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Ali Moussa Iye, diretor do Projeto A Rota do Escravo, da UNESCO, fala com exclusividade ao site da FCP

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Publicado em 23/08/2012 09h00 Atualizado em 21/12/2023 15h17

Por Drielly Jardim

Atualmente chefe da Seção de Diálogo Intercultural e no comando de dois programas importantes da UNESCO: Projeto Rota do Escravo e do Geral e Regional Projeto Histórias da UNESCO (incluindo A História da Humanidade, a História Geral da África, a História Geral da América Latina , a História Geral do Caribe), Ali Moussa Iye é doutor em Ciências Políticas pelo Instituto de Ciências Políticas em Grenoble, na França, e pesquisador de campo de Antropologia Política, em especial sobre as tradições democráticas e as leis fundamentadas nos costumes dos Pastores Somalis.

Em entrevista ao site da Fundação Cultural Palmares, Ali Moussa Iye fala sobre o Projeto A Rota do Escravo e o Seminário Internacional “Herança, Identidade, Educação e Cultura: gestão de sítios e lugares de memória ligados ao tráfico negreiro e à escravidão”, realizado em Brasília, além de dar opinião sobre preconceito racial e a candidatura do Cais do Valongo à Patrimônio Cultural da Humanidade, ideia lançada pela Fundação Palmares na cerimônia de abertura do seminário.

O Projeto A Rota do Escravo foi lançado oficialmente, em 1994, com o objetivo de quebrar o silêncio sobre o tráfico de escravos e contribuir para uma melhor compreensão dessa tragédia. Após 18 anos de atuação, quais são, no ponto de vista do senhor, as principais realizações do Projeto?

O Projeto A Rota do Escravo é bem sucedido em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque trata de um assunto muito importante, que é a escravidão. Em segundo, o Projeto foi decisivo para inserir o tráfico de escravos no cenário internacional, como por exemplo, em 2001, quando houve a Conferência Mundial Contra o Racismo e a Discriminação Racial, em Durban. Naquele momento, foi reconhecida a importância de se falar sobre esse tema. O terceiro ponto, é que graças a esse projeto foi possível obter incentivo à pesquisa científica, publicação de livros e estudos sobre o assunto e, também, a possibilidade de vários países desenvolverem material pedagógico para escolas de crianças e jovens. Por fim, graças ao Rota do Escravo, foi possível inventariar os sítios de memória do tráfico de escravos, que é o tema deste Seminário que está sendo realizado, em Brasília.

Já estão definidas as próximas etapas e objetivos do projeto, em âmbito mundial? E no Brasil?

A Rota do Escravo é um projeto global e intersetorial. Há cinco anos nós elaboramos uma estratégia focada por regiões, uma vez que a primeira etapa do A Rota do Escravo foi focada na parte transatlântica, e agora nós estamos focados em descobrir outras áreas e países que também fazem parte da história da escravidão, como a Ásia, o Mar Vermelho, o Oriente Médio.

Também percebemos a importância de expandir a nossa pesquisa e não nos limitar somente a questão geográfica do tráfico negreiro. Agora, queremos entender o lado psicológico e as sequelas que ficaram nas vítimas da escravidão, porque apesar de a sociedade estar em constante transformação, essas são sequelas que persistem no consciente coletivo das pessoas. E, além disso, aprofundamos nossos estudos na área da cidadania, no sentido de questionar: quem são os brasileiros? Quem são os franceses? Qual é a influência da cultura africana nos cidadãos brasileiros e no modo como eles vivem? A intenção é investigar a identidade desses países marcados por essa tragédia.

Nesse momento, estamos tentando unir o Projeto A Rota do Escravo e a Coleção História Geral da África para que as pessoas, principalmente os jovens, possam conhecer a história do continente africano e, assim, reforçar sua autoestima.  É muito importante que essas pessoas conheçam e compreendam que os povos africanos que estavam na África antes da escravidão eram homens e mulheres de uma cultura muito forte e com o passado grandioso e que foram escravizadas à força. Outra parte desse projeto é ajudar os africanos a conhecerem os trabalhos dos africanos da Diáspora e permitir o intercâmbio dessas informações.

O Brasil acolheu 40% da população africana traficada no período escravocrata, o que contribuiu para que hoje seja o segundo país com a maior população negra do mundo, além de possuir cerca de 115 locais que compõem A Rota do Escravo. Nesse sentido, qual a importância deste Seminário para os sítios de memória do Brasil?

O Brasil é um país muito importante para A Rota do Escravo, uma vez que sabemos que 40% de africanos escravizados vieram para cá, o que faz com que o país tenha inúmeros sítios de memória, por isso, a realização desse seminário, onde contamos com total apoio da Fundação Cultural Palmares, não poderia ser em outro lugar.

Nós esperamos sair daqui com ações concretas no sentido de fomentar a criação da rota dos escravos no Brasil, uma vez que em todos os estados brasileiros é possível encontrar sítios de memória ligados à escravidão. Isso é muito importante para que os brasileiros conheçam sua história e os jovens possam compreender a que preço esse país foi construído e por quem. É também uma ótima oportunidade de incentivar A Rota do Escravo nos países vizinhos.

