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Revista internacional publica estudo do ON sobre registros geológicos de tremores que antecederam erupções no passado
Um estudo publicado na revista Journal of South American Earth Sciences mostra como o passado geológico do Brasil pode ajudar a compreender processos que hoje são monitorados em vulcões ativos ao redor do mundo. O artigo tem como primeiro autor o doutorando Lucca Martins Franco, do Observatório Nacional (ON/MCTI).
A pesquisa analisa rochas formadas há cerca de 80 milhões de anos, durante o período Cretáceo, na Província Ígnea do Alto Paranaíba (APIP), em Minas Gerais. Trata-se de uma região que foi intensamente vulcânica no passado, mas que hoje não apresenta nenhuma atividade vulcânica. Justamente por isso, as rochas preservam registros excepcionais dos processos internos que antecederam as erupções naquele período.
O estudo foi desenvolvido sob a supervisão do pesquisador Dr. Emanuele La Terra, servidor e docente da Pós-Graduação do Observatório Nacional, e teve como objetivo entender como a liberação de gases e fluidos do magma deformou as rochas e gerou pequenos tremores sísmicos antes das erupções, deixando marcas que podem ser observadas até hoje.
Tremores antes da erupção: um fenômeno atual, explicado pelo passado
Em regiões vulcânicas ativas, um dos principais sinais de que um vulcão pode entrar em erupção é o aumento de pequenos terremotos, conhecidos como enxames sísmicos. Esses enxames são conjuntos de muitos tremores fracos, concentrados no tempo e no espaço, que indicam que o sistema vulcânico está passando por ajustes internos.
Atualmente, esse tipo de sismicidade é monitorado em países como Islândia, Itália e Grécia, onde está associado à movimentação de magma e à liberação de gases em profundidade. No entanto, em vulcões ativos, esses processos não podem ser observados diretamente, apenas inferidos a partir de instrumentos.
É aí que entra o diferencial do estudo brasileiro: ao analisar um sistema vulcânico antigo e já extinto, os pesquisadores puderam observar diretamente, nas rochas, as estruturas geradas por esses processos no passado.
Um laboratório natural no interior de Minas Gerais
A pesquisa se concentrou na região do Alto Paranaíba, em municípios como Patos de Minas e Presidente Olegário. Nessas áreas, os pesquisadores tiveram acesso a afloramentos rochosos e a testemunhos de sondagem – cilindros de rocha retirados do subsolo durante perfurações feitas originalmente para pesquisa mineral.

“Esses materiais permitem observar o interior do sistema vulcânico, algo que seria impossível em um vulcão ativo. Como o vulcanismo cessou há milhões de anos e a erosão expôs essas estruturas, conseguimos estudar com muito detalhe os efeitos da circulação de magma, gases e fluidos sobre as rochas”, explicou Lucca.
O vulcanismo da região ocorreu no Cretáceo Superior, uma época em que a América do Sul ainda estava se separando da África e grandes volumes de magma subiam do manto terrestre. Esse contexto geológico transformou a APIP em um verdadeiro arquivo natural dos processos pré-eruptivos.
Gases, pressão e fraturas: a origem dos tremores antigos
O estudo mostra que um dos principais motores dos tremores que antecedem as erupções é a liberação de gases do magma. À medida que o magma sobe em direção à superfície, a pressão diminui e os gases dissolvidos nele – principalmente dióxido de carbono (CO₂) — se separam do líquido magmático.

- Informação geológica da área em Minas Gerais onde o estudo foi realizado.
Esse processo aumenta a pressão nos poros das rochas ao redor, enfraquece sua resistência mecânica e favorece a abertura de fraturas e o deslocamento ao longo de falhas geológicas. Cada pequeno ajuste gera um tremor, resultando em uma sequência de eventos sísmicos antes da erupção.
Nas rochas do Alto Paranaíba, os pesquisadores identificaram falhas, fraturas, dobras, bandas de deformação e estruturas formadas pela injeção de sedimentos, além de numerosos veios minerais ricos em carbonato, especialmente calcita. Esses veios se formam quando fluidos quentes circulam pelas fraturas e cristalizam, funcionando como um registro físico dos terremotos do passado.

Além de aumentar a pressão, esses fluidos atuam como um lubrificante natural, reduzindo o atrito entre blocos de rocha e facilitando seu movimento. Isso ajuda a explicar por que muitos terremotos pré-eruptivos são pequenos, frequentes e persistentes, em vez de um único grande evento.
Passado brasileiro, aplicação global
Embora o Brasil não possua vulcões ativos atualmente, o estudo mostra que seu patrimônio geológico pode contribuir diretamente para a compreensão de riscos vulcânicos em outras partes do mundo.
“Ao estudar um sistema vulcânico que já está extinto, conseguimos observar com muito mais clareza os mecanismos que geram os terremotos antes das erupções. Isso ajuda a interpretar melhor os sinais que hoje são monitorados em vulcões ativos e pode contribuir para decisões mais seguras na proteção de populações”, explicou o autor principal do artigo.
Ao permitir testar modelos físicos e validar hipóteses com base em evidências diretas, estudos como este ajudam serviços geológicos e centros de monitoramento a interpretar melhor os sinais de alerta, reduzindo incertezas em contextos de risco.
Assim, ao investigar seu próprio passado geológico do período Cretáceo, o Brasil transforma rochas antigas em conhecimento científico atual, com impacto potencial para a segurança de populações em regiões vulcânicas ao redor do planeta.
Sobre o autor
Lucca Martins Franco é doutorando no Observatório Nacional (ON/MCTI), sob orientação do Dr. Emanuele La Terra, com foco na aplicação de métodos eletromagnéticos à modelagem de sistemas vulcânicos. É mestre em Geofísica pelo ON, na área de métodos geofísicos aplicados ao monitoramento de barragens, e graduado em Geologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
O estudo conta ainda com pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).