Notícias
Último dia do festival reuniu intelectuais, artistas, lideranças negras e representantes culturais em debates sobre ancestralidade, diplomacia cultural e futuro afro-diaspórico
Festival AKWAABA encerra primeira edição com conferência magna, construção da Carta AKWAABA e celebração da conexão entre África, Brasil e diáspora
O Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, realizou em São Paulo o primeiro Festival AKWAABA, promovendo uma grande interação entre Brasil, África e diáspora africana. A proposta do festival foi fortalecer as conexões culturais e políticas entre os países africanos e o Brasil em uma nova jornada de diplomacia cultural Sul-Sul.
Mais do que um evento cultural, o AKWAABA nasce como um marco para os próximos anos na valorização do pan-africanismo, da memória afro-diaspórica e das contribuições africanas para a formação do Brasil. Durante a 6ª Teia Nacional, realizada no Espírito Santo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “o Brasil deve fazer todo esforço possível para pagar sua dívida histórica com a África”, princípio que atravessou toda a construção do festival.
Encerrando sete dias de intensa programação cultural, artística, política e formativa, o último dia do Festival AKWAABA reuniu intelectuais, lideranças negras, representantes institucionais, artistas e o público em uma grande celebração da memória, da ancestralidade e da construção de futuros afro-diaspóricos.
A programação teve início às 15h, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, com a Conferência Magna “Civilizações Africanas e o Futuro das Relações Afro-Diaspóricas”, realizada no Teatro Ruth de Souza. O encontro marcou também a apresentação oficial da Carta AKWAABA 2026, documento construído ao longo dos debates e atividades do festival.
Na abertura, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, participou destacando a importância do festival no contexto da reconstrução das políticas culturais brasileiras e da retomada das relações entre o Brasil e os países africanos.
“Estamos reconstruindo pontes históricas, culturais e políticas com a África. O AKWAABA representa esse reencontro necessário entre povos que compartilham ancestralidade, memória e futuro”, destacou a ministra.
Compuseram a mesa magna o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, o professor, pesquisador e conselheiro da Palmares Zezito Araújo e a pesquisadora e ativista Cristiane Lourenço.
João Jorge Rodrigues possui uma longa trajetória no movimento negro brasileiro, tendo sido uma das principais lideranças do bloco afro Olodum e atuando há décadas na defesa da cultura afro-brasileira, dos direitos humanos e das políticas de igualdade racial. À frente da Fundação Palmares, tem conduzido um processo de reconstrução institucional e fortalecimento da presença negra nas políticas culturais nacionais.
Natural de Alagoas, estado reconhecido historicamente pela força dos movimentos negros e das lutas de resistência no Brasil, Zezito Araújo é pesquisador, educador e articulador cultural, dedicando sua trajetória à valorização das culturas afro-brasileiras, das comunidades tradicionais e da memória ancestral negra.
Já Cristiane Lourenço construiu uma trajetória ligada às pautas de direitos humanos, justiça racial e fortalecimento das mulheres negras, sendo uma das vozes presentes nos debates sobre equidade e enfrentamento às desigualdades estruturais no país.
Durante sua fala, Cristiane destacou os impactos das estruturas racistas sobre corpos negros periféricos, especialmente mulheres negras e pessoas LGBTQIAPN+.
“A gente ainda está preso a essa estrutura que marginaliza, que exclui, que extermina os corpos negros periféricos. E aí abro um parêntese para falar dos corpos femininos e LGBTQIAPN+, porque se ser mulher preta já é difícil, eu não quero imaginar o que é ser uma travesti preta nesse país”, afirmou.
Em uma reflexão sobre a formação sociocultural brasileira, Zezito Araújo abordou a centralidade das populações africanas e afrodescendentes na construção do Brasil.
“O Brasil não é apenas parte da diáspora: é um dos seus centros mais vibrantes e politicamente relevantes”, declarou.
O pesquisador também ressaltou a necessidade de descolonizar os olhares sobre a história brasileira.
“Os nossos ancestrais construíram riqueza, produziram tecnologia, conhecimento e civilização. Precisamos descolonizar as falas, as práticas e os olhares”, afirmou.
Encerrando a conferência, João Jorge Rodrigues emocionou o público ao defender a valorização das civilizações africanas para além das narrativas de escravidão e sofrimento.
“Estou cansado de ir aos lugares e ver só as correntes. Eu quero ver os templos, o ouro que a gente construiu, as jóias, as civilizações. Eu não sou descendente de escravos. Sou descendente de africanos e de povos indígenas”, disse.
Em outro momento, o presidente reforçou a importância da continuidade do festival.
“Um festival com esse nome não pode acabar. Ele precisa seguir.”
A programação também contou com a leitura oficial da Carta AKWAABA 2026, documento que consolida os debates realizados durante toda a semana. O texto reafirma compromissos com a preservação da memória afro-diaspórica, o fortalecimento da educação antirracista, a valorização da economia criativa negra, o direito aos territórios quilombolas, a diplomacia cultural Sul-Sul e a construção de políticas públicas voltadas à população negra.
Entre os principais pontos defendidos pela carta estão o fortalecimento da Lei nº 10.639/2003, o incentivo às juventudes negras, a ampliação das políticas de inclusão digital e o reconhecimento da cultura afro-brasileira como dimensão estratégica para o desenvolvimento social, econômico e humano.
Após as atividades no Museu Afro Brasil, a programação seguiu no Centro Cultural São Paulo (CCSP), com apresentações musicais, sessões de cinema negro e shows que encerraram o festival celebrando a potência artística afro-diaspórica.
Às 18h, o grupo Vozes do Ébano se apresentou na Sala Adoniran Barbosa, trazendo ao palco repertórios ligados à música negra brasileira, à ancestralidade e às expressões culturais afro-brasileiras.
Na sequência, o Jardim Eurico Prado Lopes recebeu a DJ Donna, que conduziu uma apresentação marcada por sonoridades afro-eletrônicas, black music e ritmos periféricos contemporâneos.
Fechando a noite, a banda Adão Negro levou ao palco uma apresentação carregada de reggae, resistência e afirmação da cultura negra. Com décadas de trajetória na música brasileira, o grupo baiano é reconhecido por unir arte, consciência social e ancestralidade em suas composições.
A programação audiovisual contou ainda com sessões do Cinema Negro, incluindo uma mostra de documentário angolano e a exibição de “Malês” (2025), dirigido por Antonio Pitanga. O filme dialoga diretamente com os temas centrais do festival ao abordar memória, resistência negra e as revoltas históricas protagonizadas pela população africana e afrodescendente no Brasil.
Depois de sete dias de programação intensa, o Festival AKWAABA encerrou sua primeira edição consolidando-se como um dos mais importantes encontros de cultura afro-diaspórica realizados recentemente no país. Entre debates, apresentações artísticas, exibições audiovisuais, seminários, encontros diplomáticos e celebrações culturais, o festival transformou São Paulo em um território de memória, pertencimento e construção coletiva.
Mais do que reunir artistas, intelectuais e representantes de diversos países, o AKWAABA criou pontes entre passado, presente e futuro, reafirmando a cultura negra como espaço de resistência, criação, diplomacia e transformação social.
Henrique Bertoldo