de cana. Mas nós também queremos ser engenheiros, médicos, doutores. Nós queremos apenas ter a chance de disputar. Nós não queremos tirar nada de ninguém. Nós não queremos tirar nada de ninguém. Nós apenas queremos que as pessoas vivam dignamente, que as pessoas possam trabalhar.
Por que eu dou aumento de salário mínimo? Eles não gostam, Pacheco. Não gostam: o Lula não pode dar aumento de salário mínimo, 3, 4% ao ano de aumento, além da inflação. Sabe por que eu dou aumento? Porque o PIB cresce.
Quando o PIB cresce, o PIB chama-se Produto Interno Bruto. O crescimento do PIB é resultado do trabalho de todos os brasileiros. Ora, se é resultado do trabalho de todos os brasileiros quando ele cresce 3%, eu tenho que dar 3% para todo mundo.
Irmã, esse país, entre 1950 e 1980, durante 30 anos, esse país foi o país que mais cresceu no mundo. A gente cresceu, Pacheco, durante 30 anos, a uma média de 7%. E o povo continuou pobre. Porque o crescimento não era distribuído.
Ficava sempre com as mesmas pessoas. O que eu quero que os ricos se lembrem é que tudo bem que eles têm dinheiro para fazer investimento. Mas quem produz a riqueza é a mão do povo trabalhador. É a sabedoria do povo trabalhador.
Então, é justo distribuir aquele crescimento. Qual é o pecado que nós estamos crescendo? Vocês sabem porque Cristo foi crucificado. Vocês sabem. É porque ele tinha um compromisso com o povo pobre. Ele queria que as pessoas não sofressem tanto. E os ricos daquela época tiveram o mesmo comportamento que os ricos de hoje.
Vocês vejam, vocês acompanharam pela imprensa, o que é que os Estados Unidos da América do Norte fez com o... (incompreensível) esse dia. O filho do Bolsonaro, do fujão, do fujão, porque nem sei como é que aquele cara chegou a ser tenente do Exército. Porque se borrou todo. Perdeu as eleições, ficou dentro de casa chorando, chorando. “Ah, não podemos deixar esse Lula tomar posse, não podemos deixar, não podemos deixar...”
Preparou um golpe, nós ficamos sabendo, a polícia investigou, eles mesmos se delataram, agora ele foi indiciado, o procurador-geral pediu a condenação dele e ele vai, sim senhor, se a Justiça decidir com base nos autos do processo, ele vai pro xilindró. Ele vai. Obviamente que depende da Justiça. E no Brasil a Justiça é independente. Aí o que acontece? Ele manda o filho para os Estados Unidos.
O filho é deputado federal. O filho abandona o mandato de deputado. E vai para os Estados Unidos. E fica, sabe, não sei se perto do filho do Trump, perto não sei de quem do Trump, não sei de quem, mas fica, sabe: “Ah, solta meu pai, solta meu pai, ajuda meu pai, ajuda meu pai...” Coisa de moleque irresponsável. Que na hora de falar merda na internet, ele não tem responsabilidade.
Então, ele foi lá, não sei se foi ele, mas eu estranhei, porque não tem ninguém nesse mundo, olha o que eu vou lhe dizer para vocês, não tem ninguém nesse mundo, não tem ninguém, nenhum presidente de nenhum país do mundo, tem a relação que eu tenho com todos os países do mundo. Falo isso com orgulho. Falo isso com orgulho. E vou lhe dizer para vocês da onde vem o meu orgulho. Junho de 2003, eu fui para o encontro de Davos. Não, primeiro eu fui para o Fórum Social do Brasil, lá em Porto Alegre, falar da fome.
Saí no mesmo dia, peguei o avião e fui para Davos, no Fórum dos Ricos, falar da fome. Aí o (Jacques) Chirac, presidente da França, era coordenador do G7, e me convidou, Pacheco, para ir a Evian. Eu fui a Evian. Não conhecia ninguém. Cheguei em Evian, cumprimento as pessoas que estão lá, eu não falo uma palavra em inglês, falo o português, mas fui lá. E estou lá, a primeira atitude minha foi a seguinte: tinha lá uns dez presidentes.
Eu fui de mesa em mesa, cumprimentando, e o cara traduzindo, e fui sentar. Ninguém levantou para mim. Daqui a pouco eu estou sentado com o Celso Amorim e com o secretário-geral da ONU, o Kofi Annan, conversando, eu vejo um atropelo, todo mundo empurrando a cadeira levantando. Era o Bush.
