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IMAGENS: Evento energético “fora de época” produz auroras em vários países; Brasil tem uma "quase aurora"
O ciclo solar, associado à evolução do campo magnético do Sol, apresenta um pico de atividade aproximadamente a cada 11 anos. Nesse período, conhecido como máximo solar, aumentam os fenômenos energéticos na superfície solar, como manchas solares e liberações intensas de energia. Essas liberações costumam produzir radiação em frequências mais energéticas, como ultravioleta e raios X. O máximo do ciclo atual ocorreu entre o final de 2024 e o início de 2025.
Mesmo assim, eventos extremos podem acontecer até dois anos antes ou depois desse pico. Foi o que ocorreu no dia 18 de janeiro, às 15h09 (horário de Brasília), quando uma intensa liberação de energia no Sol foi acompanhada por uma grande ejeção de plasma para o espaço interplanetário.
A chamada Ejeção de Massa Coronal (EMC) encontrou condições ideais para atingir a região magnética que envolve a Terra, a magnetosfera. Isso porque, dias antes, dois eventos menores haviam “limpado” o caminho entre o Sol e o nosso planeta, facilitando a propagação do plasma.
O resultado foi um espetáculo raro: auroras foram observadas em praticamente toda a Europa e América do Norte, além da Austrália, da Nova Zelândia e do extremo sul da América do Sul.

- Aurora fotografada por Heiko Ulbricht em 19 de janeiro em Landberg Hill, Alemanha. Fonte: Heiko Ulbricht e SpaceWeather.com.
“As partículas do plasma solar penetram na magnetosfera e seguem as linhas do campo magnético até os polos, onde colidem com átomos de nitrogênio e oxigênio da atmosfera”, explicou o Doutor Gabriel Hickel, professor da Universidade Federal de Itajubá (MG) e parceiro do Observatório Nacional (ON/MCTI) no programa “O Céu em Sua Casa”.
Essas colisões liberam energia na forma de luz. O oxigênio produz emissões verdes ou vermelhas, dependendo da altitude, enquanto o nitrogênio está associado a tons azulados. Normalmente, as auroras são vistas nas regiões próximas aos polos magnéticos, que ficam relativamente próximos aos polos geográficos. “Mas em eventos extremos, como o desta semana, quando o plasma se acoplou quase perfeitamente à magnetosfera terrestre, o fenômeno pode ser observado em latitudes muito mais baixas”, destacou o Doutor Gabriel.

- Aurora fotografada por Ivan Saran em 19 de janeiro em Český Těšín, República Tcheca. Fonte: Ivan Saran e SpaceWeather.com.
Brasil tem uma "quase aurora"
Na América do Sul, a tempestade geomagnética severa provocou o acúmulo de partículas do plasma solar e uma depressão temporária da Anomalia do Atlântico Sul, uma região de enfraquecimento do campo magnético sobre o sul do Brasil. Isso permitiu que partículas atingissem a alta atmosfera, gerando um efeito conhecido como “airglow”, semelhante à aurora. O fenômeno foi registrado, por exemplo, em Cambará do Sul (RS), na região do Cânion de Itaimbezinho, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. "Você pode falar em uma 'quase aurora'", disse o Doutor Gabriel.

Outro fator decisivo foi a localização do grupo de manchas solares responsável pela EMC. Ele estava próximo a um buraco coronal temporário da coroa solar onde as linhas de campo magnético permanecem “abertas”, permitindo que o plasma escape e viaje mais rapidamente pelo espaço interplanetário.
Com isso, a EMC atingiu uma velocidade estimada em 1.660 km/s e alcançou a Terra em apenas 25 horas, no dia 19 de janeiro, uma das mais rápidas já registradas. O impacto ocorreu em condições quase ideais para gerar uma grande tempestade geomagnética, pois a polaridade do campo magnético da EMC estava oposta à da magnetosfera terrestre, favorecendo uma forte interação. A magnetosfera permaneceu intensamente perturbada nos dias 19 e 20.
Nem tudo sem flores
Além do espetáculo visual, o evento causou apagões nas comunicações de rádio de ondas longas, abaixo de 10 MHz, especialmente na América do Sul. Raios-X também provocaram ruídos nos detectores de imagem dos observatórios solares espaciais SOHO (ESA-NASA) e SDO (NASA). Houve ainda falhas pontuais em sistemas de radiocomunicação e relatos de desorientação temporária em aeronaves de rotas intercontinentais. O sistema de GPS também apresentou problemas.
Imagens mostram como a aurora se forma


- Parte do Sol no dia 18 de janeiro, durante a liberação de energia. É possível notar que ela ocorreu próxima a um buraco coronal, região que aparece escura na imagem, porque é uma região de linhas magnéticas abertas para o espaço interplanetário, fazendo com que o plasma ali presente não produza eventos energéticos suficientes para produzir emissão de ultravioleta, já que flui mais facilmente para fora da superfície do Sol. Fonte: SDO (NASA).

Veja mais fotos da aurora em diferentes partes do mundo

- Aurora fotografada por Sacha Layos em 20 de janeiro em Fairbanks, EUA. Fonte: Sacha Layos e SpaceWeather.com.

- Aurora fotografada por Minoru Yoneto em 21 de janeiro em Otautau, Nova Zelândia. Fonte: Minoru Yoneto e SpaceWeather.com.