Discurso do presidente Lula em visita à Transnordestina, no Ceará
Eu, se tivesse juízo, eu tinha mandado fazer um churrasco para a gente comer, ao invés de fazer discurso. Eu queria dizer para vocês, que eu assinei esta medida provisória agora, criando uma coisa chamada data center aqui, em Fortaleza, que já existe no Porto de Pecém, porque o Elmano [de Freitas, governador do Ceará] e o Camilo Santana [ministro da Educação], todo santo dia, eles estão em Brasília, enchendo o saco para eu assinar esta medida provisória. Todo santo dia.
Um vai de manhã, outro vai à tarde, quando não vai nenhum, telefona um de tarde, outro de manhã. E nós liberamos hoje para que o Ceará consiga ser o primeiro estado a ter um data center de grande porte, e eu espero que sirva de estímulo para outros estados brasileiros fazerem a mesma coisa e, quem sabe, a gente consiga o desenvolvimento para melhorar o padrão de vida do nosso povo.
Portanto, vocês têm que dar os parabéns ao governador de vocês, ao Camilo e aos deputados e senadores do Ceará que passam o tempo reivindicando isso.
A segunda coisa é que eu vou falar uma coisa para vocês. Eu pensei que eu não tinha mais razão de ficar emocionado, mas quando o prefeito [Luiz Rosemberg Dantas Macedo, "Dr. Lorim", de Missão Velha (CE)] mostra a mãe dele que, junto com ele, tirou uma fotografia comigo, ele ainda pequeno, eu fico emocionado porque como eu estou já com quase 80 anos de idade, eu tenho encontrado pessoas que estão comigo há pelo menos 50 anos nessa briga. Então, eu quero agradecer a todos vocês.
Mas eu vou dizer uma coisa para ver se vocês se lembram. Neste país tem milhões e milhões de almas, homens e mulheres que não conhecem Brasília, que não conhecem o gabinete do presidente, que não conhecem o gabinete do governador, que não conhecem o gabinete dos deputados e que, portanto, não têm como fazer pressão para que as coisas melhorem. É para esses que nós temos que olhar.
São essas mulheres de 50 anos com fisionomia enrugada, de tomar sol todo santo dia, do dia que nasce ao dia que morre. São esses trabalhadores com as mãos calejadas não de roubar, mas de trabalhar no cabo da enxada de sol a sol que nós temos que olhar. São essas crianças, muitas vezes desnutridas, que nós temos que cuidar para que tenham uma boa educação e o nosso país possa melhorar.
Essas palavras minhas foram ditas aqui em Missão Velha, no dia 6 de junho de 2006, no primeiro ato de inauguração da tentativa de trazer a Transnordestina para cá. Eu fiz questão de ler esse trecho do discurso porque nós temos, enquanto governo, que fazer várias opções. O governo tem uma quantidade de dinheiro que é recolhida dos impostos que a sociedade paga.
E o governo tem que decidir para onde é que vai esse dinheiro, para que região que vai, que tipo de gente que a gente quer favorecer no país. E é uma escolha do governo que pode ser referendada pelo Congresso Nacional, quando a gente manda um orçamento para ser votado no Congresso Nacional. Por exemplo, o Wellington [Dias, ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome], que é o companheiro que tem o ministério mais importante que cuida do povo pobre, o Ministério do Combate à fome e Desenvolvimento Social, está sempre querendo mais dinheiro.
O companheiro Renan [Filho, ministro dos Transportes], que é o companheiro que cuida das estradas e ferrovias, está sempre querendo mais dinheiro. O companheiro Waldez [Góes, ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional do Brasil], que cuida de muita coisa no Brasil inteiro, está sempre querendo mais dinheiro. O Renan, ou melhor, o nosso companheiro Elmano, está sempre querendo mais dinheiro.
O Rui Costa [ministro da Casa Civil] está sempre querendo mais dinheiro. O Camilo está sempre querendo mais dinheiro. Os empresários querem mais dinheiro. Os sindicatos querem mais dinheiro. E tudo isso chega na minha mesa. E aí você tem que fazer opção.