Eu falei para o Celso: a gente não vai levantar. Ninguém levantou quando eu entrei, nós também não vamos levantar. E ficamos sentados. Ficamos sentados. O Bush foi lá, nos cumprimentou e sentou conosco. Sabe o que eu aprendi, Rui? Uma coisa que a minha mãe me falava: ninguém respeita quem não se respeita. Se você quiser ser respeitado, você se respeite primeiro. Não baixe a cabeça nunca. Porque se baixar a cabeça, eles botam uma cangaia e a gente não levanta mais.
Bom, aí eu fui para a reunião. Cheguei na reunião, era como se fosse um aquário. Eu estava do lado de fora, era uma sala toda de vidro, e eu vi lá pela televisão, pelo vidro, eu vi o Bush, vi o Tony Blair (ex-primeiro-ministro do Reino Unido), vi o Prodi da Itália (Romano Prodi, ex-primeiro-ministro), o rei da Arábia Saudita, o Fox do México (Vicente Fox Quesada, ex-presidente), o Schröder da Alemanha (Gerhard Fritz Kurt Schröder, ex-chanceler), aquele monte de gente que eu só via na televisão. E aí, o cara falou assim para mim: só pode entrar um senhor, não pode entrar ninguém, nem o intérprete.
Eu estava com o Sérgio Ferreira, que está comigo há 50 anos. E eu falei, pô, o que eu vou fazer lá dentro? Eu não falo nada. Nem I love you eu não sei falar direito. Eu falo só na intimidade, com a Janja. Mas eu não falo bem. Aí, eu fiquei pensando. Olhando aqueles figurões, eu tinha seis meses de Presidência. Eu fiquei vendo aqueles figurões. Só via eles na televisão. Falei: o que eu vou fazer lá dentro?
Eu fiquei pensando. Alguém desses caras, já ficou desempregado? Alguém desses caras já trabalhou no chão de fábrica? Alguém desses caras já passou fome? Alguém desses caras já viajou de pau-de-arara há 13 dias? Alguém desses caras já morou em casa que quando chovia, entrava um metro e meio de água dentro de casa e a gente acordava vendo o rato, cama, barata, cocô boiando, e a gente tinha que levantar rápido, levantar a cama, tirar minha mãe para dormir na rua. Eles já passaram por isso? Não.
Então, eu vou entrar com a dignidade da minha vida, porque eu é que tenho que ensinar a eles o que que é a vida do povo. Aí, o Sérgio falou: Lula, entra e bota logo aquele aparelho no ouvido que quando você falar bom dia, eu já falo bom dia em inglês, sabe?
Rapaz, eu entrei com uma autoestima. Porque eu era a única coisa diferente naquela sala. Era o metalúrgico de Garanhuns, filho da dona Lindu, que já tinha passado por tudo o que os pobres passam nesse país, de fome a ser despejado, de fome a passar noites com a casa com um metro e meio de água dentro de casa. Aí, gente, eu fui com orgulho, com autoestima, cheguei lá, nego abria a boca e eu já pedi a palavra. Sabe? E isso me fez estabelecer uma relação de amizade com o mundo. E esse cidadão mandou seu filho para os Estados Unidos para que o Trump fizesse ameaça ao Brasil.
Quando foi essa semana, eu, de surpresa, recebi uma carta do presidente Trump. Uma carta. Mas uma carta não como a carta que eu mando para os outros presidentes. Eu assino carta todo dia, Camilo. Eu assino carta para mandar para todos os presidentes. Para o Xi Jinping, mandava para o (Joe) Biden (ex-presidente dos EUA), mandava para o Canadá, para todo mundo.
Eu recebo a carta pelo jornal, porque ele publicou uma carta no site dele ao Brasil, fazendo uma ameaça ao Brasil, dizendo que o Brasil precisava parar com a perseguição a Bolsonaro. Precisava parar, porque isso é caça às bruxas. Primeiro, ele acredita em bruxas. Alguém aqui acredita em bruxas para ter caça às bruxas? Eu não acredito.
Então ele mandou uma carta. Pare imediatamente de perseguir o Bolsonaro. A justiça não pode punir o Bolsonaro. Foi a primeira coisa que ele fez. Um desaforo, desrespeitoso com o Brasil e com a Justiça brasileira.
Depois ele disse: as nossas Big Techs, as nossas empresas, que publicam tudo, o Google, essas coisas, não podem ser controladas. Não pode ter controle, porque isso é ferir a liberdade de expressão. Não.
