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Cristiano Otoni (SY)
Na capa do número 62 da revista Don Quixote, vê-se o busto de um homem já tocado pelos anos. O olhar, algo fatigado, a barba branca e o bigode espesso compõem um rosto com poucas rugas, cuja testa, avançando sobre o crânio, deixa à mostra a calvície. Embora a orelha e o nariz se apresentem algo pronunciados, não se percebe ali o exagero das feições tão frequente no gênero caricatural, o que sugere antes o propósito de uma homenagem respeitosa. A legenda identifica o retratado como o “Senador Christiano Ottoni”, e, ao fundo, desenha-se a obra a que seu nome permanece mais intimamente ligado: a Estrada de Ferro Central do Brasil. Num detalhe discreto, o número pintado na lateral do vagão que penetra o túnel soltando fumaça indica a idade que o senador contava ao morrer, falecimento que a imprensa noticiou em 18 de maio de 1896.[1]
Os 85 anos que Christiano Benedicto Ottoni alcançou, marca não tão comum naquele período, constituem o tema do texto impresso na terceira página daquele volume. Embora recorra à sátira e a um humor discreto ao tratar da longevidade do senador, o artigo, assim como a caricatura de Angelo Agostini, preserva o tom elogioso próprio de um obituário. A coluna, que traz o nome do falecido, destaca a atuação do mineiro, nascido em 1811 na Vila do Príncipe, como professor da Escola da Marinha e como autor de “compêndios que foram as fontes onde todos bebemos os primeiros ensinamentos das matemáticas elementares”, além de assinalar sua trajetória política, lembrando a assinatura do Manifesto Republicano de 1870 e a chegada ao Senado. Contudo, à semelhança do que se observa na representação da primeira página, sobressai sobretudo a ênfase em seu papel como diretor da estrada de ferro.
A Grandeza de seu nome há de ser eternamente atestada pelo silvar das locomotivas que perfuram montanhas, vadeiam rios, percorrem várzeas, galgam serras e atravessam florestas, para muito longe levarem o grito da liberdade triunfante e as conquistas da civilização avassaladora. Ainda Mais: tal foi sua ação benéfica e paternal sobre a família, que deixa para perpetuar seu nome três ilustres filhos varões.[2]
Entretanto, é essa última dimensão da homenagem — a do homem em sua vida familiar — que mais interessa quando se trata do fundo Cristiano Otoni (SY). Composto por 41 cartas enviadas pelo senador e por sua esposa, Bárbara Balbina de Araújo Maia Ottoni, aos netos Christiano e Mizael Ottoni Vieira, o conjunto documental permite entrever a presença de Ottoni no âmbito doméstico, além de fazer-nos refletir sobre relação entre avós e netos no oitocentos.
O “avô muito camarada”, ainda na primeira cartinha ao Mizael, o “netinho do coração”, de 22 de dezembro de 1879, demonstra um afeto disciplinador:
Estou contente de saber que estás gordinho, alegre e com muito juízo: sei que não fazes como certas crianças tolas, que desgostam a mamãe, chorando por qualquer coisa, gritando, atirando-se ao chão: é coisa feia; mas o meu netinho Mizael não faz isso, e é porque eu lhe quero tanto bem.
O pequeno envelope com o nome dos destinatários, Mizael Ottoni Vieira e Christiano Ottoni Vieira Machado da Cunha, o único preservado no fundo, comprova que o avô Ottoni enviara uma carta para cada filho de sua primogênita, Virgínia Ottoni Vieira, com o Barão de Madalena, Mizael Vieira Machado da Cunha.[3] O que não tinha como saber o senador era que a correspondência encontraria os meninos em luto pelo falecimento do pai, ocorrido entre os dias 26 e 27 de dezembro de 1879. Acontecimento que certamente fez da presença dos avós ainda mais necessária, como demonstra a segunda carta, de fevereiro de 1880, na qual Ottoni menciona a saudade que o menino sentia do pai: “dizes que tens muita saudade de teu papai que morreu e de nós todos de cá; nós também temos muita saudade dele, de ti, de teu irmão, de tua mamãe, de Tia Paulinha e Tio Júlio”.
