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Ao longo de sete dias, evento promovido pela Fundação Cultural Palmares reuniu lideranças internacionais, intelectuais, artistas, gestores públicos, quilombolas, juventudes negras e representantes da sociedade civil em uma ampla programação de cultura, memória, formação e diplomacia cultural
Festival AKWAABA encerra primeira edição consolidando São Paulo como território de encontro entre África, Brasil e diáspora
Foto: Thiago de Alvarenga / São Paulo
Após sete dias de intensa programação, o Festival AKWAABA encerrou sua primeira edição consolidando-se como um dos mais importantes encontros afro-diaspóricos realizados recentemente no Brasil. Promovido pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, o evento ocupou diferentes espaços da cidade de São Paulo entre os dias 22 e 28 de maio, reunindo artistas, pesquisadores, lideranças negras, representantes governamentais, diplomatas, empreendedores, estudantes e o público em geral em uma grande celebração da cultura, da ancestralidade e da construção coletiva de futuros possíveis.
Inspirado na palavra "Akwaaba", expressão de origem akan utilizada em países da África Ocidental para dar boas-vindas, o festival nasceu com a proposta de fortalecer as conexões entre África, Brasil e diáspora africana, promovendo intercâmbio cultural, circulação de saberes, cooperação internacional e valorização das contribuições africanas para a formação da sociedade brasileira.
Mais do que um festival cultural, o AKWAABA apresentou-se como uma plataforma permanente de articulação política, intelectual e artística voltada à consolidação de uma nova agenda de diplomacia cultural Sul-Sul.
"O AKWAABA nasce para permanecer. Ele não é apenas um evento; é um movimento de reconexão entre povos que compartilham história, ancestralidade e futuro. Estamos construindo pontes que foram interrompidas ao longo dos séculos e reafirmando o papel central da população negra na construção do Brasil e do mundo", afirmou o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues.
Uma semana de encontros e construção coletiva
A programação teve início no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, com solenidade de abertura, exposição internacional e atividades voltadas ao fortalecimento das relações culturais entre países africanos e a diáspora.
Nos dias seguintes, o Centro Cultural São Paulo transformou-se em um grande espaço de intercâmbio de experiências, reunindo seminários, mesas de diálogo, oficinas, apresentações artísticas, sessões de cinema, atividades formativas e feira de afroempreendedorismo.
Ao longo da semana, temas fundamentais para o presente e o futuro da população negra estiveram no centro dos debates.
Os seminários abordaram questões relacionadas à diplomacia afro-cultural Sul-Sul, patrimônio afro-diaspórico, reparação histórica, restituição de bens culturais, direitos quilombolas, racismo ambiental, protagonismo das mulheres negras, juventude e inovação digital, educação antirracista, literatura negra, economia criativa e políticas públicas afirmativas.
Participaram das mesas pesquisadores, intelectuais, gestores públicos, representantes de movimentos sociais, lideranças quilombolas, representantes ministeriais, acadêmicos brasileiros e convidados internacionais, transformando o AKWAABA em um espaço de reflexão sobre os desafios e oportunidades das relações afro-diaspóricas contemporâneas.
Cultura, arte e ancestralidade como protagonistas
Além dos debates, a programação artística ocupou lugar central no festival.
Ao longo dos sete dias passaram pelos palcos do AKWAABA artistas como Enme Paixão, Yannick Delass, Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, Zudizilla, Rincon Sapiência, Pastoras do Rosário, Letícia Fialho, Rashid, DJ KL Jay, Ayana Amorim, DJ Nyack, Vozes de Ébano, DJ Donna e a banda Adão Negro.
As apresentações dialogaram diretamente com a proposta do festival, reafirmando a cultura negra como espaço de memória, resistência, criação e afirmação identitária.
Um dos momentos de maior mobilização do público aconteceu durante os shows de Rashid e KL Jay. Referência do rap brasileiro contemporâneo, Rashid levou ao palco reflexões sobre pertencimento, afeto, identidade e transformação social. Já KL Jay, integrante dos Racionais MC's e uma das figuras mais influentes da história do hip hop nacional, transformou sua apresentação em uma celebração da potência cultural negra e da trajetória do movimento hip hop no Brasil.
Cinema negro e narrativas afro-diaspóricas
O audiovisual também teve espaço de destaque durante toda a programação.
A Mostra de Cinema Negro exibiu filmes, documentários e produções independentes que abordaram temas ligados à memória, ancestralidade, resistência, identidade e experiências afro-diaspóricas.
Entre as obras exibidas estiveram Passos por Trás do Olhar, de Gabriel Leszko e Mestre Ivamar; Kabengele – O Griô Antirracista, dirigido por Celso Luiz Prudente; Ondjélua – A Festa da Chuva, de Eurico "Gigio" Pereira; Você Está no Caminho Certo, de Marcos Corrêa; Revolta dos Búzios, de Antonio Olavo; além de uma mostra de documentários angolanos e do filme Malês (2025), também dirigido por Antonio Pitanga.
Carta AKWAABA 2026 aponta caminhos para o futuro
O encerramento do festival aconteceu no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, durante a Conferência Magna "Civilizações Africanas e o Futuro das Relações Afro-Diaspóricas".
O encontro teve uma saudação em vídeo da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e reuniu o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, o pesquisador Zezito Araújo e a ativista Cristiane Lourenço.
Na ocasião foi apresentada oficialmente, pelo Gilberto Leal, presidente da CONEN, a Carta AKWAABA 2026, documento construído ao longo da programação que reúne diretrizes e compromissos voltados ao fortalecimento da educação antirracista, da economia criativa negra, dos direitos quilombolas, da inclusão digital, da diplomacia cultural e da preservação da memória afro-diaspórica.
"O AKWAABA demonstrou que existe uma enorme demanda por espaços de encontro entre África e diáspora. O Brasil tem uma responsabilidade histórica e também uma oportunidade histórica de liderar esse diálogo cultural e civilizatório", destacou João Jorge.
Um marco para os próximos anos
Ao reunir arte, pensamento, diplomacia, formação, empreendedorismo e participação social, o Festival AKWAABA encerrou sua primeira edição deixando um legado que ultrapassa os limites da programação realizada em São Paulo.
Mais do que promover atividades culturais, o evento fortaleceu redes, estimulou cooperações, ampliou diálogos internacionais e reafirmou a cultura negra como elemento estratégico para o desenvolvimento social, econômico e humano.
"Estamos falando de memória, mas também de futuro. O AKWAABA mostrou que as relações entre África, Brasil e diáspora não pertencem apenas ao passado. Elas são fundamentais para pensar o século XXI", concluiu João Jorge Rodrigues.
Com a realização da primeira edição, o Festival AKWAABA passa a integrar o calendário de grandes iniciativas voltadas à valorização da cultura afro-diaspórica no Brasil, deixando aberta a expectativa para as próximas edições e para a continuidade das conexões construídas ao longo dessa semana histórica.
Henrique Bertoldo