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Programação em Alagoas reuniu pesquisadores, comunidades, instituições públicas e integrantes do Conselho Curador para discutir a gestão e o futuro do território de Palmares
Serra da Barriga concentra debates sobre memória, preservação e pesquisa arqueológica
A Serra da Barriga voltou ao centro das discussões sobre memória, patrimônio e cultura afro-brasileira durante a programação realizada nos dias 21 e 22 de agosto, em Alagoas. Ao longo dos dois dias, representantes de instituições públicas, pesquisadores, integrantes do Conselho Curador da Fundação Cultural Palmares, membros do Comitê Gestor da Serra da Barriga e representantes da sociedade civil discutiram questões que atravessam o território: quem vive nele, como preservá-lo, como pesquisar sua história e de que maneira diferentes conhecimentos podem participar da construção de sua memória.
As atividades ocorreram em Maceió, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e, no segundo dia, na própria Serra da Barriga, em União dos Palmares. A programação integrou as atividades relacionadas aos 38 anos da Fundação Cultural Palmares, mas teve como principal eixo a discussão sobre o território onde se desenvolveu uma das mais importantes experiências de resistência negra da história do Brasil.
Preservar também é discutir quem vive no território
Um dos primeiros debates foi dedicado ao Programa Conviver, apresentado pelo coordenador-geral de Conservação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Paulo Henrique Farsette.
A proposta apresentada parte da articulação entre Fundação Cultural Palmares, Iphan e UFAL e prevê, entre outras ações, a realização de um diagnóstico territorial, intervenções de requalificação e capacitação de mão de obra local. O recurso inicialmente destinado ao programa foi informado como de R$ 1 milhão, com execução prevista até o final de 2027.
Mas a discussão foi além das obras e da infraestrutura.
Integrantes do Conselho Curador questionaram como os moradores serão envolvidos nas decisões, como serão realizadas as oficinas de capacitação e de que forma será tratada a permanência das famílias que vivem na região.
A participação comunitária apareceu, assim, como uma das questões centrais para a construção do programa. Durante a discussão, foi informado que o diagnóstico deverá identificar as necessidades existentes e orientar as ações posteriores, incluindo atividades de capacitação construídas a partir das demandas encontradas.
A discussão também alcançou a governança do território. A proposta apresentada é que as formas de participação sejam construídas ao longo da execução do programa, envolvendo instituições públicas, comunidade, Conselho Curador, Comitê Gestor e demais atores relacionados à Serra da Barriga.
Outro ponto levantado foi a dimensão religiosa e cultural do território. A presença de diferentes grupos e formas de relação com a Serra da Barriga foi apresentada como um aspecto que precisa ser considerado nas decisões sobre preservação e uso do espaço.
O que a arqueologia pode revelar sobre Palmares
Se a preservação olha para o território que existe hoje, a arqueologia procura também compreender aquilo que permaneceu no solo.
Na segunda mesa da programação, o professor e arqueólogo Flávio Augusto de Aguiar Moraes, da UFAL, apresentou o projeto de pesquisa arqueológica desenvolvido na região de Palmares.
O trabalho parte da investigação de vestígios materiais para ampliar o conhecimento sobre os antigos mocambos e sobre a ocupação do território. Entre os locais mencionados durante a apresentação está o Mocambo de Osenga. Também foram discutidas fontes históricas produzidas durante o período colonial e a possibilidade de relacioná-las às evidências encontradas em campo.
A pesquisa provocou uma discussão importante: como juntar aquilo que está no solo com aquilo que permanece na memória das pessoas?
Conselheiros questionaram quando e de que forma os achados arqueológicos poderão ser relacionados à história oral. A aproximação entre pesquisadores e comunidades foi apontada como uma possibilidade para ampliar as interpretações sobre Palmares.
A formação de novos pesquisadores também entrou na discussão. Foi sugerida a ampliação da participação de jovens nas pesquisas e a realização de um seminário para apresentação e debate dos resultados.
A proposta de estabelecer parcerias com outras universidades também foi mencionada, incluindo instituições de Pernambuco e São Paulo, para a realização de estudos comparativos sobre Palmares, seus territórios e seus processos históricos.