A tragédia familiar ocorreu quando Mizael, o neto caçula — vez ou outra chamado de Tichet —, tinha apenas quatro anos, situando-se, portanto, entre a primeira e a segunda das 27 cartas enviadas pelo avô entre 1879 e 1892.[4] Desse conjunto, 9 destinam-se a ambos os netos, prática que se torna mais frequente a partir de 1887, à medida que os meninos crescem. As outras 18 são endereçadas apenas a Mizael, responsável por guardar os documentos que posteriormente seriam entregues por sua filha ao Arquivo Nacional.
Virgínia Ottoni de Araújo Pinho não apenas doou ao Arquivo Nacional as cartas enviadas pelos bisavós a seu pai, como também patrocinou a edição de divulgação publicada sob o sugestivo título Cartas aos Netos.[5] No volume, lançado em 1978, encontram-se a transcrição integral da correspondência, fotografias dos netos e de outros membros da família, um quadro genealógico e uma introdução biográfica de Cristiano Ottoni. Embora marcado por um tom por vezes excessivamente laudatório, o texto de Hamilton de Mattos Monteiro oferece, além de um panorama dos principais feitos do personagem, uma observação relevante: o contraste entre a imagem mais dura e agressiva que emerge de certos registros públicos e a figura do avô afetuoso e atento que se revela nas cartas. Esse contraste lança uma luz particular sobre a própria representação de Ottoni na caricatura analisada anteriormente: ali, a homenagem enfatiza o homem público, associado à grande obra da estrada de ferro e à memória cívica; já a correspondência permite entrever uma dimensão mais íntima, na qual a autoridade cede lugar ao cuidado, e o senador se apresenta antes de tudo como avô.
Nas cartas, o “vovô camarada” revela constante preocupação com a educação dos netos, sobretudo com a alfabetização de Mizael, a quem incentiva a escrever sem auxílio, para que ele próprio pudesse corrigir os exercícios. Por meio dessa correspondência, é possível acompanhar o desenvolvimento do neto caçula, que, embora sofra as inevitáveis comparações com o desempenho considerado exemplar do irmão mais velho, tem seu esforço reiteradamente reconhecido. O vínculo entre Mizael e o avô parece fortalecer-se com o tempo, como demonstra a carta de 18 de janeiro de 1885, na qual o senador agradece e estimula a frequência das missivas do neto: “escrever cartas é um bom exercício para formar estilo e desenvolver a inteligência e o conhecimento da nossa língua”.
É também nessa carta que surge uma das raras menções às atividades de Ottoni nas Estradas de Ferro, quando, já ex-diretor, refere-se a uma viagem ao Paraná para a inauguração de um novo trecho. O destaque da narrativa não recai sobre o empreendimento ferroviário, mas sobre a oportunidade de encontrar “Zulmira e seus dois filhinhos”, indício eloquente de que, na correspondência privada, especialmente ao pequeno neto, os laços familiares se sobrepõem às realizações públicas.
Em carta de 26 de abril de 1888, dirigida aos dois meninos de Virgínia, o senador encoraja as futuras escolhas profissionais e insiste na importância da escrita e da conversação em língua portuguesa, apresentando uma justificativa curiosa: “Em casa a conversa em português tem até a vantagem de não ser entendida pelos criados, o que dá muita liberdade”. Trata-se de observação aparentemente despretensiosa, mas que, vista à luz do contexto imediato — isto é, poucas semanas antes da abolição da escravidão no Brasil —, pode sugerir aspectos da experiência histórica e das expectativas de Ottoni naquele momento decisivo.
