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NOVO ACORDO DO RIO DOCE
“Aquela Mirella dos 17 anos não existe mais. Ela foi roubada”, diz jovem que luta pela reparação do rompimento da barragem de Fundão
Encontro que reuniu gestores, trabalhadores do SUAS e pessoas de 15 municípios atingidos pela tragédia debateu melhorias e uso dos recursos oriundos do Novo Acordo do Rio Doce. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
A lama chegou antes da explicação. Na noite de 5 de novembro de 2015, Mirella Regina de Sant’Ana, então com 17 anos, estava na escola quando soube que a barragem de Fundão havia se rompido. Não sabia o que eram rejeitos de minério, nem que a estrutura ficava tão perto de casa, na cidade de Mariana (MG). Quando o aviso veio, a água barrenta já atravessava o quintal.
A família fugiu às pressas, com a lama na altura do peito. Só no dia seguinte ela reencontrou a mãe. Do alto da comunidade, viu a casa submersa, telhado e memórias misturados ao marrom espesso do desastre. “Eu só queria entender o que estava acontecendo”, recordou.
Dez anos depois, Mirella é uma das vozes ativas na defesa dos atingidos. Ela integra a Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão, participa de audiências judiciais e acompanha a execução dos acordos de reparação. Transformou a perda em militância.
Hoje, aos 28 anos, estuda serviço social em Ouro Preto (MG), escolha que, segundo ela, nasceu da necessidade de compreender o próprio trauma como questão de direito coletivo.
LUTA POR DIREITOS - Criada em Ponte do Gama, zona rural de Mariana, Mirella cresceu onde as casas ficam a até um quilômetro de distância da barragem. Depois do rompimento, veio a mudança forçada para a sede do município, junto com um novo vocabulário: cadastro, indenização, audiência, reparação. “Por serem comunidades menores, éramos constantemente invisibilizados. Nós nos juntamos e aí eu fui criando um pouco de coragem para conseguir entender que eu teria que me movimentar bastante para ter de volta o que me foi tomado", explicou.
Aos 19 anos, ingressou formalmente na comissão que representa comunidades rurais, muitas vezes esquecidas nas negociações. Desde então, percorre reuniões, fóruns e gabinetes para garantir que os pequenos distritos também sejam ouvidos. “Não foi só a casa. A lama varreu o nosso modo de viver. Esse modo é a base da vida dessas pessoas, é como ela se relaciona com o território, é a forma como ela escolheu viver”, defendeu.

- Mirella Regina de Sant’Ana, então com 17 anos, estava na escola quando soube que a barragem de Fundão havia se rompido. Dez anos depois, é uma das vozes ativas na defesa dos atingidos. Foto: Sérgio Alberto/MDS
ESPERANÇA RENOVADA - Agora, Mirella participou, em Ouro Preto, do 1º Encontro Regional do Programa de Fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (ProFort-SUAS) no Rio Doce. O evento reuniu gestores, trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e pessoas atingidas de 15 municípios.
A iniciativa prevê investimento de R$ 640 milhões ao longo de 20 anos, destinados a 49 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, com foco na população impactada pelo desastre. A primeira parcela de R$ 25 milhões já foi repassada em 2025. O valor da indenização do antigo acordo era de R$ 60 bilhões. Com o Novo Acordo Rio Doce, assinado em 2024, o valor passou para R$ 170 bilhões. “Eu fiquei muito feliz em ouvir as palavras do secretário do Ministério do Desenvolvimento Social, André Quintão. O rompimento da barragem aprofundou desigualdades, aprofundou o grau de vulnerabilidade dessas comunidades. Esse recurso está vindo por causa de um crime que ocorreu”, afirmou Mirella.
Para ela, é a primeira vez que a reparação ganha contornos de política pública permanente. “A assistência social não é assistencialismo. É proteção. É direito garantido. É o Estado chegando onde a lama deixou vazio”, definiu. O desastre atingiu cerca de 2,3 milhões de pessoas nos dois estados (1,18 milhão em Minas Gerais e 1,1 milhão no Espírito Santo). Números expressivos, mas que, para Mirella, têm rosto, nome e história.
FUTURO - Quando perguntam onde se imagina daqui a dez anos, ela hesita. A lama não levou apenas paredes. Levou a adolescência. “Ainda estou tentando recuperar minha identidade. Preciso resgatar ao menos parte disso para conseguir pensar no futuro”, refletiu.
O amadurecimento precoce, diz, veio com a própria tragédia. “Aquela Mirella dos 17 anos não existe mais. Eu tive que amadurecer no meio desse processo, que foi extremamente doloroso. Mas a esperança sempre continua e é isso que nos move. Foi uma década difícil, mas seguimos mobilizados. Metade da minha vida já foi marcada por essa luta. O horizonte maior é sempre a reparação justa. E é por isso que nós vamos seguir lutando”, finalizou.