O que nós queremos é evitar a liberdade de agressão. O que nós não queremos é que essa rede fique transmitindo ódio aos adolescentes, coisa ruim, provocação, mentiras. E nós vamos proteger o nosso povo. E aqui dentro do Brasil elas serão regulamentadas. Depois falou: o Brasil está tendo superávit, ou seja, o Brasil está vendendo mais do que comprando. É mentira. Em 15 anos, os americanos tiveram superávit de 410 bilhões de dólares no negócio com o Brasil. São três mentiras.
Então eu fiquei pensando, o que fazer? Ele não quer conversar. Se ele quisesse conversar, ele pegava o telefone e me ligava. Eu conversei com o (Bill) Clinton, conversei com o (Barack) Obama, conversei com o (George) Bush, conversei com o Biden, converso com o Xi Jinping, converso com a Índia, converso com o Canadá, ontem eu conversei 40 minutos com a presidenta do México, eu converso com o Paraguai, com o Uruguai, com a Bolívia, com a Malásia, com a Indonésia, com todo mundo eu converso. Mas ele não quis conversar.
Então, o que acontece? Ele nos deu até o dia 1º. Se nós não dermos a resposta dia 1º, ele vai taxar o nosso comércio em 50%. Vou contar uma coisa para vocês. Eu não sou mineiro, mas eu sou bom de truco. E se ele estiver trucando, ele vai tomar um seis. Se ele estiver trucando, ele vai tomar um seis.
Primeiro, porque o Brasil está acostumado a negociar. Nós íamos negociando, já tínhamos feito dez reuniões com os Estados Unidos. Dez! Dia 16 de maio, mandamos uma carta para eles, pedindo explicação das propostas que nós tínhamos feito. Dia 16 de maio, não responderam. O que responderam foi o site.
Então, eu queria que vocês pudessem ficar de pé e levantar a mão para o Stuckert vir aqui tirar a fotografia. Todo mundo. Vamos levantar e levantar a mão.
Eu quero apenas dizer para o presidente Trump: aqui é uma região pobre do nosso país. Aqui tem mulheres e homens, negros e brancos, aqui tem descendentes de escravos e muitos. Aqui tem indígenas. Aqui tem gente que veio da Europa, filhos de europeus. Então, eu queria apenas dizer o seguinte: Presidente Trump, esse país, só tem um jeito desse país não respeitar as coisas. É esse povo. A nossa soberania é feita por esse povo brasileiro que trabalha, que produz. E nós temos oito milhões e meio de quilômetros quadrados para proteger. Nós temos oito mil e quinhentos quilômetros de fronteira marítima para proteger. Nós temos dezesseis mil e setecentos quilômetros de fronteira para proteger. Nós temos a maior floresta do mundo para proteger. Nós temos doze por cento da água doce do mundo para proteger. Nós temos duzentos e quinze milhões de pessoas para proteger. Nós temos todo o nosso petróleo para proteger. Nós temos todo o nosso ouro para proteger. Nós temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui, ninguém põe a mão. Esse país é do povo brasileiro.
Esse país é do povo brasileiro.
A única coisa que eu peço, a única coisa que eu peço ao governo americano é que respeite o povo brasileiro como eu respeito o povo americano. Eu tenho uma belíssima relação há mais de quarenta anos com os trabalhadores americanos. E respeito. Respeito o povo americano.
É um povo trabalhador. É um povo vencedor. E o Trump foi eleito para ser presidente deles.
Imperador do mundo, nós não queremos. Portanto, companheiros e companheiras, enquanto vocês estiverem vivos, defendendo a soberania desse país, ninguém, ninguém, ninguém, de nenhum país do mundo, vai dizer o que a gente tem que fazer. Nós somos donos do nosso nariz.
Se quiserem negociar, nós queremos negociar. Nós temos os melhores negociadores do mundo. Se quiserem sentar em uma mesa para conversar, nós estamos sentando, até porque minha vida foi negociar. Eu fazia greve e negociava. Eu fazia greve e negociava. Eu fazia greve e negociava.
A relação comercial é a mesma coisa. Um tempo desse, Pacheco, nós tínhamos setenta mil toneladas de carne indo para a China. E tinha havido uma ocasião em que os chineses não queriam receber a nossa carne. E a carne vai no naqueles contêineres, congelada. E eu fiquei pensando: como é que vão permitir estragar setenta toneladas de carne? Setenta mil toneladas. Sabe o que eu fiz? Liguei para o meu amigo Xi Jinping. Expliquei para ele a situação. Sabe o que ele fez? Mandou a carne para a China, que ele ia aceitar a carne. É assim que a gente negocia.
