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Revista internacional publica artigo de doutorando do ON sobre asteroides próximos à Terra
Um estudo internacional, desenvolvido no âmbito do projeto IMPACTON e liderado pelo astrônomo Weslley Pereira, doutorando do Observatório Nacional (ON/MCTI), acaba de ser publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. O trabalho apresenta uma caracterização física detalhada de asteroides próximos da Terra (NEOs, em inglês) a partir de observações realizadas no Brasil e na Argentina.
“Além do valor científico, esse tipo de estudo tem relevância direta para a defesa planetária, área dedicada à avaliação e mitigação de possíveis riscos de impacto com a Terra. Conhecer a rotação, a forma e a composição de um asteroide é essencial para qualquer estratégia futura de desvio ou mitigação”, explicou Weslley, cujo trabalho foi feito sob supervisão da Dra. Daniela Lazzaro e em parceria com a equipe do projeto IMPACTON. O astrônomo está realizando o doutorado no ON, onde também realizou o mestrado, focado nos NEOs e também sob a orientação da Dra. Daniela.
O artigo recém-publicado analisou 39 NEOs observados entre 2021 e 2024 com telescópios do Observatório Astronômico do Sertão de Itaparica (OASI), em Itaparica (PE), e do Complejo Astronómico El Leoncito (CASLEO), na Argentina. O OASI é gerido pelo ON e completa 15 anos em 2026. As observações no CASLEO se deram por meio de uma colaboração com o Dr. Mario Melita, da Universidad de Buenos Aires. Por parte do ON, também assinaram o artigo as pesquisadoras Dra. Daniela Lazzaro e Dra. Teresinha Rodrigues; os pós-doutores Dra. Plícida Arcoverde, Dr. Eduardo Rondón, Dr. Filipe Monteiro e Dr. Jonatan Michimani; o doutorando Rodolfo Degen; e a mestre Tatiane Correa. Por parte da equipe da Argentina, assinaram os Drs. Mario Melita, Luis Antonio Mammana e Eduardo Tello-Huanca.

A parceria entre as duas instituições permitiu ampliar a cobertura temporal e melhorar a qualidade dos dados, já que os observatórios estão localizados em diferentes longitudes e condições atmosféricas, o que aumenta as janelas de observação e reduz lacunas nas medições.
O objetivo central da pesquisa foi realizar uma caracterização física detalhada de uma amostra de NEOs, determinando parâmetros fundamentais como o período de rotação, a magnitude absoluta (brilho intrínseco), os parâmetros de fase (ligados às propriedades e textura da superfície) e a classificação taxonômica, que serve como um indicativo de sua composição superficial. Além disso, o trabalho contribui para o catálogo global de propriedades físicas, fornecendo dados essenciais para entender a evolução populacional desses corpos e para fundamentar estratégias de defesa planetária.
Para isso, os pesquisadores utilizaram técnicas de fotometria, que consistem em medir com alta precisão a variação do brilho dos asteroides ao longo do tempo e em diferentes comprimentos de onda.
Cada asteroide foi acompanhado por várias horas ao longo de diferentes noites, para que os pesquisadores pudessem registrar com precisão como o brilho do objeto varia com o tempo. Essas variações, causadas pela rotação do asteroide e por irregularidades em sua forma, permitem construir sua curva de luz e, a partir dela, determinar o período de rotação, além de obter indícios sobre a forma do asteroide, se o objeto é mais alongado, mais esférico ou possui estrutura mais complexa.

Além disso, os mesmos asteroides foram observados usando diferentes filtros fotométricos, o que possibilita comparar quanto de luz eles refletem em cada faixa do espectro visível.
Esse procedimento funciona como uma espécie de “impressão digital” da superfície do asteroide, um indicativo da composição superficial. Isso permite classificar os asteroides em diferentes grupos como os ricos em silicatos (complexo S/Q), os carbonáceos (complexo C) ou que pertencem a outros grupos menos comuns, associadas a minerais específicos.
Além disso, os pesquisadores analisaram como o brilho dos asteroides varia conforme o ângulo entre o Sol, o objeto e o observador, o que fornece informações adicionais sobre a textura e as propriedades da superfície.
Os resultados mostram que muitos desses asteroides giram rapidamente, alguns próximos da chamada barreira de rotação, o que sugere que eles possuem certa coesão interna ou podem ser sistemas binários.
A análise das curvas de fase indica que asteroides menores que 10 km apresentam um comportamento físico distinto dos objetos de grandes dimensões, apresentando uma maior diversidade de propriedades superficiais. Essas observações corroboram estudos anteriores, como o de Arcoverde et al. (2023).
O estudo das cores revelou o predomínio de asteroides ricos em silicatos, mas também uma presença significativa de objetos ricos em carbono, que são particularmente importantes por poderem conter água e compostos orgânicos. Além da amostra observada, o estudo compilou um catálogo de 2459 NEOs, confirmando que, embora o complexo S/Q seja dominante em todos os tamanhos, a abundância de objetos carbonáceos aumenta progressivamente com o tamanho do objeto.
OASI completa 15 anos em 2026
Às vésperas de completar 15 anos de atividades em 2026, o OASI reafirma, com este artigo recém-publicado, seu papel na pesquisa de ponta sobre pequenos corpos do Sistema Solar.
O OASI foi instalado pelo projeto IMPACTON, que reúne pesquisadores de diferentes países com o objetivo ampliar sistematicamente o número de pequenos corpos do Sistema Solar com propriedades físicas bem determinadas, contribuindo para uma visão mais completa da diversidade e da evolução dessa população. Além de objetos próximos da Terra, o projeto também atua em estudos sobre outros tipos de asteroides, ocultações estelares e refinamento de órbitas.
Apesar de dezenas de milhares de NEOs já terem sido descobertos, apenas uma pequena fração possui informações físicas detalhadas. A maioria dos objetos recém-descobertos é pequena e pouco brilhante, o que torna sua caracterização especialmente desafiadora.
Nesse cenário, observatórios como o OASI têm papel estratégico, por permitir o monitoramento regular desses alvos com instrumentação adequada e acesso privilegiado ao céu do Hemisfério Sul.
Ao completar 15 anos em 2026, o OASI se consolida como uma infraestrutura científica integrada a redes internacionais, contribuindo tanto para a pesquisa fundamental sobre a origem do Sistema Solar quanto para temas de interesse público, como a segurança do ambiente espacial da Terra. A continuidade dessas observações e o fortalecimento das parcerias internacionais devem ampliar ainda mais o impacto científico do observatório nos próximos anos.