Ao relembrar ao mundo o que foi o tráfico de escravos, o senhor acredita que o Projeto contribui também para a redução da desigualdade racial e do preconceito?

A luta contra o racismo e a desigualdade racial está no âmago do Projeto A Rota do Escravo. Como bem sabemos, os povos que sofreram com o terrível crime da escravidão foram marginalizados e quando houve a abolição, eles não foram recompensados pelos danos que lhes foram causados, pelo contrário, foram os escravagistas que receberam indenização porque perderam mão de obra gratuita e valiosa. Daí, a importância de criarmos ações afirmativas que vão tirar esses povos da margem da sociedade, onde até hoje eles se encontram.  

Pessoalmente, acredito no princípio dos 3 R’s (três erres). O primeiro é o Reconhecimento. É necessário que reconheçamos tudo o que aconteceu. Em segundo lugar, a Reparação. Precisamos reparar esses danos através da criação de leis e de ações afirmativas, para que em seguida nós possamos chegar na etapa da Reconciliação entre os opressores e os oprimidos. 

Durante o Seminário, a Fundação Cultural Palmares lançou oficialmente a candidatura para que o Cais do Valongo, localizado na região portuária da cidade do Rio de Janeiro, seja reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade. Quais são os próximos passos para que esse título seja concebido?

Na minha opinião, a intenção da Fundação Cultural Palmares em inscrever o Cais do Valongo como Patrimônio Cultural é muito positiva. Eu mesmo visitei o Cais do Valongo e percebi que o local possui um potencial enorme para ser eleito e todas as características exigidas para isso, como por exemplo, os galpões da Gamboa, construídos por um engenheiro afro-brasileiro, o Jardim Suspenso do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos, que mostram até que ponto a barbárie e a desumanização desses jovens chegaram. Não podemos esquecer também de todos os prédios históricos e já tombados que estão em volta do Cais.

Agora, para que possamos passar para a ação, a primeira etapa, que é também a mais importante para conseguir o título, é inscrever o Valongo na lista indicativa do Patrimônio Cultural, o que é um processo bastante simples, pois basta preencher um formulário. Após um ano, já será permitida a entrega do dossiê de candidatura.

Em 23 de Agosto, é comemorado o Dia Internacional da Memória do Tráfico Negreiro e é também o dia de encerramento do Seminário. Quais as expectativas sobre os resultados do evento? 

Não estamos realizando esse seminário pelo simples fato de realizar, afinal demanda muito trabalho e investimento. Por isso, esperamos resultados. O primeiro é a troca de experiências entre os participantes. São pessoas que, às vezes, trabalham em seus países isoladamente, então nós quisemos fomentar essa troca de informações e tecer uma rede de contatos e parcerias. O segundo resultado esperado é que criemos orientações para um guia metodológico para os gestores de sítios de memória. O terceiro resultado esperado é a criação de uma rede internacional dos gestores de sítios e lugares de memória ligados ao tráfico negreiro e à escravidão para que essas pessoas possam continuar trocando informações e colaborando. Em relação à data, não foi uma coincidência. Foi nossa intenção realizar o seminário nessa semana para que seu encerramento acontecesse no dia criado para relembrar o tráfico de escravos e sua abolição.

O Seminário Internacional é um dos eventos organizados pela Fundação Cultural Palmares que  fazem parte da preparação do plano de ação para a Década Internacional dos Povos Afrodescendentes (2013-2022). Quais são os objetivos da Década e como será, na opinião do senhor, a participação do Brasil?

Em 2011, nós tivemos o Ano Internacional dos Afrodescendentes, mas nós percebemos que não foi suficiente para criar políticas de combate ao racismo, pois quando estávamos começando, o ano já tinha acabado. O Brasil e a Venezuela foram os dois países que solicitaram à UNESCO a criação da Década Internacional dos Povos Afrodescendentes para que nós tenhamos mais tempo para criar soluções e políticas para combater o racismo, reconhecer a diversidade cultural, fazer com que os povos possam lutar por seus direitos entre outras coisas. Agora, na UNESCO, estamos preparando um plano de ação com base em questionários respondidos por vários países, que abrange todos os aspectos que desejamos tratar, como a luta contra a discriminação e o racismo.

Também estamos desenvolvendo juntamente com o Ministério da Educação no Brasil, um novo volume de da História da África, constituído por dois tomos, que vai tratar dos novos desafios da África. O primeiro tomo é uma atualização sobre os conhecimentos que temos a cerca da África, que remontam a tese de que o continente Africano seja o berço das civilizações e sobre os desafios a serem enfrentados, como as mudanças climáticas e o papel das mulheres, por exemplo. Já o segundo tomo vai se concentrar na questão da Diáspora, mas não somente na Diáspora pós-escravidão, mas vamos abordar também a Diáspora que havia antes da escravidão, que são os africanos que migraram para diferentes regiões do mundo.

Outro ponto importante, é que a década está sendo organizada pelo Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos da UNESCO e, após uma reunião do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, que recebe relatórios anuais de todos os países sobre os esforços realizados para combater a discriminação, criamos uma recomendação para que qualquer discriminação ligada à ascendência africana fosse devidamente reconhecida, uma vez que o único critério que existia nesse sentido era com relação à discriminação das castas, o sistema de divisão social Hindu.

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