Se o Trump tem um problema com o Brasil, diga qual é o problema. Liga. Eu, em dezembro de 2003, em dezembro de 2002, eu já tinha sido eleito presidente da República. O Bush era o presidente dos Estados Unidos. O Bush mandou me chamar em Washington. Eu fui em dezembro de 2002 para Washington. Cheguei lá. Sabe o que o Bush queria, Pacheco? O Bush queria convidar o Brasil para fazer guerra com o Iraque. E falou uns quarenta minutos sobre o Saddam Hussein, sobre a necessidade de guerrear, sobre a necessidade de destruir o Iraque. Chegou a dizer para mim: Lula, se o Brasil for para a guerra conosco, as empresas brasileiras poderão ajudar a reconstruir o Iraque.
Eu falei para o presidente Bush, por que a gente vai reconstruir? Não é melhor não derrubar? Não é melhor não derrubar? Por que derrubar para construir? E eu falei para o Bush, falei: presidente Bush, eu não conheço o Saddam Hussein. O Iraque fica a 14 mil quilômetros do Brasil. Eu nunca fui no Iraque. Ele nunca fez nada para mim. Então, eu vou fazer uma guerra. Mas eu vou fazer uma guerra para combater a fome no meu país, porque a gente tem cinquenta e quatro milhões de pessoas passando fome. E a guerra com a fome eu vou ganhar. Pedi desculpa. Me desculpe, mas eu não sou de guerra, eu sou de paz.
A minha guerra é contra a corrupção. A minha guerra é contra o privilégio. A minha guerra é para garantir que toda pessoa tenha o direito de comer no almoço, na janta, tomar café, de estudar, de morar, de passear, e de ter certa cultura. Todo mundo tem o direito de comer bem, de se vestir bem, de morar bem. Essa é a minha guerra. E nós acabamos com a fome em 2014.
E vou dizer uma novidade para vocês. Quando eu voltei em 2023, tinha trinta e três milhões de pessoas passando fome outra vez. Porque no governo daquela coisa, depois do golpe para Dilma, eles não cuidaram. E vocês vão ter uma surpresa. Esta semana, o Brasil vai sair do mapa da fome outra vez.
Eu só tenho que agradecer a Deus e a vocês. Porque se tem um povo que eu sou obrigado a agradecer é o povo trabalhador desse país. Eu tenho muito orgulho, irmã, de todo Natal, eu ir tomar café com os catadores de papel e moradores de rua embaixo do viaduto em São Paulo. Eu tenho muito orgulho.
Eu poderia estar jogando golfe, eu poderia estar jogando golfe, mas eu tenho um lado. E é importante que todo mundo saiba: eu governo para todos, mas eu tenho um lado. E o meu lado é o povo pobre desse país, é o povo trabalhador.
Então, gente, eu vou defender os nossos empresários, eu vou defender os nossos bancos, eu vou defender. Mas sabe do que eles estão com medo de nós? Vocês já pensaram? Eles estão com medo do Pix. Sabe por quê? Porque o Pix está acabando com o cartão de crédito.
E o cartão de crédito é uma roubalheira. O coitado do homem ou da mulher que se endividar no cartão de crédito, ele está lascado para o resto da vida. E no Pix, por telefone paga a conta sem juros, A Janjinha paga minhas contas, toda dívida que eu faço lá, faz um Pix, faz um Pix.
E quem faz o meu Pix é ela.
Mas bem, eu estou dizendo isso para vocês, que é para vocês ficarem atentos. Ele agora está na rede social dele dizendo “o Lula está doidinho para conversar com o Trump”. Ele não conhece o Lula. Ele não conhece o Lula. Eu converso com todo mundo. Mas sobretudo com quem quer conversar. Eu quero conversar com o mundo inteiro. Se os Estados Unidos quiserem negociar, o Lulinha estará pronto para negociar. Mas desaforo, só da Dona Lindu. E ela não fazia desaforo porque era o caçulinha dela, ela gostava muito de mim. Ela me adulava demais.
Por isso, gente, eu estou orgulhoso de estar aqui hoje. Estou orgulhoso. É importante os quilombolas saberem que não conquistaram tudo ainda, que tem muita coisa.
É importante os indígenas saberem que ainda tem muita coisa. É importante o povo saber que tem muita coisa para a gente conquistar. Mas nunca mais a gente pode permitir que uma tranqueira como aquela que governou o país, que mentia onze vezes por dia, volta a pensar em governar.
Por isso, eu queria dizer para vocês: gente do céu, só tem uma saída para nós. É ir à luta, levantar a cabeça, porque nós somos maioria, e quem é maioria não perde nunca em lugar nenhum do mundo.
Um abraço!
Viva o Vale do Jequitinhonha!
Viva o povo mineiro!
E até outro dia, se Deus quiser.