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OBSERVATÓRIO
Projeto de checagem de notícias mobiliza estudantes de Sergipe
Divulgação / Porvir
Os candidatos à prefeitura de Aracaju chegam ao local acompanhados de seus assessores para participar de uma sabatina sobre os planos de governo. As perguntas giram em torno de temas do cotidiano da cidade, como saúde, educação, segurança pública e transporte. Uma equipe atenta acompanha as respostas, verificando em tempo real a veracidade das informações.
O cenário poderia ser uma emissora de televisão ou a sede de um jornal. Mas era o Centro de Excelência Atheneu Sergipense, escola de referência da rede estadual de ensino, em Aracaju (SE). Ali, as perguntas não foram elaboradas por jornalistas profissionais, mas pelos próprios estudantes do terceiro ano do ensino médio, que também conduziram a sabatina. A experiência fez parte de uma série de ações que se desdobraram do projeto “Observa! Observatório de Desinformação”, iniciativa criada pelo professor Ronney Santos.
Em 2022, durante as aulas de preparação para a redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Ronney abordou a questão das notícias falsas e seu impacto na sociedade. A discussão despertou a curiosidade dos alunos e também levou o professor a investigar mais a fundo o fenômeno. Para compreender como a desinformação se originava e se espalhava, Ronney passou a acompanhar perfis de diferentes vertentes ideológicas e se surpreendeu com a facilidade com que informações falsas circulavam.
Munido de materiais de apoio, o professor levou o tema para suas aulas. “Nós começamos com um trabalho de coleta de informações e, em 2024, o programa ganhou forma, como uma disciplina eletiva ofertada para a rede de ensino integral”, relata Ronney.
Para desenvolver esse trabalho, a turma foi dividida em cinco grupos, cada um responsável por monitorar e coletar notícias falsas de uma rede social: Instagram, TikTok, Twitter, Facebook e Kawai. “As pessoas adentravam bolhas específicas em cada rede e viam como uma fake news era formada e como ela circulava. Depois de entender essa estrutura, era possível entender como combatê-la”, explica Clara Almeida, que participou do Observa quando cursava o terceiro ano do ensino médio no Atheneu. Hoje, ela cursa Relações Internacionais na Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Depois da coleta de fake news, os estudantes participaram de uma roda de conversa para discutir os achados e suas impressões. A atividade ajudou a turma a perceber que qualquer pessoa, inclusive eles próprios, poderia compartilhar desinformação se não verificasse a credibilidade das fontes e dos canais de comunicação.
Ao aprender como conteúdos falsos são produzidos e circulam, os alunos passaram a atuar como referências sobre o tema em suas famílias e comunidades. Como recurso para a argumentação, os estudantes foram encorajados a utilizar preceitos de comunicação não violenta, como substituir o enfrentamento pela curiosidade em relação ao outro. “Os grupos de WhatsApp das famílias dos alunos mudaram. Agora, quando um parente manda alguma informação, o aluno pergunta ‘checou isso?’”, relata Ronney.
Novas frentes de atuação
À medida que as atividades avançaram, o projeto de combate à desinformação ganhou o apoio de Yuri Norberto, professor de Sociologia do Atheneu. Juntos, os dois criaram o “Atheneu POP – Políticas Públicas”, inspirado no “Atheneu ONU”, atividade já conduzida por Yuri que simula uma assembleia das Nações Unidas na escola. A partir dessa experiência, os alunos foram mobilizados para acompanhar de perto o debate eleitoral e colocar em prática o que haviam aprendido em sala.
Depois de uma série de aulas sobre a Constituição Federal, políticas públicas, a importância do voto e outros temas, os estudantes acompanharam as redes sociais dos candidatos à prefeitura e estudaram seus planos de governo para elaborar perguntas sobre os temas pelos quais cada um ficou responsável. No dia da sabatina, havia uma sala para cada um dos temas em discussão: educação, saúde, transporte e mobilidade urbana, trabalho e renda, juventude, mulher, assistência social e inclusão. Os candidatos circulavam entre os espaços para responder às questões dos estudantes e, em cada sala, um integrante do Clube de Checagem do Observatório verificava as respostas em tempo real. Do convite às equipes de campanha à mediação das sabatinas, passando pelo acompanhamento dos candidatos, toda a operação do Atheneu POP foi conduzida pelos próprios alunos.
Comunicação para a formação cidadã
Junior Paixão, que cursou o ensino médio no Atheneu e atualmente estuda Jornalismo na UFS, destaca o papel do Observa! tanto em sua formação cidadã quanto na escolha da carreira. Para ele, participar do projeto ajudou a perceber como a política está presente no cotidiano: “Quando a gente se envolve nesse projeto, a gente começa a entender que tudo é política. O ônibus que a gente pega para escola é política, o valor da passagem é política, a merenda da escola… tudo é política.”
“Cada aluno que participou do Observa pode dizer que contribuiu para a construção do plano de governo da cidade dele, porque eles leram página por página e levantaram pontos do plano de governo de cada um dos candidatos que foram lá”, comenta Ronney.
A iniciativa também recebeu apoio do Mangue Jornalismo, portal de mídia independente de Sergipe, e da Liga Acadêmica de Ciência de Dados da Universidade Federal de Sergipe (LADATA), que se uniram ao Observa! por meio de um consórcio. Os alunos realizaram uma série chamada Na Boca do Povo, na qual, semanalmente, verificavam, com o apoio da LADATA, a veracidade de informações relevantes sobre as eleições municipais que circulavam nas redes. O conteúdo em vídeo, produzido em linguagem jovem e acessível, era editado e publicado no portal e nas redes sociais do Mangue Jornalismo.
O sucesso do Observa! rendeu frutos que ampliaram o alcance da iniciativa para outras escolas da rede estadual. O grupo visitou o Centro de Excelência José Carlos de Souza e o Centro de Excelência Ministro Petrônio Portela, ambos em Aracaju, e o Centro de Excelência Professor Abelardo Romero Dantas, em Lagarto (SE). Nas visitas, além de apresentarem o projeto desenvolvido no Atheneu, alunos e professores promoveram rodas de conversa sobre o impacto da desinformação e dos discursos de ódio e sobre estratégias para combater esse tipo de conteúdo.
Outro desdobramento do projeto foi o “Observa! Delas”, no qual alunas se dedicaram a identificar discursos misóginos nas redes sociais. Essa iniciativa teve apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC), e duas estudantes receberam bolsas de estudo da entidade para pesquisar discursos de ódio contra meninas e mulheres na internet.
O relato de Julia Almeida, que participou do Observa! e hoje cursa Publicidade e Propaganda na UFS, traduz o impacto do projeto na trajetória dos estudantes: “Dentro do Observa, eu estive mais próxima da produção de conteúdo e de entender como a fala dos candidatos influenciava as pessoas. Foi aí que percebi que me interessava por entender como a comunicação funciona e como as pessoas se convencem.”
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