Eu lembro que, quando eu criei o Bolsa Família, as pessoas diziam: “Esse Lula vai dar dinheiro para pobres e eles vão virar vagabundos. Porque o que eles têm é que trabalhar. O Lula tinha que fazer ponte e fazer estrada”.
E eu dizia: “é verdade que eu tenho que fazer ponte e fazer estrada. Mas eu não posso fazer uma ponte, fazer uma estrada, fazer uma ferrovia e, do lado daquela obra, tem gente passando fome. Tem gente comendo farinha com água. Eu preciso cuidar das pessoas. Eu preciso cuidar das pessoas, para que elas tenham o direito até de ser trabalhadoras daquela obra”.
A mesma coisa foi para a educação. A vergonha é tão grande da elite que governou este país, que precisou entrar um operário metalúrgico, que não tem diploma universitário, para fazer mais universidade e mais institutos federais do que eles fizeram.
Por que eles não fizeram? Porque eles mandavam os filhos deles estudarem na Europa. Porque mandavam os filhos deles estudarem nos Estados Unidos. E o pobre tinha que comer feijão, arroz e farinha só, ou trabalhar de doméstica ou trabalhar de pedreiro. Era isso que eles pensavam do povo nordestino.
E eu fiz questão de dizer para eles: “o povo nordestino tem orgulho de ser empregada doméstica. O povo nordestino tem orgulho de ser pedreiro. Mas o povo nordestino não quer só isso”.
A gente quer médica, a gente quer engenheiro, a gente quer professor de matemática, a gente quer progredir na vida. Daí, por que, Tufi [Daher Filho, presidente da Transnordestina Logística S/A], meus parabéns, meus parabéns pelas mulheres que você apresentou aqui. Porque as mulheres não podem ser tratadas como pessoas de segunda categoria. “A mulher é fraca, a mulher é…” Mentira. Mentira. A mulher é o que ela quiser ser. E ela faz aquilo que ela quiser fazer.
Portanto, meus parabéns. Parabéns, Tufi. Nós aprovamos no Congresso Nacional, eu agradeço aos deputados federais e senadores, nós aprovamos uma lei que estabelece salário igual entre mulher e homem, exercendo a mesma função.
E essa lei já está em vigor. Se alguém conhecer uma mulher que está fazendo a mesma função do homem e está ganhando menos, é só denunciar, porque quem não paga, vai ter que pagar.
A terceira coisa que eu queria dizer para vocês é que eu estou alegre e estou frustrado. Eu estou alegre porque eu estou aqui na Transnordestina. Essa Transnordestina não é apenas uma necessidade do Nordeste. Essa Transnordestina aconteceu comigo, Rui, em 1989.
Eu passei para disputar as eleições com o Collor [Fernando Collor de Mello, ex-presidente do Brasil], no segundo turno. E eu vim fazer uma visita à mãe [Maria Magdalena Fiúza Arraes de Alencar] do doutor Miguel Arraes [ex-deputado federal], que morava na cidade de Crato. Ela estava com 90 anos.
Fomos para um comício, o palanque caiu, não sei quem se lembra disso aqui, e depois no aviãozinho em que eu fui levado de volta, o companheiro Arraes falou: “Lula, eu sei que eu não vou ver, mas se você puder, faça a Transnordestina, porque o Nordeste precisa dela”.
Então, a Transnordestina não é só uma necessidade do Nordeste, é o pedido de um companheiro da mais alta qualidade que o Nordeste produziu, chamado Miguel Arraes, a quem eu tenho muito orgulho de dizer que eu fui muito amigo. Então, essa ferrovia é uma homenagem a ele.
E por isso eu estou frustrado, porque eu fiz 31 reuniões com o Wellington, com o Cid [Gomes, senador], com o Eduardo Campos [ex-governador de Pernambuco], para que a gente pudesse acabar essa ferrovia logo. E todo dia tinha um problema. Era um problema na justiça, era um problema no meio ambiente, era um problema de dinheiro.
