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Fundação Cultural Palmares e MIR celebram a gastronomia de terreiro como patrimônio e resistência ancestral
A Fundação Cultural Palmares (FCP) organizou a amostra gastronômica de comida de terreiro, promovida na última terça e quarta-feira (16 e 17), em uma parceria estratégica com o Ministério da Igualdade Racial (MIR). O evento, que teve seu ápice no sucesso absoluto das atividades presenciais realizadas na quarta-feira (17), é o coroamento do edital “Prêmio Sabores e Saberes: Comida de Terreiro para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana de Terreiro”. A iniciativa consolidou o reconhecimento dessa gastronomia como patrimônio cultural imaterial, evidenciando-a como uma prática ancestral profundamente vinculada à resistência, à espiritualidade e à organização comunitária.
Sob a coordenação técnica da Fundação Palmares, a programação foi estruturada para oferecer, ao longo dos dois dias (16 e 17), uma visita prévia à sede da Palmares, bem como à Praça dos Orixás — também conhecida como "Prainha", um importante espaço sagrado às margens do Lago Paranoá, dedicado às religiões de matriz africana (Umbanda e Candomblé). Na celebração presencial do dia 17, as atividades tiveram início com um cortejo dos pratos premiados, seguido de degustações gastronômicas e espaços de diálogo institucional, reforçando a centralidade dos povos de terreiro como produtores de conhecimento e protagonistas de políticas públicas vivas. Ao todo, a premiação contemplou 45 terreiros e comunidades de matriz africana, distribuídos equitativamente entre as cinco regiões do país. Além do reconhecimento simbólico, cada iniciativa recebeu um aporte de R$ 13 mil e um kit de cozinha completo, visando fortalecer a infraestrutura e a sustentabilidade das ações nos territórios.
O presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, enfatizou durante o evento que a gastronomia de terreiro transcende a prática culinária, devendo ser compreendida como um pilar de identidade e resistência religiosa. Segundo ele, “Cada prato tem um significado profundo e uma conexão com os orixás, sendo considerada uma refeição tanto para o corpo quanto para a alma”.
Nesse sentido, o suporte material oferecido pela Fundação é um passo importante para a salvaguarda desses saberes. “Esses kits são uma ferramenta valiosa para a continuidade do trabalho dessas comunidades, permitindo que a culinária de terreiro seja praticada de maneira mais eficiente e moderna, sem perder suas raízes culturais”, afirmou Cida Santos, coordenadora de projetos da Fundação Cultural Palmares.
Para além da preservação histórica, o prêmio atua como um motor de desenvolvimento social, fomentando a geração de emprego e renda ao fortalecer a economia criativa e valorizar a gastronomia afro-brasileira em escala global. “O prêmio não é apenas uma celebração culinária, é também uma maneira de documentar e divulgar as histórias e receitas dessas comunidades, dando visibilidade nacional e internacional a essa rica tradição”, complementou a coordenadora.
O impacto emocional e político da ação foi visível no depoimento das lideranças presentes. Isabel Cristina Ribeiro Rosa, da Associação de Cultura e Tradições de Matriz Africana Ojinjé Ilê Alaketu Ijobá Àsé Nanã, de Navegantes (SC), emocionou-se ao relatar a importância desse reconhecimento para as entidades premiadas.
"Gosto de descrever a cozinha como o "coração da casa", que alimenta toda uma comunidade e esse prêmio é a valorização da tradição ancestral dos povos de terreiro e de uma culinária que alimenta o sagrado e o profano", diz Mãe Cristina.
No mesmo sentido, Fernanda Thomaz, diretora do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, reiterou que a premiação reflete o compromisso institucional com políticas públicas perenes.
“A realização do edital “Sabores e Saberes” reforça o quanto a Palmares está olhando para projetos futuros, abrindo um diálogo com as comunidades de terreiro e matriz africana, e colocando essa gastronomia no patamar que ela merece. Uma culinária, que representa uma herança e a resistência da cultura afro-brasileira”, explicou a diretora.
A amostra também serviu de vitrine para trajetórias individuais e coletivas que sustentam a cozinha de terreiro no cotidiano brasileiro. Entre as premiadas, a ialorixá Mônica Monteiro, da Associação Senhora dos Ventos, de São José do Rio Preto (SP), destacou como a visibilidade promovida pela Fundação Palmares gera respeito e dignidade. “Ao possibilitar essa degustação, mostramos que nossa culinária é ancestral e representamos um exemplo de força e união entre todos os axés”, disse.
Ao encerrar as atividades com o êxito da amostra presencial, a Fundação Cultural Palmares e o Ministério da Igualdade Racial reafirmaram o compromisso de preservar e difundir os saberes e sabores de terreiro. Mais do que um evento, a iniciativa se estabelece como parte fundamental da memória, da identidade e do futuro da população negra no Brasil.