Memória não está apenas nos vestígios
A discussão sobre a Serra da Barriga também passou pelos acervos, pela documentação e pela circulação do conhecimento produzido sobre Palmares.
Representantes da UFAL destacaram a possibilidade de contribuir com a interlocução junto às comunidades e com iniciativas de pesquisa e documentação. Durante os debates, também foi defendida a necessidade de ampliar o acesso aos acervos e de aproximar os resultados das pesquisas de professores, estudantes e pesquisadores.
A preocupação com a transmissão desse conhecimento para as novas gerações apareceu em diferentes momentos da programação. A pesquisa arqueológica, nesse sentido, foi apresentada não apenas como produção acadêmica, mas como possibilidade de ampliar o conhecimento sobre a história de Palmares e subsidiar ações educacionais.
Essa perspectiva também foi associada à necessidade de fortalecer a participação de jovens pesquisadores, especialmente daqueles que possam dar continuidade aos estudos sobre o território.
Uma Serra, diferentes formas de pertencimento
Durante as discussões, a Serra da Barriga apareceu como um território atravessado por diferentes memórias e formas de pertencimento.
A presença de comunidades residentes, grupos de capoeira, povos de terreiro, pesquisadores, instituições públicas e visitantes coloca diferentes perspectivas sobre o mesmo espaço. A religiosidade, por exemplo, foi mencionada como uma dimensão que precisa ser tratada com cuidado nas ações de preservação.
O debate apontou que preservar a Serra da Barriga não significa apenas conservar estruturas físicas ou sítios arqueológicos. Envolve também considerar as pessoas que vivem no território, os grupos que mantêm vínculos culturais com ele e os diferentes conhecimentos construídos ao longo do tempo.
Essa dimensão esteve presente também na visita técnica realizada no segundo dia da programação.
Da discussão à Serra da Barriga
No dia 22, os participantes deixaram Maceió em direção a União dos Palmares. Depois do almoço, a programação seguiu para o Parque Memorial Quilombo dos Palmares.
A visita foi conduzida pelo professor Zezito de Araújo, que apresentou informações históricas sobre a Serra da Barriga e acompanhou o grupo pelos espaços do Parque.
O percurso permitiu observar diretamente locais e estruturas que haviam sido objeto dos debates realizados no dia anterior. Questões relacionadas à preservação, sinalização, memória, pesquisa e uso do território puderam ser retomadas a partir da experiência no próprio espaço.
A visita também reforçou uma característica presente em toda a programação: a Serra da Barriga não pode ser compreendida a partir de uma única perspectiva.
Ela é, ao mesmo tempo, sítio histórico, espaço de memória, território de pesquisa, lugar de visitação e referência para diferentes grupos que estabelecem com ela relações culturais e simbólicas.
O desafio de preservar e produzir conhecimento
Ao longo dos dois dias, diferentes discussões acabaram se encontrando em torno de uma mesma questão: como preservar um território de importância histórica e cultural sem afastá-lo das pessoas e das memórias que dão sentido a ele?
O Programa Conviver trouxe a discussão sobre a permanência e a participação das comunidades. A arqueologia colocou em debate os vestígios materiais e a produção de novos conhecimentos. Os acervos e a história oral ampliaram a discussão sobre memória. A visita ao Parque Memorial permitiu observar o território a partir da experiência direta.
A programação também incluiu discussões sobre orçamento, estrutura administrativa e condições institucionais para a execução das políticas relacionadas à cultura afro-brasileira. Esses temas foram apresentados como parte dos desafios para a continuidade das ações discutidas durante os encontros.
Mais do que chegar a uma resposta única, os debates realizados em Alagoas colocaram diferentes atores diante de uma agenda comum: preservar a Serra da Barriga, ampliar o conhecimento sobre Palmares e garantir que as decisões sobre esse patrimônio considerem as pessoas, as memórias e os diferentes saberes relacionados ao território.
Foi nesse contexto que a programação dos 38 anos da Fundação Cultural Palmares encontrou seu principal ponto de convergência: não apenas olhar para a história de Palmares, mas discutir como essa história continuará sendo pesquisada, preservada e transmitida às próximas gerações.