O tema, aliás, está ausente dos textos publicados na imprensa por ocasião de sua morte. A partir deles, nada se depreende sobre o posicionamento do parlamentar que atuou por tantos anos no Legislativo. Na edição da revista satírica, por exemplo, se a primeira página é dedicada à imagem do senador falecido, a última “saúda a princesa D. Isabel, que inscreveu seu nome nas duas mais belas páginas da história do Brasil”.[6] A ilustração apresenta o busto da princesa e, abaixo, um livro aberto da “História do Brasil”, no qual figuram, em páginas sucessivas, a Lei de 21 de setembro de 1871 e a Lei de 13 de maio de 1888. No texto dedicado a Ottoni, contudo, nenhuma referência é feita à questão servil. Esse silêncio, reiterado também em suas biografias, constitui dado significativo e merece investigação.
Christiano Ottoni esteve entre os 35 deputados que, em 1871, votaram contra a Lei do Ventre Livre. Em obra publicada ainda naquele ano, intitulada Emancipação dos Escravos, sustenta que sua oposição não se dirigia à emancipação em si, mas à forma como era conduzida pela Coroa.[7] Trata-se, portanto, de posição semelhante a outros políticos do período, que defendiam uma emancipação gradual e segura.[8] Naquele momento, Ottoni defendia, inclusive a indenização senhorial, algo que seria radicalmente contra na década de 1880.[9] Além disso, em sua autobiografia, ele revela que a esposa era inicialmente exigente com o serviço dos escravos, considerando qualquer ociosidade um “furto”. Ottoni admite que, nos primeiros anos, era influenciado pelas queixas dela e aplicava castigos frequentes, algo de que se arrependeu mais tarde. Próximo do fim da escravidão, considerado iminente, ele confessa que temia massacres e “sangue derramado”, mas o que se viu foi um “abandono pacífico do trabalho”.[10] Posteriormente, declara-se aliviado ao constatar que a medida — que, a seu ver, já se encontrava consumada de fato antes da lei — “não fez mais do que homologar o veredito da soberania nacional”.[11] Desse modo, a preocupação de Ottoni com aquilo que pode ser ouvido pelos criados dos netos na França pode ser lida não apenas como traço de hierarquia social, mas também como indício das tensões e incertezas que marcaram a experiência e a indeterminação histórica diante do desfecho da escravidão.
O fundo Cristiano Otoni também é composto pelas 12 cartas enviadas por Bárbara Balbina de Araújo Maia Ottoni, avó materna e madrinha de Mizael. Os textos redigidos pela dindinha permitem vislumbrar uma presença feminina que a documentação pública quase não registra. Nascida em 10 de maio de 1822, em Valença, no interior fluminense, e oriunda da família Araújo Maia, casa-se ainda muito jovem com Christiano Benedito Ottoni, com quem partilha longa vida conjugal e numerosa descendência. Sobre sua instrução formal pouco se sabe além do fato de que dominava a leitura e a escrita, provavelmente adquiridas no âmbito doméstico, sem passagem prolongada por instituições escolares.
Sua correspondência distingue-se sensivelmente da do marido. Na forma, sua escrita revela marcas de espontaneidade e da oralidade. Além disso, se nas cartas de Ottoni prevalece a preocupação pedagógica e a orientação moral, nas de Bárbara sobressaem os temas do cotidiano: a saúde, as arrumações da casa, as idas e vindas de parentes e criados, os pequenos acontecimentos que compõem a vida doméstica. A cozinha ocupa lugar privilegiado nesse universo afetivo. Ao mencionar doces, biscoitos ou compotas recém-preparadas, a avó associa o fazer culinário à lembrança dos netos, transformando a comida em linguagem de cuidado.
De acordo com notícia publicada no Jornal do Commercio, Bárbara encontrava-se ao lado do marido em seu leito de morte. Segundo a mesma nota, guardaram o corpo do senador durante toda a noite, além da esposa, o filho do casal, o “Dr. Julio Ottoni”, e dois netos, que se pode presumir serem Christiano e Mizael.[12] Quatro anos depois, em 18 de julho de 1900, Bárbara B. Ottoni, aos 78 anos, faleceu. Mizael guardou as cartas como recordação familiar, compartilhando-as com sua filha, que, reconhecendo o valor histórico, doaria ao Arquivo Nacional quase um século depois de sua produção.
