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EDUCOMUNICAÇÃO
Repórteres da Floresta levam temas da Amazônia para o mundo
Divulgação / Porvir
Enquanto os olhos do mundo se voltam para a urgência de preservar a Amazônia, um projeto de educomunicação busca amplificar as vozes de jovens que vivem na região. Criado em 2014 pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o Repórteres da Floresta capacita moradores de comunidades ribeirinhas e indígenas para atuarem como comunicadores em seus territórios. Desde então, mais de 400 adolescentes e jovens já participaram da formação, que combina conhecimentos técnicos e práticos de jornalismo com discussões sobre temas contemporâneos, como a desinformação.
O objetivo do projeto é desenvolver habilidades de comunicação para que os jovens possam contar as próprias histórias, fortalecer a identidade comunitária e ampliar sua participação no debate público. A proposta não é necessariamente formar comunicadores profissionais, mas oferecer recursos para que os participantes possam se posicionar e consumir conteúdos de maneira crítica e consciente.
Íamos a campo e conversávamos muito com os jovens. Quando retornávamos, percebíamos que éramos nós que acabávamos falando sobre as oportunidades e os anseios daquela comunidade. Foi então que pensamos que eles poderiam falar para todo mundo quais eram seus anseios, medos e sonhos
RAFAEL SALES
Coordenador dos NIEDS da Fundação Amazônia Sustentável
Voltado a jovens a partir dos 13 anos, o projeto é realizado em sete dos nove Núcleos de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável (NIEDS) no estado do Amazonas, nas cidades de Manaus, Iranduba, Novo Aripuanã, Manicoré, Carauari, Uarini e Itapiranga.
Para levar formação a esses territórios, a logística é complexa: de Manaus para Carauari, por exemplo, a viagem de lancha pode chegar a 36 horas. Uma vez na localidade, o consultor responsável passa de três a quatro dias conduzindo a formação no contraturno das aulas regulares. Ao longo do ano, o treinamento percorre os sete núcleos e visita cada um por volta de duas ou três vezes, de acordo com a demanda de cada comunidade.
Durante as visitas, os adolescentes e jovens participam de formações teóricas e práticas sobre produção de texto, fotografia, vídeo, áudio, iluminação e edição. Um guia produzido para o projeto apresenta ferramentas de educomunicação e dinâmicas para aplicação em sala de aula, além de depoimentos de jovens que participaram do programa em edições anteriores. Atualmente, o projeto é financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em conjunto com o Movimento Bem Maior.
Da castanheira à fake news
Ao longo dos anos, o Repórteres da Floresta incorporou mudanças tecnológicas na comunicação e novos temas. Antes da pandemia de covid-19, em 2020, muitas comunidades dependiam de geradores de energia elétrica que funcionavam cerca de seis a oito horas por dia. Consequentemente, o acesso à internet também era limitado. Até então, o trabalho do projeto se concentrava em revistas, jornais e rádio.
Com o aumento da conectividade na região, impulsionado por políticas de telessaúde para o atendimento durante a pandemia, as redes sociais ganharam espaço nas comunidades — e, com elas, a circulação de informações falsas. Sales relata que o projeto, antes concentrado principalmente em atividades educativas, passou a dedicar mais atenção à desinformação. "Antes era ‘vamos fazer uma reportagem sobre a castanheira’, hoje é muito mais ‘vamos fazer uma reportagem sobre os malefícios de fake news dentro das comunidades’. A percepção passou de um projeto voltado para coisas mais básicas e comunitárias para um projeto muito mais robusto para as questões de informações falsas".
Tainara Kambeba, da comunidade de Três Unidos, participou do projeto dos 13 aos 19 anos. Nesse período, produziu textos para o jornal impresso, trabalhou na rádio comunitária e fez vídeos para as redes sociais, além de participar de um talk show sobre expressões da cultura e da língua indígena. “Depois que você conhece mais sobre comunicação e sobre a nossa cultura, a gente não se sente tão isolado e vê que pode fazer algo pelo nosso território”, comenta Tainara. Atualmente, ela cursa o segundo período de jornalismo, uma escolha influenciada pela experiência no Repórteres da Floresta.
Da comunidade de Punã, Kelly Praia também recorda as experiências no projeto, do qual participou dos 14 aos 19 anos. A jovem fez coberturas em outras comunidades da região e participou de trocas sobre temas como cultura e culinária indígena. “Eu aprendi a fazer entrevistas e a editar fotos e vídeos”, relata.
Um dos marcos da trajetória do Repórteres da Floresta foi a cobertura da COP30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em Belém (PA), em novembro de 2025. O evento reuniu chefes de Estado, pesquisadores, empresas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para debater ações de enfrentamento à crise climática.
Cinco participantes do programa foram escolhidos para cobrir a conferência e produzir conteúdos sobre temas como bioeconomia, mudanças climáticas e direitos dos povos originários. A experiência também ampliou o alcance de seu trabalho: em vez de se comunicar apenas com suas comunidades, eles passaram a entrevistar autoridades e especialistas presentes em um dos principais eventos internacionais sobre clima.
Ao mesmo tempo, os jovens também foram convidados a dar depoimentos e entrevistas sobre suas vivências e perspectivas como integrantes de comunidades tradicionais e originárias da Amazônia. Assim, além de produzir informação, tornaram-se fontes para outras coberturas de um debate diretamente relacionado aos territórios onde vivem. Na COP30, passaram também a ser ouvidos.
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