Essa estrada foi, foi, foi, foi. Eu imaginava que ela fosse acabar em 2012. Eu saí em 2010. Voltei à presidência 15 anos depois. E essa ferrovia tinha andado muito pouco. Aliás, já não havia mais interesse em fazer essa ferrovia.
E eu assumi a responsabilidade de que nós vamos concluir essa ferrovia, custe o que custar. E vamos fazer ela entre o porto de Pecém, o Porto de Suape e Eliseu Martins no Piauí. Vamos fazer igualzinho estava no projeto. Vai demorar um pouco mais? Vai. Vai gastar um pouco mais de dinheiro? Vai. Mas o Nordeste precisa dessa obra.
O Nordeste não quer ser mais tratado como se fosse a parte pobre do Brasil. O Nordeste precisa ser respeitado. Porque o Nordeste tem inteligência, tem conhecimento. A gente não pode ficar nas páginas de jornais por ser a parte do país mais pobre. A parte do país com mais analfabetos. A parte do país com menos médicos. A parte do país com menos chance de progredir. Por quê?
Porque os governos nunca olharam pro Nordeste com respeito. Eu, além de olhar, eu sou nordestino e com sete anos já carregava pote d'água na cabeça para levar pra casa para beber. E é por isso que eu resolvi fazer a Transnordestina e fazer a transposição do Rio São Francisco.
Porque eu sei o que é a necessidade de água no estado do Ceará. Não é apenas pro pessoal do campo, pro pessoal de Fortaleza da capital. Eu sei o que é a falta d'água em algumas regiões desse país. Pessoas que levantavam de manhã e não podiam se lavar porque não tinha água. Meninas que não iam pra escola porque não tinham como tomar banho nem lavar roupa.
Ora, lógico que a natureza é obra de Deus. A gente não pode mudar a natureza, mas a gente pode mudar a realidade. Se a gente tiver vontade política. E eu tenho a vontade política de transformar o Nordeste numa região rica nesse país e que o povo viva decentemente, com dignidade, com muito respeito e que tenha a mesma chance de progredir quanto qualquer outra pessoa.
Tem gente que pensa que fome só tem no Nordeste. Quantas pessoas têm o Bolsa Família em São Paulo? Mais de um milhão e quatrocentas mil pessoas recebem Bolsa Família em São Paulo.
Porque, companheiros, não é fácil gostar de pobre. Gostar de pobre você não tem apenas que ter cabeça. Gostar de pobre você tem que pensar com o coração. Se vale a pena ou não a gente cuidar das pessoas.
E lógico que se as decisões do governo se as decisões do governo se dão numa mesa muito elitista, numa mesa com muita gente muito rica, o pobre só será lembrado para livro de História. Ele não será colocado no Orçamento da União. Ele não será lembrado para repartir o pão.
E quando a gente traz uma obra dessa pra cá, qualquer outro poderia levar pra outro estado. Pra que fazer a Transnordestina? Eu não moro no semiárido. Eu já estou em São Paulo há quantos anos? Mas e o povo que mora lá? E as crianças que moram lá? E as mulheres que moram lá? E os velhinhos que moram lá? Quem vai tratar deles? É o Estado que tem que tratar. E o Estado tem que assumir a responsabilidade de cuidar das pessoas.
Essa ferrovia é muito importante pro desenvolvimento. Mas esse desenvolvimento tem que trazer melhoria de vida para o povo. Não é pra enricar apenas meia dúzia e o povo continuar vendo o trem passar e pobre. Sem ter o que comer.
Então, gente, eu estou muito orgulhoso de estar aqui. Estou muito orgulhoso de ter andado de trem. Muito orgulhoso. Mas o Tufi sabe. O Tufi sabe que eu quero andar de trem até o Porto de Pecém.Ele sabe. Agora ele sabe. E eu disse pra ele, vou dizer outra vez. Não faltará dinheiro para concluir a Transnordestina. Eu estou dizendo outra vez em público. Não faltará dinheiro.