Assim, as cartas configuram-se como fontes relevantes não apenas para a análise do gênero epistolar ou para estudos de natureza sociolinguística, tampouco apenas para iluminar uma dimensão menos pública da trajetória de um senador, mas sobretudo para acessar aspectos da vida cotidiana de uma família mineira que transitava entre a Corte e Petrópolis no século XIX. Ao evidenciarem gestos de cuidado, disciplina e orientação moral, esses escritos permitem ao leitor contemporâneo reconhecer dinâmicas intergeracionais que, embora historicamente situadas, permanecem reconhecíveis.
Referências
Bibliografia
ALONSO, Angela. Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-1888). São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
LOPES, Célia Regina dos Santos (org.). A norma brasileira em construção: fatos linguísticos em cartas pessoais do século XIX. Rio de Janeiro: UFRJ, Pós-Graduação em Letras Vernáculas: FAPERJ, 2005.
OTTONI, Christiano Benedito. A Emancipação dos Escravos: parecer de C. B. Ottoni. Rio de Janeiro, tipografia Perseverança, 1871.
OTTONI, Christiano Benedito e OTTONI, Bárbara Balbino de A. M. Cartas aos netos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1978.
OTTONI, Christiano Benedito. Autobiografia de C. B. Ottoni : natural da Vila do Príncipe, depois da cidade do Serro, na província de Minas Gerais. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2014.
VIEIRA, Miguel Vitor de Araújo. Entre trilhos e promessas: os primeiros dez anos da Companhia de Estradas de Ferro D. Pedro II sob uma direção inesperada. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, v. 37, n. 1, p. 435–462, jan./jun. 2024. DOI: https://doi.org/10.14393/cdhis.v37n1.2024.72172
Documentos
BR_RJANRIO_BDAN_J398_v_02_NUM_0062
BR_RJANRIO_SY_cx20
[1] Jornal do Commercio n° 140, 18 de maio de 1896.
[2] Don Quixote: Jornal Illustrado de Angelo Agostini n° 62, 18 de maio de 1896. Rio de Janeiro, Tipografia L'Express. OR J398
[3] Mizael Vieira Machado da Cunha recebeu o título de Barão de Magdalena em 1870. Já o casamento com a filha de Christiano Ottoni ocorreu em 1872, seguido pelo nascimento do primeiro filho no ano seguinte. Diário do Rio de Janeiro n° 163 (1870). Jornal do Commercio n° 176 (1870).
[4] O falecimento ocorreu em fins de 1879, provavelmente no dia 26 de dezembro. Jornal do n° 25, 25 de jan.1880.
[5] Isso de acordo com a apresentação do livro, escrita pelo ex-diretor do Arquivo Nacional, Raul Lima. Contudo, é importante observar que a informação contrasta com a descrição do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN):“o acervo foi comprado em 1972 de Wanderley de Araújo Pinho”.
[6] Don Quixote n° 62, 1896.
[7] O livro apresenta um projeto de emancipação gradual, baseado na constituição de um fundo de amortização, que previa a extinção completa da escravidão em trinta anos, com recursos estatais destinados à indenização dos proprietários e à condução de uma transição considerada, por ele, mais ordenada e menos danosa à economia agrícola. Ottoni, Christiano. A Emancipação dos Escravos. Rio de Janeiro, Tipografia Perseverança, 1871.
[8] ALONSO, Angela. Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-1888). São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
[9] OTTONI, Christiano Benedito. Autobiografia de C. B. Ottoni. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2014.
[10] OTTONI, 2014, p. 289.
[11] OTTONI, 2014.
[12] Jornal do Commercio n°140, 19 de maio de 1896.





