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Seminários, apresentações culturais e encontros afro-diaspóricos marcaram a programação desta terça-feira (26) no Centro Cultural São Paulo
Quinto dia do Festival Akwaaba reúne debates sobre direitos quilombolas, protagonismo feminino e juventude negra com shows
O quinto dia do Festival Akwaaba transformou o Centro Cultural São Paulo (CCSP), nesta terça-feira (26), em um grande espaço de encontros, debates, ancestralidade e experiências afro-diaspóricas. A programação reuniu lideranças quilombolas, pesquisadoras, representantes institucionais, artistas, comunicadores, influenciadores e agentes culturais em painéis voltados à defesa dos direitos constitucionais, ao protagonismo das mulheres negras e ao papel da juventude negra nos espaços digitais e tecnológicos. O encerramento da noite contou com os shows de Rashid e KL Jay, dois dos principais nomes da cultura hip hop brasileira.
Realizado pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, o Festival Akwaaba propõe uma interação entre África, Brasil e diáspora africana, promovendo conexões entre cultura, memória, arte, economia criativa, ancestralidade e cooperação internacional. Inspirado na palavra “Akwaaba”, expressão da África Ocidental que significa “bem-vindo”, o festival ocupa espaços simbólicos da cultura afro-brasileira em São Paulo com programação gratuita até o dia 28 de maio.
A programação do dia começou com o painel “Territórios Quilombolas e Direitos Constitucionais”. O encontro debateu os territórios quilombolas como espaços de preservação da memória, da ancestralidade, da cultura e das formas tradicionais de organização social da população negra no Brasil.
A mesa foi mediada por Cristiane Lourenço, chefe de Projetos da Fundação Cultural Palmares, assistente social, pós-doutora em Sociologia e vencedora do Prêmio Capes de Tese 2024. Participaram do debate o procurador-chefe da Fundação Cultural Palmares, Denilton Leal; a jurista e promotora Lívia de Santana Vaz; Edna Correia de Oliveira, presidente da CONAQ Minas Gerais; Maíra Rodrigues da Silva, coordenadora da área de combate ao racismo ambiental do Instituto Peregum; e Geovana Melo, curadora do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea.
Durante o painel, as falas reforçaram os desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas diante dos conflitos territoriais, do racismo ambiental e da ausência de políticas públicas efetivas.
“A luta pelo território é uma luta pela existência.”
A presidente da CONAQ/MG, Edna Correia de Oliveira, chamou atenção para o avanço de grandes empreendimentos sobre territórios tradicionais em Minas Gerais e para o aumento da violência contra lideranças quilombolas.
“Quando uma comunidade perde o território, ela não perde apenas a terra. Ela perde parte da sua história, da sua identidade e da continuidade dos seus ancestrais.”
A liderança também destacou o papel ambiental e civilizatório dos quilombos:
“Os quilombos pertencem ao presente e são também o futuro.”
Na parte da tarde, o Festival Akwaaba recebeu o painel “Mulheres Negras na Sociedade e nos Espaços Públicos: pelo Direito à Vida e ao Bem-Estar”, reunindo lideranças femininas, pesquisadoras, ativistas e representantes institucionais para discutir equidade racial e de gênero, violência política, autonomia econômica e direito ao bem viver.
Participaram da mesa Luzi Borges, diretora de Políticas Públicas para Povos de Terreiros do Ministério da Igualdade Racial; Iyá Gilda de Oxum, presidente do Centro Cultural Ilá Odé; Nathália Silva Borges, pesquisadora na área de relações raciais e doutora em Política Social; Selma Dealdina Santos, coordenadora do Coletivo de Mulheres da CONAQ; e Adriângela da Silva Cabral, presidente do Fórum Municipal de Matriz Africana e conselheira do COMPOTMA, do Rio Grande do Sul.
A mediação do painel reforçou o papel histórico das mulheres negras na sustentação dos territórios, das comunidades e das lutas sociais.
“Nenhuma de nós chega aos espaços públicos sozinhas. Cada mulher carrega consigo a memória coletiva das que vieram antes.”
As participantes também destacaram os impactos da violência política de gênero, da precarização da vida e das desigualdades estruturais sobre mulheres negras, indígenas, quilombolas e periféricas.
“Nós não queremos falar apenas sobre sobrevivência. Queremos viver plenamente.”
Representando os povos tradicionais de matriz africana, Adriângela da Silva Cabral ressaltou a ancestralidade como eixo central da organização coletiva das comunidades negras.
“Quando falamos da ocupação das mulheres negras nos espaços públicos, estamos falando de sobrevivência histórica, reparação e transformação social.”
Encerrando a programação dos seminários, o painel “Conexões Negras: Juventude, Inovação, Inclusão e Poder Digital” debateu os impactos da transformação digital nas experiências da população negra no Brasil e na diáspora africana. O encontro reuniu representantes do setor tecnológico, comunicadores, influenciadores e agentes culturais para refletir sobre inovação, inclusão digital, economia criativa e fortalecimento identitário.
Participaram do debate Maurício Pestana, CEO do Grupo Raça Comunicações; Rafael Manga, comunicador e assessor especial da Secretaria de Cultura da Bahia; o influenciador Ph Cortes; e a cineasta e produtora cultural Vik Birkbeck, da Cultne.
O painel destacou o potencial das plataformas digitais como instrumentos de mobilização, produção de conhecimento, empreendedorismo e ampliação das vozes negras nos espaços de influência e decisão.
“A juventude negra é agente central na construção de futuros mais inovadores, inclusivos e conectados com as realidades da diáspora africana.”
Além dos seminários, o quinto dia do Festival Akwaaba também foi marcado por apresentações culturais que movimentaram o público no CCSP.
Um dos destaques da noite foi o show do rapper Rashid, referência da música negra contemporânea no Brasil e um dos principais nomes do rap nacional. Com uma trajetória marcada por letras sobre identidade, afeto, periferia, ancestralidade e transformação social, o artista levou ao palco um repertório que dialoga diretamente com os temas debatidos ao longo do festival.
A programação musical também contou com a apresentação do DJ KL Jay, integrante histórico dos Racionais MC’s e um dos nomes mais influentes da cultura hip hop brasileira. Reconhecido por sua contribuição à música negra, à cultura periférica e à consolidação do rap nacional, KL Jay transformou o espaço em uma celebração da potência cultural preta, conectando diferentes gerações através da música.
O público também acompanhou a apresentação do DJ Ktuh no Jardim Eurico Prado Lopes, além da Mostra de Cinema Negro, realizada na Sala Lima Barreto, ampliando o diálogo do Festival Akwaaba com o audiovisual afro-diaspórico e as narrativas negras contemporâneas. A programação contou com a exibição do filme Passos por Trás do Olhar, de Gabriel Leszko e Mestre Ivamar; do documentário Kabengele – O Griô Antirracista (2023), dirigido por Celso Luiz Prudente; e do documentário Ondjélua – A Festa da Chuva, de Eurico “Gigio” Pereira, produções que dialogam com memória, ancestralidade, identidade, resistência e circulação de saberes negros entre África e diáspora.
O Festival Akwaaba segue até o dia 28 de maio com seminários internacionais, apresentações culturais, cinema, literatura, dança, economia criativa e debates sobre memória, ancestralidade, juventude, patrimônio e relações afro-diaspóricas.
Henrique Bertoldo