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Festival reúne música, ancestralidade e trocas culturais no CCSP e reforça a proposta de diplomacia cultural entre Brasil e países africanos por meio da arte negra contemporânea.
Terceiro dia do Festival AKWAABA celebra ancestralidade, música preta e conexão entre Brasil e África no CCSP
O terceiro dia do Festival AKWAABA transformou o Centro Cultural São Paulo (CCSP), neste domingo, em um grande encontro de culturas negras, ancestralidade, música e celebração da diáspora africana. Com programação distribuída entre apresentações musicais, vivências culturais e feira afroempreendedora, o festival reafirmou sua proposta de aproximar Brasil e África por meio da arte, da memória e da diplomacia cultural sul-sul.
Realizado pela Fundação Cultural Palmares e o Ministério da Cultura, o Festival AKWAABA surge como um marco na valorização das contribuições africanas para a formação cultural brasileira e na construção de novos caminhos de intercâmbio entre os países africanos e o Brasil. A iniciativa dialoga diretamente com a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 6ª Teia Nacional, no Espírito Santo, quando destacou a importância de “fazer todo esforço para pagar a dívida histórica do Brasil com a África”.
Durante todo o dia, a feira afroempreendedora seguiu movimentando o espaço com expositores, gastronomia, moda, arte e economia criativa negra, fortalecendo pequenos empreendedores e promovendo trocas culturais entre artistas, público e coletivos.
A programação da manhã começou com a potente apresentação da Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, grupo paulistano que transforma o berimbau em protagonista de concertos marcados por ancestralidade, experimentação sonora e resistência cultural. Sob liderança do Mestre Dinho Nascimento, a orquestra reuniu ritmos como samba de roda, ijexá, congo-de-ouro e toques tradicionais da capoeira em uma experiência musical coletiva e imersiva.
Mais do que um espetáculo, a apresentação reafirmou o berimbau como símbolo histórico de luta, identidade e preservação da cultura afro-brasileira. Com instrumentos construídos também a partir de materiais reciclados e sonoridades que dialogam entre tradição e inovação, o grupo emocionou o público ao transformar o palco em um espaço de memória e pertencimento.
“O AKWAABA é muito feliz nesse nome porque significa ‘bem-vindos’. É uma conexão Brasil-África que precisa seguir sendo expandida”, destacou Cecília Pellegrini, integrante da orquestra, durante entrevista após a apresentação.
Na parte da tarde, o público participou das vivências conduzidas pelo Coletivo Amazonizando, liderado pelo Mestre Ivamar. A ocupação artística trouxe elementos do Marabaixo, tradicional manifestação cultural afro-amapaense, além de rodas, tambores, canto ancestral, contação de histórias e experiências coletivas que convidaram o público a participar ativamente das apresentações.
A proposta do coletivo é ampliar as narrativas amazônidas por meio da arte, da oralidade e da valorização dos saberes ancestrais. Em um dos momentos mais marcantes da programação, pessoas do público foram convidadas para o centro da roda, tocar os tambores e vivenciar a experiência coletiva do Marabaixo, reforçando o caráter inclusivo e comunitário da manifestação.
À noite, a Sala Adoniran Barbosa recebeu o rapper gaúcho Zudizilla, um dos nomes mais relevantes do rap contemporâneo brasileiro. Com forte influência do jazz, do soul e da música preta global, o artista apresentou um show intenso, sofisticado e carregado de reflexões sobre racismo, identidade negra e dignidade.
Durante entrevista concedida após o show, Zudizilla destacou que sua arte nasce diretamente das experiências vividas enquanto homem negro no Brasil.
“É impossível eu, enquanto pessoa preta, não trazer essas temáticas naturalmente. Isso me constitui enquanto artista e enquanto ser humano”, afirmou.
O artista também ressaltou a importância de festivais como o AKWAABA para fortalecer narrativas negras e ampliar espaços de representatividade na cultura brasileira.
Em paralelo, no Jardim Eurico Prado Lopes, o DJ Umiranda voltou ao festival após já ter se apresentado na abertura do evento, na sexta-feira. Misturando afrobeat, hip hop, R&B e brasilidades, o artista colocou o público para dançar mais uma vez e celebrou a conexão entre música, afeto e ancestralidade.
“Minha música é uma extensão de mim. É uma mistura do Brasil com África, algo que sempre fez sentido na minha caminhada artística”, comentou o DJ durante entrevista.
Encerrando a programação do dia, Rincon Sapiência subiu ao palco levando ao público um show vibrante, político e dançante. Referência do rap nacional, o artista destacou a importância da cultura afro-diaspórica na construção da identidade brasileira e reforçou a necessidade de valorização contínua da música preta.
“O festival enfatiza algo que já está presente na cultura brasileira: somos afro-diaspóricos no jeito de falar, de criar, de viver e de fazer música”, afirmou Rincon.
Além dos shows e apresentações culturais, o terceiro dia do AKWAABA consolidou o festival como espaço de encontros, circulação de saberes e fortalecimento das culturas negras contemporâneas.
O Festival AKWAABA segue até o dia 28 de maio e inicia, nesta segunda-feira (25), sua programação de seminários e painéis temáticos, reunindo pesquisadores, artistas, lideranças e convidados para debater cultura, ancestralidade, diplomacia cultural, comunicação, audiovisual, identidade negra e relações entre Brasil e África.
Henrique Bertoldo