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188 anos de André Rebouças: por que seu legado é central para a cultura afro-brasileira
Há nomes que não cabem apenas nos livros: precisam ocupar a cidade e orientar escolhas públicas. André Rebouças (1838–1898), engenheiro, intelectual e abolicionista negro, é um deles. Em um Brasil que modernizava obras e ideias enquanto mantinha a escravidão como base econômica e social, Rebouças expôs uma verdade incômoda e atual: modernização sem justiça é projeto incompleto — e a história nacional precisa reconhecer quem foi empurrado para as margens.
Esse reconhecimento ganhou forma em 2025, com o rebatismo do antigo Armazém Docas D. Pedro II para Armazém Docas André Rebouças, em iniciativa vinculada às ações da Fundação Cultural Palmares, Ministério da Cultura e Iphan. O local abriga a Representação Regional da Palmares no Rio de Janeiro, aproximando a população da FCP; não é só uma troca de nome: é uma mudança de eixo sobre os heróis que o país escolhe homenagear.
A escolha também repara uma autoria. Rebouças projetou o armazém em 1871, deixando uma assinatura concreta de inteligência e visão de infraestrutura. Ao passar a levar seu nome, o edifício devolve ao espaço público o protagonismo de um técnico e pensador negro que atuou no centro dos debates sobre modernização, logística e cidade — e que defendia uma abolição para além do papel: com dignidade, integração social e futuro.
Há ainda um dado de forte peso simbólico: o armazém é apontado como marco por ter sido construído sem o uso de trabalho escravizado, ampliando o sentido histórico do lugar e aproximando obra e valores do seu autor. Ali, engenharia, ética e memória se cruzam no mesmo endereço.
A localização intensifica essa potência. Situado na Pequena África, no Rio de Janeiro, o armazém se insere em um território de ancestralidade e resistência, conectado ao Cais do Valongo, referência central para compreender as marcas urbanas e humanas do tráfico transatlântico. Nesse contexto, o prédio deixa de ser apenas patrimônio arquitetônico e se afirma como equipamento cultural estratégico: preserva, interpreta e educa.
O gesto de 2025 também aponta para o futuro. O projeto de requalificação prevê investimento público, oriundos do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), divulgado em R$ 86,2 milhões para restaurar e transformar o espaço em um complexo dedicado à memória negra, com estruturas voltadas à produção de conhecimento — incluindo a perspectiva de abrigar o Centro de Interpretação do Cais do Valongo. Memória, aqui, não é cerimônia: é infraestrutura cultural.
Com a participação da Fundação Cultural Palmares na condução desse processo, o Armazém Docas André Rebouças se consolida como marco institucional de valorização da cultura afro-brasileira — articulando território, patrimônio e educação.
No fim, a mensagem é nacional: reconhecer quem construiu o Brasil — com trabalho, pensamento e técnica — exige visibilidade, permanência e políticas públicas. Ao colocar André Rebouças no mapa da cidade, o país não apenas lembra: reposiciona a memória negra no centro da vida pública.