Agora eu tenho que ser comunicado da dificuldade do dinheiro antes de faltar. Eu preciso ser comunicado antes. Para que a gente possa não permitir porque eu quero estar nessa obra até o fim do meu mandato. Eu quero inaugurar essa obra. Se não 100%, 99%, alguma coisa nós vamos ter que fazer.
Companheiros e companheiras, eu comecei dizendo que não ia falar muito para vocês, mas eu queria terminar dizendo para vocês uma coisa. Vocês que consomem até 81 kWh de energia sabem que vocês não vão pagar mais energia nesse país. E se você consome até 120 kWh, você vai pagar só a diferença entre os 80 e os 40. Vai pagar somente a diferença.
A segunda coisa, nós achamos que o Congresso Nacional vai aprovar a nossa lei que diz que nesse país até 5 mil reais ninguém paga mais imposto de renda. E ao mesmo tempo, quem ganha até 7,2 mil reais vai pagar menos imposto de renda.
Vocês sabem que nós temos ainda algum programa. Vocês já sabem o programa de escola de tempo integral. Vocês já sabem o programa de alfabetização até 2030 de todas as crianças até o Segundo Grau. Vocês sabem do programa Pé-de-Meia, para poder garantir as nossas adolescentes na escola. Vocês sabem do nosso programa de bolsa para os jovens do Enem que tiraram as melhores notas, que escolheram ser professores, vão ganhar uma bolsa para serem professores.
Mas vocês sabem que tem mais duas coisas que a gente quer anunciar: a gente quer anunciar um plano habitacional para a classe média brasileira. Para as pessoas que ganham 10, 12, 14 mil reais por mês, um plano habitacional. E também um programa para a reforma de casa.
Tem gente que não quer comprar uma casa. Tem gente que quer fazer uma garagem, fazer um quarto, fazer um banheiro. Nós temos que garantir que essa pessoa tenha crédito para fazer.
E a última coisa que eu quero fazer ainda este ano, é a gente garantir que mais de 17 milhões de pessoas mais pobres recebam o gás de cozinha gratuitamente na sua casa.
Só para vocês terem ideia, o gás de cozinha sai da Petrobras, aquele botijão de 13 quilos, a R$ 37. E ele chega na casa das pessoas a R$ 120, a R$ 130, a R$ 140. Tem gente ganhando muito dinheiro.
E nós vamos assumir a responsabilidade de garantir que as pessoas que ganham menos nesse país, não deixem de cozinhar porque não tem gás, ou fiquem queimando lenha, ou querosene. Essas são algumas coisas que nós vamos fazer.
E por último, companheiros e companheiras, eu quero terminar dizendo para vocês o seguinte. O ano que vem tem eleição: se preparem, se preparem, se preparem porque tem muito candidato na praça, se preparem porque tem muito candidato na praça. Todo dia eu vejo uma pesquisa que tem candidato aqui e candidato acolá.
Eu só vou decidir ser candidato, se eu for, no ano que vem. Porque eu tenho que conversar com a minha consciência, tenho que conversar com a minha própria consciência e conversar com vocês.
E eu quero dizer para vocês o seguinte: não se preocupem. Eu vou fazer 80 anos de idade. Se eu estiver com a saúde que eu estou hoje, com a disposição que eu estou hoje, você pode ter certeza que eu serei candidato outra vez para ganhar as eleições nesse país.
Podem ter certeza. Serei candidato para ganhar as eleições nesse país porque eu não vou entregar esse país de volta àquele bando de malucos que quase destruíram esse país nos últimos anos.
Podem estar certos disso. Podem estar certos disso.
Eles não voltarão.
Eles não voltarão.
Podem estar certos disso. Podem ficar certos.
Eles não voltarão, não é porque o Lula não quer.
É porque vocês não vão deixar eles voltarem!
Um abraço, gente. E um beijo no coração.