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AJEUM ANCESTRAL E AJEUM ODARA
Tradição culinária africana é tema de projeto audiovisual contra a intolerância religiosa
Divulgação / Porvir
A influência africana está presente em boa parte da culinária brasileira, de ingredientes e técnicas de preparo a pratos que atravessaram gerações. Mas, para além da gastronomia, a comida também pode ser uma forma de transmitir conhecimentos, preservar tradições e valorizar identidades. Foi com o objetivo de transformar a alimentação em um veículo de comunicação da cultura afro-brasileira que nasceram os projetos Ajeum Ancestral e Ajeum Odara.
Ajeum é uma palavra de origem iorubá que significa “comer juntos”. Com essa proposta, o projeto Ajeum Ancestral foi criado para celebrar a culinária litúrgica do candomblé e ampliar o diálogo sobre as tradições das religiões de matriz africana por meio de rodas de conversa, apresentações culturais e produção de materiais de comunicação. Sob a liderança da educadora Rachel Mendes, o evento aconteceu em abril de 2024, no espaço gastronômico da Tamarineira, em Iguaba Grande (RJ).
A iniciativa nasce em um contexto de intolerância religiosa e racismo religioso. No Brasil, pouco mais de 1% da população se declara praticante de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É possível, no entanto, que esse número seja maior, considerando que muitas pessoas podem optar por não declarar sua fé diante da discriminação.
"A gente observa a intolerância religiosa e o racismo religioso. O projeto surgiu como um meio de desmistificar, romper estereótipos que marginalizam e criminalizam as religiões de matriz africana", explica Rachel, que é integrante do terreiro Ilê Asé Iyá Oju Omi. Localizado na cidade vizinha de São Pedro da Aldeia, o centro é reconhecido como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura (MinC) e Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
A ideia de fazer o evento na Tamarineira surgiu da necessidade do grupo de ocupar espaços abertos à comunidade que lhes permitissem dialogar com pessoas de outras religiões. Na ocasião, foram oferecidos alimentos tradicionais da culinária ancestral do candomblé. Um deles foi o acaçá, uma massa de milho branco embrulhada em folha de bananeira, conhecida como um alimento compartilhado por todos os orixás. Também foi preparado o omolocum, prato de feijão-fradinho cozido, refogado com cebola, camarão seco e azeite de dendê e finalizado com ovos cozidos, associado à orixá Oxum. O amalá, alimento do orixá Xangô, é feito com quiabo cortado, cebola ralada, camarão seco, sal e azeite de dendê.
Além desses pratos tradicionais, havia canjica, munguzá, pipoca e uma mesa de frutas com coco, uva e melancia. "A gente fez uma boa quantidade de comida, e não sobrou nada", conta Rachel. Quem degustava os pratos aproveitava para interagir e saber mais sobre os alimentos e seus significados para a religião. "Ali no diálogo a gente já acolhia essas pessoas e desmistificava o preconceito", relata a educadora.
Para ampliar essa conversa, os participantes também receberam uma cartilha com receitas e informações sobre a influência da culinária africana na formação da culinária brasileira. Escrita em uma linguagem informal e acessível, a publicação foi pensada para alcançar pessoas de diferentes crenças e facilitar o contato com esse conhecimento.
Durante o filme, nós temos momentos de descontração, de memória, de reunião, de estarmos juntos, de comer juntos. Não é só um vídeo de receitas
RACHEL MENDES
educadora
O evento contou ainda com rodas de conversa e uma apresentação do grupo Afoxé Fiderioman, que reúne dança, música e ancestralidade em uma manifestação cultural afro-brasileira. Rachel destaca que crianças, adolescentes, adultos e pessoas das mais variadas religiões se propuseram a dialogar e confraternizar durante a apresentação de afoxé: "eles dançaram com a gente, cantaram, bateram palma e procuraram saber. É a partir do conhecimento que a gente consegue romper com esse estigma e esses estereótipos de preconceito e de racismo religioso".
Mais do que um vídeo de receitas
Já o Ajeum Odara foi um projeto audiovisual de curta-metragem em que as yalorixás, mulheres que ocupam um cargo religioso no terreiro e são detentoras de saberes ancestrais, preparam pratos litúrgicos do candomblé. Odara também é uma palavra de origem iorubá que significa bom, bonito, belo ou excelente e transmite uma ideia de harmonia, positividade, paz e bem-estar geral.
O documentário "Ajeum Odara: Comida de santo que se come" foi gravado em 2024 nos terreiros Ilê Asé Iyá Oju Omi (em São Pedro da Aldeia) e Centro Espírita de Iansã e Caboclo Sete Flechas (em Iguaba Grande). "Durante o filme, nós temos momentos de descontração, de memória, de reunião, de estarmos juntos, de comer juntos. Não é só um vídeo de receitas", comenta Rachel.
As mulheres são as condutoras dessa história, em diálogo com o papel exercido pelas lideranças femininas no candomblé. Os pratos foram escolhidos para representar os orixás dos terreiros e das lideranças femininas. No menu, estão pratos como caruru de folhas, canjica de Oxalá, omolocum de Oxum e amalá de Xangô. Algumas das receitas do documentário foram preparadas por Yalorixá Márcia D’Oxum, Sandra de Matamba e Ekede Joseane, conhecida na comunidade como Biuá.
O filme foi exibido para a comunidade em um evento especial no Centro Espírita de Iansã e Caboclo Sete Flechas em novembro de 2024. Rachel destaca a importância de pessoas das religiões de matriz africana produzirem suas próprias narrativas: "quando nós vemos um filme ou uma reportagem sobre as religiões de matriz africana, geralmente são pessoas de fora falando. O diferencial do nosso projeto é que nós estamos contando a nossa narrativa, a nossa vivência, a nossa ancestralidade, a nossa memória, o nosso dia a dia com a comunidade".
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