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Semana Ditadura, Arquivos e Memória encerra programação com debates sobre lugares de memória e passados sensíveis
O Arquivo Nacional realizou, no dia 1º de abril, o encerramento da Semana Ditadura, Arquivos e Memória, com uma programação dedicada à reflexão sobre lugares de memória e os chamados passados sensíveis. As atividades reuniram pesquisadoras e especialistas em duas mesas-redondas, seguidas pela exibição de um filme brasileiro que dialoga com o período da ditadura.
A mesa “Arquivos e lugares de memória” abriu a programação do dia, com mediação de Rafael Maul e participação de Paula Franco, do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania; Samantha Quadrat e Alejandra Estevez, da Universidade Federal Fluminense; e Rafaella Bettamio, do Memórias Reveladas.
Na abertura, Rafael Maul destacou a importância recente da incorporação de acervos históricos ligados à repressão. “Vivemos um momento importante, com o recolhimento de parte de acervos que estavam sob guarda de órgãos como o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Com o devido tratamento arquivístico, esses documentos poderão ser acessados pela sociedade, ampliando o conhecimento sobre temas sensíveis da nossa história”, afirmou.
Em sua participação, Paula Franco enfatizou o caráter simbólico da transferência desses acervos para instituições de memória. “É um momento bastante emblemático, especialmente por se tratar de documentos que estavam em situação fragilizada. Falar sobre isso no Arquivo Nacional é muito significativo”, destacou. A representante do ministério também reforçou o apoio institucional ao Centro de Referência Memórias Reveladas e abordou os desafios das políticas públicas de memória no país.
Samantha Quadrat apresentou o projeto do Memorial da Casa da Morte, em Petrópolis, desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal Fluminense e o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. O espaço, que funcionou como centro de tortura e desaparecimento durante a ditadura, está em processo de transformação em lugar de memória.
Já Alejandra Estevez abordou a construção do Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos, em Barra Mansa (RJ), iniciativa vinculada ao Centro de Memória do Sul Fluminense. O projeto busca preservar e difundir memórias relacionadas a violações de direitos ocorridas no local, garantindo às futuras gerações o acesso à verdade e à memória.
Rafaella Bettamio apresentou o parecer histórico referente ao processo de tombamento do antigo prédio do DOI-Codi no Rio de Janeiro, atualmente em análise pelo IPHAN. A pesquisadora destacou os desafios enfrentados, especialmente no campo jurídico, para o reconhecimento do espaço como lugar de memória.
Na sequência, a mesa “Arquivos e memórias sensíveis” aprofundou a discussão sobre os desafios relacionados à preservação e à interpretação de acervos ligados a experiências marcadas por violações de direitos. A mediação foi realizada por Alessandra Coutinho. Ao abrir o debate, a mediadora ressaltou a relevância da advogada pernambucana Mércia Albuquerque, conhecida por sua atuação na defesa de presos políticos durante a ditadura. “Mesmo diante de um sistema opressor e violento, ela manteve sua sensibilidade, registrada em seu diário”, destacou.
Angela Moreira apresentou sua pesquisa sobre os escritos de Mércia Albuquerque, destacando o caráter íntimo e singular do material. “Foi um choque me deparar com esse tipo de documento. Não era um registro jurídico, como se espera, mas um relato pessoal da resistência à ditadura, a partir de outra perspectiva”, afirmou.
Já Dulce Pandolfi compartilhou sua experiência como ex-presa política e pesquisadora, destacando os desafios de trabalhar com memórias sensíveis. “É por meio desses suportes que essas memórias são registradas, preservadas e transmitidas. Trabalhar com memórias sensíveis não é uma tarefa fácil. Se por um lado é um processo doloroso, por outro exige muito do pesquisador”, afirmou.
Encerrando a programação, foi exibido o filme O Pastor e o Guerrilheiro, dirigido por José Eduardo Belmonte. Ambientada a partir de 1968, a obra acompanha a trajetória de João, jovem que se junta à guerrilha na Amazônia e acaba preso durante a ditadura, onde conhece Zaqueu, detido por engano. Décadas depois, uma revelação conecta suas histórias ao passado de repressão e violência do período.