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Justiça histórica para uma liderança quilombola e religiosa que dedicou a vida à defesa da ancestralidade, do território e ao enfrentamento do racismo religioso
Justiça para Mãe Bernadete: memória, resistência e o compromisso com a vida quilombola
Reprodução/CONAQ
A condenação dos responsáveis pelo assassinato de Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, representa mais do que um desfecho judicial. É um marco simbólico na luta histórica das comunidades quilombolas, dos povos de terreiro e de todas as lideranças que, mesmo diante da violência, seguem defendendo seus territórios, suas culturas e seus direitos.
Mãe Bernadete não foi apenas uma vítima. Foi uma guardiã da ancestralidade, uma mãe de santo, uma liderança quilombola e uma defensora incansável da dignidade do povo negro no Brasil.
Uma vida dedicada à resistência
Maria Bernadete Pacífico foi liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (BA), além de coordenadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Também atuou como ialorixá e defensora dos direitos humanos, dedicando sua trajetória à luta pela titulação dos territórios quilombolas, pela preservação das tradições afro-brasileiras e pela proteção das comunidades tradicionais.
Sua liderança era reconhecida nacionalmente. No quilombo, que abriga centenas de famílias, Mãe Bernadete exercia um papel que ia além da organização comunitária: era referência espiritual, política e cultural. Sua voz ecoava na defesa do território, na preservação das tradições e na denúncia das ameaças enfrentadas por comunidades quilombolas.
A luta de Mãe Bernadete também era marcada por dor. Em 2017, seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, também foi assassinado. Desde então, ela intensificou a defesa da comunidade e passou a denunciar ameaças constantes. Mesmo sob proteção do Programa de Defensores de Direitos Humanos, Mãe Bernadete foi assassinada em agosto de 2023, dentro do território quilombola onde vivia e resistia.
Um crime que chocou o país
Na noite de 17 de agosto de 2023, homens armados invadiram o Quilombo Pitanga dos Palmares, mantiveram familiares reféns e executaram Mãe Bernadete a tiros. O crime teve repercussão nacional e internacional, evidenciando a vulnerabilidade de lideranças quilombolas e religiosas de matriz africana no Brasil.
As investigações apontaram que a liderança quilombola vinha sendo ameaçada por confrontar interesses criminosos na região, incluindo atuação contra o tráfico e outras atividades ilegais no território.
Sua morte não representou apenas a perda de uma liderança, mas também um ataque direto à ancestralidade, à liberdade religiosa e ao direito das comunidades quilombolas à vida e ao território.
A condenação: um passo na direção da justiça
Após quase três anos de investigações e tramitações judiciais, o Tribunal do Júri condenou, em 14 de abril de 2026, dois envolvidos no assassinato de Mãe Bernadete, em julgamento realizado no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador.
O executor Arielson da Conceição Santos foi condenado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão. Já Marílio dos Santos, apontado como mandante, recebeu pena de 29 anos e 9 meses de reclusão. Ambos foram condenados por homicídio qualificado, com agravantes como motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
Outros acusados ainda aguardam julgamento, o que demonstra que a busca por justiça segue em curso. Organizações de direitos humanos e movimentos sociais ressaltam que a responsabilização de todos os envolvidos é fundamental para combater a impunidade e proteger lideranças comunitárias.
Justiça que honra a memória e fortalece a luta
A condenação representa um passo importante, mas não encerra a luta. Para as comunidades quilombolas, justiça também significa garantir proteção aos territórios, fortalecer políticas públicas e assegurar o direito à existência digna.
Mãe Bernadete permanece como símbolo de resistência, espiritualidade e coragem. Sua trajetória ecoa na defesa dos povos tradicionais, na preservação da cultura afro-brasileira e na luta por igualdade racial.
Sua memória continua viva nos terreiros, nos quilombos, nas comunidades e nas políticas públicas que buscam garantir direitos historicamente negados.
O compromisso da Fundação Cultural Palmares
A Fundação Cultural Palmares reafirma seu compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira, com a proteção das comunidades quilombolas, com o fortalecimento das lideranças que dedicam suas vidas à defesa da ancestralidade e da dignidade do povo negro, e com o enfrentamento ao racismo religioso.
A história de Mãe Bernadete não se encerra com sua partida. Ela se transforma em legado, em memória coletiva e em inspiração para que novas gerações sigam defendendo seus territórios, suas tradições e seus direitos.
Justiça para Mãe Bernadete é também justiça para todos os quilombos do Brasil.
É justiça para a ancestralidade.
É justiça para a memória.
É justiça para o futuro.