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Águas Sagradas do Bonfim: fé pública, memória afro-brasileira e a força cultural de Salvador
Em janeiro, Salvador reafirma uma de suas expressões públicas mais emblemáticas de devoção e cultura: a Lavagem do Bonfim. Realizada na quinta-feira que antecede o segundo domingo após o Dia de Reis, a celebração mobiliza fé, tradição e patrimônio, reunindo cortejo, cânticos, símbolos católicos e elementos das religiões de matriz africana em um mesmo território ritual — da Cidade Baixa à Colina Sagrada.
Em 2026, a Lavagem do Bonfim — cuja tradição é comumente situada a partir de 1773 — completa 253 anos e se soma a outro marco do calendário devocional da cidade: a celebração dos 272 anos da Basílica Santuário do Senhor do Bonfim, inaugurada em 1754 e reconhecida como uma das principais referências arquitetônicas, religiosas e culturais de Salvador.
Um rito que nasce do trabalho imposto e se torna linguagem de pertencimento
Parte do que sustenta a Lavagem do Bonfim como patrimônio vivo é a transformação simbólica de práticas antigas de preparação de igrejas para festas religiosas. A memória social da celebração reconhece que, durante os períodos colonial e imperial, a limpeza e a ornamentação de templos antes de grandes solenidades foram tarefas frequentemente atribuídas a pessoas negras em condição de subordinação.
Com o tempo, o que era serviço passou a incorporar sentidos de purificação, cuidado comunitário e sacralização do espaço. Nessa ressignificação, afirmam-se valores centrais da cultura afro-brasileira: o respeito ao chão sagrado, a força simbólica da água, o uso de aromas e folhas e a presença das mulheres negras como guardiãs de um rito público que combina dignidade, tradição e continuidade.
O cortejo: caminhar como liturgia da cidade
A Lavagem se organiza como uma caminhada coletiva que, em edições recentes, é descrita como um percurso de pouco mais de seis quilômetros entre a região da Conceição da Praia e a Colina Sagrada.
No imaginário da festa, o branco se impõe como cor de reverência e paz e, mais do que uma estética, funciona como mensagem pública de espiritualidade. As baianas ocupam papel central: são elas que conduzem a cena mais aguardada do dia, quando a água de cheiro é lançada sobre as escadarias e o adro, reafirmando a dimensão de cuidado, bênção e renovação que marca a celebração.
Patrimônio cultural e convivência inter-religiosa
A Lavagem do Bonfim se consolidou como um dos principais exemplos brasileiros de convivência entre expressões religiosas e culturais distintas. Ao mesmo tempo em que integra o ciclo devocional católico ligado ao Senhor do Bonfim, a festa dialoga com práticas e símbolos afro-brasileiros, reconhecendo a presença histórica e cultural de comunidades negras na formação de Salvador.
Essa relevância aparece também em registros públicos: a celebração recebeu referência de patrimonialização como bem cultural no país em 2013, em conteúdos explicativos de grande circulação. (Rede Bahia/Globo)
As fitas: da “Medida do Bonfim” ao símbolo global de Salvador
Entre os elementos mais difundidos da devoção está a fita do Bonfim. Registros históricos e reportagens que citam documentação da Irmandade apontam a existência da antiga “medida” associada ao templo, vinculada ao comprimento simbólico de 47 centímetros. Há menções a registros de 1792 em fontes jornalísticas.
Hoje, a fita funciona como marcador de pertencimento: um gesto simples que conecta corpo, fé e cidade — e que se tornou um dos sinais mais reconhecíveis da cultura baiana no Brasil e no mundo.
Pluralidade religiosa na Lavagem do Bonfim
Embora a Lavagem do Bonfim seja hoje mais imediatamente reconhecida pelo diálogo entre a devoção católica ao Senhor do Bonfim e referências afro-brasileiras associadas aos orixás, a memória dos Malês contribui para ampliar — com rigor histórico — a leitura institucional sobre a celebração. Ela lembra que a Salvador que dá sentido à Lavagem foi moldada por diferentes africanidades, nas quais coexistiram matrizes religiosas diversas, incluindo a presença de africanos islamizados, além de formas próprias de organização comunitária, sociabilidade, ocupação do espaço público e afirmação de dignidade em uma cidade estruturada pela escravidão.
Reconhecer os Malês, portanto, é reconhecer que a cultura afro-brasileira na Bahia não é monolítica: reúne múltiplas matrizes — religiosas, linguísticas, políticas e culturais — que se entrelaçam na construção da vida urbana. É nesse tecido social, feito de fé, trabalho, resistência e construção comunitária, que festas como a do Bonfim ganham densidade histórica: não apenas como evento do calendário, mas como expressão pública de uma cidade erguida por mãos negras e atravessada por memórias africanas diversas.